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"Passamos a dizer bem de nós quando vencemos. Mas antes dissemos mal"

Paulo de Carvalho é o entrevistado de hoje do Vozes ao Minuto, numa altura em que celebra 70 anos de vida e 55 de carreira.

"Passamos a dizer bem de nós quando vencemos. Mas antes dissemos mal"
Notícias ao Minuto

15/05/17 por João Oliveira

Cultura Paulo de Carvalho

Há 43 anos, Paulo de Carvalho enchia o coração português de orgulho ao vencer o Festival da Canção. Pouco tempo depois, ouvia, juntamente com o resto do país o timbre da sua voz ecoada - “por acaso” - nas rádios como senha para o 25 de Abril, cujo mote diz ainda estar por cumprir “ao nível cultural”.

Hoje, com 70 anos de vida e 55 de carreira, lança 17 músicas cantadas a dois. Nesse conjunto de duetos inclui-se um com o filho Agir a quem “nunca deu conselhos” e mostrou apenas “exemplos”, conduta essa que aplicou a cada um dos seus três filhos.

Ao Notícias ao Minuto, o cantor concedeu uma entrevista para falar deste novo projeto, da música que se faz nos dias de hoje, do panorama cultural contemporâneo (ao qual aponta falta de autoestima e organização) e até do fenómeno Salvador Sobral, a quem tece elogios mas também sobre quem lamenta ter sido alvo de “pancada” pelo país que hoje o idolatra.

Aos 55 anos de carreira, deixou de cantar sozinho para cantar a dois neste seu novo álbum de duetos. Foi ideia sua?

Não. Foi uma ideia do meu filho Agir. Ele propôs-me essa ideia de fazer um CD com 17 músicas que fazem todo o sentido porque são músicas de uma vida, não só da minha como de muitas pessoas. Ao mesmo tempo, para que pudesse haver uma festa – não só desses 55 anos de carreira como dos meus 70 de vida -, convidámos uma série de companheiros da mesma profissão e que quisessem entrar neste CD.

E está contente com o resultado?

Estou muito contente. A ideia resultou muito bem e eu fiquei satisfeito não só por ter cantado cantigas minhas em dueto com gente que começou quando eu comecei, outros de uma geração intermédia e outros de uma geração nova que eu conheci pessoalmente e que é gente que também canta muito bem. Aliás, acho que em Portugal se está a cantar muito bem. Gostei destes duetos na sua totalidade. Não há um que eu sobreponha a outros, mas é verdade.

Enquanto veterano do mundo da música que já cá anda há muito tempo, gosta daquilo que se produz nos dias de hoje?

Acho que se faz muito boa música em Portugal. Conheço muita coisa através das minhas duas filhas mais pequenas porque me põem a ouvir rádio com as músicas que se fazem. Se conheço tudo? Não, forçosamente não conheço tudo, mas daquilo que conheço gosto bastante.

Sendo o seu filho fruto da música feita nos tempos modernos e tão diferente do seu registo, gosta da música dele?

Da maioria sim. Acho que ele encontrou o caminho dele e fundamentalmente essa é a parte que me interessa enquanto pai. O que importa para mim, enquanto pai, é que ele tenha encontrado um caminho. Em relação à música, que vem a seguir, também gosto da maioria das coisas que ele faz.

Deu-lhe algum conselho ao nível profissional ou pessoal durante esse caminho?

Nunca dei conselhos aos meus filhos em relação a nada. Acho que o que eles aprenderam comigo são os exemplos que têm visto quanto à forma como eu estou e como eu faço. Isso ele já disse publicamente que tinha aprendido.

Este disco é apresentado como "a primeira de muitas novidades que se avizinham", o que podemos esperar para o futuro?

O que se vai fazer a seguir depende muito do resultado deste disco em relação ao público.

As expectativas são altas?

Sim, são muito altas porque é um bom disco. É evidente que eu sou suspeito, mas é um bom disco [risos].

A minha esperança em relação ao 25 de Abril era que, culturalmente, fosse mais qualquer coisa que ainda não foiVoltando atrás no tempo… Celebraram-se, há pouco tempo, 43 anos desde o 25 de Abril. Enquanto alguém que assistiu à grande revolução e às décadas que se seguiram, está contente com o resultado ou partilha da opinião de que falta cumprir-se Abril?

Falta cumprir a parte cultural: Aquela que leva as pessoas a saberem por que razão estão cá, como é que estão cá e como é que podem melhorar a sua própria vida. A sociedade que nós construímos até agora é uma sociedade assente em bases que não são sólidas e as pessoas estão a sofrer com isso mesmo. A minha esperança em relação ao 25 de Abril era que, culturalmente, fosse mais qualquer coisa que ainda não foi. Mas ainda só passaram 43 anos. Na vida de uma pessoa, é muito tempo, mas na vida de um processo de um país não é assim tanto.

A música 'E Depois do Adeus', que lhe deu a vitória no Festival da Canção, viria a ser "a senha" do 25 de Abril. Qual é a sensação de ter uma música própria associada a um momento que transformou a história do país?

Imediatamente, e até porque estou de acordo com as bases do 25 de Abril, é bonito, é bom, gostei e continuo a gostar. Mas também tento ser sério nas apreciações que faço. Essa música foi escolhida porque foi a música do Festival da Canção desse ano. O que gostariam de pôr na rádio era uma música do José [Zeca] Afonso e que fazia todo o sentido. Não foi possível porque ainda havia a censura nessa altura. Se estou lá, é perfeitamente por acaso. Não sabia e ninguém falou comigo, mas gosto muito, isso gosto.

Os versos 'Quis saber quem sou / O que faço aqui / Quem me abandonou' eram biográficos ou um sentimento generalizado que se vivia no país?

Eram biográficos, mas da pessoa que fez o texto [José Niza]. A história daquele texto é muito bonita. São bocados de cartas que o José Niza escreveu à mulher enquanto estava na guerra, em Angola.

Identificou-se com a música?

Naquele contexto em que vivíamos não era difícil identificarmo-nos. De qualquer forma, não tendo a ver comigo porque não a escrevi, faz todo o sentido e foi muito bonita a utilização daquilo que estava escrito naquelas cartas.

De todas as músicas que já escreveu e cantou até hoje, qual gostou mais?

É uma pergunta difícil porque, normalmente, aquelas que nós gostamos mais são aquelas que as pessoas conhecem pior. Não é que gostem menos, mas conhecem pior. Habituei-me a falar – até porque gosto – de músicas que são das pessoas, mais do que minhas, e que as pessoas merecem porque foram elas que me puseram aqui ao fim destes anos todos. Como dizia o John Lennon em relação aos Beatles, “os melhores momentos dos Beatles ninguém os registou”. Há coisas que eu fiz que não são do conhecimento público e que são muito bonitas.

"Nós vivemos em Portugal e sabemos perfeitamente onde vivemos e quem somos"

Sente que o seu trabalho foi devidamente reconhecido?

Não vamos por aí. Nós vivemos em Portugal e sabemos perfeitamente onde vivemos e quem somos. Nem sempre é reconhecida devidamente a obra de cada pessoa. Não vou por aí. Tenho tido uma vida feliz e o reconhecimento possível, mas muito bom em relação ao que tenho feito. Não sou um falso modesto, nunca fui, mas canto cantigas, não sou nenhum cirurgião ou filósofo. Canto e faço umas cantigas. Tem importância? Tem sim senhor, porque é mediático.

A sua projeção é inegável mas, considerando a dimensão e estrutura do país, pode até ser limitada. Considera que isso seria diferente num outro contexto social, económico ou cultural?

Isso levava-nos a outra conversa. Se nós vivêssemos noutro contexto, provavelmente, ‘nós portugueses’ seríamos mais reconhecidos enquanto ‘nós portugueses’. O contexto tem a ver com uma série de fatores que são complicados de analisar. Gostamos muito de nós? Se calhar não gostamos. Passamos a dizer bem de nós quando vencemos alguma coisa que não estávamos à espera de ganhar? Mas antes dissemos mal. Somos contraditórios, somos portugueses e somos um povo muito giro [risos].

A partir de determinada altura, cheguei à conclusão de que isto era a minha profissãoAo fim de 55 anos a fazer música, ainda a cria com o mesmo gosto que no início da carreira?

Lanço-me para a frente como normalmente me lancei. Faço com o mesmo gosto e com a mesma paixão e é isso que me leva, ao fim deste tempo todo, a querer continuar a fazer, a gostar e a tocar. A música é para ser feita de uns para os outros. Já passámos felizmente a fase do isolado em casa com o computador para fazer música. A malta que fazia isso já chegou à conclusão de que tem de começar em casa o seu trabalho mas tem de trabalhar com outros músicos.

Quando se lançou na aventura do mundo da música, acreditava chegar tão longe?

Não. Não fazia a mais pequena ideia e nunca pensei nisso. A partir de determinada altura, cheguei à conclusão de que isto era a minha profissão. Continuei a fazê-lo, umas vezes com sucesso, outras com menos. Não tenho uma vida má. Posso ter bocados menos bons, mas o resto tem sido muito bom.

Há alguma coisa por concretizar a nível profissional?

Há coisas que já fiz e que me deram muito prazer, outras que gostaria de repetir, mas não tem a ver com vencer isto ou ganhar aquilo. Tem a ver com questões puramente musicais e participação com outros músicos. Se me disserem que amanhã posso fazer um espetáculo com uma das muitas pessoas que eu admiro com uma boa banda ou uma boa orquestra e com as músicas que gostamos de cantar, é o que me falta fazer e aquilo que gostava de fazer. Mas isso eu gostava de fazer todos os dias.

Quem é que inspirou o seu trabalho?

A base da música que eu sempre ouvi é a música negra norte-americana. Ray Charles – que é o pai deles todos -, Stevie Wonder, por ai fora. Mas 70% da música que eu ouço é instrumental. Não tenho nada contra cantores. Mas acho que aprendi muito mais com guitarristas, pianistas ou saxofonistas do que com muitos cantores. Aquilo a que chamamos de fraseado dos instrumentos é diferente das cantigas e de quem canta e eu gosto mais disso.

Olhando para o panorama atual da música portuguesa, o que é que falta?

Falta gostarmos mais de nós e sermos mais organizados. A partir daí, organizarmo-nos no sentido de proporcionarmos a todos nós as bases de questões que, culturalmente, podem ser mais importantes. Por que razão é que as pessoas não criaram hábitos culturais? Provavelmente porque não tiveram essa educação. Aqui já entrávamos no campo da política mais direta.

Acho que vivemos mal uns com os outros, estamos a viver um período da nossa vida coletiva em que as ambições das pessoas são muito centradas no ter maisSentado à mesa com o ministro da Cultura, o que é que lhe dizia?

É muito complicado ser-se ministro do que quer que seja, até porque as verbas de que dispõe podem não ser as necessárias para aquilo que ele próprio gostaria de fazer. Respeito muito as coisas que não conheço. Eu sei lá o que é que eles gostavam de fazer e não podem fazer e porquê. Não estou lá. De vez em quando tenho conhecimento de uma coisa ou outra e fico um pouco admirado porque as pessoas que nos dirigem, muitas vezes, não conhecem os reais problemas que nós temos, ou porque não saem dos gabinetes ou por outra coisa qualquer. Não faço ideia, nunca estive lá e não quero estar. Basicamente, falta-nos gostar de nós e sermos um povo melhor.

E a nível estrutural, não falta algo mais?

Por que motivo é que a verba da cultura é mais pequena do que verbas para outras coisas? Não sei, isso depende do primeiro-ministro, do dinheiro que se tem, do ministro das Finanças. Não estou a falar da cultura concretamente, até porque a cultura é tão pequena que a verba não é má nem bem utilizada, é dentro do possível. Acho que vivemos mal uns com os outros, estamos a viver um período da nossa vida coletiva em que as ambições das pessoas são muito centradas no ter mais, ter um carro melhor, ter roupa de marca, ter os telemóveis maravilhosos. Isso não nos leva a lado nenhum. Somos levados para vários lados. Não adianta dizer que nós mandamos em nós próprios.

Quem manda?

O poder. E o que é o poder? Não é o Governo. Há muitas formas de poder, seja lá isso o que for, de nos levar por caminhos que não deviam ser os mais interessantes.

Aproveitando que falou nessa 'onda' que nos leva para determinados sítios, pergunto-lhe, enquanto vencedor do Festival da Canção, como é que analisa esta euforia em torno do festival da Eurovisão, que parece nunca ter havido igual…

Houve, houve. A memória das pessoas, sobretudo a da malta mais nova, não é alimentada pelos mais velhos. Houve por exemplo em 1974 e não teve a ver com o 25 de Abril porque ainda não tinha acontecido. Também houve aquela coisa do português ser o favorito, mas ainda não havia apostas [risos]. E depois foi o que foi. Há muitas questões que têm a ver com a forma como os países irão votar ou não. Penso que agora as coisas até são mais falsas. São feitas através dos telefonemas que qualquer um pode controlar. O que se passa neste momento – e felizmente que se passa – é que nós temos uma grande cantiga e um grande cantor.

Salvador Sobral: É bom que não nos esqueçamos de que ele levou muita pancadinha antes de ter passado à final, e isto é um reflexo da nossa forma de serFaz então uma boa avaliação ao percurso do Salvador Sobral?

Sim. A cantiga é muito bonita, ele canta muito bem – não estou a dizer que tem uma voz maravilhosa -, é um músico enorme e é sobretudo uma pessoa muito bonita. Mas é bom que não nos esqueçamos de que ele levou muita pancadinha antes de ter passado à final, e isto é um reflexo da nossa forma de ser. Quer dizer, agora, a maior parte das pessoas já está moralizada, mas antes de estar moralizada dizia ‘ah isto não interessa a ninguém, isto é uma porcaria, o gajo é isto e aquilo’. E isso não é importante. Importante é ele e a música.

Disse, recentemente, que o fenómeno Salvador Sobral era uma “feliz bofetada”, mas também disse que ganhar ou não o concurso não dita necessariamente o sucesso de quem o ganha…

A “feliz bofetada” tem a ver com tudo isto: Com o que ele representa e com a música que canta, mas não tem nada a ver com o ganhar ou perder o concurso, tem a ver com a discussão que ele provocou.

A Eurovisão é um dos muitos programas de 'caça-talentos' em que muitos dos vencedores acabam caídos no esquecimento…

Até agora, a maior parte das pessoas que vence esses concursos desaparece e aqueles que insistem mais na sua profissão e que gostam mais se calhar não foram devidamente escolhidos e acabaram em segundo ou terceiro lugar. Os festivais da Canção de antes também eram assim. Muitas vezes, as cantigas que tinham sucesso não eram as que ganhavam.

Fazendo, pela primeira vez, parte de um 'talent-show', considera este tipo de programas como uma fábrica de audiências ou um trampolim na carreira?

Vamos deixar-nos de coisas: Basicamente, é uma fábrica de audiências. Depois depende de cada um de nós e da estratégia e forma de funcionar do concurso. Este em que estou ['Just Duet', na SIC], gosto dele porque as regras estão bem estabelecidas e o que há para escolher ali é uma pessoa para cantar comigo. Da minha parte, o cuidado que eu tenho é tentar, com decisões que às vezes podem ser precipitadas, não desmanchar sonhos que vêm com cada um dos participantes. Isso é o que me interessa mais e tento ser sério nesse capítulo.

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