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"É como a história do sapo. Estamos a ser aquecidos em lume brando"

Carlos Carreiras, um dos autarcas mais mediáticos do país, é o entrevistado de hoje do Vozes ao Minuto.

"É como a história do sapo. Estamos a ser aquecidos em lume brando"
Notícias ao Minuto

24/03/17 por João Oliveira

Política Carlos Carreiras

É das vozes mais participativas na atualidade política, esteja o seu partido na cadeira do poder ou na da oposição, e conhecido pelas palavras destemidas e tom assertivo com que critica ou elogia quem merece. Foi nas instalações da Câmara Municipal de Cascais – que já lidera há três anos e meio – que Carlos Carreiras nos recebeu para uma entrevista.

Descreve a governação do Partido Socialista e das Esquerdas como uma batalha constante para que o país sobreviva até “ao dia seguinte” e considera que o (baixo) défice é a fachada de uma grossa camada de poeira escondida por baixo do tapete.

Ao mesmo tempo que entende não existirem condições para manter um apoio parlamentar que já divergiu em tantas matérias, o social-democrata fala na Caixa Geral de Depósitos – explicando o dossier ponto por ponto – e ilustra o tema como um exemplo de como este Governo “não governa” e “foge à verdade”.

A Marcelo Rebelo de Sousa, bate palmas e descreve-o não só como “o homem de quem o país precisava”, como também como um líder que inspira o trabalho que faz enquanto autarca.

Já passou mais de um ano desde o nascimento da chamada 'Geringonça'. Que análise faz da governação feita até aqui?

Depende sempre da perspetiva daquilo que cada um considera ser governar. Se pensarmos que governar tem a ver com a forma habilidosa como se vai conseguindo tapar alguns problemas desde que se consiga chegar ao dia seguinte – e essa é a minha perspetiva do Governo, então é uma avaliação positiva. Quem pense que governar é estar disposto a assumir decisões difíceis, que num curto prazo não são propriamente decisões que sejam eleitoralmente favoráveis, mas que têm uma perspetiva a médio-longo prazo e preparam a própria sociedade para o futuro, aí a avaliação tem de ser claramente negativa.

O Governo, até agora, à exceção de uma, falhou todas as previsões que tinha estabelecido. A única que não falhou foi a questão do défice. Mas estamos a reduzir o investimento a níveis que não são sustentáveis a prazo e que não garantem a manutenção de condições mínimas. Por outro lado, se não pagarmos aquilo que gastamos, estamos a aumentar uma dívida que fica escondida. Se juntarmos a isso as medidas extraordinárias que foram tão criticadas no passado mas agora foram repetidas para encaixar dinheiro através de impostos, percebe-se como é que se atinge tais valores.

Portanto, quando Teodora Cardoso diz que a questão do défice foi "um milagre" conseguido à custa de “medidas insustentáveis”, concorda?

Não é só a professora Teodora Cardoso. Todas as análises e economistas, e o próprio ministro das Finanças, que é um economista, também sabe isso. Não estou a acusar o Governo de incompetência. Eles têm competência para saberem o mal que estão a fazer, e isso ainda torna mais grave a abordagem que se faz sobre essas matérias.Se pusermos um sapo numa panela em que a água vai aquecendo, o sapo não salta e morre cozido. Se tivermos uma panela a ferver e o sapo saltar lá para dentro, imediatamente salta e sobrevive. Nós estamos a ser aquecidos em lume brandoVamos olhar para as últimas sondagens, que dão uma maior vantagem ao PS sobre o PSD. É o Governo que está a conseguir levar o barco a bom porto ou é a oposição que tem estado demasiado inerte?

A sociedade em geral – e isso foi identificado pelo Governo – vive do dia a dia e no imediatismo. Um bom exemplo é a grande bandeira do Governo sobre os rendimentos, que foram repostos mas só para parte da população, nomeadamente para a Função Pública. Mas, esses rendimentos, no princípio do mês, recebe-se um pouco mais de dinheiro, mas ao longo do mês vai-se tendo menos dinheiro porque os impostos nunca foram tão elevados. É um bocado como aquela história do sapo. Se pusermos um sapo numa panela em que a água vai aquecendo, o sapo não salta e morre cozido. Se tivermos uma panela a ferver e o sapo saltar lá para dentro, imediatamente salta e sobrevive. Nós estamos a ser aquecidos em lume brando. Isto é uma solução que não augura nada de positivo para o futuro. José Sócrates também nos dizia isso e acabou com um défice de 11%, exatamente por ter escondido um conjunto de dívidas que se veio a constatar que estavam debaixo do tapete.

Agora também há poeira a ser atirada para debaixo do tapete?

Sim, e enquanto lá atrás foi poeira, hoje já estamos a falar de uma poeira bastante mais grossa. As consequências disso só se vão conhecer daqui a uns anos e vai ser duro quando forem apuradas, a mesma coisa que aconteceu quando o Partido Socialista esteve no Governo na última vez e levou o país à pré-banca rota, em que não tinha dinheiro para pagar questões mais elementares como médicos, juízes, professores e teve de ir pedir – a correr e com grande aflição - dinheiro emprestado. Não ter dinheiro para pagar é ir contra o SNS, é combater a escola pública e combater a Justiça democrática.

Seria bom fazer-se o levantamento de quantos bloquistas e comunistas passaram a ter emprego na máquina do Estado 

Como referiu, uma das grandes bandeiras do Governo foi a reposição dos rendimentos. No entanto, há outras matérias que dizem respeito a todo o país e que têm sido temas que se revelaram fraturantes entre os partidos que suportam a atual solução governativa. Caixa Geral de Depósitos, TSU e Carris, são alguns. Acredita que as bases de suporte do atual Governo ainda têm condições para se manter?

Não. As bases que o formaram foram bases oportunistas. A base do Governo é, desde o início, muito frágil. E é isso que temos sentido quando vemos que o PS está refém de uma esquerda mais radical e que, quando chega às linhas vermelhas, ela [a Esquerda] impõe as suas próprias linhas vermelhas e não deixa o Governo governar. Por outro lado, esses partidos beneficiam também por terem hoje a capacidade de influenciar e estar na máquina do Governo – e seria bom fazer-se o levantamento de quantos bloquistas e comunistas passaram a ter emprego na máquina do Estado – que, de outro modo, e por serem uma minoria tão minoritária, nunca teriam acesso a essas possibilidades. 

E quanto à oposição, que análise faz ao trabalho de Passos Coelho e Assunção Cristas?

Não é fácil. Hoje, a comunicação social ouve o Partido Socialista, o Bloco de Esquerda e o Partido Comunista a criar uma narrativa – e já tivemos as consequências das narrativas socialistas no tempo de José Sócrates – que não tem a ver com a realidade, mas que inunda o espaço com meias verdades ou, como em alguns casos, com puras mentiras. Fica muito difícil do ponto de vista mediático contrariar uma mensagem feita nestes pressupostos.

Por outro lado, o PSD e o CDS conseguiram reagir muito bem a uma situação inédita na democracia, que foi ganhar as eleições e não governar. Portanto, tiveram de ajustar e não vão propor soluções que sabem que não funcionam. No caso do PSD, nada do que foi proposto foi aceite pelo Governo. Temos de aguardar que os portugueses tomem consciência daquilo que está a ser – de forma irresponsável – levado a cabo pela maioria parlamentar.

Falando em casos fraturantes, olhemos para a Caixa Geral de Depósitos, que recentemente apresentou prejuízos de valores dez vezes superiores aos de 2015. Como é que tem analisado este tema, desde a recapitalização à troca de mensagens entre António Domingues e Mário Centeno?

Esse é um bom exemplo de como o Governo não governa. Lembremos que o PS dizia ser urgente recapitalizar a Caixa. Passou mais de um ano e só agora é que vai haver recapitalização. Depois, os valores eram de 5 mil milhões de euros. Numa segunda fase, passaram para 3 e agora estão em 1,9 mil milhões de euros. O PSD continua a perguntar para que é que são precisas essas recapitalizações e tem-lhe sido dito que existem imparidades. Imparidades quer dizer que a Caixa emprestou dinheiro a pessoas que não pagaram nem deram garantias. O que temos vindo a exigir é que seja dito quem é que não pagou e quem é que autorizou e avaliou esse risco de não pagar. Nestas matérias, o PS bloqueou na Comissão de Inquérito à CGD e não quer que se apure a verdade. Isto de querer saber quem é que não pagou e quem autorizou esses financiamentos torna-se mais relevante por uma simples razão: É o meu dinheiro, é o seu dinheiro, é o dinheiro de todos nós que agora está envolvido no processo de recapitalização.

Sobre a escolha da uma direção para a CGD, ao omitirem as negociações que fizeram depois de serem apanhados a não poderem fazer aquilo que acordaram, começam a entrar numa situação de negação. Quando se vem a saber que tinham feito isso, já não é uma omissão, é uma mentira. Logo a seguir, e para tentar abafar o tema, arranjaram o dinheiro das offshore, que aparecem como uma grande ilegalidade. Não é ilegal fazer aquelas transferências de dinheiro, o que não foi cumprido foi a publicação das estatísticas dessas transferências.Enquanto o PSD, no ataque soez que sofreu na questão das offshore, teve a posição de ‘apure-se a verdade toda, doa a quem doer’; quando foi o Partido Socialista e a sua maioria, a verdade já não é toda para apurar

Já que falou nas offshore, aproveito para lhe perguntar se, no que toca à transparência, todos os partidos têm, de facto, telhados de vidro?

Já agora, aproveito para repor a verdade do que eu me apercebi segundo a comunicação social: As transferências não terão sido na vigência do Governo. O que está em causa é que o momento em que chegam essas informações, que terão de ser publicitadas, já é na vigência deste Governo e não do anterior.

No entanto, cabia a Pulo Núncio reportar essas transferências.

Não, a esmagadora maioria delas, segundo o que se está a apurar agora, é que já foi na vigência deste Governo. Não a transferência, mas a divulgação.

Voltando à Caixa: PSD e CDS fazem bem em insistir na divulgação dessas mensagem ou deviam mudar o foco para algo mais importante como os valores da recapitalização?

Ponho a questão ao contrário: Se toda a gente já viu as tais mensagens, porque é que os deputados não têm acesso a essas mesmas mensagens? Enquanto o PSD, no ataque soez que sofreu na questão das transferências, teve a posição de ‘apure-se a verdade toda, doa a quem doer’; quando foi o Partido Socialista e a sua maioria, a verdade já não é toda para apurar. São dois pesos e duas medidas que se verificam nestas matérias. Cada um tirará as suas conclusões.

Será que vamos chegar a alguma conclusão ou este vai ser mais um caso caído no esquecimento?

Espero sinceramente que seja apurada toda a verdade, e há todas as condições para que isso aconteça.

Em 365 dias do ano, Marcelo trabalhou 365 dias. Isso mostra a própria fibra do homem, do cidadão, do político que éNuma altura em que aumenta a crispação entre Oposição e Governo, olhemos para Marcelo Rebelo de Sousa. Acha que o seu papel de apaziguador das hostes tem sido bem desempenhado ou devia fazer mais?

A preocupação que eu vejo por parte de Marcelo Rebelo de Sousa é que esta crispação não vá para além das fronteiras porque, se for, deixamos de falar em regras da democracia e falamos já em quebras de regras fundamentais como a verdade. De resto, tem feito um mandato em que tem sido bastante inovador na forma de agir e de atuar enquanto alto magistrado da nação. Há uma matéria que tem sido exatamente igual aos seus antecessores, que é o facto de não ser eleito para fazer oposição ao Governo. Nesse sentido, demonstra que os Presidentes da República, de facto, o que tentam é garantir todas as condições para que o Governo governe.

No entanto, já foram feitas algumas críticas por parte dos sociais-democratas à relação que mantém com o Governo. São 'ciúmes'?

Na política não se funciona por estados de alma. Funciona-se por haver expetativas que são ou não confirmadas. Porventura, quem neste momento não consegue compreender a atuação do Presidente não é uma maioria, é uma minoria daqueles que votaram nele. Os níveis de aceitação do atual Presidente da República nunca foram tão altos em relação à Presidência da República, comparando com os seus antecessores.

Há quem aplauda a sua ligação com o país mas há quem o critique por falar demais….

Vejo duas questões que me têm feito refletir: O Presidente da República tem feito um mandato muito idêntico ao de um presidente de câmara, ou seja, tem de ter essa proximidade com as populações. Um presidente de câmara só não tem o mesmo mediatismo, mas está permanentemente no terreno, incluindo aos sábados e aos domingos, junto das pessoas e perante os próprios cidadãos.

O que se sentiu, e se sente, é que havia uma aspiração na política portuguesa de haver essa proximidade e que o sr. Presidente tem vindo a colmatar com a sua disponibilidade. Em 365 dias do ano, Marcelo trabalhou 365 dias e isso mostra a própria fibra do homem, do cidadão, do político que é. Ele está próximo e perfeitamente ciente e conhecedor dos problemas, ansiedades e aspirações das pessoas. Os portugueses precisavam disso.

*Pode ler a segunda parte desta entrevista aqui.

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