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"A classe política usa a doença dos utentes para fragilizar os médicos"

Hoje e amanhã em paralisação de protesto, o secretário-geral do Sindicato Independente dos Médicos, em entrevista ao Notícias ao Minuto, deixa o recado: "Não queremos banalizar a greve e esperamos que o Ministério da Saúde e o senhor primeiro-ministro levem isto a sério".

"A classe política usa a doença dos utentes para fragilizar os médicos"
Notícias ao Minuto

10/05/17 por Carolina Rico

País Jorge Roque Cunha

Com o aval da Ordem dos Médicos, o Sindicato Independente dos Médicos e a Federação Nacional dos Médicos estão esta quarta e quinta-feira em greve. É a primeira que enfrenta o atual Governo e a terceira desde 2012.

Ao Notícias ao Minuto, o secretário geral do Sindicato Independente dos Médicos, Jorge Roque Cunha, explica os motivos da greve e deixa críticas ao ministério.

Nesta paralisação nacional, os utentes estão do lado dos médicos e os serviços mínimos garantidos, promete. Resta saber se o futuro trará mais greves.

Quais as reivindicações dos médicos?

A reposição do número máximo de trabalho extraordinário que os médicos são obrigados a fazer (200 horas) para as 150 que os todos os funcionários públicos são obrigados; a passagem das 18 horas para as 12 horas semanais nos serviços de urgência; o regresso aos 1.550 utentes nas listas dos médicos de família (atualmente são 1.900) para garantir a acessibilidade e qualidade; a recuperação do pagamento das horas extra semelhante àquilo que foi feito a outras entidades; abrir mais concursos para a categoria de Assistente Graduado Sénior e Consultores - sem estes concursos não há hierarquia estabelecida e não se consegue formar internos. Em suma, é ‘repor’, para valores antes da Troika, que nós exigimos que o Governo faça.

Serviços mínimos estarão garantidos em tudo o que é serviço de urgência e tudo o que são serviços de quimioterapia e radioterapiaQue serviços mínimos vão estar garantidos?

Tudo o que é serviço de urgência, tudo o que são serviços de quimioterapia e radioterapia. Todos os serviços que habitualmente estão abertos ao domingo ou que tenham a ver com doentes oncológicos.

Ao serem obrigados a fazer 48 horas por semana os médicos são obrigados a fazer mais 13 horas semanais do que o seu horárioA questão das horas extra é especialmente pertinente devido aos casos reportados de burnout [esgotamento]?

A questão de fundo é justamente essa. Além das 40 horas que os médicos têm no seu horário, são obrigados pela lei do Orçamento do Estado, pela carência de médicos que existe neste momento no Sistema Nacional de Saúde, a ultrapassar estas horas em grande quantidade. Ao serem obrigados a fazer 48 horas por semana os médicos são obrigados a fazer mais 13 horas semanais do que o seu horário. Está a acontecer uma maior incidência de burnout [esgotamento], mas mais do que isso. Quando abrem os concursos para jovens especialistas cerca de 30% das vagas ficam por ocupar. Há uma agressividade por parte das entidades públicas, privadas e PPP no sentido de contratar estes novos especialistas. Isto não é para ontem. Aceitamos que esse processo se desenrole e seja progressivo durante a legislatura.

São muito simpáticos, há cordialidade, é tudo gente educada. Falta tornar efetivo o que nos é dito nas conversas

O Governo demonstrou abertura nesse sentido?

Já fizemos 16 reuniões com o Ministério da Saúde. São muito simpáticos, há cordialidade, é tudo gente educada. Falta tornar efetivo o que nos é dito nas conversas. Não basta estar de acordo com aquilo que defendemos, temos é de ser efetivos e cumprir aquilo com que nos comprometemos.

Não há promessas concretas?

Não houve de facto concretização dessas conversas. Importa manifestar total disponibilidade para voltar a conversar com o Ministério da Saúde.

Se, entretanto, não se chegar a acordo estão previstas mais greves em breve?

Outras formas de luta, onde naturalmente a greve está incluída, sem qualquer dúvida.

Incentivo à mobilidade geográfica? Não ponho em questão a boa intenção. Mas tem de se tratar bem os que já lá estãoComo olham para as medidas já tomadas por este Governo, como o incentivo à mobilidade geográfica, por exemplo?

Não ponho em questão a boa intenção. Mas tem de se tratar bem os que já lá estão. Não podemos pensar que com reformados e incentivos aos jovens médicos criamos condições para as dezenas de médicos [que estão a trabalhar] em Beja, em Évora, etc....  com grandes dificuldades.

Não queremos banalizar a greve e esperamos que o Ministério da Saúde e o senhor primeiro-ministro levem isto a sérioEscreveram uma carta aberta aos utentes para explicar os motivos da greve e desmistificar ideias sobre privilégios da classe. Os médicos são incompreendidos?

Incompreendidos não porque todos os estudos dizem que os nossos médicos são excelentes. O que acontece é que muitas vezes a sociedade política cria dificuldades e usa a doença dos utentes para fragilizar a posição dos médicos. A decisão de fazer uma greve é muito difícil. Só fizemos três greves em 12 anos. Não queremos banalizar a greve e esperamos que o Ministério da Saúde e o senhor primeiro-ministro levem isto a sério.

Se existe alguém que gosta e respeita os utentes são os médicos, não os políticosOs utentes compreendem os motivos desta greve?

Esperamos que sim. Graças ao respeito que temos por eles é que escrevemos esta carta aberta. Se existe alguém que gosta e respeita os utentes são os médicos, não os políticos.

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