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"Não vou permitir que se tomem decisões sem envolver a Ordem dos Médicos"

O Bastonário da Ordem dos Médicos, Carlos Cortes, é o entrevistado desta quinta-feira do Vozes ao Minuto.

"Não vou permitir que se tomem decisões sem envolver a Ordem dos Médicos"
Notícias ao Minuto

24/08/23 por Teresa Banha

País Ordem dos Médicos

Quase seis meses depois de ter tomado posse como Bastonário da Ordem dos Médicos, a união continua a ser a palavra-chave de Carlos Cortes. O médico,  que também já assumiu a presidência do Conselho Regional do Centro, continua a defender uma aproximação - não só entre os médicos, como com o poder político.

O bastonário faz um balanço ao Notícias ao Minuto, apontando que quer trabalhar em grupo, mas sublinhando que ainda não 'entrou'. Com os primeiros meses a serem "desafiantes", Carlos Cortes reconhece que não tem de decidir, mas "manifestar a sua opinião" - havendo situações nas quais está a encontrar dificuldades.

Faço questão de, de alguma forma, chamar à atenção ao poder político - do ponto de vista técnico, tenho muitas dúvidas da sua competência

Qual o balanço que faz dos primeiros seis meses como Bastonário da Ordem dos Médicos?

Confesso que estes primeiros seis meses não eram esperados da forma como decorreram. Tinha previsto uma série de aspetos que agora não estamos a desenvolver, nomeadamente, de maior proximidade com os médicos. Porque, de repente, apanhámos com uma novidade que foi a revisão dos estatutos das ordens profissionais. Tenho de reconhecer que isso acabou por ocupar grande parte do meu tempo, sobretudo, ali nos meses de junho e julho, em que me dediquei bastante à negociação. Estivemos muito concentrados na revisão dos estatutos não só porque é um aspeto absolutamente vital para a Ordem dos Médicos, mas também para a prática da Medicina - para a autonomia da profissão médica e para a qualidade dos cuidados de saúde em Portugal.

Ao longo da História os médicos sempre foram muito defensores da autorregulação como instrumento para desenvolver a medicina, para preservar a sua qualidade e para evitar a intromissão externa - já que os médicos estão focados fundamentalmente nos aspetos de qualidade técnica, clínica, formativa, científica, ética, deontológica. E muitas vezes há pressões externas – políticas e económico-financeiras - sobre os médicos para não colocarem a primazia da 'leges artis' da medicina e relação médico-doente acima de tudo. Os primeiros seis meses foram desafiantes. Sinto-me perfeitamente à vontade com aquilo que estou, neste momento, a fazer.

O perfil da Ordem que eu quero é uma Ordem que tem uma intervenção técnica. A Ordem dos Médicos é a organização mais diferenciada, mais complexa, mais completa do ponto de vista técnico na área da saúde. Tentei e faço questão de assumir este papel técnico e, de alguma forma, também chamar à atenção ao poder político - do ponto de vista técnico, tenho muitas dúvidas da sua competência. Mas também [faço questão de] oferecer ao poder político a ajuda da Ordem dos Médicos. Afirmei várias vezes que queria colocar a Ordem num patamar diferente. A Ordem não é um partido político nem um sindicato. A Ordem é uma instituição técnica que tem obrigação não só de fazer a avaliação técnica daquilo que está a acontecer na saúde, como também de defender a qualidade dos cuidados de saúde. Tendo em conta isto, a Ordem tem obrigação de apresentar soluções, de ajudar os Ministérios da Saúde, incapazes de resolver os problemas da saúde em Portugal já há muitos anos. Acho que a Ordem dos Médicos pode fazer a diferença.

A saúde hoje não tem só a ver com doentes, tem a ver com pessoas saudáveis que nós queremos manter saudáveis

E o que está, atualmente, a mudar?

Estamos aqui a operar uma renovação da Ordem dos Médicos. Renovação interna. Estamos a modernizar a Ordem dos Médicos. Estas coisas não acontecem de um lado para o outro. Neste momento são pouco visíveis, mas estamos a reformular internamente toda a interface de atuação com os médicos. Temos uma nova revista e esta questão da imagem é importante, para sinalizar aqui uma mudança. Vamos ter no site duas componentes novas - uma direcionada para a população em geral. Quero fazer esta ponte com os doentes, com as associações de doentes, com as pessoas na sua globalidade, porque a saúde hoje não tem só a ver com doentes, tem a ver com pessoas saudáveis que nós queremos manter saudáveis.

De que tratará essa vertente mais ‘virada’ para a sociedade civil?

A Ordem dos Médicos a trabalhar para a literacia em saúde, a trabalhar para a aproximação com as pessoas e para quando as pessoas tiverem algum problema. Como nos dias de hoje, esta questão da canícula, das altas temperaturas, as pessoas vão poder ir ao site para ter informação técnica altamente validada, mas com linguagem simplificada – para as ajudar. 

E a outra vertente?

Vamos criar um balcão virtual para os médicos poderem interatuar com a sua Ordem através da internet, através das plataformas informáticas, simplificando a sua vida, mas também permitindo que estejam mais próximas da Ordem dos Médicos.

Sou uma pessoa de fazer reformas profundas. E elas não são fáceis muitas vezes. Incomodam

Como é que será ‘marcado’ o seu mandato?

Sou uma pessoa de proximidade e quero que o exercício de cargo de bastonário seja um exercício de proximidade. Quero estar com as pessoas. Quero estar nos locais onde as coisas acontecem, nos locais onde há prestação de cuidados de saúde, onde há médicos. Fiz muito isso como presidente do Conselho Regional do Centro. Visitei várias vezes todos os hospitais. A escala é diferente, mas vou marcar este mandato com proximidade.

Muitas vezes os mandatos dos bastonários são um pouco à imagem daquilo que são. O gabinete também me interessa, o desenvolvimento de projetos e a sua concretização é algo que me dá muito gosto - e a Ordem tem muitos projetos para concretizar. Precisa desta reestruturação interna - com a qual eu vou marcar este mandato. Sou uma pessoa de fazer reformas profundas. E elas não são fáceis muitas vezes. Incomodam. Mas é necessário revitalizar a Ordem para ela estar pronta  para os desafios do futuro. E não só do futuro. Para os desafios da atualidade também. E a Ordem não está colocada na atualidade - e tem de ser colocada. 

Fazemos este trabalho muito importante - de ligação à sociedade civil, a quem decide, ao Ministério da Saúde, ao Governo, à Direção Executiva, aos conselhos de administração dos hospitais e às direções executivas dos agrupamentos de cuidados de saúde primários. Queremos intervir numa perspetiva que posso dizer que é nova da forma como eu a quero fazer. Criar um pouco esta ligação com a sociedade civil e com quem manda, quem toma decisões - vou insistir muito neste ponto. Não vou permitir que em Portugal se tomem decisões na área da saúde sem envolver a Ordem dos Médicos. Não é que a Ordem tenha de tomar essas decisões. Essas decisões estão nas mãos da tutela da saúde, mas quero que os médicos estejam envolvidos nestas decisões porque temo muito sobre a qualidade dessas decisões se não houver envolvimento dos médicos.

Posto isto, a proximidade será a palavra-chave deste seu mandato? Tanto interna, como externamente.

A proximidade inevitável. Somos aquilo que somos e eu, de repente, sou bastonário e não mudo. Sou exatamente como sou antes de ter sido eleito. A questão da proximidade é uma questão importante. Não irei exercer um cargo solitário. Vou exercer um cargo como líder de uma grande e vasta equipa. Portanto, essa proximidade, necessariamente vai existir a jusante. Mas também com o poder político, necessariamente, tem de haver aqui uma proximidade nestes termos. Uma proximidade obviamente diferente. 

Em que sentido?

É não ter receio de dialogar, de insistir com o poder político para ajudarmos a que este poder possa adotar aquelas que são as melhores soluções para a saúde. Nunca irei desistir de vincar, de levar a ideia dos médicos e da Ordem a quem toma decisões neste país. Não o vou fazer independentemente das dificuldades. Serei persistente precisamente em tentar convencer o poder político das melhores opções para a saúde.

Há aqui um um 'modus operandi', um hábito de tomar decisões na sombra

Solicitou à Direção Executiva do SNS/ Grupo de Trabalho que lhe enviasse a nova proposta de rede de referenciação hospitalar em ginecologia, obstetrícia e neonatologia, revista este mês. Já a recebeu?

Não. Quero acreditar que este atraso na resposta tenha a ver com o período de férias, onde tudo é mais lento. Espero que o motivo seja esse. Mas continuamos a aguardar. Não deixarei de insistir sobre esta - e outras matérias - enquanto, neste caso em concreto, não tivermos a proposta.

Há algum entendimento para que a Ordem dos Médicos dialogue com o grupo?

No final de julho, encontrei-me com o Dr. Fernando Araújo em que combinámos a partir de setembro desenvolvermos aqui uma cooperação entre ambos e, portanto, estou expectante em relação precisamente a estas próximas reuniões. Pareceu-me muito recetivo.

Há aqui um um 'modus operandi', um hábito de tomar decisões na sombra. De tomar decisões sem envolver os vários agentes e, naturalmente, a Ordem dos Médicos é um desses agentes. Em Portugal, há um hábito que eu quero que se altere muito rapidamente para o país poder efetivamente desenvolver-se em harmonia - que é o de não consultar esses agentes. É algo que, para mim, é muito estranho e não faz sentido absolutamente nenhum.

A Ordem não tem de decidir, mas tem de manifestar a sua opinião. É para mim muito estranho o Ministério da Saúde criar comissões de trabalho em que não é envolvida a Ordem - apesar de [existirem] pequenos truques, se formos ver. Na rede de referenciação das maternidades, está lá um membro que é designado como da Ordem dos Médicos, mas isso não corresponde à realidade. A Ordem não foi solicitada para indicar ninguém para essa comissão. Tive o cuidado de verificar internamente, de verificar junto do secretariado, mas também de telefonar aos membros dessa comissão e, de facto, o membro que está designado para essa comissão como pertencendo à Ordem dos Médicos reconhece que não foi nesses termos que foi convidado e que até, inclusivamente, já tinha pedido para essa referência à Ordem ser retirada. Já vieram pessoas à praça pública referir que a comissão tinha elementos da Ordem dos Médicos. Isso não corresponde, de todo, à realidade. E o que a OM pretende é avaliar a rede de referenciação e opinar sobre ela. Transmitir o seu parecer técnico, envolvendo os seus colégios, portanto, pessoas altamente diferenciadas nesta área e ajudar a Direção Executiva do SNS, que está muito mal habituada nesse aspeto. Trabalha quase em reclusão. Não estabelece pontes com as pessoas que estão no terreno, nomeadamente, com os médicos - e essas pontes são absolutamente essenciais.

A intenção da Ordem é de colaborar, de apresentar propostas que possam ser úteis para ultrapassarmos este círculo vicioso das maternidades - e não só. De um conjunto de outros aspetos do SNS que, não estando a correr bem, cada vez estão a correr pior - e cada vez afastam mais os profissionais do SNS. Queremos que o SNS seja mais capacitado e estes ingredientes também vão cursar a outro aspeto importante, que é permitir que o SNS tenha mais atração e capacidade de captação e de fixação dos médicos. E nós sabemos que há um número perfeitamente aceitável de médicos especialistas em Portugal, mas que não existem médicos especialistas no número adequado no SNS. Portanto, é necessário fazer aqui uma melhoria das condições do SNS.

Provavelmente agora há outro tipo de micro-organismos por causa da seleção dos antibióticos. Temos pessoas que vivem até aos 90 anos, que, porventura, há 50 anos, se calhar nem até aos 60 chegavam

Quais serão, neste âmbito, as principais propostas apresentadas pela Ordem dos Médicos e quais as principais propostas que deveriam estar previstas nesse documento?

É difícil pronunciar-me sobre isso porque não conheço o documento, mas acho que há pressupostos que naturalmente são fundamentais – existir, por exemplo, um apoio de uma maternidade nas várias áreas geográficas do país. Não podemos estar a fazer uma contabilização por número de partos. Se fizéssemos dessa forma, todas as maternidades do Interior teriam de encerrar. Temos de ver precisamente estas circunstâncias particulares de algumas áreas do país que têm poucos partos - mas necessariamente têm de ter aqui um apoio. Temos de rever esta questão dos recursos humanos e de criar condições para as captações desses recursos. Mas tenho de ver primeiro o documento, remetê-lo aos órgãos próprios da Ordem dos Médicos, nomeadamente, aos colégios envolvidos, para depois entregar as nossas sugestões e análise à Direção Executiva.

Até agora, falámos mais sobre o Serviço Nacional de Saúde. E o restante setor?

O bastonário representa todos os médicos - também representa os médicos do setor privado, dos grandes hospitais privados, de hospitais que, apesar de serem privados, têm as suas particularidades - a Fundação Champalimaud, por exemplo -, dos pequenos consultórios do setor social – e de outros ministérios. Das primeiras reuniões que tivemos com dirigentes do Governo foi com a ministra da Justiça [Catarina Sarmento e Castro] - porque há médicos a trabalhar no Instituto de Medicina Legal ou nos estabelecimentos prisionais. E a Ordem dos Médicos tem de saber chegar também a estes médicos e perceber em que condições trabalham e também perceber que medicina é oferecida nesses locais, que nos preocupam muito, e sobre os quais a Ordem vai ter aqui uma intervenção muito certeira. Todos têm direito a uma saúde de qualidade. Também há o caso dos médicos militares - precisam de ser tratados como o resto da população, como é evidente. Não pode haver aqui nenhuma diferença.

No que diz respeito às infeções associadas aos cuidados de saúde. A nível nível nacional, os hospitais estão preparados para este tipo de propagação?

Há uma visão hoje muito mais lata sobre esta questão das infeções. Não são só as infeções hospitalares, as chamadas infeções nosocomiais. O âmbito deste tipo de infeções é hoje alargado a todo e qualquer tipo de cuidado de saúde - nos centros de saúde, lares ou domicílio. Levamos hoje a vida ao extremo e pessoas que se calhar há 30 anos iam morrer daquela infeção, hoje não. Conseguimos levar a vida das pessoas muito além, inclusivamente, quando as pessoas já não têm capacidade de resposta do ponto de vista imunitário. Daí termos sempre este problema que é os micro-organismos que atualmente existem nos hospitais, e que já existiam há 30 anos. Provavelmente agora há outro tipo de micro-organismos por causa da seleção dos antibióticos. Temos pessoas que vivem até aos 90 anos, que, porventura, há 50 anos, se calhar nem até aos 60 chegavam.

Portugal tem feito um esforço, mas devia fazer mais e estar mais organizado. Os hospitais deviam ser dotados de mais meios. Há países em que de alguma maneira o seu financiamento é muito associado precisamente à resposta que têm em termos de infeções associadas a cuidados de saúde (IACS) e Portugal está um pouco atrasado nisso. A questão das infeções hospitalares é uma coisa invisível, não se vê. Só percebemos quando há um impacto sobre o doente. E, às vezes, o impacto sobre o doente não é no hospital, é depois - porque o doente apanha um micro-organismo no hospital e só passado alguns dias é que começa a desenvolver a doença. Isto é importante.

Porquê?

Por causa da urgência. A urgência é um caldo microbiano, quase diria. As pessoas têm de estar protegidas quando vão nesses casos ao hospital. Sou um defensor do uso da máscara na urgência porque é onde se encontra absolutamente tudo. Lembro-me de, até antes da Covid-19, falar com a então diretora-geral da Saúde, a dra. Graça Freitas, e de lhe dizer que era importante, nomeadamente, em picos de infeções respiratórias, no inverno, a obrigatoriedade do uso de máscara na urgência, nas salas de espera, onde todos estão a tossir.

A Ordem está a fazer algo em relação a este assunto?

Há algo que estamos a desenvolver, que é a criação de uma competência precisamente nesta questão do controlo da infeção e da utilização dos antimicrobianos - antibióticos, antivirais, etc. A criação desta competência tem vários objetivos. Em primeiro lugar, enquadrar os médicos que trabalham nessa área, em todo o país, no Programa de Prevenção e Controlo de Infeções e de Resistência aos Antimicrobianos (PPCIRA). E, em segundo lugar, criar um programa de formação para esses médicos, por forma a termos a certeza de que são as pessoas mais qualificadas que tratam desses problemas das infeções nos hospitais. Esta competência vai ser muito importante para os poder formar.

A título de exemplo, temos muitos médicos que não têm uma especialidade. Há médicos que não entram neste programa do internato médico e acabam por não ter especialidade. A Ordem dos Médicos já deu o pontapé de arranque na semana passada para começar a criar esta competência numa área que é extremamente sensível na prestação dos cuidados de saúde.

Quando um doente entra num hospital, tem de saber qual é o nível de risco que, à partida, corre. Tem de saber se aquele hospital, em termos de infeção hospitalar, lhe oferece alguma ou nenhuma segurança

Falamos de equipas que tratem infeções a nível hospitalar? Dedicadas apenas a essas questões?

Há os grupos locais de PPCIRA. São as equipas multidisciplinares. Temos médicos de várias especialidades, enfermeiros e um conjunto de outros profissionais que intervêm nestas questões do controlo da infeção. Esta equipa nos hospitais depois tem ramificações em todos os serviços porque a intervenção no controlo da infeção, necessariamente, de ser feita em todos os serviços. O novo enquadramento legal obriga a que uma maior disponibilidade dos profissionais, inclusivamente, uma dedicação exclusiva a esta matéria. Temos leis em Portugal que são muito interessantes. Quem não estiver em Portugal e que se debruce sobre leis que temos, nomeadamente na área da saúde, acha que temos aqui um oásis naquilo que é a resposta em saúde. Mas a verdade é que depois a concretizar, é muito difícil. Nomeadamente, nesta questão, acho interessantíssimo que se escreva na lei que os médicos têm de estar a tempo completo a coordenar as PPCIRA localmente. Num contexto de carência de recursos humanos é muito fácil dizer tudo e escrever tudo em lei, mas não é exequível. É muito difícil neste momento os hospitais terem médicos a tempo completo nestes grupos de trabalho. É extremamente complicado. Não estou estou a criticar este enquadramento legal para as PPCIRA, mas o Ministério da Saúde também se deve preocupar com a formação. Como o ministério se desresponsabiliza desta matéria, a Ordem está precisamente a criar esta comissão para enquadrar os médicos das PPCIRA para lhes dar formação e começar a ter aqui uma intervenção mais marcada de uma área muito importante.

De acordo com o Relatório do Programa Prioritário PPCIRA 2021 – Infecções e Resistências a Antimicrobianos é “particularmente preocupante é a evolução da taxa de Klebsiella pneumoniae resistente a carbapenemes, que tem sido marcadamente crescente, aumentando quase seis vezes nos últimos seis anos (de 2,0 para 11,6%)”. Esta foi a bactéria de que obrigou ao encerramento do serviço de Neonatologia do Hospital Santa Maria em julho. A tendência crescente de que fala o relatório é um dos exemplos que possam justificar mudanças ao nível da organização hospitalar?

Há uma série de micro-organismos e a Klebsiella é um deles que tem aqui particularidades em termos de resistência aos antibióticos. Mas há outros micro-organismos. Obviamente, que tem de haver aqui alguma necessidade de revermos todos os procedimentos a nível hospitalar para os adequar precisamente a esta questão das novas resistências e é disso fundamentalmente que estamos a falar quando falamos de micro-organismos. Falamos sobre quais são os micro-organismos que nos preocupam - se são aqueles onde há muita resistência ao antibiótico e, portanto, só antibióticos de fim de linha é que respondem - e às vezes nem há nenhum que consiga responder. Por isso, tem de haver esta prevenção. Para existir prevenção, é preciso alterar os procedimentos. Por um lado, em termos de diagnóstico - em termos preventivos temos de tentar perceber de que micro-organismos são os doentes que entram nos hospitais portadores-, mas depois também na forma como os doentes e os profissionais se comportam dentro das unidades de saúde. 

O que pode ajudar na prevenção?

A questão da higienização das mãos é um aspeto fundamental. Os maiores transmissores de micro-organismos que temos são as nossas mãos. Há também um conjunto de regras de espaçamento entre doentes, assepsia, higiene das superfícies, utilização de produtos que temos ou não de validar. É um mundo que é complexo, e os hospitais têm de se preocupar e não se preocupam - porque não é uma coisa visível. Isto de quais são os detergentes ou quais são os produtos que se têm de adquirir para limpar superfícies para que não haja micro-organismos de preocupação não é algo visível. Portanto, não é algo que preocupe muito, por vezes, as administrações das unidades de saúde. Mas têm de começar a ter essa preocupação. E aqui é o Estado que tem de fazer duas coisas: Haver um incentivo – positivo ou negativo - e, sobretudo, existir transparência. 

Em que medida?

É um ponto fulcral. Do meu ponto de vista, essa transparência não existe. Devia ser aqui muito claro aquilo que os hospitais têm em termos de controlo de infeção - para os doentes também saberem. Quando um doente entra num hospital, tem de saber qual é o nível de risco que, à partida, corre. Tem de saber se aquele hospital, em termos de infeção hospitalar, lhe oferece alguma ou nenhuma segurança. Oferecer segurança total é muito difícil porque os micro-organismos estão em todo o lado. Os portadores de micro-organismos não andam propriamente no ar. São as pessoas. Focamo-nos sempre nos hospitais.

Há aqui um local que me preocupa muito e que muitas vezes é esquecido. São os lares. Temos pessoas desprotegidas. Pessoas com polipatologias, pessoas que muitas vezes não são apoiadas por profissionais de saúde diferenciados. Há muitos lares que não têm médicos e isso para mim é algo completamente inconcebível nos dias de hoje. Devia haver esta obrigatoriedade de todos eles terem médicos para os residentes dos lares serem mais protegidos - e formação.

Vimos o que aconteceu, infelizmente, durante a pandemia. Isso tem de nos servir de exemplo. Os próprios responsáveis dos lares, na altura, reconheciam que os seus profissionais, apesar da dedicação, não têm formação na área das IACS. As infeções nós trabalhamos muito na prevenção. Não se trabalha tanto depois nos antimicrobianos, em ter o medicamento adequado. Isso é em fim de linha. No início da linha é a prevenção. É evitar que as pessoas tenham infeções.

Quais são os desafios em relação a queixas a médicos?

É uma matéria que me preocupa. Inclusivamente, vou ter uma reunião com os três conselhos disciplinares e com o conselho superior, que é uma espécie de de órgão de recurso destes conselhos disciplinares. Há questões do passado em que a Ordem devia ter tido outra capacidade de resposta em termos disciplinares, mas eu quero que muito rapidamente se opere uma reforma profunda nesta área, dando mais capacidade de resposta aos conselhos disciplinares, uniformizando os seus procedimentos.

Há queixas em relação aos médicos, tratadas em lugar próprio, mas há muitas queixas, por um lado, ao sistema em si, nomeadamente, ao SNS. Mas muitas vezes quando são direcionadas aos médicos, não são propriamente problemas do médico em concreto, mas, sobretudo, da falta de condições que o médico teve para depois poder exercer o seu papel, mas são ‘tribunais’. Vou criar todas as condições para os conselhos disciplinares poderem fazer adequadamente o seu trabalho. Não queria dizer como dizem os políticos 'à política o que é da política, aos tribunais o que é dos tribunais', mas de facto é uma área em que não devo - não posso - intrometer-me. Tenho de dar aqui é condições para eles poderem exercer a sua atividade da melhor forma.

A Ordem não pode entrar nas clínicas para ver o que se passa lá. Pode fazê-lo através de organismos do Estado que têm competências e poderes para isso – Inspeção-Geral das Atividades em Saúde ou Entidade Reguladora da Saúde (ERS).

É lamentável o pouco que o Estado tem feito nesta matéria de apoiar os profissionais de saúde nestes problemas de saúde que eles têm

Em relação à nova Lei da Saúde Mental. Quais são as maiores dificuldades que a classe médica vai enfrentar com esta reformulação?

Isso está a ser avaliado internamente na Ordem dos Médicos. Das primeiras coisas que eu queria fazer era pegar na questão saúde mental. Tive uma reunião com o Colégio de Psiquiatria. Mas também estamos a desenvolver um conjunto de outras reuniões com outras especialidades. A saúde mental não é só do domínio da psiquiatria, é também, por exemplo, do dos médicos de família. São estes os profissionais médicos mais importantes na área da saúde mental porque têm um contacto privilegiado com todos os doentes. São eles que precocemente podem detetar estes problemas e são eles que acompanham muitas pessoas com problemas de saúde mental ao longo do tempo. Há um conjunto de especialidades que estamos a envolver. A Ordem dos Médicos irá a médio prazo apresentar propostas muito concretas nesta área. Entendemos que é uma área que não tem tem tido o devido acompanhamento. 

Estamos num período muito particular, pós-Covid, em que houve um impacto muito, muito negativo sobre a saúde mental das pessoas e agora nesta questão da longa Covid. Toda esta matéria está a ser analisada. Uma em que fizemos progressos muito rápidos foi em relação ao Gabinete Nacional de Apoio ao Médico, que tem aqui uma vertente muito a ver com a saúde mental. Nesse aspeto nós temos um historial que penso que é interessante.

E qual a necessidade de um plano neste âmbito dirigido aos médicos?

O primeiro grande estudo sobre profissionais de saúde, neste caso concreto sobre os médicos, foi precisamente desenvolvido numa iniciativa do Conselho Regional do Centro quando fui presidente, em que fizemos um estudo, com cerca de mil médicos, para perceber uma matéria que se falava muito na altura – burnout. Os resultados foram arrasadores e percebemos que tinha de ser uma preocupação da Ordem dos Médicos. É o que vamos fazer no âmbito do gabinete. Um circuito muito bem delineado, assegurando parâmetros de confidencialidade dos profissionais. Não é muito simpático um profissional estar em burnout e ser tratado no próprio hospital aos olhos de todos. Não é algo que seja confortável. Desenhámos um circuito que mantivesse a confidencialidade e que desse uma resposta e pudesse ajudar estes médicos.

Foi de tal maneira importante que este modelo teve impacto a nível europeu e as Ordens profissionais da Europa estiveram interessadas em saber qual era o nosso modelo e ele está a ser estudado para ser implementado noutros países. Queremos reforçar este modelo a nível nacional, porque entendemos que para cuidar dos outros também temos de estar de boa saúde – nós, médicos. Para nos podermos preocupar adequadamente com os outros, também tem de haver uma preocupação com a saúde dos médicos, nomeadamente, com a saúde mental, e sabemos que cada vez mais há uma pressão grande exercida sobre os médicos para darem resposta a absolutamente tudo - e muitas vezes até ao impossível. Pedem-se esforços sobre-humanos aos médicos e muitos deles começam a evidenciar estes problemas de saúde mental. É precisamente nesta área que temos equipas a desenvolver esta intervenção. Não está completamente concretizada, mas estará para breve a apresentação deste plano de ajuda aos médicos

É lamentável o pouco que o Estado tem feito nesta matéria de apoiar os profissionais de saúde nestes problemas de saúde que eles têm. Tantas agressões e não se tem feito absolutamente nada. Tem-se feito muito pouco em Portugal, nesta questão da violência sobre profissionais de saúde. Devia haver uma espécie de tolerância zero sobre essa matéria. O Estado tem feito muito pouco ou praticamente nada. Lamento muito isso. É mais um destes temas que o Estado acabou por não cumprir com o seu papel, mas que a Ordem dos Médicos irá cumprir com o seu.

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