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"O fascismo pode estar a ser guardado mais uma vez como arma de recurso"

João Oliveira, entrevistado de hoje do Vozes ao Minuto, passa em revista alguns dos temas quentes da União Europeia e da política internacional, em que o PCP evidencia uma visão diferente dos demais partidos portugueses, como é o caso da situação da Venezuela.

"O fascismo pode estar a ser guardado mais uma vez como arma de recurso"
Notícias ao Minuto

03/05/17 por Notícias ao Minuto

Política João Oliveira

Em entrevista ao Notícias ao Minuto, João Oliveira explica-nos aquela que é a visão do partido em relação à crise da Venezuela, a forma como os "movimentos de oposição" têm destabilizado o governo de Nicolás Maduro, procurando a violência, e por fim, a intervenção externa. E não tem dúvidas: "Assistimos a isto durante as ditas Primaveras Árabes".

João Oliveira defende uma "rutura com a submissão" do país à União Europeia, mas ressalva que é "muito importante que não se coloque todas as objeções à UE no mesmo saco do nacionalismo, da xenofobia e da extrema-direita".

Socorre-se dos resultados das eleições francesas para lembrar que a história é cíclica e que é preciso fazer uma "aprendizagem histórica" para evitar que se coloquem "os herdeiros do fascismo no mesmo patamar dos herdeiros de quem o combateu". Porque isso significa branquear "todo o sofrimento e destruição e martírio".

Tenho de lhe perguntar, por que razão o PCP se absteve no voto de condenação relativamente à perseguição da comunidade gay na Chechénia?

Porque apesar de termos procurado elementos que pudessem comprovar os factos que eram ali alegados, nunca conseguimos fazer. É tão simples quanto isso. Não temos a certeza de que aqueles factos tenham efetivamente ocorrido. Embora tenhamos feito um esforço grande para procurar informação sobre isso, não conseguimos confirmar. É apenas por essa razão.

Confirmando-se, é óbvio que merece a condenação do PCP, como de resto faria qualquer partido político. A confirmar-se é de facto grave contra os direitos humanos, a questão é que nós não sabemos. Não há elementos nenhuns que comprovem que as alegações são reais. O facto de as alegações terem sido feitas por uma publicação que se chama Gazeta, no dia 1 de abril, não é um elemento muito tranquilizador relativamente à veracidade do que é alegado.

Na Venezuela há movimentos ditos de oposição que têm promovido a sabotagem económica, com o objetivo de provocar o descontentamento popular, procurando responsabilizar o governo

E no caso da Venezuela? Pegando nas palavras da deputada do PSD, Sara Madruga, o PCP, ao falar em ingerência externa, não está, de certa forma, a "branquear um regime antidemocrático"?

Repare, o PSD e o CDS, que durante os quatro anos que foram governo, nunca enjeitaram as relações entre os dois Estados, podendo aproveitar-se do petróleo a preços baratos que da Venezuela chegavam, nunca suscitaram esse tipo de apreciações que hoje suscitam. A questão não pode ser colocada nesses termos. Na Venezuela há movimentos ditos de oposição ao governo venezuelano que têm promovido a sabotagem económica e açambarcamento de bens essenciais que conduz, por exemplo, à falta de pão, com o objetivo de provocar o descontentamento popular, procurando responsabilizar o governo.

Pelos vistos, o PSD e o CDS colocam-se do lado do apoio a todo esse tipo de movimentos, procurando um quadro que nós já assistimos anteriormente. Assistimos a isto durante as ditas Primaveras Árabes, em que se apresentava exatamente o mesmo quadro de destabilização que justificava depois a ingerência e a agressão a estados soberanos. Vimos isto a acontecer na Líbia. Temos visto acontecer nos últimos seis anos em relação à Síria. Vimos isto acontecer num quadro muito alargado de países.

Mas não vê no regime de Nicolás Maduro caraterísticas anti-democráticas?

Não é um governo, são sucessivos governos de um país como a Venezuela que permitiram aos venezuelanos terem acesso a direitos e a condições de vida, de trabalho, de melhoria das condições de saúde, melhorias das condições de vida a milhões de venezuelanos que nunca em geração alguma tinha alcançado esses direitos.

Há quem não esteja conformado com isso, mas nós valorizamos muito os passos progressistas que têm sido dados em muitos países da América Latina, não só na Venezuela, como no Brasil, Bolívia e noutros países, em que essas opções de políticas progressistas permitiram melhorar a vida de milhões de pessoas humanas. É óbvio que tendo de enfrentar a pressão, ameaças e chantagem principalmente dos Estados Unidos que durante décadas controlaram as riquezas naturais, todos os bens daqueles países, à custa da miséria dos seus próprios povos. Valorizamos muito o desenvolvimento enorme que a América Latina teve nas últimas décadas, em função dos processos progressistas.

Não temos obviamente a mesma perspetiva do governo venezuelano que tem o PSD e o CDS que estão comprometidos com o antigamente, com o processo de miséria e pobreza que graçava na América Latina. Nós estamos do outro lado, do lado da defesa do progresso social e económico, da democracia e da justiça social.

E sobre a nossa União Europeia, ainda lhe vê algum futuro?

A União Europeia julgo que não. O quadro em que está a UE de profunda crise confirma que a UE é uma construção que tem os seus alicerces e opções políticas que não correspondem aos interesses e aos direitos dos povos. São cada vez mais os exemplos do afastamento e descontentamento dos cidadãos dos povos europeus em relação à UE. E isso tem causas económicas e sociais, tem origem nas políticas de ataque aos direitos laborais e sociais, de empobrecimento, de destruição de conquistas de vida a que as pessoas assistem diariamente.

Essa origem económica-social do afastamento dos cidadãos da UE coloca como necessidade, não o aprofundamento do caminho que levou a esta situação, mas sim a rutura com esse caminho e a afirmação da soberania dos povos, mas sobretudo a perspetiva de os Estados e os povos devem relacionar-se numa base de cooperação e solidariedade, de relações bilaterais de mútuo respeito pela soberania de cada um dos povos.

É muito importante que não se coloque todas as objeções à União Europeia no mesmo saco do nacionalismo, da xenofobia e da extrema-direitaÉ cada vez mais essa a vontade expressa dos povos?

As eleições francesas confirmam vários desses elementos. Por um lado, esse sentimento de rejeição em relação à União Europeia (UE). Por outro lado, o perigoso aproveitamento que pode ser feito desse sentimento que existe por parte das forças da extrema-direita. É muito importante que não se coloque todas as objeções à UE no mesmo saco do nacionalismo, da xenofobia e da extrema-direita.

Primeiro, porque isso significa branquear a extrema-direita e o fascismo. Colocar os herdeiros do fascismo no mesmo patamar dos herdeiros de quem o combateu significa branquear o fascismo e todo o sofrimento e destruição e martírio que foi causado aos povos europeus no século XX. Os objetivos da extrema-direita são contrários quando afirmam o seu descontentamento em relação à UE, defendendo menos democracia e menos liberdades. Opõe-se à UE mas é porque defende menos direitos laborais e sociais ainda do que aqueles que a UE já reduz a uma expressão muito limitada. Se os povos querem mais liberdade, mais democracia, mais progresso, mais justiça social, a extrema-direita representa o contrário de tudo isso. Não se pode dizer que a oposição à UE possa ser metida no mesmo saco das posições da extrema-direita.

E de que forma se pode fazer levar os cidadãos descontentes com a política atual a crer que a alternativa não é mudar radicalmente como a extrema-direita apregoa?

Isso deve ser feito com uma aprendizagem histórica. Não pode ser feito com o branqueamento do fascismo, mas relembrando o que foi o fascismo na Europa. Na Alemanha, Hitler também chegou ao poder depois de se sujeitar a sufrágio e também recolheu o apoio eleitoral daqueles que estavam descontentes com a Alemanha do pós-guerra. Esse quadro de aproveitamento pela extrema-direita do descontentamento popular não é nada que não tenhamos visto já acontecer. é preciso é evitar que esses erros não voltem a acontecer.

A preocupação que podemos colocar aqui é a constatação de que, tal como aconteceu no século XX, o sistema capitalista esteja ainda a olhar para o fascismo como a solução de recurso para conter as suas próprias crises. Tal como recorreu no século XX para conter a crise de 29, podemos estar hoje perante a constatação de que uma vez mais o fascismo está a ser guardado como arma de recurso para uma eventualmente uma resposta que o sistema tenha que dar a uma crise estrutural. A história não se repete mas funciona em ciclos helicoidais que se aproximam muito. A situação que estamos a viver exige da parte dos democratas uma compreensão muito viva e muito real dos perigos para que os possamos evitar.

Se queremos efetivamente um futuro de progresso para o nosso país, temos de considerar a rutura com esse caminho de submissão que só nos tem colocado num buraco cada vez maiorPortugal devia sair o caminho do Reino Unido e sair da União Europeia?

Há uma necessidade de enfrentarmos as imposições rejeitar a submissão à UE, penso que isso é claro. Quando falamos com agricultores, pescadores, com industriais, comerciantes, enfim, os trabalhadores, toda a gente percebe os prejuízos que o país tem sofrido em resultado dessa submissão.

O caminho tem de ser o oposto, o da rejeição, num processo que é complicado e complexo e em que é preciso enfrentar os interesses das grandes potências europeias que vão criando e acumulando poder à custa da destruição das economias nacionais de outros países, à custa da destruição de outros povos, que constroem o seu desenvolvimento à custa do atraso de outros, em que se inclui Portugal. Isso é obviamente um processo difícil que tem de ser enfrentado. Se queremos efetivamente um futuro de progresso para o nosso país, temos de considerar a rutura com esse caminho de submissão que só nos tem colocado num buraco cada vez maior.

Rejeitar essa política significa sair da União Europeia?

Significa em primeiro lugar enfrentar. Significa tomarmos as nossas opções em função dos nossos interesses nacionais e não em função dos interesses de outros países mais poderosos. Significa fazer esse processo que tem de ser, em primeiro lugar, um processo de enfrentamento.

Sem se fazer esse processo, nós nunca chegamos a ter consciência do quadro exatamente em que estamos a olhar para o futuro e de ir construindo um caminho para o que prevaleça seja a defesa do desenvolvimento do país, da melhoria das condições de trabalho e do povo, de um progresso que seja de respeito pela nossa soberania.

Pode ler a primeira parte desta entrevista aqui

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