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"Há pessoas para quem o cabeleireiro é quase como precisar de comer"

Lúcia Piloto é a entrevistada de hoje do Vozes ao Minuto.

"Há pessoas para quem o cabeleireiro é quase como precisar de comer"
Notícias ao Minuto

05/12/17 por Daniela Costa Teixeira

Lifestyle Lúcia Piloto

Corria o ano de 1977 quando Lúcia Piloto se aventurava por conta própria no mundo da beleza ao abrir o seu primeiro salão de cabeleireiro. Tinham passado apenas três anos após a Revolução de 25 de Abril e pouco ou nada se sabia sobre o futuro do país. Foi uma decisão fácil? Nem por isso, mas valeu-lhe uma das empresas mais consolidadas no ramo e reconhecidas a nível nacional. 

Mesmo fazendo questão em frisar os "obstáculos" que foram aparecendo ao longo destas quatro décadas, Lúcia Piloto diz estar longe do "espírito de reformada" e sente-se como uma referência aos olhos dos outros, como um exemplo a seguir, mais não seja pela persistência que teve ao longo dos anos.

Nestas quatro décadas de vida profissional, Lúcia Piloto conseguiu construir um império na indústria do cabeleireiro e entre aquele que foi o seu primeiro salão até aos dias de hoje, o grupo por si fundado - e que conta agora com a filha Patrícia como diretora-geral da empresa - tem já seis salões de cabeleireiro, um SPA e ainda aquela que é a primeira academia de formação profissional de cabeleireiro em Portugal. Pelo meio houve ainda a menção de Comendadora da Ordem de Mérito atribuída, à data, pelo Presidente Jorge Sampaio, episódios de choro, clientes que viajam de norte a sul do país apenas para serem tratadas pelas suas mãos e, claro, um sem número de histórias de quem se senta nas cadeiras do salão. Afinal, destaca, "somos um pouco psicólogas, amigas para toda a vida".

À conversa com o Lifestyle ao Minuto sobre os 40 anos da marca Lúcia Piloto, a fundadora e agora diretora criativa da academia fala da construção do grupo, da profissão nos dias de hoje e do impacto que um cabeleireiro consegue ter na autoestima e até mesmo no bem-estar de uma pessoa.

Há coisas que as clientes falam connosco que não falam com mais ninguém, nem mesmo com pessoas da família. Estão muito tempo sentadas na nossa cadeira ou gabinete a fazer algum tratamento e, de facto, o sítio é oportuno para desabafarem connosco. Acho que isso é gratificante, sermos uma mais-valia para que as pessoas se sintam felizes

Acabou de celebrar 40 anos de carreira, passaram a correr?

Parece que foi ontem. Foi pouco depois do 25 de Abril. Foi uma aventura, pois ninguém sabia onde este país ia parar. Mas nós aventurámos-nos e as coisas correram bem.

E foi uma decisão fácil de tomar?

Não foi uma decisão assim tão fácil de tomar, porque o meu marido queria e eu não queria. Andámos um certo tempo a pensar. O meu marido construiu o prédio onde fizemos o primeiro cabeleireiro e quando eu consegui dizer o 'sim' já só tinha a segunda cave, o que era difícil para um cabeleireiro. Mas fomos e com muito trabalho e persistência conseguimos que aquele cabeleireiro fosse de eleição. Já era grande na altura, tinha cento e tal metros quadrados, tinha uma decoração muito bonita, um bocadinho à frente para a época, as coisas foram mudando, mas as pessoas sentiam-se lá muito bem. Foi com muito trabalho que conseguimos aqui chegar.

 Hoje tenho ainda muitas clientes da altura em que eu era empregada

Sentiu alguma dificuldade nessa altura?

As dificuldades são como tudo. No princípio, uma pessoa vem de outro sítio e há algumas clientes que se perdem pelo caminho, mas temos de fazer a casa. Não senti assim aquela dificuldade de dizer alguma vez 'isto não dá'. Não. Tivemos sempre trabalho, fomos sempre avançando, mas é preciso alguma persistência para fazer nome e sermos reconhecidos.

E como eram as primeiras clientes? Muito diferentes das dos dias de hoje?

Não são muito diferentes. Hoje tenho ainda muitas clientes da altura em que eu era empregada e, de facto, as pessoas não são muito diferentes. Claro que as pessoas vão evoluindo, as coisas que se usam hoje não se usava há 30 anos, aliás, por acaso vamos voltar outra vez aos anos 70. Mas tudo vai passando por uma série de remodelações, seja a nível de técnicas, de tudo, de corte, de estilo, mas vamos reciclando e vamos parar sempre ao mesmo. Hoje estamos a entrar outra vez numa época idêntica à dos anos 70, que foi precisamente quando comecei. A moda vai sendo reciclada e temos de estar sempre à procura de técnicas e tendências.

O que motiva é o gostar muito da minha profissão, nunca estou cansada dela. Depois vem a motivação a nível empresarial, que veio quando as minhas filhas entraram no negócio, trouxeram uma revolução

Imagina-se a fazer outra coisa que não esta arte?

Não, não me imagino mesmo. Se estivesse sentada a uma secretária tenho a certeza de que dormia o dia todo, não consigo, assim que paro vem o sono, vem a moleza, vem tudo. Tenho de me estar sempre a mexer.

Acabou por construir um pequeno império nesta indústria. Como descreve estas quatro décadas de Lúcia Piloto?

É assim, temos sempre de ter objetivos de vida para conseguirmos chegar a algum lado nesta vida. Se não tivermos objetivos não andamos para a frente. Com muitos obstáculos, que foram bastantes, conseguir realmente ultrapassá-los é muito bom. Ultrapassar todos os obstáculos que foram surgindo e chegar a bom porto é muito bom e gratificante. É ótimo poder dizer 'este [obstáculo] está ultrapassado, venham os próximos desafios'. Vai haver sempre desafios e obstáculos até que a pessoa se tente retirar, mas como tenho as minhas filhas a trabalhar comigo, obviamente que alguma delas irá seguir com este projeto.

E passadas quatro décadas, o que é que ainda a motiva?

O que motiva é o gostar muito da minha profissão, nunca estou cansada dela. Depois vem a motivação a nível empresarial, que veio quando as minhas filhas entraram no negócio, trouxeram uma revolução. Quando entra gente nova e jovem é sangue novo para um projeto. Eu tento atualizar-me na profissão e naquilo que faço, mas a nível de estrutura, a minha filha, que está agora à frente na parte de gestão, é uma mais-valia, se não a tivesse aqui, de certeza que não teríamos tantos projetos, tantos objetivos para o futuro. A pessoa não é eterna e como não é eterna se não temos ninguém para seguir o nosso projeto, ficamos pelo caminho. Felizmente que elas seguiram e que os filhos dela também sigam e que o nome se mantenha por muitos anos, que fique.

É muito mais do que cortar cabelos, a profissão de cabeleireiro é ajudar as pessoas a porem-se mais bonitas, a sentirem-se mais bonitas e ao sentirem-se assim ficam a autoestima melhorada

Foi uma empreendedora pouco depois do 25 de Abril e mantém um negócio bastante coeso na indústria da beleza. Sente que é uma inspiração?

Os outros poderão avaliar melhor do que eu, mas há, de facto, pessoas que respeitam o meu trabalho, que admiram, evidentemente que haverá outras que não admiram, como em tudo na vida. Mas quando falo com outros colegas sinto que têm admiração pelo que fizemos até agora, sinto que sou uma pessoa a qual podem seguir. Modéstia à parte, mas por aquilo que chega de colegas meus e de pessoas mais novas que estão a começar as suas profissões, até porque temos uma academia de formação, muitas vezes as frases que ouço é que querem chegar onde eu cheguei, portanto, acho que sim, sou, modéstia à parte, uma referência porque fui bem-sucedida e as pessoas querem seguir referências, pessoas que são bem-sucedidas, tal como eu tive outras referências.

Como descreve a profissão de cabeleireiro?

É muito mais do que cortar cabelos, a profissão de cabeleireiro é ajudar as pessoas a porem-se mais bonitas, a sentirem-se mais bonitas e ao sentirem-se assim ficam a autoestima melhorada. Mas também somos um pouco psicólogas, amigas para toda a vida, porque há coisas que as clientes falam connosco que não falam com mais ninguém, nem mesmo com pessoas da família. Estão muito tempo sentadas na nossa cadeira ou gabinete a fazer algum tratamento e, de facto, é oportuno o sítio para desabafarem connosco. Acho que isso é gratificante, sermos uma mais-valia para que as pessoas se sintam felizes.

Há pessoas para quem o cabeleireiro é quase como precisar de comer todos os dias, a pessoa gosta de se sentir arranjada e se não gostar do que vê ao espelho fica infeliz, já nem consegue enfrentar os outros com a mesma segurança do que se olhar para o espelho e se sentir bonita. Se a pessoa se sentir bem vai para qualquer sítio, seja uma festa, uma reunião, com muito mais confiança quando tem o cabelo arranjado.

E o trabalho de um cabeleireiro é bem-visto e valorizado em Portugal?

Hoje, sim, é bem visto. Quando comecei não era, porque só ia para cabeleireiro quem não podia fazer mais nada, mas felizmente que isto tem evoluído e hoje temos já muita gente com formação académica e formação profissional na área. É uma profissão muito digna.

No seu tempo pouca ou nenhuma formação havia. É por isso que quer dar agora formação a quem começa?

Na minha altura era passo a passo e por isso é que temos a academia, para dar formação aos outros. Temos marcas a ajudarem-nos a formar o nosso pessoal. Afinal, ter formação é tudo na vida e na minha altura não era assim, se não iamos estudar ou iamos para costureira ou para cabeleireira. Nesta altura já não é assim, as pessoas que procuram formação nesta arte, vêm porque gostam, porque é uma profissão digna e as pessoas podem na mesma ter os seus estudos. É uma profissão linda.

Apesar de ser dos negócios mas resistentes, até mesmo em tempos de crise, a arte de cabeleireiro tornou-se até sinónimo de algum luxo nos dias que correm, especialmente depois de se terem aliado outros tratamentos de beleza. Como surgiu a ideia de juntar um SPA aos cuidados básicos de cabelo?

O ser humano é um todo e tem de se sentir bem não só com o cabelo, mas também com o corpo e, por isso, o SPA também é importante, pois acompanha a beleza exterior que o cabelo arranjado mostra. A pessoa tem de se tratar. A vida é tão difícil, anda-se sempre de um lado para o outro e há a necessidade de fazer, por exemplo, uma massagem de relaxamento.

Lembra-se de algum episódio caricato nestes 40 anos? Já alguém saiu a chorar do salão?

Já saíram a chorar, sim. Hoje em dia não, mas aqui há uns anos as pessoas eram mais difíceis para cortar o cabelo, para fazer mudanças radicais. Queriam mudar o visual e quando nós dizíamos 'vamos cortar' a resposta era quase sempre igual: 'só umas pontinhas'. Mas como é que se pode mudar uma pessoa cortando apenas umas pontinhas? As pessoas estão agora muito mais abertas à mudança, hoje em dia já ninguém sai a chorar do cabeleireiro. Mas houve alturas em que isso acontecia. O cabeleireiro tem de ter a capacidade de aconselhar e ousar, se não as pessoas não mudam. E ao ousar até podem fazer algo de que a pessoa não está à espera, chora, mas depois adota o estilo. Algumas pessoas choram porque não estão habituadas mas depois dizem 'ainda bem que fiz'.

A internet e esses 'Facebooks', essa onda digital, veio mudar as coisas. As pessoas já vêm para o aconselhamento, e o aconselhamento é muito importante, com algum estilo que viram e gostam, é só ver se fica bem ou não. As pessoas já sabem o que querem e querem seguir as tendências das pessoas mais bonitas. Há tempos trazíamos uma revista de Paris e era uma novidade, hoje em dia temos tudo. Já tenho a idade da reforma, mas não tenho o espírito de reformada.

E qual a tendência que as portuguesas mais procuram agora?

A tendência é o cabelo médio curto. Depois também há os extremos, mas o médio-curto é a mais procurada.

E cuidam bem do cabelo?

Sim cuidam, só não cuidam melhor quando não podem. As pessoas gostam de ter cabelos bem tratados, o cabelo é o nosso cartão de visita em qualquer sítio, convém tê-lo sempre bem cuidado. Às vezes as pessoas não conseguem cuidar do cabelo tanto quanto desejariam, mas a maior parte das portuguesas cuida muito bem do cabelo.

Mas há muito a ideia de que para cuidar bem do cabelo e do corpo é preciso gastar uma fortuna...

Já não é tanto por aí. As pessoas podem fazer um bom corte com um bom trabalho técnico e depois têm logo a seguir a área de serviço de produtos de venda onde são aconselhadas e podem tratar o cabelo em casa como se estivessem no salão, até porque são poucas as pessoas que vêm todas as semanas fazer os tratamentos ao cabeleireiro.

O que é que ainda lhe falta fazer?

Há projetos brevemente, mas não posso falar ainda de nenhum. Na vida, à medida que ia alcançando um objetivo, ia passando para outro e vai ser assim até ao fim, não vou fazer projetos a muito longo prazo, mas quando um estiver alcançado, entro noutro.

A reforma faz parte dos planos?

Já tenho a idade da reforma, mas não tenho o espírito de reformada, por isso, continuo a trabalhar e continuarei até que as clientes gostem e se sintam bem e felizes. Por isso, vou continuar.

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