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"Se não arranjasse a Geringonça, Costa era corrido do Partido Socialista"

Profundamente crítico em relação ao Executivo de António Costa, a quem acusa de ser o “número dois de José Sócrates”, Duarte Freitas atribui a Passos Coelho um sentido de grande “institucionalidade” – por vezes até “demais” – e diz considerar que “o Partido Socialista quer ser poder e oposição ao mesmo tempo”.

"Se não arranjasse a Geringonça, Costa era corrido do Partido Socialista"
Notícias ao Minuto

29/03/17 por Goreti Pera

Política Duarte Freitas

Duarte Freitas é um dos entrevistados da semana do Vozes ao Minuto. O líder do PSD/Açores diz-se convicto de que, “se não arranjasse a Geringonça, Costa era corrido do Partido Socialista” e que “o PS acha-se dono do regime sentindo-se impune em relação a tudo”.

A José Sócrates atira duras críticas, mas não só. Também aos “nove ministros que vêm do tempo” do antigo chefe de governo, sobre quem incide a pergunta que deixa no ar: “Será que é só José Sócrates ou é todo o regime socialista que cometeu o que terá cometido e que a justiça está a averiguar?”.

Como avalia o trabalho que tem sido feito pelo Governo Regional, liderado por Vasco Cordeiro, e pelo Governo nacional de António Costa?

O poder socialista, que se foi instalando e cristalizando na região, vive mais para a sua própria manutenção do que para resolver os problemas que se vão perpetuando e até agravando. Está no ADN do PS. Mesmo a nível nacional, o PS acha-se dono do regime sentindo-se impune em relação a tudo. Tivemos uma tragédia nacional que se chamou José Sócrates e da qual resultou uma bancarrota e temos um atual Governo com nove ministros que vêm do tempo de José Sócrates. Metade do atual Governo tem toda a marca de José Sócrates. António Costa foi o número dois de José Sócrates, é o Sócrates versão dois que ainda não trouxe a tragédia a Portugal por duas razões: porque o BCE está a amparar em termos de financiamento externo e porque não há contestação interna, uma vez que PCP e Bloco de Esquerda são do Governo. São, não sendo. São quando lhes interessa e não são quando não lhes interessa. Mas a verdade é que amarram e apagam qualquer contestação pública que exista.

António Costa foi o número dois de José Sócrates, é o Sócrates versão dois Fala de um sentimento de impunidade do Partido Socialista, mas certo é que temos um antigo primeiro-ministro socialista que esteve preso e é arguido num processo [Operação Marquês].

Ele está neste momento com um processo judicial. Este é o exemplo máximo do sentido de impunidade do PS: é que quem está à frente do partido e do Governo são os que estavam ao lado de José Sócrates. Será que o suspeito é só José Sócrates? Será que é só José Sócrates ou é todo o regime socialista que cometeu o que terá cometido e que a justiça está a averiguar? Há a componente judicial, mas toda a entourage estava lá como está hoje, como se nada fosse, deixando Sócrates debaixo da alçada da justiça.

O PS acha-se dono do regime sentindo-se impune em relação a tudoAcha que, se Sócrates prevaricou em termos criminais, os nove ministros que estão hoje em dia no Governo e estavam com ele não sabiam de nada? Estão como se nada fosse, como se o culpado de alguns problemas tivesse sido o anterior governo e não eles próprios, que foram solidários e fraternos com José Sócrates. Acha normal que o PSD não tenha acusado isto? Se eu estivesse no lugar de Passos Coelho, nos últimos quatro anos não passaria um dia em que não dissesse que Sócrates, António Costa, Armando Vara e todos os responsáveis do PS é que eram aqueles que deviam ser acusados. Isto simplesmente não foi feito devidamente porque não faz parte do ADN do PSD. Mas talvez devesse fazer um pouco mais.

Discorda da postura dos políticos de não comentarem assuntos que dizem respeito à justiça?

É verdade que se diz ‘à justiça o que é da justiça e à política o que é da política’. Há um processo judicial em curso, mas ainda antes disso havia elevadas responsabilidades políticas de José Sócrates, de António Costa e de toda a entourage socialista, que vieram a confirmar-se pela incidência judicial. Mas englobada nisto está uma forte responsabilidade política, porque mais de 90% do PS elegeu José Sócrates nos sucessivos congressos. A justiça há de averiguar quais são as matérias objeto de incidência criminal, mas a responsabilidade política de termos tido um indivíduo como José Sócrates uns anos impunemente no Governo é de toda a entourage socialista, começando por António Costa. Eu, se fosse alto responsável de partido que tivesse um ex-primeiro-ministro com fortes suspeitas que recaem sobre José Sócrates, tinha vergonha.

Tivemos um governo anterior que naturalmente cometeu erros, como cometem todos

Considera que o atual Governo tem conseguido compensar eventuais erros do passado? Os resultados no que toca ao défice provam de que a estratégia tem surtido efeito?

Há outra característica do PS que passa por todas as lideranças: além da lógica de se sentirem donos do regime e impunes, põem sempre em primeiro lugar o partido e a lógica de manutenção do poder em função do que deveria ser o interesse institucional. Tivemos um governo anterior que naturalmente cometeu erros, como cometem todos, mas que tinha um sentido institucional muitíssimo forte, nalguns casos até forte demais. O PS não tem vergonha e revela permanentemente um sentido de pragmatismo politico-partidário acima de qualquer outro interesse. Se é preciso manter o défice baixo, nem que seja de forma artificial, mantém-se. Nem que se reduza o investimento público a zero.

Acha que o défice foi reduzido de forma artificial?

O défice foi reduzido e ainda bem em termos globais, mas sabemos que boa parte do impacto teve a ver com medidas extraordinárias e com um travão quase a 100% do investimento público. Ora, não é possível ter o investimento público a zero permanentemente.

Forças que dependem do PCP e Bloco de Esquerda anulam qualquer tipo de contestação. Antigamente havia ‘Grândulas’ às medidas que eram tomadas pelos governos anteriores por causa de pagar a bancarrota socialista. Hoje em dia, passe-se o que se passar, ninguém vem fazer barulho.

O médico que curou Portugal é que levou as culpas pela doença causada pelo PS

Como é que explica que em sondagens recentes o PS surja 10 pontos acima do PSD, sem roubar eleitorado ao PCP e Bloco de Esquerda?

Eu acho que o PSD cometeu um erro muito grande quando esteve coligado com o CDS-PP, que foi não ter acusado o PS, José Sócrates e António Costa e todos os seus correligionários daquilo que fizeram a Portugal. Na altura dizia-se ‘Não vamos olhar para o passado, temos de resolver os problemas do futuro’, mas com este ADN do PS não se pode fazer isso. Foi um erro grave porque a cada medida difícil que teve de se tomar devia-se ter apontado o dedo e acusado os responsáveis que levaram à pilhagem de Portugal. Ainda hoje, os maiores problemas na Caixa Geral de Depósitos (CGD) têm a ver com Armando Vara e com os amigos de José Sócrates e de António Costa. O PSD e o PP não deviam ter deixado descansar a oposição que levou Portugal à desgraça.

Não o tendo feito, assumiram toda a responsabilidade pelas medidas difíceis que iam tomar e agora – que a fase mais difícil já passou e estamos a começar a consolidar – quem vem recolher o fruto é o Partido Socialista. O médico que curou Portugal é que levou as culpas pela doença causada pelo PS. Depois de começada a cura, vem o mesmo PS aproveitar os primeiros sinais de saúde para tentar capitalizar e, com as verbas disponíveis, contentar grupos de interesse e com isso subir nas sondagens.

Portugal teve uma sorte histórica, que foi ter encontrado uma pessoa séria num momento muito difícil. Passos Coelho foi alguém que colocou os interesses de Portugal acima de quaisquer outrosComo é que olha para o papel de Passos Coelho enquanto líder da oposição? Foi alvo de alguma críticas por ter um papel pouco ativo durante o primeiro ano e há quem diga até que não se descolou o papel de chefe do Executivo.

Eu acho que Portugal, no meio de muitos azares históricos, teve uma sorte histórica, que foi ter encontrado uma pessoa séria e com um perfil institucional num momento muito difícil. O país teve essa sorte porque [Passos Coelho] foi alguém que colocou os interesses de Portugal acima de quaisquer outros. Na minha visão, devia ter apostado mais na componente político-partidária, devia ter colocado os responsáveis pelo desastre de Portugal debaixo de fogo permanente. Mesmo assim, Pedro Passos Coelho ganhou as eleições a António Costa que, se não arranjasse a Geringonça, era corrido do Partido Socialista. Arranjou a Geringonça para se salvar a si e não a Portugal.

Depois de uma fase inicial, acho que hoje em dia Passos Coelho está a ser assertivo e sabe que contra o PS só se pode estar em campanha permanente, não se pode facilitar. O maior partido da oposição tem responsabilidade de denunciar não só o que devia ter denunciado antes como aquilo que hoje em dia está a ser feito e poderá a prazo ter grandes consequências para Portugal.

Se não arranjasse a Geringonça, Costa era corrido do Partido Socialista

Os debates entre Pedro Passos Coelho e António Costa têm sido acesos. Acha que há crispação ou ressabiamento?

Crispação é normal que haja. Antes, quando PSD/CDS não atacava, estava tudo bem. Agora que há um poder que critica a oposição e uma oposição que, naturalmente, escrutina o governo chamam-lhe crispação. Talvez. Eu acho que é dialética política. Essa crispação muitas vezes interessa mais ao Governo porque é através dela que arranja subterfúgios para não responder às questões que são colocadas no Parlamento. Em relação ao ressabiamento, Passos Coelho tem um sentido tão institucional que não é homem de ressabiamento, é um homem de convicções. Sabe fazer política mas coloca as questões político-partidárias em segundo plano.

Hoje em dia, o Partido Socialista quer ser poder e oposição ao mesmo tempo. Quer ser poder metendo no bolso o Bloco de Esquerda e PCP e quer ser oposição porque ataca a oposição. Quer o melhor dos dois mundos e sabe fazer isto muito bem.

Um mau resultado para o PSD nas eleições autárquicas pode comprometer o lugar de Passos Coelho da liderança?

Acho que não, são eleições distintas que mobilizam todo o partido em termos locais. São milhares de eleições feitas ao mesmo tempo que não responsabilizam as lideranças partidárias.

A demora do PSD em anunciar um candidato à Câmara Municipal de Lisboa denota alguma fragilidade?

Devo-lhe confessar que a minha preocupação como líder do PSD/Açores é ouvir as estruturas concelhias dos Açores para encontrar as melhores soluções, os melhores protagonistas e as melhores estratégias para as eleições autárquicas. Não tenho seguido com particular atenção as questões autárquicas nacionais. Estou convicto de que serão encontradas as melhores soluções para cada uma das autarquias a nível nacional.

Teresa Leal Coelho é a melhor opção para a Câmara de Lisboa?

Como lhe disse, não tenho seguido a incidência das decisões a nível nacional. Certamente, por aquilo que vou sabendo das estruturas distritais e concelhias, estão a tentar encontrar as melhores soluções em cada uma das autarquias. Acredito que Teresa Leal Coelho será a melhor solução para a Câmara de Lisboa.

Marcelo é o primeiro político que nas eleições venceu em todas as freguesias dos Açores

O Presidente da República já visitou a Madeira e prometeu uma visita aos Açores este ano. Há algum recado que gostasse de lhe dar numa eventual visita?

O Presidente virá aos Açores duas vezes, uma no Santo Cristo (final de maio) e outra no Dia dos Açores (5 de junho). O recado que tenho para lhe dar é a satisfação que tenho por uma personalidade que eu apoiei como candidato a Presidente da República ter atingido um feito absolutamente inédito: é o primeiro político que nas eleições venceu em todas as freguesias dos Açores. Tem um forte apoio desta região e está a fazer um trabalho de grande responsabilidade.

A expectativa que tenho na sua vinda aos Açores é de que possa, por um lado, promover a imagem dos Açores em Portugal e no mundo e, por outro, exercer alguma influência para que o equilíbrio de poderes que não existe nos Açores possa ser melhor atingido.

Marcelo Rebelo de Sousa tem sido particularmente criticado pelo seu próprio partido pela relação próxima com o Governo. Partilha da opinião de que, de certa forma, está a 'trair' o PSD?

Marcelo Rebelo de Sousa está a exercer o seu mandato com alto sentido institucional. Haverá momentos em que as pessoas poderão ficar mais ou menos agradadas com as decisões do Presidente da República, mas eu acho que ele está a ser verdadeiramente o Presidente de todos os portugueses.

*Pode ler a segunda parte desta entrevista aqui.

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