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"Como é que eu explico inspiração? Não dá, é reflexo de Deus"

Héber Marques tornou-se conhecido como vocalista dos HMB, no entanto, a sua caminhada na música começou ainda na infância, em casa, com os pais. A música não era o seu plano A, contudo, o artista acabou por se entregar a ela, com toda a ingenuidade e carisma que ainda hoje o caracteriza.

"Como é que eu explico inspiração? Não dá, é reflexo de Deus"
Notícias ao Minuto

24/10/17 por Mariline Direito Rodrigues

Fama Héber Marques

Foi com um sorriso que Héber Marques nos recebeu no final de uma manhã. O Fama ao Minuto esteve à conversa com o artista que apaixona corações por esse país fora. O brilho no olhar é notório quando aborda os assuntos que mais ama: Deus, a família e a música. Viajamos pela sua história de vida tão surpreendente, capaz de inspirar os mais cépticos.

O que é que os fãs podem esperar do novo disco, 'Sentir'?

As pessoas já me conhecem dos meus primeiros trabalhos. São músicas cristãs, completamente dedicadas a Deus.

Este trabalho diferencia-se em alguma coisa dos anteriores?

Primeiro a voz está bastante diferente, porque quando lancei o primeiro disco tinha 21 anos. As músicas também estão mais maduras, independentemente do assunto ser o mesmo, acho que até a própria escrita está mais madura. É ainda o primeiro disco que foi praticamente produzido por mim.

Só lá para os oito, nove anos, é que percebi que afinal nem toda a gente sabia cantarQuando é que começou a cantar?

Em pequenino. Aliás, só lá para os oito, nove anos, é que percebi que afinal nem toda a gente sabia cantar. Cantar sempre foi uma coisa bastante natural lá em casa, o meu pai toca guitarra, a minha mãe canta, toda a minha família é bastante musical. Sempre estive num meio bastante musical, cresci na igreja, então só quando de repente começo a viver fora daquele núcleo é que penso que há gente que canta muito mal [risos].

Já sonhava com uma carreira?

Não, de todo. Quase fui empurrado para a música. Nesse aspeto, fico com medo de entrar num terreno que não é o meu, que é o daquelas pessoas que de facto têm um sonho desde criança. Nunca tive essa perseverança. Mas entretanto o chip mudou completamente, agora sou uma pessoa adulta, responsável e percebo que tenho de trabalhar. Mas em miúdo nunca tive aquele sonho de ‘ah, quero ser isto, quero ser aquilo’. Gostava muito de futebol.

Então, não era daqueles miúdos que tocava na escola para impressionar as raparigas?

Não. Às vezes cruzo-me com colegas de há muitos anos, do básico, que me dizem:‘não sabia que cantavas’. Sempre fui bastante tímido.

A partir de que idade é que pensou que a música poderia dar mesmo certo?

Foi quando já estava a viver da música, a ganhar dinheiro com isto.

Apesar de sempre ter usado óculos e de ter uma cara de 'nerd', a escola nunca foi o meu forteOs seus pais queriam que fosse músico, ou preferiam que tivesse seguido outro caminho?

No início não acharam muita piada. Hoje, consigo ter uma vida bastante estável, suportar a minha família financeiramente e etc., mas para quem está a começar é um trabalho muito penoso, porque a pessoa trabalha muitas horas e faz muitos quilómetros. Os meus pais não tiveram muita fé. Sempre incentivaram a música, mas queriam que estudasse até à escolaridade obrigatória. Apesar de sempre ter usado óculos e de ter uma cara de ‘nerd’, a escola nunca foi o meu forte.

Como é que surgiu a oportunidade de trabalhar com o Nuno Guerreiro?

Através de uma das pessoas que mais investiu em mim, que é um músico brilhante, um pianista de excelência, que foi o pianista do Rui Veloso e que toca também com a Carminho… chama-se Rúben Alves.

Como é que se conheceram?

Basicamente, estava com um grupo de jovens a fazer evangelismo fora do país e quando voltei a casa a minha mãe disse-me que o Rúben Alves (eu já o conhecia do meio) queria falar comigo. Ele ouviu uma maquete que a minha tia lhe deu. Até hoje ainda não percebi como é que esse CD foi parar às mãos dela. Umas três semanas depois fui lá falar com ele e ele disse que me queria patrocinar e produzir um disco. Depois ele foi trabalhar com o Nuno Guerreiro, como produtor, e eles precisavam de back vocals para gravar e não queriam as pessoas de sempre. Ele disse que ia chamar dois rapazes e fui eu e o baixista dos HMB, que na altura era o meu pupilo. Lá fizemos o teste, o Nuno Guerreiro adorou, fui para a estrada, comecei também a tocar guitarra e depois saí, porque me queria dedicar aos HMB.

O grupo já existia nessa altura portanto…

Sim, o nosso primeiro concerto foi em novembro de 2007. Foi num evento organizado pelo Rúben, num espaço chamado Arte Lisboa, no Teatro Lanterna Mágica. Depois tocámos numa casa em Lisboa, que era o Bacalhoeiro, aliás, tocámos em ‘n’ casas em Lisboa, que entretanto a ASAE fechou [risos].

Fazer música em Portugal é como lutar na lama. Os movimentos são todos muitos lentos, tudo muito penoso

Como é que vê o sucesso do seu dueto com a Carminho?

A música tem mais de um ano… em Portugal as coisas são muito lentas. As pessoas ficam em dúvida se gostam ou não. Demora muito. O guitarrista dos HMB disse uma coisa numa frase que é verdade: fazer música em Portugal é como lutar na lama. Os movimentos são todos muitos lentos, tudo muito penoso.

E como foi trabalhar com a Carminho?

Foi ótimo. Era uma música que já estava feita e era para sair no segundo CD - ‘Sentir’- mas tinha-a feito com intuito de ser um dueto, não fazia sentido cantar sozinho. Fui ter com ela, acabámos por perceber que eu era só uns meses mais velho do que ela, houve bastante empatia, acabou super bem e escrevemos a parte dela em 5/10 minutos.

Foi bom para os dois…

Sim para os HMB e também para ela, porque estava bastante ligada ao fado tradicional.

Alguma vez pensou em chegar a este patamar e de ser reconhecido na rua? As pessoas falam consigo?

Falam e eu prefiro que seja antes assim, do que ficarem a olhar, que é o que acontece mais. É uma coisa que até me irrita um bocado. Já aconteceu estar a almoçar com a minha mulher e com a minha visão periférica sentir que está lá alguém. Chegou a um ponto em que eu disse: ‘Sim? Ah, é o Héber?’ Será que sou assim tão diferente de quando apareço na televisão? Acho que é preferível perguntar logo, do que ficar logo assim numa situação constrangedora.

E a sua mulher, como é que lida com isso?

Passa-lhe ao lado. Eu também sou bastante caseiro, por isso, quando ela quer passear tem de arranjar outras companhias.

E a família está maior agora que tens dois filhos…

Sim, tenho a Vitória, que tem dois anos e cinco meses, e o Lucas, que tem seis meses. Há sempre animação em casa.

Em que é que a vida muda após ser pai?

Mudam as cores, mudam os sabores, é uma experiência muito profunda. A todos os amigos que foram pais depois de mim, disse que até lhes podia explicar, podia até ser o Camões, mas que quando chegasse a vez deles é que iriam percecionar as coisas.

Qual a parte mais difícil da paternidade?

Os horários e as funções. A minha filha já tem bastante consciência do tempo e do espaço.

Se os meus filhos forem talentosos como o pai, vou incentivar, caso contrário, não vou puxar muitoGostava que os seus filhos seguissem uma carreira na música?

Não sei, tenho um sentimento agridoce em relação a isso. Se eles forem talentosos como o pai, vou incentivar, caso contrário, não vou puxar muito.

Acho que o facto de haver coisas boas na Terra é o impacto de CristoDe todos os ensinamentos que lhes quer passar, qual o mais importante?

Gostava muito que eles crescessem com Deus como base e que vivessem a vida deles como discípulos de Cristo. As pessoas não entendem isso. Será que não percebem que ao haver harmonia no mundo, um reflexo de bondade, isso tem de ser consequência de alguma coisa? Não acredito que seja fruto só do ser humano, porque é visível que o ser humano é capaz do pior, os nossos instintos sejam eles quais forem são sempre piores em altura de crise. Por isso, nem que seja de uma forma bastante racional, acho que o facto de haver coisas boas na Terra é o impacto de Cristo. Queria que fizessem isso, que fossem boas pessoas e que guardassem Deus no coração e tivessem um relacionamento com ele.

Desse relacionamento que tem com Deus, há alguma experiência que o tenha marcado em particular?

Sempre procurei Deus em coisas muito grandes, mas vim a descobri-lo em coisas muito pequenas. O nascimento de uma criança para mim é um milagre inacreditável, esta atividade que faço, esta coisa da música, que depende tanto de uma coisa chamada inspiração, que não é palpável. Como é que eu explico inspiração? Não dá, é reflexo de Deus. Eu falo da música, como de qualquer outra arte. Aquilo que só a natureza é capaz de fazer, mas que de repente os homens também o conseguem fazer com arte. Quem é que consegue fazer coisas do nada? O único, e estou bem resolvido quanto a isso, é Deus. Para mim, fazer uma canção é quase do nada. Começo a juntar palavras, melodias e faço uma canção que se liga com as pessoas.

Sendo os seus discos cristãos, sente que ao longo da carreira, por sempre assumir a sua fé, foi desvalorizado de alguma forma?

Na altura não consegui perceber, mas a idade dá perspetiva. Sou bastante distraído e houve coisas que não percebia, mas agora percebo. Se calhar houve oportunidades que não conseguimos, até o início dos HMB foi bastante atribulado, parecia quase uma luta. Lembro-me de que no concerto de lançamento do CD, já quase na última música, agradeci ao pessoal da igreja e alguém da minha editora ficou danado. Por estar a misturar as coisas e estar a falar de religião. As pessoas podem não acreditar na espiritualidade, mas há sempre um duelo entre luz e trevas. Nós dormimos, mas o espiritual não dorme nunca.

Como é que se imagina daqui a dez anos? Algum projeto?

Ando um bocado toldado pelo cansaço, confesso. Estes últimos três anos foram muito intensos. Por isso, neste momento a única coisa que ambiciono é descanso. Mas, sim, tenho sonhos ainda. Gostava de fazer música sentida, que dissesse alguma coisa às pessoas. Gostava de conservar essa ingenuidade, pois com o cansaço a pessoa começa a recorrer à memória muscular.

Não tenho uma grande simpatia por programas de talentosParticipar noutros programas de talentos é uma possibilidade?

Não tenho uma grande simpatia por programas de talentos. Lembro-me de que quando era miúdo as pessoas diziam para eu ir e não queria. Tinha até aversão. Agora que participei e consegui manter contacto com alguns miúdos, inclusive quando foram agora os concertos do ‘Sol Da Caparica’, criámos um coro e chamei os concorrentes para participar. É este tipo de experiência que os faz crescer e perceber se é mesmo este caminho que querem seguir.

Sente que há um fascínio da nova geração pela indústria musical?

Claro que sim. E quando estamos no programa não podemos dizer nada sobre a maneira intensa como vivem. É só um programa, a vida não acaba ali. Acho que eles têm de viver, celebrar a vida. Têm de aproveitar o programa para trabalhar. Há muito gente em casa a ver e infelizmente a Internet revela o pior das pessoas, há muita gente maliciosa. Espero que tenha conseguido passar o meu conhecimento, pois fui convidado pela música. Tentei manter-me fiel a ela e não jogar o jogo. Ainda que na minha inocência tenha consciência de que não vou conseguir educar uma nação.

Mudaria alguma coisa no seu percurso?

Tinha ido estudar música, ter-me-ia dedicado de uma forma mais séria. Apesar de a ingenuidade também me ter feito compor coisas que resultam.

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