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"Se terramoto deixar Lisboa inoperacional, não há meios para a socorrer"

Celebra-se, esta quinta-feira, o Dia Internacional do Bombeiro. O Notícias ao Minuto entrevistou o presidente da Associação Nacional de Bombeiros Profissionais, Fernando Curto, que assegurou que em Portugal “estamos sempre nos recursos mínimos ou abaixo dos mínimos” e que há uma série de questões a “contribuir para uma má prestação de socorro”.

"Se terramoto deixar Lisboa inoperacional, não há meios para a socorrer"
Notícias ao Minuto

04/05/17 por Goreti Pera

País Fernando Curto

Rejeita o rótulo de “herói” e diz-se contra a instituição de uma época de incêndios, por considerar que o país deve estar sempre preparado para todas as eventualidades. Em entrevista ao Notícias ao Minuto, o presidente da Associação Nacional de Bombeiros Profissionais (ANBP) assume que “continua a haver um desequilíbrio muito grande entre a prevenção e o combate” e que, “se houver um terramoto e a cidade de Lisboa ficar inoperacional, não há bombeiros com meios suficientes para socorrer a área metropolitana”.

“Deveria haver uma força de reserva que estivesse disponível para intervir. Nós estamos sempre nos recursos mínimos ou abaixo dos mínimos”, assegura Fernando Curto, dias após ter sido conhecido um documento relativo ao estatuto dos bombeiros profissionais que já foi alvo de várias críticas e cujas linhas orientadoras deverão ser reformuladas.

“Eu não consigo entender que o Governo queira reduzir o salário dos sapadores. (…) nem que os políticos pensem que um bombeiro deve andar a apagar fogos aos 50 e tal ou 60 anos”, atira, convicto de que “a não definição de todas estas situações pode contribuir para uma má prestação de socorro”.

Além de presidente da presidente da Associação Nacional de Bombeiros Profissionais, é também bombeiro...

Eu sou bombeiro há 32 anos, comecei aos 20. Tenho quase idade para me reformar e ainda cá ando, o Governo não me deixa reformar.

Não gosto que nos coloquem o rótulo de heróis porque nós não o somos

Há alguma peripécia insólita por que tenha passado durante a carreira?

Quando era sapador bombeiro, além de muitas situações que acontecem nas grandes cidades, fomos chamados de madrugada para apanhar uma salamandra que estava no teto de uma casa, cuja dona estava em pânico. Chegámos lá, tirámos a salamandra, acalmámos a senhora e correu tudo bem. Noutra altura, fui chamado para uma situação de uma senhora idosa que deixou cair o soutien para o fundo do saguão [pátio interior] do prédio. Lá fui eu buscar o soutien à senhora. Isto é o trivial das grandes cidades, que nada tem a ver com o socorro que se faz todos os dias.

Já foi também para frentes de fogo. Em que é que um bombeiro pensa quando enfrenta as chamas?

Depende do tipo de incêndio. Em primeiro lugar, há um referencial que todos aprendemos quando nos tornamos bombeiros. Quando somos chamados, a central comunica ao chefe que lidera o serviço que tipo de incêndio é e nós vamos preparados para isso. Naquele momento não pensamos em muito, pensamos no que temos de fazer, estabelecemos as regras que estão implementadas. Se a ocorrência for com pessoas, atuamos de uma maneira, senão atuamos de outra.

Não há emoção à mistura nesses momentos?

Claro que há. Nós estamos um pouco curados em relação à adrenalina dos incêndios. Temos como princípio, enquanto bombeiros profissionais, que só estamos a produzir para o país quando não fizermos rigorosamente nada, ou seja, os bombeiros estão cá numa perspetiva de prevenção e quando estão a trabalhar é sinal de que alguma coisa está a correr mal para as pessoas e para o país. Nos primeiros tempos, há sempre adrenalina, mas vai-se diluindo ao longo dos anos. É lógico que quando há pessoas, quando atuamos com crianças ou idosos, há uma intervenção diferente e é lógico que vamos com um cuidado e preocupação maiores.

O bombeiro é recorrentemente apelidado de herói pela coragem demonstrada no combate aos incêndios florestais que lavram com especial incidência no verão.

Sim, é precisa coragem. Mas há uma coisa que gostava de dizer: nós não somos propriamente heróis e às vezes vejo discursos um bocado miserabilistas, se me permite a expressão. Os bombeiros não são isso, os bombeiros são técnicos. Eu não gosto que nos coloquem o rótulo de heróis porque nós não o somos. A população indiretamente fá-lo, é normal, mas eu enquanto bombeiro não tenho de o fazer, tenho de interiorizar que tenho uma profissão de risco, que tenho de ter o maior cuidado possível na minha intervenção e de fazer o meu trabalho da melhor forma possível. Por isso é que às vezes sou muito pragmático no que tem a ver com as intervenções e, sendo bombeiro há tantos anos e tendo passado pelos postos todos a nível de progressão na carreira, mais preocupado estou quando assisto a determinadas situações.

O facto de não sermos heróis pode colocar-nos em risco. Por exemplo, não concebo que, estando o último andar de um prédio a arder, os bombeiros se coloquem por cima do telhado a intervir. Isso, que já aconteceu nalguns casos, é uma situação de suicídio total. Precisamos de não ter esse heroísmo e adrenalina para, quando estamos na frente de fogo, sabermos raciocinar, receber ordens e ser conscientes dos riscos.

Não conseguimos entender que os políticos pensem que um bombeiro deve andar a apagar fogos aos 50 e tal ou 60 anosComo é que olha para o novo estatuto dos bombeiros profissionais que está a ser pensado pelo Governo?

Nós estamos um bocado perplexos. Houve um documento de que estamos há 10 anos à espera e o secretário de Estado da Administração Interna, Jorge Gomes, já veio dizer em ofício que este documento não deve ser tido em conta. Estamos à espera de ser consultados para que possamos discutir isto junto do secretário de Estado, que já tem a proposta da ANBP. Há duas situações relativas ao estatuto que são para nós extremamente importantes. Uma é a situação remuneratória: não nos vemos a ganhar menos, já basta que o anterior governo nos tirasse dinheiro que é nosso.

A outra questão é a da aposentação: nós não conseguimos entender que os políticos pensem que um bombeiro deve andar a apagar fogos aos 50 e tal ou 60 anos. O que defendemos é que haja uma reorganização que faça com que os bombeiros entrem mais cedo (aos 20 ao invés dos 25/27 anos) e saiam mais cedo da profissão.

A estas duas linhas principais juntam-se questões em torno da formação, a uniformização da carreira dos bombeiros municipais, o estatuto dos bombeiros profissionais de associações humanitárias… Isto tem de ser revisto de uma vez por todas, nós estamos cansados de esperar e estamos cansados de que as coisas não nos corram bem. Porque a não definição de todas estas situações pode contribuir para uma má prestação de socorro.

O documento elaborado pelo Governo prevê uma redução do salário dos bombeiros sapadores.

Trata-se de equiparar o salário dos bombeiros municipais e sapadores, tendo em conta que os bombeiros municipais ganham menos do que os bombeiros sapadores. Mas, a balizar os valores, tem de se balizar pelas remunerações dos bombeiros sapadores. Não consigo entender – e acho que não é isso que vai acontecer – que o Governo queira reduzir o salário dos sapadores.

Em Portugal, temos uma força de bombeiros da Autoridade Nacional de Proteção Civil, que tem uma tabela remuneratória muito acima da dos bombeiros municipais. E o que se pretende é uma uniformização de valores, quer se trate de funcionários públicos ou de profissionais de associações humanitárias, porque os incêndios que cada um extingue não são diferentes. Se nos equiparamos à Função Pública para determinada regulamentação, por que razão não havemos de nos equiparar no que diz respeito à situação remuneratória?

Há uma outra questão que tem a ver com a saúde: acho que todos os bombeiros (incluindo os voluntários) devem poder usufruir de assistência médica e medicamentosa no âmbito da ADSE. Além disso, estamos a discutir a criação de um fundo financeiro que permita termos sustentabilidade para situações de aposentação e assistência médica e medicamentos. Trata-se de algo semelhante à Caixa Geral de Aposentações. A proposta está a ser discutida no âmbito do Ministério do Trabalho e estou com perspetivas de que venha a concretizar-se.

Prevê-se que o estatuto do bombeiro fique concluído quando?

A senhora ministra diz que até ao final do ano o documento vai ser aprovado. O que nós defendemos em termos de timing é que a uniformização de bombeiros sapadores e municipais deveria demorar três anos, até para as câmaras terem tempo para enquadrar tudo isto. Há um trabalho muito grande que não se faz de um dia para o outro. É curioso, porque ainda não vimos esta proposta em lado nenhum.

Continua a haver um desequilíbrio muito grande entre a prevenção e o combate

A cada verão que passa, o país é fustigado por incêndios e repetem-se as promessas para o ano seguinte. O Governo apostou o suficiente na prevenção para que o próximo verão seja mais calmo?

Ainda que se invista este ano ou no anterior, a prevenção só irá dar frutos daqui a muito tempo. É algo que não se vê, daí que não se invista muito nela. E efetivamente continua a haver um desequilíbrio muito grande entre a prevenção e o combate. Enquanto não invertermos isto, haverá incêndios.

Há uma coisa que acho anedótica: em todos os municípios há bombeiros voluntários ou profissionais e grande parte dos incêndios é provocada por queimadas feitas no período de pousio. Por que razão as câmaras, os bombeiros, os comandantes distritais não fazem nas casas do povo, por exemplo, uma reunião com todos os agricultores e pastores e perguntam que queimadas precisam de fazer? Corrigia-se aqui uma lacuna. Continua a haver incêndios provocados por queimadas, mas os pastores e agricultores têm de fazer as queimadas. Se eles não forem ter com os bombeiros, os bombeiros têm de ir ter com eles.

Que outras medidas de prevenção devem ser aplicadas? Todos os anos se fala em prevenção.

Nas matas do Estado, o Estado tem de colocar alguém para fazer limpeza, criar asseio e possibilitar aos bombeiros chegarem rapidamente. Nas outras, tem de obrigar os proprietários a limpar no mínimo o que faz parte da sua propriedade. Uma das coisas boas inscrita no Dispositivo Especial de Combate a Incêndios Florestais (DECIF) para 2017 é reativar os postos de vigia (por escuteiros, polícia, GNR, voluntários…), que haviam acabado há uns anos. Isso dá-nos meios para que a informação chegue o mais rápido possível aos bombeiros e para que a probabilidade de o incêndio tomar grandes proporções seja menor.

Agora parece que os militares da GNR, os polícias e as tropas vão apagar incêndios, o que é outra estupidezO Governo tem-se mostrado empenhado em ajudar os bombeiros, tal como manifestou no final do verão passado?

Sim, tudo está bem feito e organizado no que diz respeito ao dispositivo. A única questão que se coloca é a da intervenção, ou seja, não se pode ter um dispositivo com bombeiros voluntários pagos a dois euros à hora. Isto é uma guerra dos bombeiros contra o fogo. Tem de haver uma força conjunta, profissional e rápida que permita abafar o incêndio. O único senão é continuarmos todos os anos a procurar nas associações humanitárias bombeiros a quem se paga dois euros à hora. Agora parece que os GNR, os polícias e as tropas vão apagar incêndios, o que é outra estupidez. Eu também não me vejo de arma na mão a combater nada nem sou polícia para passar multas. Eles não têm formação suficiente e parece que o Governo quer por a GNR a fazer tudo neste país.

É uma solução que se deve à falta de bombeiros?

Também. Há falta de bombeiros voluntários e profissionais, porque não se substituem os bombeiros que vão para aposentação. Há aqui um desequilíbrio. Podem dar-nos todas as condições do mundo para intervir num incêndio, mas se eu não tiver homens o que é que faço? A questão salarial pode fazer com que valha a pena ter esta profissão, mas ninguém quer arriscar a vida por 600 euros, mais vale ir trabalhar num supermercado, por exemplo.

Quantos bombeiros são formados anualmente em Portugal?

Formamos muito poucos, uma média de 100 bombeiros sapadores e municipais por ano, e vão para a aposentação cerca de 200. Há oito anos, desde o início da crise, que estamos em défice. Foi o governo anterior que parou os concursos e as promoções.

Em relação aos bombeiros voluntários, tanto quando sei também há falta de pessoal, mas não podemos ficar escandalizados com isso porque todos têm outras profissões. As pessoas saem do seu trabalho ao final do dia, vão fazer o piquete nos bombeiros voluntários durante a noite e voltam para o seu trabalho na manhã seguinte. É um desgaste físico muito grande. Daí que os bombeiros voluntários terão de ser sempre um complemento.

Como é que se resolve este problema?

Resolver o problema é ter equipas de primeira intervenção (que já existem) nas associações humanitárias. Quando há uma situação de socorro, estão lá os profissionais. Estes voluntários coadjuvam mas, se forem trabalhar às 9 horas da manhã do dia seguinte, devem ir embora às 3 ou 5 horas da manhã e ser substituídos.

Para que tal acontecesse era preciso haver mais bombeiros profissionais e mais voluntários?

Tal e qual. Em Portugal há 425 associações, sendo que cada associação tem em média 30 bombeiros profissionais que asseguram as primeiras intervenções. Nós não podemos viver como vivíamos no século XVI, temos de nos virar para o futuro. Podemos correr o risco de em Portugal ter ataques terroristas e, se acontecer, qual é a nossa resposta?

Não menosprezo os voluntários, mas estes não podem servir para primeira intervenção. É uma utopia, não apenas pela questão da preparação, mas sobretudo pelo desgaste físico. Ao fim de três horas a a combater um fogo no teatro de operações, uma pessoa fica KO. Como é que esta gente aguenta? Não aguenta, não há super-homens. É humanamente impossível uma pessoa estar sete horas a combater o fogo sem pôr a sua vida em risco. Ou criamos um novo paradigma no que diz respeito a toda esta organização – e a ministra [Constança Urbano de Sousa] deu-nos essa perspetiva quando tomou posse – ou alguém vai ter de assumir a responsabilidade por alguma situação que venha a ocorrer.

Se houver um terramoto e a cidade de Lisboa ficar inoperacional, quem é que socorre na área metropolitana? Não conheço bombeiros com meios suficientes

O Ministério da Administração Interna tem ido de encontro às vossas necessidades?

A ministra e o secretário de Estado têm estado disponíveis para mudar tudo isto. Tenho a noção de que não é de hoje para amanhã, mas também tenho a noção de que têm de arrepiar caminho rapidamente. Se este Governo não o fizer, vai adiar para o outro, que vai adiar para o outro, e as coisas complicam-se. É necessário o associativismo e valorizar as pessoas, mas o pragmatismo e fundamentalismo na nossa profissão são o mais importante.

Temos falado de um incêndio florestal ou urbano, mas podemos falar de um atentado terrorista, de um terramoto. Se houver um terramoto e a cidade de Lisboa ficar inoperacional, quem é que socorre na área metropolitana? Não conheço bombeiros com meios suficientes, com toda a franqueza. Os bombeiros da periferia não têm viaturas e homens como há em Lisboa. São estas questões que os políticos deviam debater, ao invés de as evitar ou adiar.

O terramoto de 1755 aconteceu há uns anos, mas os especialistas dizem que pode repetir-se. Se na capital do país estamos bem preparados e temos equipamentos, porque é que os outros não podem ter? Na eventualidade de haver um terramoto em Lisboa e os meios ficarem inoperacionais, temos de ter ajuda do resto do país. Mas se no Porto ou em Setúbal não têm meios suficientes como é que vêm para Lisboa?

Os meios que existem atualmente são proporcionais aos riscos dos municípios, mas o que deveríamos ter era uma salvaguarda. Deveria haver uma força de reserva que estivesse disponível para intervir. Nós estamos sempre nos recursos mínimos ou abaixo dos mínimos. Há dinheiro para tudo, menos para os bombeiros e para a proteção civil. Acho que os políticos já se deram conta de que não podem adiar mais este problema.

Aproxima-se o verão e está a começar a época de incêndios. Há meios suficientes a postos para combater os fogos?

Eu sou contra a instituição de épocas de incêndios florestais, inundações, etc. Isto não tem de se instituir, é uma palermice. As autoridades têm de estar sempre preparadas – com uma estrutura montada – para tudo o que acontecer. Mas sim, todos os anos há meios suficientes. Ao longo dos fogos é que vão deixando de existir, porque há o cansaço, há as rendições e há a durabilidade dos incêndios, que é muita. Também não podemos ter um bombeiro por cada pinheiro. A questão da ajuda internacional para o combate a incêndios é normal e é pacífica.

A questão que se coloca é haver sempre meios disponíveis para nós intervirmos, isso tem de haver. E há uma coisa que devia ser feita todos os anos e que, teimosamente, não se faz. Era preciso tirar conclusões daquilo que correu mal no ano anterior e eu nunca me apercebi de que isso tenha sido feito.

Grande parte dos incêndios é provocada propositadamente, o que é preocupante.

Nós não controlamos os pirómanos, os malucos. O que temos de fazer é arranjar meios de prevenção. E prevenir é pôr a GNR a patrulhar as zonas referenciais das florestas ao invés de pôr os militares inseridos no fogo, que é uma vergonha.

O que leva os incendiários a provocar fogos? São interesses económicos?

Não, a maior parte tem a ver com um desequilíbrio dessas pessoas. É o prazer do fogo, considerado por si só algo desafiante pelas pessoas desequilibradas. Acho que não há interesses económicos, até porque a desvalorização da madeira queimada faz com que não valha muito para a celulose. Não conheço nenhum terreno usado para retirar celulose que tenha ardido.

De que forma se pode atuar para dissuadir os incendiários? Falta sensibilização ou devem ser aplicadas penas mais pesadas?

Não acredito que seja pelas penas, mas pela prevenção e realização de campanhas de sensibilização. Vejo poucas campanhas e pouco trabalho junto dos jovens. Tem de haver um investimento muito grande nesta geração para obter resultados no futuro.

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