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"Ainda se olha para a literatura escrita por mulheres como algo menor"

Foi a partir de uma busca pela partilha de experiências e pela valorização da literatura escrita por mulheres que surgiu o Clube das Mulheres Escritoras, uma 'irmandade' de cerca de 30 autoras portuguesas que pretendem 'abanar' o paradigma. O Notícias ao Minuto esteve à conversa com a porta-voz do grupo, Filipa Fonseca Silva.

"Ainda se olha para a literatura escrita por mulheres como algo menor"

Tudo começou com um pequeno grupo de WhatsApp entre quatro autoras portuguesas que, num espírito de entreajuda e sororidade, partilhavam 'ossos do ofício'. Agora, cerca de três dezenas de membros integram aquilo que se transformou no Clube das Mulheres Escritoras, autoras unidas pela paixão pela literatura e pela ambição de mudar o paradigma desta arte que, como muitas outras, continua a dar destaque aos homens.

Na verdade, Filipa Fonseca Silva, autora de sete obras publicadas e porta-voz do grupo, confessou, em entrevista ao Notícias ao Minuto, que o clube "terá de existir" até que "nas prateleiras dos autores portugueses estejam tantas mulheres quanto homens".

A escritora ressalvou, contudo, que estas autoras não são movidas por um ressentimento contra os seus colegas do sexo masculino. Ao invés, pretendem "contrariar o preconceito que ainda existe de que as mulheres estão sempre contra as mulheres", que não passa de "um perpetuar de ideias do patriarcado, que prefere ter as mulheres umas contra as outras", pela constatação de que, unidas, são capazes de "coisas incríveis".

Além de Filipa Fonseca Silva, fazem parte desta 'irmandade' as escritoras Carla M. Soares, Catarina Costa, Célia Correia Loureiro, Cláudia Araújo Teixeira, Cláudia Lucas Chéu, Dulce Garcia, Elisabete Martins de Oliveira, Filipa Martins, Gabriela Relvas, Helena Magalhães, Iris Bravo, Joana Bértholo, Joana Kabuki, Lénia Rufino, Mafalda Santos, Maria Francisca Gama, Maria Isaac, M.G.Ferrey, Patrícia Madeira, Patrícia Reis, Rita Cruz, Rita da Nova, Sara Rodi, Susana Amaro Velho, Susana Piedade, Tânia Ganho, e Valentina Silva Ferreira, não só numa busca pela partilha de experiências, como também pela valorização da literatura escrita por mulheres, que ainda é encarada "como uma coisa menor", remetida aos extremos do erudito ou do comercial.

Em Portugal, ainda se olha muito para a literatura escrita por mulheres como uma coisa menor. Ou seja, os homens é que são os convidados para os festivais, os homens são os que ganham os prémios. Quando lançam uma história de amor, é sempre um romance, uma coisa muito séria e bonita. Quando uma mulher lança uma história de amor, é uma literatura 'light'

Como é que surgiu o Clube das Mulheres Escritoras?

O clube surgiu este ano, no início de março, quando estive com outras autoras da editora Penguin – Helena Magalhães, Maria Francisca Gama, Maria Isaac – num evento. Já tínhamos entre nós um grupo do WhatsApp, onde íamos trocando mensagens, e na altura propus-lhes alargamos este grupo a outras autoras, porque achei que cada vez que falámos, ou que falava com uma delas individualmente, acabava por ser uma experiência super positiva. Pelo menos a mim, dava-me imenso ânimo falar com elas e saber que tinham as mesmas lutas que eu, os mesmos dilemas e angústias.

No meu caso, que já publico livros há 12 anos, só o ano passado, com elas, é que, pela primeira vez, as conheci pessoalmente e comecei a desenvolver uma relação [com autoras]. Foi a primeira vez que tive, realmente, amigas escritoras. Comecei a pensar, porque não falar mais vezes? No fundo, a escrita é um processo solitário; não é como trabalhar em qualquer outro meio em que a pessoa, mesmo que faça um trabalho solitário, tem um cafezinho ou almoça com os colegas. Há sempre uma troca de impressões, e na escrita isso não existe. Os escritores estão cada um na sua ilha. Eventualmente, encontram-se numa feira ou num evento, mas não há esta troca.

Foi daí que surgiu a ideia de alargar [o grupo] a todas as autoras portuguesas e fazer um clube – chama-se clube mas não é um clube, ninguém paga quotas; é mais no sentido literário do que institucional. Sabíamos, pela nossa experiência, que ia ser proveitoso para mais gente, porque se para nós estava a ser tão importante, porque não alargar a outras mulheres? Foi, então, que tivemos a nossa primeira reunião, no final de março.

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© Pedro Rocha / Global Imagens  

É quase como uma irmandade, digamos assim.

Precisamente. Também para contrariar o preconceito ou mito que ainda existe de que as mulheres estão sempre contra as mulheres, que são rivais, que são umas invejosas. Não é só cá em Portugal, – acho que é geral –, mas não é mais do que um perpetuar de ideias do patriarcado, que prefere ter as mulheres umas contra as outras. Isto porque, se calhar, já perceberam que as mulheres, quando se unem, fazem muitos 'estragos'. Portanto, sim, é isso, é uma irmandade. É mostrar que as mulheres, quando se unem, fazem coisas incríveis.

Se qualquer escritora do grupo, que já somos 30, tiver sucesso, vamos celebrar esse sucesso, porque o sucesso de uma é o sucesso de todas. Se uma autora portuguesa vende muito e tem sucesso, isso é bom para todas as autoras portuguesas. Abre, também, a curiosidade do público para com a literatura escrita por mulheres e, se calhar, na próxima vez que entrar numa livraria, a pessoa já vai olhar para as autoras portuguesas com outros olhos, porque houve uma que vingou, outra que ganhou um prémio, outra que está no 'top'. Vamos puxar umas pelas outras e ajudar-nos, não só entre nós, com questões mais práticas deste ofício da escrita, mas também para divulgarmos as obras das autoras portuguesas, que ainda são um bocadinho postas de lado.

Até conseguirmos estar ao mesmo nível, em que nas prateleiras dos autores portugueses estejam tantas mulheres quanto homens, este clube vai ter de existir

Nesse sentido, diria que também se trata de uma tentativa de dar voz e de destacar o trabalho de escritoras portuguesas num espaço que costumava, e ainda continua, a ser dominado pelo masculino?

Sim, sem dúvida. Acho que em Portugal ainda é mais do que isso, e atenção que não estamos contra os homens. Aliás, todas nós lemos homens e celebramos também os nossos autores portugueses. Mas, de facto, em Portugal, ainda se olha muito para a literatura escrita por mulheres como uma coisa menor. Ou seja, os homens é que são os convidados para os festivais, os homens são os que ganham os prémios. Quando lançam uma história de amor, é sempre um romance, uma coisa muito séria e bonita. Quando uma mulher lança uma história de amor, é uma literatura 'light'.

Ainda existe esse preconceito, infelizmente. Não é culpa dos autores; é a perceção que o público tem, e que pode ter várias causas. Pode ser por a comunicação social dar mais cobertura aos homens ou de, historicamente, sempre terem publicado mais, como é óbvio. Acontece no cinema, na realização, na pintura. Até conseguirmos estar ao mesmo nível, em que nas prateleiras dos autores portugueses estejam tantas mulheres quanto homens, este clube vai ter de existir.

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© Pedro Rocha / Global Imagens  

É importante as pessoas saberem que há tantas mulheres a escrever tanto, em tantos géneros diferentes, que vão do terror ao romance, da distopia à poesia, de coisas mais eruditas a mais comerciais. [No clube] a mais nova tem 24 anos e a mais velha 54 anos. É um grupo muito heterogéneo, quer nas idades, quer nas personalidades, quer nos estilos e nos livros que escrevemos.

Acho que é importante os leitores terem mais conhecimento do que é que se está a fazer em Portugal, nas autoras vivas. Se pedirmos às pessoas na rua que digam nomes de autoras portuguesas, provavelmente vão falar da Agustina Bessa-Luís, da Sophia de Mello Breyner, da Natália Correia. E vivas, onde é que elas estão? Quem são as autoras vivas? Somos nós, e é isso que queremos mostrar.

 Entre a história de cordel e as grandes autoras portuguesas consagradas, existe todo um leque de autoras incríveis, e queremos que as pessoas descubram que existimos

Apesar de tudo, acha que a sociedade começa a dar mais ênfase à literatura feita por mulheres, ou ainda há uma grande diferença no tratamento entre homens e mulheres?

Ainda há esse preconceito quer na sociedade, quer no espaço que nos dão nas livrarias. O que é estranho é que, segundo estudos, quem mais compra livros são mulheres. Se virmos as prateleiras de literatura estrangeira, podemos verificar que há muitas mulheres, e muitas mulheres nos 'tops' – a Isabel Allende, a Colleen Hoover, que é uma autora de literatura mais comercial, mas que está a ter um enorme sucesso em todos os países. Há uma data de autoras mulheres, estrangeiras, que estão nos 'tops', porque os leitores compram aqueles livros.

Mas, então, se compram as mulheres estrangeiras, e se são as mulheres que compram mais livros, por que é que não compram as mulheres portuguesas? Essa é a questão que também queremos levantar. Não compram porque acham que não escrevemos bem, não compram porque não nos conhecem, não compram porque os nossos livros não estão expostos o suficiente? Essas questões têm de ser levantadas. Não tenho as respostas, nem nenhuma de nós tem mas, se calhar, é um bocadinho de tudo. Também acho que existe algum preconceito em relação aos nossos autores homens, no sentido em que, para o público em geral, a literatura portuguesa ainda é muito aquela literatura erudita, coisas muito sérias, intelectuais e difíceis para públicos menos literários.

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© Pedro Rocha / Global Imagens  

Ainda existe esse preconceito em relação à literatura portuguesa num todo, de que é uma seca. É um livro chato e, portanto, vou comprar livros estrangeiros, porque eles é que escrevem os policiais e aquelas histórias mais entusiasmantes. Isso existe em Portugal; as pessoas é que têm de mudar o 'chip', experimentar, e experimentar as autoras portuguesas, que ainda estamos conotadas com o oito ou o 80: ou o livro é muito sério, ou relegam-nos logo para a literatura 'light', sem qualidade. Entre a história de cordel e as grandes autoras portuguesas consagradas, existe todo um leque de autoras incríveis, e queremos que as pessoas descubram que existimos. De certeza que haverá livros para todos os gostos, e não é preciso ir para os autores estrangeiros, porque em Portugal escreve-se muito bem.

Porque é que o Plano Nacional de Leitura está tão desatualizado? Claro que há muitas razões; obviamente que temos de introduzir os nossos autores mais importantes da história da literatura, para os miúdos terem um primeiro contacto, mas não precisamos de ter a mesma obra há 40 anos

Sobre a questão que pegou quanto ao 'boom' da literatura estrangeira, como é que encara o crescimento do mercado livreiro em Portugal, também um pouco impulsionado pelas redes sociais, principalmente o TikTok?

Encaro com enorme satisfação. Ao contrário do que muita gente diz, - e eu também como mãe muitas vezes digo que as redes sociais são sugadoras do nosso tempo, tiram-nos tempo que poderíamos estar a dar a outras atividades, nomeadamente à leitura - está a acontecer este fenómeno dos 'booktokers' e dos 'bookgrammers', que são pessoas que escrevem ou que fazem publicações exclusivamente sobre livros. Recomendam livros uns aos outros, mostram que estão a ler, fazem 'reviews', fazem passatempos tipo clube do livro, e isso é incrível. Estão a trazer uma nova geração que, se calhar, já tínhamos perdido a esperança [de conquistar]. Mas, agora, não saem do telefone porque estão a falar sobre livros – a falar e a comprar.

Acho que é um segmento que está a crescer muito, dos 18 aos 24 anos, que são os novos leitores, e aplaudo todas essas pessoas que fazem esse esforço e que nos seus canais mostram um enorme amor aos livros e à leitura. No outro dia, estive com uma amiga que me disse que o filho começou a ler agora, porque ouviu alguém que o leu [falar sobre a obra], e era um livro até bastante bom; talvez até faça parte das recomendações do Plano Nacional de Leitura, que é a parte boa do Plano Nacional de Leitura. Infelizmente, quando se trata dos livros que os jovens têm mesmo de ler, continuam ali as coisas que já lemos há 30 e 40 anos. Ainda assim, existem estes jovens adultos que estão a começar a 'furar' e ganhar o gosto pela leitura, apesar de terem sido obrigados a ler coisas que já estão desatualizadas.

Ao contrário do que dizem os velhos do Restelo, não se pode querer que a pessoa ganhe uma paixão pelo livro se o livro for uma seca, difícil e distante. Acho que é mais importante as pessoas lerem, porque quando conquistamos um leitor, é para a vida. Quem gosta de ler, vai sempre gostar de ler. É importante ganharmos leitores, mostrarmos aos jovens e aos menos jovens que o livro pode ser uma alternativa a uma série da Netflix

Na sequência dessa ideia que mencionou do Plano Nacional de Leitura, considera que devia haver uma atualização para incluir vozes novas e, talvez, mais mulheres?

Sim, absolutamente. Aliás, todas nós temos falado sobre isso nas nossas reuniões. Por que é que o Plano Nacional de Leitura está tão desatualizado? Claro que há muitas razões; obviamente que temos de introduzir os nossos autores mais importantes da história da literatura, para os miúdos terem um primeiro contacto, mas não precisamos de ter a mesma obra há 40 anos. Andei na escola nos anos 90, e os livros continuam a ser os mesmos.

Mesmo no José Saramago, que é um autor que adoro, acho que o 'Memorial do Convento' não é o melhor livro do autor, nem é o livro mais adequado a um adolescente. Há, também, uma falha muito grande de autores contemporâneos. Claro que percebo que os professores já têm 'a papinha toda feita', aqueles manuais e sebentas daqueles livros e, se calhar, nem têm tempo para começar a explorar toda uma nova obra do zero. Mas, então, alguém tem de fazer esse trabalho. Não acho normal que, com tanto autor contemporâneo a destacar-se e a fazer coisas incríveis, os miúdos ainda tenham de ler as mesmas coisas que li há 30 anos. Não há nenhum livro de um autor português que seja mais adequado aos dias de hoje e que, ao mesmo tempo, tenha qualidade literária? Claro que há. Dá é muito trabalho introduzir uma nova obra.

Às vezes, os miúdos ficam entusiasmados porque é uma historia contemporânea, porque conseguem rever-se mais facilmente. Isso acaba por, quer queiramos quer não, ligar muito mais o leitor ao que está a ler; com todo o respeito pelas outras obras, que adoro, e que devem ter sempre o seu lugar na formação dos jovens e dos leitores em geral. Ao contrário do que dizem os velhos do Restelo, não se pode querer que a pessoa ganhe uma paixão pelo livro se o livro for uma seca, difícil e distante. Acho que é mais importante as pessoas lerem, porque quando conquistamos um leitor, é para a vida. Quem gosta de ler, vai sempre gostar de ler. É importante ganharmos leitores, mostrarmos aos jovens e aos menos jovens que o livro pode ser uma alternativa a uma série da Netflix. Não é com os grandes clássicos escritos há 100 ou 200 anos que as pessoas se vão identificar.

Já lançaram duas newsletters; o que é que estão a planear fazer agora? Quais os próximos passos?

Temos duas newsletters todos os meses; a primeira, que sai no início do mês, com a agenda – eventos, entrevistas, presenças, destaque aos livros que as autoras do grupo publicaram – e depois, todos os dias 15 de cada mês, sai uma newsletter literária, com cinco textos originais de cinco das autoras, que vão rodando. Também é uma forma de dar a conhecer a escrita de cada uma de nós; se calhar, a pessoa que leu um texto e gostou, quando for à livraria, já não tem medo de comprar um livro daquela autora.

Queremos também criar o nosso próprio site, onde poderemos ter essas informações todas agregadas, com os perfis das autoras. Temos ideias para mais eventos; fizemos agora um evento aberto ao público na Feira do Livro de Lisboa, com 11 autoras, e a audiência ficou muito entusiasmada e pediu-nos para o fazermos em todo o lado; também temos esse plano de organizar eventos em que possamos estar em contacto direto com os leitores.

Quer dizer, somos 30 mulheres, por isso ideias não faltam. Mas como é uma coisa muito informal, não há ninguém dedicado a 100%. Vamos tendo ideias, falando no WhatsApp, ouvindo o 'feedback' que nos vão dando e, devagarinho, sem querer dar passos maiores do que as pernas, vamos tentar espalhar a palavra e angariar mais autoras.

Não incluímos a literatura infanto-juvenil, embora também haja muitas autoras portuguesas e muito boas, porque achamos que os desafios são diferentes da literatura para adultos. Além disso, decidimos só aceitar autoras que estejam publicadas por editoras tradicionais, porque é como se fosse um selo de alguma qualidade; não podemos estar a ler todos os livros de todas as autoras que gostassem de integrar o grupo, nem temos pretensão em ser um júri de qualidade. O critério é: se foi publicada por uma editora tradicional, é porque já houve alguém do meio literário que passou por esse crivo e que achou que aquela autora tinha uma obra relevante para ser publicada.

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