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Da 'Arte e Ciência' da Idade Média ao Iluminismo em obra de Paulo Pereira

A coleção 'Arte e Ciência', do historiador Paulo Pereira, identifica, em quatro volumes, as "intromissões" das artes no campo do conhecimento, desde a expressão religiosa da Idade Média ao século XVIII, com a visão do cosmos do Iluminismo.

Da 'Arte e Ciência' da Idade Média ao Iluminismo em obra de Paulo Pereira
Notícias ao Minuto

16:30 - 03/10/18 por Lusa

Cultura História

"No Renascimento, o que se verifica é uma intromissão da ciência na arte. O impacto é que vai variar de região para a região. Em Portugal, a intromissão é relativamente tardia e lenta, mas verifica-se essa influência, especialmente na pintura", disse à Lusa o autor da coleção ilustrada, de grande formato, a publicar este mês.

Paulo Pereira, historiador de arte e professor na Faculdade de Arquitetura da Universidade de Lisboa, explica que o primeiro volume, 'A Criação Divina. O Homem', não se limita a expor os exemplos de arte e ciência, estabelecendo relações e pontos de contacto.

"Nós não podemos dividir a ciência e a fé. Neste período, a ciência que existe comprova a fé e a fé existe para que a ciência seja certificada. Aquilo que é bom e é bem feito está de acordo com a vontade de deus. Este é o conceito base durante a Idade Média, mas se olharmos para a Idade Média só na perspetiva da religião ficamos com uma ideia distorcida", afirma.

Para o autor, a relação entre a arte e a ciência em Portugal está sobretudo relacionada com a evolução da pintura no século XVI, onde o investimento dos artistas no domínio da perspetiva resulta de um conhecimento das diversas propostas conhecidas.

"Em Portugal imperou sempre mais a ação, o empirismo e o pragmatismo, e menos a reflexão", mas, por exemplo, na obra de Francisco de Holanda (1517-1585) verifica-se o contrário, tal como nos contributos na área da medicina, como é o caso de Pedro Hispano (1215-1277), que vira a ser o papa João XXI.

As ilustrações de 'As Idades do Mundo' do português Francisco de Holanda, que fazem parte do espólio da Biblioteca Nacional de Madrid, são um dos primeiros exemplos expostos pelo autor, porque revelam uma preocupação "inovadora para a época" ao conciliar o 'Livro do Génesis' e a visão do 'Apocalipse Segundo São João'.

Paulo Pereira refere que, no caso da obra do iluminador e "mestre de arquitectura" Francisco de Holanda, que privou com Miguel Ângelo, em Roma, autor de uma primeira abordagem de ordenamento urbano de Lisboa, existe uma "dívida para com a geometria sagrada e o pitagorismo, com a composição sobreposta e combinada de círculos e triângulos", como figuras abstratas.

"Temos de pensar que havia intelectuais que acumularam saber. Apesar de toda a retração, verifica-se que há intelectuais que viajaram e, com as viagens marítimas de longa distância, são autores de um 'Mundo Novo', descobrindo e descrevendo como é o caso de Garcia de Orta (1501-1568), na botânica e no processo medicamentoso", refere.

Sobre o primeiro volume, Paulo Pereira destaca também o retrato do "rei perdido" D. Sebastião, de Cristóvão de Morais (século XVI), que pertence à coleção do Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA), em Lisboa.

"O retrato do D. Sebastião dá-nos um pretexto para penetrar na biografia do rei e é assaz complicada. Faço uma síntese dos vários estudos. É muito complicado e fascinante: do ponto vista político, comportamental e do simbolismo", diz Paulo Pereira sobre o quadro, decifrado no livro.

Nos casos da pintura, o livro trata igualmente dos casos de Hieronymous Bosch ('Doenças da Alma'), pintor representado no MNAA, com as 'Tentações de Santo Antão', e de o 'Painel da Relíquia', dos 'Paineís de São Vicente', atribuídos a Nuno Gonçalves, também deste museu.

Na arquitetura, aborda a Abadia de Alcobaça e, na escultura, as representações dos muitos santos milagreiros, como São Mamede, São Brás ou São Sebastião, Santa Luzia ou Senhoa do Ó.

Na abertura da coleção, o autor escreve que "a principal preocupação da arte não é a ciência, e a principal preocupação da ciência não é a arte".

No entanto, acresenta, a arte e a ciência parecem, por vezes, percorrer "caminhos paralelos" em períodos históricos, em que a religião imperava, ao contrário do que se verifica na atualidade.

"Hoje em dia existe um diálogo muito grande entre a arte e a ciência devido à rutura epistemológica, à laicização e ao avanço dos processos científicos. Temos hoje artistas (desde o século XIX) que são cientistas e artistas que usam a ciência para a arte. Basta pensar na abstração, para vermos muitas vezes a influencia da ciência", conclui.

A nova coleção ilustrada e em grande formato está dividida em quatro volumes: 'Criação Divina. O Homem', 'Os 4 Elementos. O Corpo', 'Equações da Arte' e 'A Descrição do Cosmo'.

O primeiro volume 'Arte e Ciência -- A Criação Divina. o Homem', do historiador Paulo Pereira (Círculo de Leitores, 224 páginas), de grande formato e ilustrado, é lançado este mês.

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