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"Vencer foi inexplicável. Senti mesmo que o Paulo ia a dar gás comigo"

Joaquim Rodrigues, vencedor da 3.ª etapa nas motos do Dakar'2022, falou com o Auto ao Minuto, depois daquela que considerou ser a "melhor prestação da carreira" no rali mais duro do mundo.

"Vencer foi inexplicável. Senti mesmo que o Paulo ia a dar gás comigo"

A história de Joaquim Rodrigues nos últimos dois anos poderia dar um filme. O piloto português perdeu o cunhado e amigo, Paulo Gonçalves, após uma queda fatal no Dakar'2020, passou por uma depressão, ergueu-se, combateu a tristeza em cima da moto e passado dois anos entrou para a história do rali mais duro do mundo ao vencer uma das etapas da prova.

J-Rod, de 40 anos, venceu a 3.ª etapa nas motos da edição número 44 do Rally Dakar e deixou um país orgulhoso pela sua participação. Num entrevista sem filtro concedida ao Auto ao Minuto, o piloto natural de Barcelos falou do sentimento "inexplicável" depois de saber que tinha vencido uma etapa, analisou a sua prestação e classificou-a como "a melhor de sempre" no Dakar.

O Jorge Viegas disse-me que o Marcelo tinha pedido o meu número de telemóvel. Eu nem estava a associar quem era o Marcelo… Depois é que me caiu a ficha e percebi que era o nosso presidenteTemos de começar esta entrevista pela 3.ª etapa. Como foi venceres pela primeira vez uma especial do Dakar?

Para mim, foi um momento muito bom, obviamente, ainda por cima depois de tudo aquilo por que passei. O último ano foi o mais difícil da minha vida. Depois disso, chegar ao Dakar e conseguir vencer uma etapa foi inexplicável. Foi uma alegria enorme e nem sei descrever o sentimento. Fiquei bastante contente e foi muito bom para mim

O Paulo deu-te aquela ajudinha extra, não foi?

Eu ia na moto e pensei mesmo isso. Não é treta… As coisas estavam a sair-me tão bem que eu pensei que o Paulo ia ali a dar gás comigo. No fim, quando vi que conseguimos a vitória, foi muito bom, um alívio. Como eu disse, depois de tudo o que passei, aquela batalha, aqueles longos meses de depressão... No ano passado, estava no meu pior, e, este ano, conseguiu chegar lá e vencer.

Notícias ao Minuto Joaquim Rodrigues no arranque da 10.ª etapa no dia 12 de janeiro, data em que se completavam dois anos da morte de Paulo Gonçalves

De certa forma, sentiste esta vitória como um prémio especial após toda a tua luta?

Obviamente que sim. Eu estava mesmo numa depressão profunda, estava no meu pior. Foi uma batalha muito grande para combater todos os demónios e problemas que tinha. No ano passado, lutei muito no Dakar, chorei todos os dias em cima da moto, e, passado um ano, conseguir lutar pelos lugares da frente e pela vitória é um prémio.

E como viveste aquele momento em que sabes mesmo que foste o vencedor da etapa?

Quando terminei, acho que o fiz com mais cinco pilotos. Tinha o meu tempo, mas sabia que faltavam acabar muitos pilotos da frente. Sabia que ia ter um bom resultado, mas não sabia que ia ganhar. Quando cheguei ao controlo final, que era no bivouac, é que tive a informação de que tinha vencido a etapa. Fiquei, claro, super contente, a minha equipa também, e recebeu-me em aplausos. Foi a nossa primeira vitória no Dakar e foi um momento de grande alegria para todos. Foi o culminar de um longo trabalho durante o ano.

Festa? Chegou àquela horinha e vai dormir, que às 3h/3h30 estás a levantar-te para arrancarHouve alguma pequena festa durante a noite?

(risos). Não, ali não há espaço para festas. No Dakar é tentar descansar o máximo e dormir o maior número de horas possível. São 15 dias muito duros, poucas horas de sono, a alimentação não é a melhor, é muito duro aqueles quilómetros todos em cima da moto. Ficámos, obviamente, muito contente, mas sabíamos que estávamos no início do Dakar e ainda faltava muita corrida pela frente. Sabíamos qual era o nosso trabalho ali. Não houve festa durante a noite… Chegou àquela horinha e vai dormir, que às 3h/3h30 estás a levantar-te para arrancar.

Certamente tiveste um grande feedback de Portugal naquele dia 4 de janeiro, apareceste em tudo o que era televisão e fizeste até capas de jornal…

Tive algum feedback nesse dia. Começa a falar-se nas redes sociais, claro, mas o impacto que teve mesmo não sabia. Só vim a saber depois, no dia de descanso. Nós estamos ali numa bolha, praticamente, fora do mundo normal, por assim dizer. Estamos no bivouac, saímos para fazer a etapa e voltamos. Com as redes sociais e internet vamos tendo acesso a mais coisas, mas naqueles primeiros dias não tive noção de todo o impacto. Passados uns dias, o Jorge Viegas, presidente da Federação Internacional de Motociclismo (FIM) veio ter comigo, é um amigo que já tenho desde miúdo, e disse-me que o Marcelo tinha pedido o meu número de telefone. Eu nem estava a associar quem era o Marcelo… Depois é que me caiu a ficha e vi que era o Marcelo, o nosso presidente. Infelizmente, como na Arábia Saudita trocamos o cartão de telemóvel para ter acesso à internet e essas coisas, tinha o meu número português desligado e ainda não tive oportunidade de falar com o nosso presidente. Estou muito orgulhoso pelo nosso presidente querer dar-me os parabéns, é sinal que realmente teve impacto no país todo.

Notícias ao Minuto Joaquim Rodrigues competiu com o #27 na moto da HeroMotorsports

Depois da vitória, saíste na frente para a 4.ª etapa e terminaste no 35.º lugar. Abordando este assunto de uma forma mais geral, não achas que sair na frente depois de um triunfo é, de certa forma, penalizador?

Não poderia ser de outra forma, senão as provas não tinham interesse. Depois se quem ganhasse a 1.ª etapa partisse atrás, ia ganhá-las todas. Faz parte das regras e é aí que entra também a estratégia. Atacar, não atacar, tentar ficar mais atrás, mais à frente… Isso faz parte do Dakar, analisar as etapas e jogar com a estratégia do dia, juntamente com a equipa. Já sabemos sempre que quem larga na frente vai perder bastante tempo, mas isso é igual para todos.

Mesmo com a vitória numa etapa e um pódio noutra, terminaste o Dakar na 14.ª posição. Um bom resultado, mas não o teu melhor à geral. Olhando para a tua prestação terias feito algo de diferente?

É daquelas coisas que não se consegue controlar. Se formos ver com atenção, a 1.ª etapa ditou o meu resultado final, que não mostra a minha prestação realmente. Este ano foi, de longe, a minha melhor prestação no Dakar. Infelizmente, naquela 1.ª etapa, parti entre os pilotos da frente. Nós juntámo-nos, fomos ali a abrir pista, mas obviamente perdemos muito tempo. Depois chegámos àquele ponto onde muitos se perderam, inclusive os carros, mesmo com as marcas das motos. Eu fui dos mais penalizados porque fui dos primeiros a lá chegar. Perdi quase mais de uma hora. Se formos fazer as contas a essa hora, se calhar eu andava sempre ali na luta pelo top5 e no final até podia estar perto de um pódio.

Comecei este Dakar praticamente a saber que era preciso quase um milagre para chegar ao top10A 1.ª etapa acabou por te condicionar para o faltava do Dakar?

Sim, mas não foi só a mim que isso aconteceu. Foi também ao [Ricky] Brabec, ao [Joan] Barreda. Nós os três ficámos praticamente logo afastados da possibilidade de fazer um bom resultado. Perdemos muito tempo porque também fomos os primeiros a lá chegar. Depois foi uma luta contra o tempo, digamos assim, mas com todos os bons pilotos que estão no Dakar torna as coisas muito difíceis. Por isso é que digo que o meu resultado final, no papel, que foi o 14.º lugar, não mostra a minha real prestação no Dakar. A minha prestação este ano foi de piloto de top5.

Deste a primeira vitória no Dakar à tua equipa, à Hero. Isso foi algo que deixou todos surpreendidos?

Ganhei a etapa, sim, mas nós já tínhamos tido provas de que estávamos ao nível dos pilotos da frente. Já tinha ganho este ano uma etapa no Campeonato do Mundo, e nas outras corridas que disputámos andávamos sempre a lutar pelos lugares da frente. Já tínhamos a informação que a nossa moto estava a melhorar, que tínhamos argumentos. Não foi tanto uma surpresa porque sabíamos que estávamos nesse nível e que tínhamos capacidade de o fazer. O Dakar é sempre o Dakar, mas não foi uma surpresa.

Notícias ao Minuto Fotografia tirada a Joaquim Rodrigues no decorrer da 3.ª etapa ganha pelo português 

E este triunfo faz aumentar a fasquia para o Dakar’2023?

Para o ano a fasquia é a mesma. Primeiro tenho de acabar, depois o objetivo é tentar ser regular para conseguir um bom resultado. Só porque ganhei uma etapa colocar expectativas de para o ano ir para lá e ganhar o Dakar, isso não. Tenho os pés bem assentes na terra e sei o que é preciso para se ganhar. É preciso ser regular, terminar todas as etapas, é preciso não ter quedas, como eu tive na etapa 5 e que me condicionou nos dias seguintes. Isto não é uma corrida de um dia, mas sim de 15 dias, onde tudo tem de funcionar a 100% praticamente todos os dias. Só assim se consegue um bom resultado no final. Este ano, as coisas correram mal logo no primeiro dia e fiquei praticamente afastado desse bom resultado, já sabíamos que ia ser muito difícil chegar ao top10.

A 3.ª etapa foi onde sentiste que estiveste melhor ou destacas outra como a melhor deste ano?

Andei muito bem na 3.ª etapa, mas também andei na 2.ª, onde fiz sexto. Na etapa 11 fiquei em 3.º e também andei muito bem, só que o Benavides e o Sunderland também andaram muito bem. A 3.ª etapa foi a melhor em termos de resultado, mas também tive bons desempenhos noutras etapas, embora não tenha sido o único a ter um bom desempenho. De uma forma geral andei bem, apesar de alguns problemas que tive, que às vezes acabaram por condicionar o resultado final. São tantos dias que é preciso fazer com que todos os dias contem para o resultado final. Volto a dizer que comecei este Dakar praticamente a saber que era preciso quase um milagre para chegar ao top10, depois daquilo que foi a minha 1.ª etapa.

O meu primeiro Dakar, em 2017, digamos que foi mesmo uma competição ‘à Dakar’. Apanhámos de tudo, calor, chuva, neve, altitude, areia, floresta, lama, pedra…O título ficou bem entregue ao Sam Sunderland?

Ficou. Ele fez um excelente Dakar, teve uma boa estratégia e as coisas correram-lhe bem. Não digo é que seja o único a merecer a vitória. O Quintanilla ou o Walkner se ganhassem, o título também estaria bem entregue. Isto é tudo ao segundo, nem é ao minuto… Qualquer piloto da frente merecia a vitória e o Sam [Sunderland] mereceu. Foi muito disputado este Dakar, acho que há 25 anos que não havia esta competitividade. Fico muito contente por dar luta aos da frente num ano dos mais competitivos.

Estreaste-te em 2017, quando ainda o Dakar era realizado na América do Sul. Tendo esse termo de comparação, qual o local que preferes para a realização do rali?

São completamente distintos. No último, em que foi só no Peru, detestei. Foi sempre no mesmo sítio e fazíamos sempre as mesmas coisas, os 'waypoints' eram os mesmos por vezes. Foi um bocado ‘à desenrasca’ para não cancelarem o Dakar. Mas o meu primeiro Dakar, em 2017, digamos que foi mesmo uma competição ‘à Dakar’. Apanhámos de tudo, calor, chuva, neve, altitude, areia, floresta, lama, pedra… Apanhámos de tudo, tudo, tudo. Na Arábia Saudita é tudo muito parecido, não tem muita variedade de terrenos. Só na 11.ª etapa, que fiz terceiro, é que houve mais diversidade. Foi uma das mais difíceis. Este ano foi um Dakar muito rápido, onde o tipo de terreno é quase sempre o mesmo. Na América do Sul vivia-se com muito mais entusiasmo, havia muito mais pessoas a seguir as etapas, enquanto na Arábia Saudita não se vê quase uma alma viva. Arrancas sozinho às 4h da manhã do bivouac e chegas à tarde sozinho. É mais solitário e não há aquela magia dos fãs e adeptos.

E agora, o que se segue? Acredito que vais aproveitar agora as próximas semanas para descansar.

O Dakar agora passou a fazer parte do Campeonato do Mundo da FIA e foi a prova de abertura. Agora vamos ter no início de março, a segunda prova do Mundial, em Abu Dhabi, onde no ano passado fiz o meu pódio no Campeonato do Mundo. No final de fevereiro vamos já de viagem para lá, para realizar alguns testes e fazer preparação. Por isso vou estar agora só mais uma ou duas semaninhas a descansar para depois voltar ao trabalho outra vez.

No ano passado disseste-me que quando terminaste o Dakar sentiste um grande alívio, depois de um período muito difícil que viveste. Faço-te a pergunta em relação a este ano: O que sentiste mal cortaste a meta na última etapa?

Foi muito diferente. Os objetivos este ano eram diferentes. No ano passado tinha aquele peso de todos os traumas e de todos os problemas que estava a atravessar. Foi uma descarga emocional muito maior. É claro que também é uma grande descarga de emoções, mas completamente diferente. Senti que cumpri o meu dever, consegui acabar, e fiquei feliz porque correu tudo bem. Este ano as coisas já foram um pouco mais a sério, o ano passado eu nem sabia se iria conseguir andar na moto. Este ano era diferente, tinha tido um bom ano de 2021, e a expectativa era outra. Apesar daquela 1.ª etapa, tive a minha melhor prestação de sempre e consegui escrever o meu no livro do Dakar.

Notícias ao Minuto

Leia Também: Joaquim Rodrigues, o português vencedor da mais emocional etapa do Dakar

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