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"Nas ondas gigantes tens três preços: O material, o corpo ou a vida"

A junção de determinação, loucura, coragem e, acima de tudo, perseverança foram os ingredientes necessários para que Hugo Vau, de 40 anos, fizesse surf na maior onda de que há registo. Em entrevista ao Desporto ao Minuto, o surfista falou-nos do seu novo recorde, mas não só. As vantagens e as dificuldades que se vivem no surf de ondas gigantes também foram temas centrais nesta conversa.

"Nas ondas gigantes tens três preços: O material, o corpo ou a vida"
Notícias ao Minuto

05/02/18 por Luís Alexandre

Desporto Hugo Vau

Em janeiro passado, na Praia do Norte, Hugo Vau ficou na história do surf nacional e... internacional ao surfar a maior onda de sempre. Com uma 'vaga' de 35 metros, o português bateu o recorde de Garret McNamara, de 23,8 metros.

A onda mais conhecida por 'Big Mama' foi dominada por uma equipa totalmente portuguesa. Alex Botelho foi o homem que esteve por detrás de tudo e ajudou Hugo Vau a atingir o notável feito. 

Um momento histórico que não passou despercebido ao Desporto ao Minuto e que nos levou a falar com o novo embaixador das ondas gigantes, Hugo Vau. 

Em entrevista, o surfista de 40 anos deu-nos a conhecer não só pormenores sobre a onda de 35 metros que surfou, mas também sobre o presente e o futuro de uma categoria de surf que "cativa poucos surfistas".

Para começar, gostaríamos que contasses como nasceu esse amor pelo surf.

Começou tudo com um instinto de criança, porque nunca tive pessoas na família ligadas ao mar – nem pescadores e muito menos surfistas – portanto, desde pequenino que comecei a ter uma certa atração pelo mar. No verão, eu ia para o Algarve com a família – na zona de Monte Gordo e Vila Real de Santo António – e lembro-me de que nas praias havia aquelas cabanas que vendiam pranchas de esferovite e…  foi assim que tudo começou. Com o passar do tempo, a paixão foi aumentando e, entretanto, pedi uma prancha aos meus pais. No entanto, num Natal, ao invés de me oferecerem uma prancha de surf ofereceram-me uma de… bodyboard [risos]. Aos 17 anos fazia natação – porém, estava muito saturado com a rotina – e nessa altura acabei por comprar a minha primeira prancha e passei a focar-me só no surf.

Porquê as ondas grandes?

É curioso, porque na categoria de ondas grandes há pouca gente a praticar, portanto torna-se uma coisa mais relaxada e chegas a ter uma maior aproximação à natureza. Isso fascinava-me imenso. O que notei também nesta categoria é que existe mais companheirismo dentro de água e não há aquela competição e individualismo. O apoio é muito grande nas ondas grandes. Por exemplo, nas ondas mais pequenas, as coisas já eram demasiado competitivas e quase todos os dias via pessoas a discutir por causa de uma onda. Lembro-me de que no início, íamos para a Costa surfar e metíamos os telemóveis dentro de um saco de plástico para nos mantermos contactáveis – não havia cá walkie-talkie ou algo do género – e avisávamos o pai do colega que acompanhava, que é pescador, para que se demorássemos muito... ir à nossa procura [risos]. Mas pronto, a adversidade ajuda-nos a crescer como atletas.

Costumo dizer que nas ondas gigantes tens três preços: O material, o corpo ou a vida

Quais eram as tuas ambições quando chegaste a esta categoria de surf?

Não tive grandes objetivos. Meti-me nisto principalmente por paixão, nunca entrei na água à procura de recordes, porque isso pode influenciar muito a tua diversão no mar ou até mesmo a tua performance. Vais meter em ti uma pressão desnecessária, que muitas das vezes acaba por provocar um acidente.

Como deste o passo para começar a ter patrocínios num desporto que em Portugal tem poucos interessados? 

No início era muito difícil arranjar patrocinadores. Por exemplo, chegava ao pé de uma marca, dizia que queria financiamento para andar de mota de água e apanhar ondas gigantes. Não foi nada fácil. Porém, agora as coisas evoluíram e passaram a haver patrocinadores interessados neste desporto, basta olhar para a Mercedes, a Prio e até mesmo o Governo Regional dos Açores. As marcas começaram a perceber que isto não é apenas um desporto, mas também algo que inspira as pessoas. Surfar ondas gigantes é o mesmo que a tourada mas sem fazer mal aos touros [risos].

Nunca tiveste medo de te magoares? Já pensaste em desistir?

Nunca pensamos que as coisas más nos acontecem a nós, mas quando vemos o que aconteceu ao Garret [Mcnamara] temos a tendência para nos precavermos mais. São riscos que são inerentes a este desporto. É por isso que têm de dar valor a todos estes atletas. Surfar estas ondas não é uma brincadeira, porque quando as coisas correm mal, paga-se muito caro. Costumo dizer que nas ondas gigantes tens três preços: o material, o corpo ou a vida. É por isso que temos de treinar muitos anos e, especialmente, trabalhar muito. Tenho a teoria de que se estivermos concentrados e a pensar só no momento, o medo apazigua-se e conseguimos fazer aquilo que desejamos.

Por mais cliché que pareça, não há uma fórmula para surfar uma onda gigante.

Tudo depende do material que usamos – há as mais variadas pranchas, equipamentos de mergulho, etc. – das características da onda e até mesmo da forma como entras nela. Há um conjunto de coisas que tens de ter em atenção.

Isto foi só uma onda, há milhares ainda por surfar

Falando agora na onda de 35 metros. O McNamara falou contigo depois de teres batido o recorde dele?

Sim, ele ligou-me a dar os parabéns. Ele sempre disse que se fosse para bater o recorde do mundo que gostaria que fosse eu [risos]. Nos últimos seis/sete anos formei equipa com o Andrew Cotton e com o Garret McNamara e foi um trabalho intenso e solitário que durou vários anos. Entretanto, passei a trabalhar com o Alex Botelho pois acredito que é bom ter um grupo 100% português.

Quais são os principais objetivos depois deste feito?

Agora é continuar a fazer o que sempre fiz na Nazaré, continuar dedicado como fiz até hoje. Isto foi só uma onda, há milhares ainda por surfar. Esta foi a maior tempestade surfável de sempre na Nazaré e eu acredito que a partir de agora vamos ver na Praia do Norte mais ondas deste género e será um grande desafio para toda a gente.

Os surfistas são quase como o vinho do Porto, quanto mais velhos melhor

O que sentiste quando estavas a surfar a maior onda de sempre?

Mete respeito [risos]. É uma benção conseguires estar em comunhão com a natureza desta forma, desfrutar dos últimos instantes de uma onda, que percorreu mil ou dois mil quilómetros e chega ali à Nazaré, rebenta e deixa de existir. Ao apanhar aquela onda acabei por imortalizar o momento.

Já com 40 anos no cartão de cidadão, qual é para ti a idade média para surfar este tipo de ondas?

Para se ter uma ideia, o Garret bateu o recorde do mundo [em 2011] com 45 anos, eu tenho 40 agora, mas o McNamara com 50 ainda continua aí para as curvas. O corpo começa a perder capacidades, mas o psicológico acaba por compensar isso. É quase como o vinho do Porto, quanto mais velho melhor [risos]. Eu acho que não há uma idade própria para deixar de fazer surf ou até mesmo de atingir o pico de forma. Acredito que a longevidade no surf se deve à forma apaixonada como o praticas. Imagina-te dentro do mar, a ver um grande pôr do sol e rodeado pela natureza… não há nada que te faça melhor ao espírito.

Temos uma nova geração portuguesa capaz de surfar ondas gigantes?

Penso que o surf de ondas gigantes será um movimento que nunca terá muitos atletas. Aliás, na minha geração somos apenas dois. Todavia, os que vêm a seguir, entre os 15 e 16 anos, poderão trazer algumas surpresas. Eu gosto de meter as coisas desta maneira… surfar ondas gigantes é muito intenso e isso mas os surfistas de WCT [World Surf League] usam carros desportivos, nós por causa das pranchas grandes usamos camiões e 90% dos jovens querem é conduzir carros desportivos.

O surfista português tem uma grande vantagem que é o grande poder de adaptação

Depois da Nazaré, qual é o melhor sítio em Portugal para apanhar este tipo de ondas?

Os Açores e a Madeira têm muito potencial. São ilhas, estão no meio do Atlântico e tudo o que chega aqui passa por lá. Eu vivo há muito tempo nos Açores, na ilha Terceira, e sei do potencial que existe.

Há algum fator que distinga o surfista português do resto?

Por exemplo, em países como os Estados Unidos, Austrália e até Nova Zelândia têm uma enorme cultura de surf. Têm disciplinas de surf na escola. Porém, o surfista português tem uma grande vantagem que é o grande poder de adaptação aos mais variados contextos, o chamado ‘desenrascar’. Por alguma razão, há centenas de anos, metemo-nos dentro de um barco e partimos à descoberta do mundo.

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