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"A cura do cancro não vai acontecer na próxima década, pelo contrário"

Travar o aumento das incidências do cancro é uma luta diária sem fim à vista, pelo menos a médio prazo. A propósito do Dia Mundial da Luta Contra o Cancro, que se celebra este sábado, 4 de fevereiro, o Vozes ao Minuto esteve à conversa com o médico oncologista Vítor Veloso, que assume a presidência da Liga Portuguesa Contra o Cancro.

"A cura do cancro não vai acontecer na próxima década, pelo contrário"
Notícias ao Minuto

03/02/17 por Daniela Costa Teixeira

País Vítor Veloso

Cancro. O nome está em todo lado e integra uma boa parte das conversas diárias. Não é difícil perceber porquê. A incidência da doença cresce de dia para dia e travá-la não é tão fácil quanto o desejado.

O cancro é “o principal problema de saúde pública”, cuja cura “não vai acontecer na próxima década, muito pelo contrário”. Quem o diz é Vítor Veloso, médico oncologista e presidente da Liga Portuguesa Contra o Cancro, entidade que apoia os pacientes oncológicos e que assume uma posição firme na investigação e na procura de melhores terapias, mesmo que a luz ao fundo do túnel esteja ainda bastante longe.

Em entrevista ao Vozes ao Minuto, o especialista deixa ainda algumas críticas ao Serviço Nacional de Saúde, ao comportamento dos portugueses e a todos os “cavalos-de-batalha” que tornam esta luta ainda mais difícil de vencer.

O cancro é considerado a doença do século. Vai ser fácil tirar-lhe este rótulo?

Não, vai continuar assim. As armas que nós temos são precisamente aquelas armas que nós utilizamos, que são a prevenção primária e prevenção secundária. Também temos uma luta grande, o rastreio. Visto que estamos protocolados com a ARS [Administração Regional da Saúde], no rastreio do cancro da mama estamos já a 100% no norte, a 100% há muito tempo no centro e espero que a região sul, que está a cerca de 45%, avance neste momento porque penso que há condições para isso.

São cada vez mais as evidências científicas que apontam o estilo de vida como forma de prevenção e de desenvolvimento da doença. Contudo, os casos de diabetes, obesidade e posterior cancro não param de crescer. O que está a falhar a passar a mensagem?

O problema é muito vasto, muito amplo. Passa pela utilização do tabaco, apesar de dizerem que o nosso país está muito bem visto a nível europeu isso não é verdade, está mal visto a nível europeu, há muitas leis do tabaco mas não são cumpridas normalmente; o álcool também é outro dos principais fatores desencadeantes do cancro; também a obesidade, conforme vemos neste momento, há um número elevadíssimo de obesos, mesmo na parte infantil; o stress, que é cada vez maior devido ao ritmo de vida que levamos; também o sedentarismo, a falta de desporto, de exercício físico; a poluição ambiental e poluição de todas as situações.

Raramente aparecem grandes avanços, as vacinas são um grande avanço, mas agora a descoberta da cura através de terapêuticas inovadoras isso é raroTodos estes hábitos incutidos, sobretudo na maneira de ser do mundo ocidental, são muito difíceis de mudar. No entanto, agora vamos passo a passo e temos ganhado algumas lutas, temos envolvido muitos alunos do [ensino] secundário e, neste momento a nível nacional, envolvemos nas nossas campanhas à volta de 400 mil alunos, o que, quanto a mim, é fantástico, e continuar a trabalhar sempre diariamente. É um trabalho difícil, mas temos conseguido alguns resultados.

Não estarão as pessoas a ficar confusas com a quantidade de informação que se espalha todos os dias sobre a doença, desde livros a estudos científicos publicados nos meios de comunicação? Como é que podem filtrar a informação mais correta?

Tem toda a razão, penso que há demasiada informação sobre cancro. Tudo aquilo que se descobre e que muitas vezes representa pequenos avanços é tido como um grande avanço, o que não é verdade. Raramente aparecem grandes avanços, as vacinas são um grande avanço, mas agora a descoberta da cura através de terapêuticas inovadoras isso é raro. A filtragem é efetivamente muito difícil para os doentes e até mesmo para os profissionais de saúde. Na internet há muito lixo, 90% do que existe na internet é lixo e as pessoas têm de ter cuidado com as fontes de onde são distribuídas essas informações. As pessoas têm de ter muita cautela quando vão à internet pesquisar sobre as doenças porque a grande maioria não vale absolutamente nada.

Na internet há muito lixo, 90% do que existe na internet é lixo No que toca ao diagnóstico, é mais fácil pecar por excesso ou por defeito? Quais os riscos associados a essa tendência?

Acho que o que se deve fazer é uma linha intermédia. Cá em Portugal, está a fazer-se um diagnóstico de defesa. Há doentes a mais, são poucos os profissionais de saúde a trabalhar e, consequentemente, eles questionam-se com exames subsidiários. Há um pedido muito elevado e desnecessário de exames subsidiários de diagnóstico que faz com que o Estado gaste indevidamente. Se for a um hospital e levar exames de fora, esses exames normalmente não são aceites, o que é uma perfeita tolice, porque os exames que se levam são de entidades convencionadas, portanto, têm qualidade. Muitas vezes repetem-se exames desnecessariamente, gastando erário público e orçamento do Estado que, no que diz respeito à Saúde, são quantias exorbitantes e desnecessárias.

Existe algum tipo de desvalorização de certos tipos de cancro por parte dos médicos?

Não, penso que não. Todos têm um certo respeito pelo cancro, embora a palavra cancro tenha de ser desmistificada, pois temos uma grande percentagem de cura se for [diagnosticado] numa fase inicial. São poucos os cancros que nos passam, são dois ou três cancros, pois ainda não temos terapêuticas adequadas, como o cancro do pâncreas, que é uma situação que ainda não foi de maneira alguma desbloqueada sob o ponto de vista de terapêutica adequada, mas, por exemplo, no cancro do pulmão nós temos avanços nítidos, sobretudo de medicação inovadora que consegue dar uma sobrevivência muito boa aos doentes e com uma grande qualidade de vida.

Se for a um hospital e levar exames de fora, esses exames normalmente não são aceites, o que é uma perfeita toliceSão precisamente essas drogas inovadoras as que interessam, aquelas que curam e que dão uma sobrevivência grande com qualidade de vida. As outras não prestam para nada, dão mais um mês ou dois e com uma qualidade de vida muitas vezes inadequada.

Há pouco falou da alimentação como um fator fundamental na prevenção e no desenvolvimento da doença. Que futuro a nível de saúde prevê para as crianças dos dias de hoje, que tantos alimentos processados comem?

Se continuarem assim o futuro não vai ser muito brilhante, na medida em que estão a contribuir diretamente para que todos aqueles fatores que permitem o desenvolvimento do cancro cresçam alegremente e sem qualquer tipo de precaução. Há que atuar nas escolas e agora está a fazer-se um esforço nesse sentido, de fazer uma alimentação adequada e cuidada, rica em vegetais, em frutas, em carnes brancas, poucas gorduras. Basta haver nutricionistas adequados e que as direções das escolas tomem essas medidas.

E sendo conhecida a forte ligação que existe entre a alimentação e o cancro, não estará em falta uma maior ligação entre a Medicina e a Nutrição?

Penso que sim e sobretudo diretrizes definidas por parte da tutela no sentido de exigir às escolas que deem uma alimentação saudável ou promovam ou proporcionem uma alimentação saudável às crianças. E devia haver auditorias e inspeções.

Há pouco disse que os pequenos avanços são tidos como grandes avanços. Mas estamos mais perto da descoberta da cura do cancro, ou pelo menos do tratamento mais eficaz?

Vamos passo a passo. A cura do cancro não vai acontecer na próxima década, muito pelo contrário. Ainda temos de dar muitos passos, temos de subir uma escada muito comprida que não sei quando acaba. É evidente que todos os anos surgem algumas descobertas importantes e que nos permitem compreender muitos casos que ainda são incompreensíveis, mas, de qualquer modo, penso que [a cura] ainda vai demorar tempo, vai-se gastar muitos milhões em investigação e é por isso que nós também apoiamos a investigação, temos gasto em investigação, sobretudo em bolsas e prémios, quase 700 mil euros. Também investimos nisso, que é muito importante. Sem investigação não há avanços e, provavelmente, não haverá melhorias no que diz respeito a muitos aspetos da doença oncológica.

O próximo passo na luta contra o cancro passa pela imunoterapia?

É um dos passos, posso dizer-lhe que a imunoterapia é aquela que está ser mais estudada, mais investigada, na medida em que é uma terapêutica completamente diferente, em que nós não utilizamos medicamentos contras as células cancerosas, mas utilizamos medicamentos que vão ativar os nossos sistemas de defesa. Isso parece muito mais de salutar visto que damos força às nossas células, sobretudo às células T, no sentido de conseguirem destruir as células cancerosas. Penso que é uma terapêutica que, não em todos os casos, mas em muitos casos poderá representar um grande avanço na oncologia.

Disse que 'não em todos os casos mas em alguns'. Começar a personalizar ainda mais os tratamentos é também uma boa aposta? Porquê?

Sim. Quer dizer, cada caso é um caso e cada caso tem uma indicação, um percurso e isso é extremamente importante. Mas é evidente que sim, que podemos personalizar, saber se esse medicamento vai agir ou não vai agir, temos de arranjar maneira de saber qual é a verdadeira biologia desse tumor, porque pode ser do mesmo tipo mas ter uma biologia completamente diferente. Ainda há muito que estudar, ainda há muito que avançar, ainda há muito que realizar para termos marcadores e determinado número de análises que permitam saber se esse indivíduo é recetivo a determinado tipo de medicamento.

A cura do cancro não vai acontecer na próxima década, muito pelo contrário. Ainda temos de dar muitos passos, temos de subir uma escada muito comprida que não sei quando acaba

Começou a entrevista a falar sobre a incidência do cancro em Portugal, que continua a aumentar. Há um culpado concreto para isso?

Há fundamentalmente dois. Os hábitos de vida que não são saudáveis é o primeiro, os comportamentos de risco, que infelizmente os nossos jovens ainda têm e, depois, o aumento da esperança média de vida, que é cada vez maior.

O cancro está mesmo ligado à longevidade?

Sim.

Qual o cancro que mais afeta os portugueses?

O cancro da mama, na mulher, e o cancro da próstata no homem.

E qual é o mais mortal?

O mais mortal dos cancros é o do pâncreas.

Qual é o perfil do português mais suscetível ao desenvolvimento da doença?

É aquele que fuma, que bebe, que é obeso e que tem uma vida sedentária e stressada.

Portugal tem atuado bem na luta contra a doença? O Serviço Nacional de Saúde consegue dar a resposta necessária?

Temos um Sistema Nacional de Saúde que ainda se vai equilibrando, que é bastante razoável atendendo à situação económica do país, mas penso que o orçamento para a Saúde é pequeno, diminuiu no último ano. Penso que a tutela está mais recetiva sobretudo no que diz respeito à parte de prevenção e isso é importante na medida em que os três cancros a nível nacional, o da mama, que é o que está a cargo da Liga, mas também os cancros do cólon e reto e os do colo do útero parece que vão avançar, embora neste momento ainda de uma forma incipiente. A tutela está atenta, está recetiva e os sinais que vêm é que eles compreendem o cancro e que tudo melhora, mas a verdade é que se houver falta de dinheiro, também eles não podem fazer omeletas sem ovos 

Todas as regiões portuguesas estão preparadas para um rastreio mais eficaz da doença e para o tratamento do cancro?

Claro que ainda não estão preparadas. Nós fazemos o rastreio do cancro da mama e isso envolve recursos humanos muito grandes, envolve recursos de materiais das nossas unidades móveis e unidades fixas na ordem dos milhões e milhões de euros. Os outros dois rastreios, do cólon e reto e do colo do útero, estão a cargo das ARS, sobretudo dos centros de saúde nas suas mais diversas formas. Há muito que trabalhar ainda nesse setor e criar estruturas adequadas, porque um rastreio ou tem qualidade, como o da Liga Portuguesa Contra o Cancro, ou não tem qualidade e não vale nada.

O cancro tem também um impacto muito forte a nível emocional nos pacientes e até nos cuidadores. A nível de psicologia, o apoio que existe em Portugal para os pacientes oncológicos é suficiente?

Não, de maneira nenhuma. Por parte dos profissionais de saúde, eles têm cada vez mais doentes e cada vez têm menos tempo para dedicar ao doente, então aí não têm um apoio muito grande, daí que o nosso voluntariado em certos hospitais, nomeadamente no IPO, passa primeiro por um suporte com apoio psicológico muito grande, psico-emocional, digamos assim. E depois, quando há necessidade, nós temos consultas gratuitas de psico-oncologia, que estão não só no Porto, Lisboa e Coimbra, como também, por exemplo no Norte, estão espalhadas por dezenas de cidades ou vilas.

*Pode ler a segunda parte desta entrevista aqui.

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