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"Portugal não foi colonizador brando. Há inúmeras situações de racismo"

A escritora e jornalista Alexandra Lucas Coelho, recentemente nomeada para o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores, é a entrevista de hoje do Vozes ao Minuto.

"Portugal não foi colonizador brando. Há inúmeras situações de racismo"
Notícias ao Minuto

27/07/17 por Pedro Bastos Reis

Cultura Alexandra L. Coelho

Alexandra Lucas Coelho é uma das cinco finalistas ao Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores, relativo a 2016, prémio que já venceu em 2012 com o romance 'E a Noite Roda'. 

Numa entrevista por e-mail ao Notícias ao Minuto, a escritora e jornalista fala sobre o seu último romance, ´Deus-dará', um livro que capta a  essência do Rio de Janeiro em sete dias, através de sete personagens, um romance "entre génesis e apocalipse, porque o Rio é isso".

Mas 'Deus-dará' é também uma posição política e histórica, um olhar para o passado colonial português e de como, hoje em dia, muitas pessoas ainda veem Portugal com um país de "excepção, uma nação especial, destinada a grandes feitos".

Alexandra Lucas Coelho escreve para combater a "negação da história" e para denunciar o facto de Portugal ter sido o "maior esclavagista do Atlântico", um passado que é fundamental ter presente para enfrentar os desafios do futuro. 

Demorou três anos a terminar ‘Deus-dará’. Fale-me um pouco sobre o processo criativo e sobre a sua paixão pelo Brasil, que já vem desde ‘Vai, Brasil’.

Essa paixão começa antes da adolescência, na música. Já então queria morar no Rio de Janeiro um dia. ‘Vai Brasil’ reúne parte das crónicas que publiquei entre 2010 e 2013, um primeiro registo do que era estar ali como correspondente. ‘Deus-dará’ é posterior, mas vem de muito antes e está para além, será o resultado de o Brasil andar comigo desde que comecei a ouvir João Gilberto, Caetano [Veloso], Chico [Buarque] ou ‘Arena Conta Zumbi’ (dos primeiros discos de que me lembro) ou de quando li ‘Capitães da Areia’, de Jorge Amado; e por aí vai, como se diz lá. Com tudo o que nele há de génesis e apocalipse, o Brasil é um dos melhores lugares da minha vida.

Este romance cruza-se frequentemente com a história e o ensaio. Pretendia que o livro fosse além da ficção, que marcasse uma posição política e histórica?

Vejo os romances não como um género mas como um transgénero: um terreiro em que tudo pode confluir. Tantas formas já couberam no romance. ‘Guerra e Paz’ tem páginas e páginas sobre a guerra da Crimeia, ‘Moby Dick’ é também um tratado sobre barcos, os exemplos não acabam. Ensaios, poemas, recortes, imagens, todos os recursos se podem cruzar com a narrativa, interrompê-la, desviá-la, e isso acontece desde que se escrevem romances. Idealmente cada um cria a sua própria forma de tocar a vida. Os sete protagonistas de ‘Deus-dará’ e as suas peripécias não existiam antes de eu começar a pensar neles, foram sendo criados e criaram-me também, entre passado e futuro, o que pulsa agora e o que vem ao de cima como fantasma, memória, e vai sendo absorvido pelas páginas, porque elas o chamam, porque as personagens o pedem: porque essa é a matéria de que se faz a vida.

A imagem do romance como um terreiro não é em vão: um lugar que contém passado e futuro, em que deuses e demónios dançam livres. Não se trata de neste romance ir além da ficção. É o romance em geral, a criação em geral, que idealmente estão além da ficção. Vivos.

Considera ‘Deus-dará’ o seu romance mais ambicioso até ao momento?

Não foi pensado assim. A ideia inicial era captar o Rio de Janeiro em sete dias seguidos através de sete protagonistas, e esse espectro foi-se ampliando de forma orgânica: porque a realidade precisava disso, e a minha história e tudo o que me antecede precisavam disso. Sendo um romance de 568 páginas que levou três anos e meio, com grandes intervalos, não se compara com nada que tenha feito. Mas não nasceu com a noção de tudo o que veio implicar, o mergulho na história, na antropologia, na astronomia. A ideia inicial já era andar entre génesis e apocalipse, porque o Rio é isso. Depois o texto, as personagens é que me foram levando para trás e para o fundo, até recuar aos ameríndios antes de 1500. Não havia forma de ver o presente, de estar diante do futuro, sem isso. O romance tornou-se naquilo que precisava de ser.

Aquelas personagens só existiam na minha cabeça, e eu tinha medo de morrer antes de elas saíremA Alexandra é uma das finalistas ao Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores, um prémio que já venceu em 2012. Apesar dos vários livros que tem publicados, apenas três deles são romances. O que representa esta nomeação para a sua carreira enquanto romancista?

Não sei o que é carreira, como romancista, jornalista ou o que seja, não uso a palavra nem me reconheço nela. Sempre quis escrever e andar pelo mundo. O jornalismo foi uma forma de escrita e de andar pelo mundo. Durante muitos anos a redação e a reportagem absorveram quase tudo. Publiquei o primeiro livro pouco antes dos 40 e depois optei por deixar as redações para ter o máximo de tempo para continuar a escrever livros. Os primeiros não foram romances, talvez por estarem ainda próximos das viagens como repórter. Depois, estar fora das redações foi criando outro tempo, outro espaço, e permitiu que os romances aparecessem.

Há uma coisa decisiva no romance, sobretudo um romance muito longo: implica continuidade de tempo e disciplina. Há quem consiga fazê-lo facilmente ao mesmo tempo que outras coisas, eu não. Preciso de temporadas de imersão total. O meu primeiro romance, ‘E a Noite Roda’ (reeditado agora na Companhia das Letras Portugal), ainda tem como base um mundo de repórter, estou a lidar deliberadamente com circunstâncias autobiográficas. Nos dois seguintes, já me desligara da redação, e eles não existiriam de outro modo. Sobretudo, nunca teria escrito ‘Deus-dará’ trabalhando numa redação, absolutamente impossível. Durante os três anos e meio que o livro levou, fiz longos intervalos para trabalhar a tempo inteiro noutras coisas (incluindo escrever o segundo romance, ‘O Meu Amante de Domingo’), mas as fases em que estava a trabalhar nele foram de imersão 12, 14 horas por dia, sete dias por semana. E o último ano, entre agosto de 2015 e agosto de 2016, foi de isolamento quase absoluto. Durante muito tempo aquelas personagens só existiam na minha cabeça, e eu tinha medo de morrer antes de elas saírem. Escrever um romance assim longo é também uma experiência de vida, de transformação. Não há como isso não nos mudar.

Quanto à nomeação para o prémio da APE, fiquei contente, claro. Sem a menor expectativa de o ganhar, a nomeação já leva o livro a novos leitores. Não se escreve para prémios, e tanta gente que os merece sempre fica de fora, que não haja dúvida sobre isto. Mas os prémios levam os livros por outros caminhos, o que é especialmente bem-vindo quando não tiveram muita visibilidade ou circulação, como foi o caso de ‘Deus-dará’. E não só os prémios dão novo movimento aos livros, como ajudam a viabilizar os próximos. Num país com tão poucos apoios para a escrita, funcionam como bolsa. Escrevi ‘Deus-dará’ sem bolsas, recusando trabalhos remunerados, e este romance implicou pesquisa, livros, viagens. Pude fazê-lo porque ninguém depende de mim, mas dificilmente o repetirei nestas condições.

Entretanto, é importante dizê-lo, vejo sinais de que algo está a mudar em Portugal: voltaram as bolsas de criação literária, algumas feiras e festivais já remuneram os escritores. Tudo isso ajuda a que os livros sejam escritos, e que determinado tipo de livros, mais longos e com pesquisa, possa existir.

A mudança da Tinta da China para a Companhia das Letras representa um novo capítulo?

Não havendo carreira também não há capítulos nela. Em qualquer relação é bom que nos sintamos livres para mudar ou partir, se e quando isso faz sentido. Mudamos naturalmente ao longo da vida, com tudo o que nos acontece.

Portugal gosta de acreditar que lidou bem com a sua história, que foi um colonizador brando e que não é racista

No ‘Deus-dará’ escreve que “Portugal foi o maior esclavagista do Oceano Atântico” e que “o Império Português tirou 5,8 milhões de pessoas de África para usar como escravas”. Portugal já fez a reconciliação com o passado?

Portugal foi objectivamente o maior esclavagista do Atlântico. Com o tamanho minúsculo que tem tirou quase metade (47 por cento) dos escravizados de África, enquanto as outras potências europeias (Espanha, França, Inglaterra, Holanda), todas juntas, são responsáveis pelo restante. E Portugal inaugurou o tráfico atlântico, a triangulação Europa-África-América, que não existia. Os números variam um pouco consoante as fontes, mas se pecam será por defeito, porque nos faltam registos, porque havia tráfico clandestino, etc. Seja como for, apenas com o que já se sabe, é inquestionável que a escala foi gigantesca. E é a percepção desta escala, para começar, que até hoje não existe, em geral, em Portugal.

Académicos e artistas têm trabalhado sobre isto, mas desde o ensino básico aos discursos políticos continua a perpetuar-se um discurso sobre os “Descobrimentos” que ignora a escala do que aconteceu. A escravatura é transformada numa espécie de borrão em que todos estavam metidos, e era assim, e já foi muito tempo, e pronto. Mas esta história, esta corda de mortos, está em grande parte por desenterrar no espaço público, fora da academia. Primeiro, o horror do que aconteceu, a quantidade de gente de que estamos a falar — o mesmo número de pessoas do Holocausto —, o que passaram, como eram tratadas, como morreram. Depois, quem eram, como lutaram, como resistiram, como viviam, todas as narrativas que lhes foram negadas enquanto seres humanos. E como tudo isso se liga à discriminação, à repressão, ao racismo ao longo da história até hoje.

Dos manuais escolares aos discursos políticos, Portugal gosta de acreditar que lidou bem com a sua história, que foi um colonizador brando e que não é racista. Não foi um colonizador brando, tem inúmeras situações de racismo e a prova de que não lidou bem com a sua história é a violência que este tema evoca sempre que se debate, a resistência, o contra-ataque, e acima de tudo a ausência total em Lisboa de um memorial, museu ou espaço que reflicta tudo isto.

Lisboa foi a grande capital esclavagista do mundo, depois de pelo menos um milhão de ameríndios já terem morrido na sequência da chegada dos portugueses ao Brasil. Mas todos estes milhões de pessoas, ameríndios e escravizados africanos, não existem em Belém, o epicentro da memória imperial portuguesa, nem noutro ponto da cidade. Não existe o horror do que lhes aconteceu, tal como não existe quem eles eram: narrativas, artes, lutas. E esse vazio serve o racismo contemporâneo, mantém invisíveis os fios que ligam esses mortos aos afrodescendentes e ameríndios de hoje. É uma negação de toda a história, de que do lado deles também há uma história, da tal corda que liga passado e presente em contínuo, e que fará o futuro.

No último ano, parece-me que pessoas e movimentos em Portugal, uns há muito no terreno, outros recentes, de proveniências e formações várias, começam a confluir, a unirem esforços para que esta situação mude em vários sentidos. Não vejo como pode não mudar. Não podemos continuar a ter o Padrão dos Descobrimentos e o Mosteiro dos Jerónimos sem nada nas redondezas que amplie largamente as narrativas do que se passou, e continua a passar.

 No vazio do que nunca enfrentámos historicamente há também o vazio das mulheresNo livro denuncia o facto de “dos manuais escolares ao discurso público, a tónica portuguesa, hoje, é celebrar ‘Os Descobrimentos’ como se não tivesse acontecido o extermínio de pelo menos um milhão de ameríndios e o tráfico de quase seis milhões de africanos”. Como se perpetuaram, na sociedade portuguesa, as ideias de luso-tropicalismo e de uma suposta brandura dos portugueses durante o colonialismo?

O Estado Novo foi decisivo nisso. O Padrão dos Descobrimentos é feito para a Exposição do Mundo Português de 1940, em que Salazar se enfeita com o Império colonial, e o projecta para o futuro. Depois da Segunda Guerra precisou de novos argumentos, perante um mundo em mudança, que já não via com bons olhos impérios coloniais. E usou para esse objectivo a tese luso-tropicalista do brasileiro Gilberto Freyre, segundo a qual Portugal seria um colonizador de excepção, com uma propensão histórica para a mistura racial desde judeus e mouros, mais adaptativo, mais brando. Freyre é uma figura complexa, com extensa obra anterior, e não deve ser reduzido a isso, mas dispôs-se a ser passeado pelo Império colonial português, e carimbou-o intelectualmente em livros. As colónias passaram a ser chamadas “províncias” do Ultramar. Uma longa história de mistificação que o Estado Novo vendeu aos portugueses, à custa de todo o tipo de abusos e discriminações, e depois de uma guerra brutal em África até 1974, que custou mais de 8000 vidas a portugueses e talvez cem mil a africanos. E essa mistificação cultivada no Estado Novo, herdeira também do sonho de um Quinto Império, continua a moldar a visão de um Portugal de excepção, uma nação especial, destinada a grandes feitos, em que muitos até hoje acreditam. Sendo que isto convive com um gosto pelo fado e pelo lamento, com um cíclico sentimento de impotência ou injustiça. Uma bipolaridade entre o eleito e o desgraçado.

Quanto à miscigenação, em que assenta a tese do luso-tropicalismo, comecemos por pensar nisto: foi violação em massa. Os portugueses levaram menos mulheres do que outros europeus para o Novo Mundo e violaram muito mais, índias e negras. Mesmo quando não se tratava de uma relação sexual imposta pela força, tratava-se de uma relação de poder, domínio, subjugação, não de uma escolha livre. No vazio do que nunca enfrentámos historicamente há também o vazio das mulheres. As brancas que ficavam na metrópole, e as índias e negras, milhões, que foram violadas e violentadas ao longo de séculos, para povoar e embranquecer as colónias.

O que aconteceu desde o século XV foi enterrado como se não tivesse relação com o presente e o futuroHá uma relação direta entre o nosso passado colonial e os episódios de racismo existentes em Portugal?

Sim, por tudo o que acabo de dizer. Depois do 25 de Abril começámos lentamente a enfrentar os fantasmas mais recentes, relacionados com a guerra colonial nos anos 1960-70 em África. Mas o que aconteceu desde o século XV foi enterrado como se não tivesse relação com o presente e o futuro. Para muita gente, aliás, português é automaticamente branco, os negros são vistos como quem veio de fora, pertence a outra terra, quando há gerações de negros aqui há séculos. Em Portugal nunca houve uma descolonização do pensamento, de facto. E essa descolonização tem de começar lá atrás. Para que os fios sejam reconstituídos, as narrativas, os antepassados dos que agora estão vivos. Porque é que tantos portugueses acham normal orgulharem-se do [Vasco da] Gama e do [Pedro Álvares] Cabral, e visitarem os monumentos, e acham estranho que se queira falar do resto que aconteceu nessa altura? É como se índios e negros não contassem como gente igual aos brancos, lá atrás. O passado só serve para enfeitar a lapela? Não serve para pensar que as coisas foram mais complexas, que milhões de pessoas ficaram invisíveis, estão invisíveis até hoje? O facto de estarem invisíveis é racismo, preconceito, sobranceria eurocêntrica, para além de uma enorme cobardia histórica, de saber quem somos de facto, de nos olharmos ao espelho. E o facto de continuarem invisíveis perpetua o racismo e o abismo.

O facto de 18 agentes da PSP poderem ser responsabilizados nos termos duros em que estão a ser quebra um status quoAcredita que a acusação histórica do Ministério Público aos 18 agentes da PSP de Alfragide poderá mudar a forma como a questão do racismo é abordada em Portugal?

É uma acusação histórica, sim. Terá de se provar a culpa, não se trata de nos anteciparmos ao tribunal. Mas o facto de 18 agentes da PSP poderem ser responsabilizados nos termos duros em que estão a ser quebra um status quo, muda o prisma, sublinha o racismo como crime punível. Tudo isto contribui para uma outra percepção do que é aceitável e do que não é, para dissuadir comportamentos preconceituosos, para exigir da polícia uma outra consciência, e será uma oportunidade decisiva para a polícia se comprometer seriamente com isso.

Para além da sua paixão pelo Brasil, o Médio Oriente sempre assumiu um grande destaque na sua escrita, nomeadamente na reportagem e na crónica. Como olha para o estado atual da região?

Seriam muitas respostas, Síria, Iraque, Egitpo. Fico-me por Israel/Palestina, de onde acabo de voltar depois de um mês em reportagem. Tudo está pior do que nunca. Tudo quer dizer, a esperança dos palestinianos, a vida dos israelitas está ok, e por isso é que Israel não vai fazer absolutamente nada na direcção da paz. Gaza é um caso único no mundo, dois milhões de pessoas a enlouquecerem sem poderem sair de uma nesga de território, controlada por Israel a partir de ar, mar e terra. Um escândalo de que toda a gente é responsável, Israel à cabeça, depois o dito quarteto das negociações, EUA, UE, Rússia, ONU.

Vamos continuar a ler a jornalista Alexandra Lucas Coelho? Em algum momento equacionou abandonar o jornalismo e dedicar-se, exclusivamente, à literatura?

Tenho vários romances na cabeça, e outros planos de escrita, esse é o eixo. Mas continuarei a fazer crónicas semanais.

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