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"Viver é dançar a valsa, aceitar, e estar cá durante o tempo que dura"

O escritor português João Tordo é o convidado desta terça-feira do Vozes ao Minuto.

"Viver é dançar a valsa, aceitar, e estar cá durante o tempo que dura"
Notícias ao Minuto

27/06/23 por Daniela Filipe

Cultura João Tordo

Depois de uma primeira 'dança' na não ficção com 'Manual de Sobrevivência de um Escritor', João Tordo regressou, agora, com 'Uma Valsa com a Morte', debruçando-se sobre aquele que é, provavelmente, o maior medo de grande parte da população, tomando contornos semelhantes a temas considerados obscuros e tabu na sociedade ocidental.

Foi com a morte da avó, em dezembro do ano passado, que o escritor galardoado com o Prémio Literário José Saramago de 2009 encontrou o fio condutor para os textos que havia redigido sobre música, literatura, e espiritualidade, procurando explorar o desígnio de encontrar o belo face à finitude inerente à existência.

Em conversa com o Notícias ao Minuto, João Tordo não deixou de abordar a positividade tóxica associada a livros de autoajuda e às 'frases feitas' que se propagaram nas redes sociais, em detrimento da "aceitação de que a vida é, muitas vezes, feita de realidades sombrias, que não estão no nosso controlo" – entre elas "as finanças".

Além da morte, do luto, e do apreço pelos leitores, – incluindo os 'bookstagramers' e os 'booktokers' –, a conversa não pôde deixar de fora o sucesso mundial de 'Rabo de Peixe', a série da Netflix que contou com a assinatura do romancista e que atingiu o topo em mais de 30 países, o que, assegurou, "não podia suspeitar".

A valsa é quando estamos mais próximos do nosso parceiro; estamos ali, no compasso ternário, a dançar com alguém que está muito próximo de nós. Viver é um bocado isso: é dançar essa valsa, aceitar dançar a valsa, e estar cá durante o tempo que a valsa dura

Como é que surgiu o conceito para esta nova obra?

Não foi propriamente um conceito. Tinha uma série de textos em génese, quando saiu o 'Manual de Sobrevivência de um Escritor', há três anos, e não sabia o que haveria de fazer com eles, porque abordavam temas que não se enquadravam no contexto de um livro de escrita – sobre música, sobre literatura, sobre a nossa perceção do que é que é 'andarmos aqui'.

Fui escrevendo ao longo do tempo e às tantas, quando a nossa avó morreu, em dezembro do ano passado, apareceu ali um tema que, de certa maneira, percorria os textos todos – a ideia da finitude como motor que nos leva a procurar o belo enquanto permanência contra a condição existencial de toda a gente e de todos os seres vivos. Depois, fui reescrevendo os textos com esse fio narrativo.

Portanto, não houve um conceito à partida; houve, sim, uma série de temas que queria abordar e, depois, o encontrar orgânico e não propositado do tema geral, que é o 'guarda-chuva' de todos os outros.

Quando vemos enlutados na rua, temos tendência a afastar-nos, evitamos e falamos mais baixinho. É um sinal de respeito, isso é verdade. Mas também é uma maneira de evitar o tema, de circular à volta daquilo que vai acontecer a toda a gente – não há maneira de escapar

Apesar de ser abordada em diversas formas de arte, desde a literatura à música, a morte continua a ser um tema tabu na nossa sociedade; considera que este livro poderá desmistificar esta aversão de falar sobre a morte e sobre o luto?

Não acho que nenhum dos meus livros tenha impacto social, e nem sequer é essa a ideia. Sou só um escritor; não sou nenhum guru, nem escrevo livros de autoajuda. Isto são apenas as minhas reflexões, que quis partilhar com os leitores, porque também partiu muito deles. Este livro resulta das conversas que fui tendo ao longo das últimas duas décadas de viagens pelo país e no estrangeiro.

Os temas abordados eram sempre estes: 'Porque é que escreve, o que é que significa escrever, o que é que significa uma pessoa andar à procura das coisas belas, andar à procura de um registo da sua passagem por cá'. Porque a escrita é isso, fazer filmes é isso. Peças de teatro e música deixam um registo da nossa passagem por este mundo, não há outra coisa. Nessas conversas com os leitores, também me fui apercebendo de que havia esses temas para falar, e devo-lhes muito da discussão deste livro.

Esta 'valsa com a morte' tem a ver com a perspetiva da sociedade ocidental sobre a morte, que está muito 'vestida de negro'. Na Grécia Antiga, as pessoas vestiam-se de amarelo, porque a palavra 'luto' tem a ver com 'luctus', que em latim significa 'amarelo'. Na Ásia, as pessoas vestem-se de amarelo, porque dizem que vão ao caminho de uma luz ou da verdade. Cá, tivemos a peste negra. A peste negra, que ceifou 35 milhões de almas na Idade Média, não permitiu que estabelecêssemos uma relação 'saudável' com a morte. A morte é uma coisa que tememos, é um medo infinito, é o escuro, é o desaparecer, é o não estar. Mesmo quando vemos enlutados na rua, temos tendência a afastar-nos, evitamos e falamos mais baixinho. É um sinal de respeito, isso é verdade. Mas também é uma maneira de evitar o tema, de circular à volta daquilo que vai acontecer a toda a gente – não há maneira de escapar.

Essa familiaridade com a morte foi mais ou menos aquilo que tentei conseguir com este livro, e daí o título. A valsa é quando estamos mais próximos do nosso parceiro; estamos ali, no compasso ternário, a dançar com alguém que está muito próximo de nós. Viver é um bocado isso: é dançar essa valsa, aceitar dançar a valsa, e estar cá durante o tempo que a valsa dura.

Até há uma história que o Séneca conta de um romano, que se chamava Pacúvio, e que tinha tanto medo da morte que, todas as noites, pedia aos servos e à família para ensaiar o seu funeral. Quando li a história fartei-me de rir, porque imaginei os filhos e os servos do Pacúvio a transportá-lo num caixão para a cama todos os dias e, no dia seguinte, ele aparecia para o pequeno-almoço. Esse ensaio é muito engraçado porque é a tal coisa, porque é que vou tentar familiarizar-me com uma coisa que só vou fazer uma vez, precisamente porque só temos uma 'oportunidade' de morrer?

Também é engraçado constatarmos que a sociedade se afasta dos enlutados, porque é um grupo ao qual todos vamos pertencer, inevitavelmente.

Pois, porque tem a ver com a tradição que se estabeleceu no Ocidente. Se for à Índia, as pessoas têm uma relação diária com a morte; em certas cidades banham-se nos rios onde passam as cinzas dos mortos. A morte, para eles, é um portão. Para nós, é um fim 'negro', e tem a ver com a Idade Média.

Tivemos uma Idade Média escuríssima na Europa, em que a peste negra, o escorbuto, e a febre tifoide propagaram-se nesta região do planeta que, na altura, tinha maior densidade populacional, e as doenças alastraram como a Covid-19. O medo da morte também foi aproveitado pelas instituições; não só os governos, mas também a Igreja Católica.

Na brutalidade da Idade Média, Deus foi um bálsamo, e a Igreja Católica teve a inteligência de colocar as nossas esperanças na 'outra vida', porque esta não tinha grande remédio. As pessoas morriam aos 30 anos, e aos 40 anos já eram velhas. Logo, a morte acabou por tornar-se num peso e tudo foi formado por esse momento.

Quanto mais rapidamente nos deparamos com a finitude, mas rapidamente começamos a aproveitar os dias que nos restam. Portanto, claro, falar da morte é falar da vida

Ao ler o seu livro veio-me à cabeça uma frase de Hugo Gonçalves que, em 'Filho da Mãe', considerou que "quem quer escrever sobre a morte acaba a escrever sobre a vida". Concorda, portanto, com esta ideia?

Sim. Eu e o Hugo somos amigos, conhecemo-nos há mais de duas décadas e partilhamos algumas dessas ideias. Mas sim, ao escrever sobre este tema estamos à força do facto de estar vivo. 'Ah, não quero falar da morte', mas quanto mais encararmos a coisa de frente, mais encaramos a finitude e percebemos que o tempo aqui é limitado, que a vida é relativamente breve.

Aliás, o Séneca escreveu um livro que tem esse título, 'Sobre a Brevidade da Vida' – as coisas passam depressa, de repente já tenho 50 anos, mas ontem tinha 30 e anteontem 20. Quanto mais rapidamente nos deparamos com a finitude, mas rapidamente começamos a aproveitar os dias que nos restam. Portanto, claro, falar da morte é falar da vida.

Abordou no livro a procura pelo "simples" e pela "hipnose" associada à música e à literatura que se verifica atualmente; poderão estes conceitos explicar a aversão da sociedade no que diz respeito às questões da morte, do luto e dos sentimentos, acabando por cair na teia de máximas como 'vai ficar tudo bem' quando, na verdade, há coisas que não ficam bem?

A questão da música não está diretamente relacionada com a questão da morte, é mais uma abordagem de porque é que nos dias de hoje a música sofreu uma transformação da complexidade harmónica, melódica e rítmica, que não é boa nem má – não tem classificação.

A música de dança, por exemplo, é uma procura por uma tribo, e é essa tribo que nos permite sentirmo-nos mais ou menos seguros perante a inevitabilidade que nos vai acontecer a todos, que é morrermos sozinhos. A vida humana tem sido isso: uma pessoa nasce sozinha, encontra uma tribo na qual sente amparo, e esse amparo permite lidar com a realidade de forma mais sustentada do que se estiver sozinha. Aliás, quando vemos pessoas que estão muito sozinhas, normalmente são pessoas que têm muitas dificuldades com a vida. Haverá um ou outro solitário que decidiu que a sua vida é assim mesmo mas, normalmente, as pessoas que estão muito sozinhas também são muito melancólicas e têm muita dificuldade com a realidade.

Quando estamos perante a potencialidade de um resultado negativo, dizer que as coisas vão correr bem pode ser um tónico. Mas usar isso como arma de defesa em relação a tudo não tem sentido. Há certas coisas na vida que não vão correr bem, ou não vão correr como queremos, e não há nada a fazer

Acho que as livrarias estão atoladas de livros de autoajuda, que têm tanta validade como qualquer outro – cada pessoa lê o que quer. No meu entender, pensar positivo às vezes é uma boa solução. Quando estamos perante a potencialidade de um resultado negativo, dizer que as coisas vão correr bem pode ser um tónico. Mas usar isso como arma de defesa em relação a tudo não tem sentido. Há certas coisas na vida que não vão correr bem, ou não vão correr como queremos, e não há nada a fazer.

A aceitação de que a vida é, muitas vezes, feita de realidades sombrias, que não estão no nosso controlo, é um primeiro caminho para passar da raiva ou da indignação à melancolia, e a melancolia faz parte da existência. Uma pessoa fica raivosa porque as coisas não são como gostaria que fossem, e quando passa por esse momento chega à tristeza. A vida é assim: as pessoas morrem, há doença, há catástrofes, há as finanças, há coisas que nos deixam desamparados.

Também mencionou por diversas vezes a positividade tóxica que permeia as redes sociais; como é que encara o crescimento do mercado editorial, um pouco 'à boleia' do TikTok e do Instagram?

São coisas diferentes. A grande comunidade de pessoas que leem neste momento está no Instagram. Os e as 'bookstagramers' e 'booktokers' fazem um serviço enorme; não só a si próprios e à comunidade em que estão inseridos, como a nós, os escritores. São os novos críticos e, portanto, acho que é um papel super importante que retirou, de certa maneira, à imprensa tradicional o poder de dizer que é bom ou que é mau. A imprensa tradicional tem toda a validade, mas é a opinião de uma pessoa, enquanto de repente, nas redes sociais, temos muitas opiniões a funcionar ao mesmo tempo – o Goodreads é uma prova disso.

O Goodreads é um site magnífico, onde cada pessoa deixa a sua opinião e aquilo produz uma média; acho que é muito mais válido do que a opinião de uma pessoa só, que é como funcionávamos até existirem estas redes. Acho que cumprem um propósito mesmo espetacular para os escritores.

Ao mesmo tempo, quem quer, compra os livros de autoajuda; não posso estar a julgar ninguém, porque eu próprio compro coisas que, se calhar, os outros acham que são parvas. Mas, do meu ponto de vista, é preciso ter alguma inteligência para distinguir o que é que é um livro que é sincero na sua abordagem, e o que é que é um livro que é manipulação. É daí que nasce a positividade tóxica, com pessoas a propagar frases que, às vezes, não fazem nenhum sentido para ser usadas em certos contextos. É preciso ter um olho crítico; quando frequentamos as redes sociais, estamos sujeitos a levar com todas as coisas que lá estão – boas e más.

Antes do lançamento de 'Manual de Sobrevivência de um Escritor', disse numa entrevista que esse foi o livro em que deu mais de si. Tendo em conta os temas que aborda em 'Uma Valsa com a Morte', esta obra toma o pódio?

Não sei, porque o outro tema também era muito importante para mim; era sobre o ofício da escrita, que é, no fundo, a minha maneira de sobreviver e a minha profissão. Não sei se este toma o pódio, porque é diferente na sua abordagem e nos temas, uma vez que aborda coisas da vida comum de toda a gente. Nem toda a gente escreve, mas acho que toda a gente pensa nestes temas que abordei aqui. Toda a gente pensa em Deus, a certa altura; toda a gente pensa na razão de estarmos vivos, porque é que a morte é tão assustadora. Grande parte das pessoas tem choques com a realidade e crises, e este livro fala muito sobre essa questão da crise enquanto momento fundamental da nossa existência humana.

Uma das citações das epígrafes é do José Ortega y Gasset, que diz que as ideias verdadeiras são as ideias dos náufragos. Acho que isso é muito interessante porque, de facto, uma pessoa pode propagar as ideias todas que quiser, mas é só quando naufraga, quando está debaixo de fogo ou nas trincheiras – como aquela expressão da Primeira Guerra Mundial, que dizia que nas trincheiras não há ateus, porque não há espaço racional – é que sabemos o que é que as coisas são. Nesse ponto de vista, o livro fala da crise pessoal e intransmissível como momento de autodescoberta e do desatar dos nós dessa crise. Era como o Buda dizia, que o primeiro passo para a mudança é uma pessoa reconhecer que a vida é sofrimento, ou que tem uma grande componente de sofrimento, e que esse sofrimento tem uma causa e a busca dessa causa é o desígnio.

As únicas mensagens que recebo são dos leitores, e essas sim respeito-as e tento perceber porque é que não gostaram de uma parte ou de outra. De resto, a inteligência ou a fatia que é a elite da opinião sobre livros passa-me completamente ao lado

E como é que tem sido a receção?

O livro saiu há pouco tempo e meteu-se a Feira do Livro de Lisboa pelo meio, por isso acho que as pessoas ainda estão um bocado assoberbadas e a dirigir as leituras todas. Creio que este é um livro que terá resposta mais tarde. Acho que os romances são muito mais imediatos; em duas ou três semanas tenho críticas e comentários. Nos livros de ensaio demora mais tempo. Já tinha descoberto isso com o 'Manual de Sobrevivência de um Escritor', e neste está a acontecer a mesma coisa. As pessoas demoram o seu tempo a ler; se calhar são livros que dão mais que pensar do que os romances. 

Mas a verdade é que uma das coisas que me é muito satisfatória, nos últimos anos, é que, embora me preocupe muito com os leitores e tenha uma dívida de gratidão para com eles, houve toda uma fatia de preocupação e de ansiedade que desapareceu, no que diz respeito à opinião de críticos ou de jornalistas. De certa maneira, acho que os meus livros já estão ao lado disso. Ou seja, os meus leitores são independentes da opinião pública. Não leio críticas há anos, porque esqueço-me. As únicas mensagens que recebo são dos leitores, e essas sim respeito-as e tento perceber porque é que não gostaram de uma parte ou de outra. De resto, a inteligência ou a fatia que é a elite da opinião sobre livros passa-me completamente ao lado. A minha única preocupação são os leitores.

Não posso deixar de lhe perguntar isto: como é que foi escrever para 'Rabo de Peixe'? E como é que está a encarar o sucesso da série?

É esquisito. Começámos a escrever em janeiro de 2021; fizemos uma sala de escritores, uma coisa que, normalmente, não se faz cá, porque não há tempo, nem orçamento. Desconfiava que a série fosse muito bem sucedida em Portugal, mas o que não podia suspeitar e não apostaria era que a série fosse um sucesso mundial; esteve nos tops de 30 e tal países o que, para a ficção portuguesa, nunca tinha acontecido – nem de perto, nem de longe. Foi uma coisa extraordinária. Ficámos todos muito surpresos, mas isso trouxe mais humildade para perceber que, agora, o que temos de fazer é voltar à base. Voltar à escrita, voltar à origem.

É tão avassalador que tenho recebido mensagens todos os dias de pessoas que não conheço de parte nenhuma a dizer que querem entrar na série. Acho isso giro, mas não posso dizer nada; não mando na série, sou só um dos escritores. Tem sido engraçado mas, ao mesmo tempo, um bocado avassalador, apesar de trazer o sentido de que temos de fazer tudo outra vez, como se não tivéssemos feito nada. [A segunda temporada] vai demorar; não temos uma linha escrita. Esta fase é importante para manter a tranquilidade, meter o sucesso de lado, e perceber que estamos a fazer uma coisa que teve muito sucesso, mas isso não significa que continue a ter.

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