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"Por muito rápido que andemos, não andamos à velocidade" da Covid-19

O epidemiologista Manuel Carmo Gomes é o entrevistado desta segunda-feira do Vozes ao Minuto.

"Por muito rápido que andemos, não andamos à velocidade" da Covid-19
Notícias ao Minuto

27/06/22 por Ema Gil Pires

País Covid-19

Foi há já mais de dois anos que o coronavírus SARS-CoV-2 chegou a território nacional e, desde então, não tem dado tréguas às autoridades de saúde. O constante surgimento de novas variantes, a necessidade de formulação de vacinas que ajudem a combater as populações mais vulneráveis e a cada vez mais rápida capacidade de propagação do vírus têm sido alguns dos desafios que têm obrigado decisores políticos, a indústria farmacêutica e os profissionais de saúde a ‘arregaçar as mangas’ para ajudar no processo de contenção da doença.

Numa altura em que Portugal já ultrapassou o pico da sexta vaga da pandemia, o número decrescente de casos de infeção, de óbitos e de ocupação hospitalar parece oferecer um panorama bem mais tranquilizador do que o vivido em momentos anteriores da pandemia, tal como explicou, nesta entrevista ao Notícias ao Minuto, o epidemiologista Manuel Carmo Gomes, que é também membro da Comissão Técnica de Vacinação, órgão com funções consultivas junto da Direção-Geral da Saúde (DGS).

Porém, a rapidez evolutiva que tem sido demonstrada por este novo coronavírus continua a suscitar razões para preocupações, na perspetiva do especialista. Até porque “por muito rápido que andemos” no desenvolvimento de vacinas destinadas a criar imunidade contra a doença, “não andamos à velocidade do vírus". 

No Vozes ao Minuto desta segunda-feira, falamos sobre as perspetivas de evolução da pandemia de Covid-19 e de surgimento de novas estirpes, sobre o futuro da vacinação contra a doença e sobre como Portugal se apresenta, neste momento, em comparação com o panorama internacional. 

Estamos atualmente a viver uma fase de maior acalmia da pandemia em território nacional, com números de casos e de óbitos decrescentes, segundo os mais recentes dados da DGS. O que é que isto nos diz sobre a evolução da pandemia em Portugal? Esta tendência deverá persistir durante os próximos tempos?

No âmbito desta sexta vaga, estamos neste momento com uma tendência decrescente ao nível da incidência da doença. Nós estávamos com 12.980 casos por dia, em média, no dia 21 de junho – há uma semana atrás, por exemplo, eram 15.857. O pico da doença nesta sexta vaga foi atingido no dia 20 de maio, com 27.494 casos - e, desde então, temos estado a registar um decréscimo de novos casos. Em causa está uma descida que é transversal em todas as regiões do país e, também, a todos os grupos etários. Olhando para o índice de transmissibilidade (Rt) - que é aquele valor que nos dá a indicação se, num futuro próximo, a epidemia vai subir ou vai descer -, é importante notar que o Rt, neste momento, está à volta de 0,9, o que significa que por cada 10 pessoas que estão infetadas, essas 10 pessoas vão infetar outras nove. Uma vez que o Rt está persistentemente abaixo de 1, isso sugere que, em princípio, vamos continuar a ter uma tendência de descida nos números.

Por outro lado, neste momento temos uma média de 32 óbitos por dia. Ou seja, estamos também a descer no que toca ao número de óbitos, cujo pico foi atingido na primeira semana de junho. É previsível que, com a continuação da descida do número de casos, o número de óbitos também continue a descer. É importante notar ainda que, neste momento, 76% dos óbitos dizem respeito aos maiores de 80 anos. Esta percentagem tem vindo sempre a subir ao longo do ano de 2022, embora comecemos agora a reverter. A razão pela qual nós começamos a reverter esta linha passa pelo segundo reforço da vacinação. Aliás, esta importante proporção de óbitos em maiores de 80 anos foi uma das razões pelas quais a Comissão Técnica de Vacinação recomendou a antecipação da segunda dose de reforço para proteger estes idosos. E, de facto, já se nota alguma diferença nesse indicador.

Os números mostram ainda uma tendência decrescente ao nível dos internamentos hospitalares.

Quanto à ocupação hospitalar, o número de camas ocupadas para prestação de cuidados aos pacientes infetados com Covid-19 está, de facto, também a descer. Quanto à percentagem de pessoas que, estando no hospital, estão nos cuidados intensivos, esse valor ronda atualmente os 5% e é muito inferior à situação anterior à variante Ómicron, que é menos patogénica.

Esta descida começou no fim de maio e tem continuado ao longo de todo o mês de junho. Estamos agora com menos de 100 pessoas em cuidados intensivos. E eu aqui recordo que nós tínhamos uma linha vermelha, de 255 camas ocupadas em cuidados intensivos, e que mesmo na pior altura desta sexta vaga nós nem sequer chegámos às 200 camas ocupadas.

A descida dos números referentes a enfermaria é sempre um pouco mais lenta do que nós gostaríamos, tem algum atraso em relação à descida no número de casos, mas se o número de casos continuar a descer, a enfermaria também continuará a descer. 

Santos Populares tiveram um impacto apenas no sentido de diminuir a rapidez com que estávamos a descer no número de casos

Agora com o início do verão e com o regresso ‘em força’ dos Santos Populares, num contexto caracterizado pelas reduzidas restrições em vigor para conter a pandemia, podemos esperar um agravamento da situação pandémica em território português?

Entre 31 de maio e 10 de junho, registou-se uma descida rápida no número de casos médios, a sete dias, por cada 100 mil habitantes. A seguir ao 10 de junho, o ritmo da diminuição abrandou um pouco, mas não deixou de descer. A impressão com que nós estamos neste momento é que os Santos Populares tiveram um impacto apenas no sentido de diminuir a rapidez com que estávamos a descer no número de casos. Para já, não há sinal de que a descida tenha parado ou de que nós venhamos a ter um ressurgimento dos casos. Continuamos a descer, embora mais lentamente do que na primeira semana de junho, em que a descida foi muito rápida. 

Ninguém pode ter a certeza de que tais valores não venham a estabilizar devido aos contágios que vão ocorrer ao longo de todo este mês de junho - mas, para já, não há sinal disso. 

Não é de excluir que haja, temporariamente, nomeadamente no fim deste mês e na primeira metade de julho, algum reflexo das festas populares

E para o resto do verão, o que é que podemos esperar tendo em conta os indicadores existentes?

A resposta a esta pergunta depende muito de saber se vai surgir uma nova subvariante da Ómicron ou não. Se não surgir, tudo indica que nós manteremos a incidência num nível baixo. O vírus, de maneira nenhuma, vai deixar de circular, mas vamos estar com uma incidência mais baixa do que aquela que temos neste momento. Não é de excluir que haja, temporariamente, nomeadamente no fim deste mês e na primeira metade de julho, algum reflexo das festas populares. Mas, de um modo geral, a perspetiva é que, ao longo de agosto, a incidência da doença seja baixa ou moderada. Mais baixa, até, do que aquela que temos agora. Evidentemente que, se surgir uma subvariante, o cenário poderá alterar-se completamente. 

Recorde-se ainda que, neste momento, a subvariante BA.5 da Ómicron domina em Portugal, segundo um gráfico do Instituto Ricardo Jorge. O instituto estima que, na semana de 6 a 12 de junho, 88% dos casos eram referentes à subvariante BA.5. 

Relativamente à possibilidade de aparecimento de novas variantes do SARS-CoV-2, o que é que dizem as previsões? Podemos esperar que surjam muito em breve?

A nível de perspetivas para o futuro, ninguém tem uma 'bola mágica' que permita responder a essa pergunta. Mas podemos fazer algumas considerações rápidas sobre a evolução deste vírus. Até à Ómicron, a sua evolução foi muito difícil de prever – em causa estavam variantes que surgiram em áreas geográficas do planeta completamente diferentes, de uma forma completamente inesperada e, principalmente, com pouca ligação evolutiva do ponto de vista genético entre elas. É muito difícil dizer que uma evoluiu a partir da outra com continuidade. 

A partir do momento em que a Ómicron chega, esse cenário muda completamente. A Ómicron tem estado a comportar-se como os coronavírus habituais das constipações de inverno. Existem quatro coronavírus que, todos os invernos, causam constipações completamente benignas, daquelas que provocam apenas congestão nasal, um bocadinho de tosse e mal-estar. E nós podemos ser infetados por qualquer um deles num determinado inverno e daí a dois ou três invernos sermos novamente infetados pelo mesmo coronavírus. Isto porque esses coronavírus vão evoluindo devagarinho, gradualmente, e mudando de tal maneira que num determinado ano eles já conseguem escapar aos anticorpos das pessoas que infetaram há dois ou três anos atrás. Isso não quer dizer que o sistema imunológico não tem a capacidade de reconhecer esse coronavírus se ele mudar, mas a questão é que ele muda. 

Ora, a Ómicron está a fazer isso. Tendo em conta o que se conhece até agora, é previsível que a Ómicron continue a evoluir à semelhança dos coronavírus que causam as constipações de inverno, de forma a fugir aos anticorpos que nós já todos temos e que são causados pela própria Ómicron. Por exemplo, algumas pessoas que foram infetadas com a variante BA.1 ou BA.2, em janeiro e fevereiro, já estão a ser reinfetadas com a BA.5. A BA.5 é uma continuidade da Ómicron, que se caracteriza por fugir aos anticorpos que foram originados pela própria BA.1 ou pela BA.2, que também são subvariantes da Ómicron. Tudo indica para que isto continue a ser assim, mas não sabemos durante quanto tempo. 

Não há nenhuma razão para acreditar que não vai aparecer uma BA.7 ou uma BA.8.

Mas a verdade é que esse processo evolutivo tem sido muito célere. Há motivos para preocupação?

A Ómicron apareceu em dezembro do ano passado, com a BA.1, e nós já vamos na BA.5 passados apenas seis meses. Estamos praticamente com uma média de uma subvariante por mês. Não há nenhuma razão para acreditar que não vai aparecer uma BA.7 ou uma BA.8. Não sabemos quando, mas quando aparecerem tudo isso vai ser determinante para responder a estas perguntas acerca do futuro da epidemia. 

Neste momento, Portugal está a descer no número de infeções, mas se a meio do verão aparece uma BA.6 ou uma BA.7, não estamos livres de ter um recomeçar da subida dos casos. E podemos andar com estas ondas epidémicas sucessivas não sabemos durante quanto tempo. A quantidade de carga de infeção na população ou o número médio de novos casos por dia vai depender muito da rapidez com que estas subvariantes da Ómicron vão surgindo. Se elas forem mais espaçadas no tempo, e tendo como exemplo este período após atingido o pico da BA.5, vamos continuar a descer e estar bastante tempo com muito poucos casos. Mas se aparece uma subvariante de forma mais rápida, agora em agosto ou em setembro, nós vamos ter uma nova subida. E podemos andar muito tempo nestas subidas e descidas. 

E o que podemos esperar, então, de uma nova variante que venha a surgir? Podemos esperar que, tal como as novas estirpes que têm vindo a surgir, esta venha a ser menos letal, mas mais contagiosa do que as anteriores?

Não existe nenhuma razão, do ponto de vista evolutivo, para que o vírus evolua no sentido de causar doença mais grave. Isso, neste momento, não lhe dá vantagem nenhuma - em termos de conseguir propagar-se mais depressa e infetar mais pessoas. Aquilo que, neste momento, dá vantagem ao vírus é ter alterações que fazem com que ele fuja aos anticorpos que já toda a gente tem. Porque, hoje em dia, em Portugal e na Europa, não há praticamente ninguém que não tenha anticorpos (ou por causa da vacinação, ou por causa da infeção, ou então de ambos). Uma subvariante que apareça e que seja capaz de fugir aos anticorpos tem efetivamente vantagem. 

Quando os vírus evoluem no sentido de aparecerem com alterações que lhes permitam fugir a esses anticorpos, essas alterações não têm nada a ver, em geral, com alterações mais patogénicas, ou seja, alterações que fazem com que o vírus fique mais virulento e cause doença mais grave. Mas não se pode excluir que isso aconteça. Ninguém pode dizer que não vem aí uma variante que seja mais patogénica do que a Ómicron e que seja, por exemplo, tão patogénica como a Alfa ou a Delta. Há aqui uma componente aleatória, de acaso, que ninguém consegue prever. Mas eu diria que o mais provável é que continuemos com subvariantes que fogem aos anticorpos das variantes anteriores, mas que não causam doença mais grave. No entanto, não há certezas sobre isto.

Neste momento, 14,6% dos casos de Covid-19 já são reinfeções

No seguimento deste processo evolutivo do vírus para conseguir propagar-se mais depressa, a verdade é que, nos últimos tempos, tem-se vindo a registar um aumento das taxas de reinfeção pela doença. Qual o panorama atual e que perspetivas existem para o futuro?

Neste momento, já temos muitas pessoas a ter reinfeção. Neste momento, 14,6% dos casos de Covid-19 já são reinfeções. Grande parte destas reinfeções são com a BA.5, que já está a infetar pessoas que tiveram a BA.1 e a BA.2. E estas duas, quando surgiram, reinfetaram pessoas que já sido infetadas com a Delta e com a Alfa, antes disso. É previsível que a proporção de casos que são reinfeções continue a aumentar, porque um pouco mais de metade da população já foi infetada. Por faixas etárias, é nos jovens que se registam mais casos de reinfeção, o que tem a ver com o facto de eles se exporem mais. 

E que balanço é possível fazer atualmente sobre o processo de vacinação contra a Covid-19 em território nacional?

Se considerarmos o processo de vacinação primária, vemos que todas as idades já estão altamente vacinadas com as duas doses. Com exceção das crianças com idades entre os 5 e os 11 anos [41% de vacinados], mas em que a taxa de vacinação, ainda assim, tem vindo a aumentar. Aqui, no caso das crianças, é importante destacar que houve alguma hesitação, um pouco gerada pela polémica levantada por uma minoria de pessoas - e também temos de ter em atenção que houve um enorme número de crianças que foi infetada pela Ómicron nos meses de janeiro e fevereiro e que só podem, assim, vacinar-se passados quatro meses após terem sido infetadas.

Quanto ao primeiro reforço da vacina, comummente designada de terceira dose, vemos que existe uma cobertura vacinal muito elevada das pessoas com mais de 60 anos. 92% destas pessoas recebeu este reforço. Nas idades mais jovens os valores ainda estão a subir muito devagarinho e estas pessoas estão ainda com uma cobertura do reforço moderada. Por exemplo, nos jovens com idades entre os 20 e os 29 anos, apenas 52% dos indivíduos recebeu esta dose de reforço, embora exista uma tendência ascendente. Mas importa recordar que também muitas destas pessoas foram infetadas em janeiro e fevereiro pela Ómicron.

Já no que toca à segunda dose de reforço, destinada aos maiores de 80 anos, no dia 19 de junho já 53,3% destas pessoas tinha tomado esta quarta dose da vacina. É importante destacar que, desde a introdução do segundo reforço para os maiores de 80 anos, a letalidade da doença nesta faixa etária ficou-se apenas pelos 2%, o que é um valor relativamente baixo. Antes do aparecimento da Ómicron, a letalidade era mais elevada, entre 5% a 10% nesta faixa etária. Com a chegada da Ómicron, essa letalidade passou a ser muito inferior. 

Não sabemos ainda que vacinas é que aí vêm e o assunto é bem mais complicado do que se pode pensar

A Agência Europeia dos Medicamentos anunciou este mês que as vacinas contra a covid-19 adaptadas às novas variantes poderão ser aprovadas "em setembro". Qual o impacto estimado destas vacinas no âmbito do combate à doença?

Praticamente todos os países europeus, como nós, estão a vacinar não com o objetivo estratégico de evitar a transmissão da doença, mas com o objetivo de proteger as pessoas mais vulneráveis e de evitar casos graves da mesma. As vacinas que aí vêm mantêm esse objetivo. Provavelmente, a vacina será recomendada para pessoas idosas, a partir dos 65 anos. Ou seja, aproximadamente os mesmos grupos que estão recomendados para a gripe - e, idealmente, as vacinas serão dadas em simultâneo, porque do ponto de vista logístico é mais fácil. Não sabemos ainda que vacinas é que aí vêm e o assunto é bem mais complicado do que se pode pensar. 

Estudos laboratoriais que têm sido feitos têm dado respostas algo contraditórias relativamente à proteção contra um caso de doença grave que uma quarta dose de uma vacina nova confere face a qualquer subvariante da Ómicron. Estes estudos mostram que esta não é necessariamente melhor do que a proteção que é dada por uma quarta dose da vacina antiga contra a mesma Ómicron. Isto pode não parecer intuitivo, mas existem várias razões no nosso sistema imunológico para que isso aconteça. Portanto é preciso demonstrar que uma vacina que foi concebida especificamente para a Ómicron confere maior proteção numa quarta dose do que a ‘velha’ vacina que foi concebida para a variante original chinesa. Esse é o primeiro problema. 

O segundo problema é que a própria Ómicron está a evoluir e nós sabemos, por exemplo, que a BA.4 e a BA.5, que agora andam por aí, já são bastante diferentes da BA.1. E, no entanto, os ensaios que estão a ser feitos com as vacinas próprias para a Ómicron focaram-se na BA.1 e, quanto muito, na BA.2. Mas a verdade é que nós já vamos na BA.5. E não há maneira de acompanhar o vírus a esta velocidade no que diz respeito a ensaiar vacinas, porque nas vacinas é preciso estudar a sua segurança, eficácia e formulação. Por muito rápido que andemos, não andamos à velocidade do vírus. 

Mas existe ainda um outro problema: se vacinarmos com uma vacina adaptada à Ómicron, qual é a proteção que estamos a conferir contra uma ‘velha’ variante do vírus que ainda ande por aí no planeta e que pode ressurgir, nomeadamente, porque recombina com a Ómicron e forma um ‘bicho’ novo que tem, por exemplo, uma parte da Delta e outra da Ómicron? Se isso acontecer, e não é de excluir essa possibilidade, qual é a proteção que uma vacina adaptada à Ómicron oferece contra uma versão dessas do vírus? A resposta a esta pergunta é preocupante. Não é nada claro que uma vacina adaptada à Ómicron proteja igualmente de uma ‘velha’ Delta.

E de que forma podem ser contornadas todas estas incertezas? A comunidade científica tem alguma solução para isto?

No seguimento destas dúvidas todas, o caminho lógico é jogar pelo seguro e trabalhar em vacinas polivalentes, que têm uma componente contra a Delta, outra contra a Ómicron e outra contra a variante chinesa, por exemplo. Há já pelo menos duas empresas a trabalhar nisso. Agora, os ensaios com vacinas polivalentes são mais demorados, porque é preciso demonstrar que quando a vacina induz proteção contra uma das componentes, essa proteção não inibe a proteção conferida contra outra componente. Tudo isso se consegue esclarecer, mas leva mais tempo. E é nesse caminho que nós estamos. Os ensaios estão a decorrer, os resultados vão saindo, esperamos [a Comissão Técnica de Vacinação] ao longo do verão receber muita informação, analisá-la e ver qual é a posição que as agências reguladoras tomam, para depois tomarmos uma decisão em agosto, para saber que vacina vamos dar em setembro. E a decisão que tomarmos será a melhor que a informação disponível nos der no momento. O que fizermos será aquilo que, tudo ponderado, nos parecer o melhor – em termos de segurança e de eficácia. 

Praticamente todos os países da Europa estão com uma tendência de subida

Portugal está agora a registar uma tendência de desaceleração da propagação da doença. Mas como é lá fora, nos outros países europeus?

Como nos mostram dados do Our World in Data, há várias ondas epidémicas que estão a ocorrer em toda a Europa, embora um pouco desfasadas. Portugal, neste momento, apresenta uma tendência descendente no número de novos casos diários confirmados. Mas praticamente todos os países da Europa estão com uma tendência de subida. 

Portugal teve um pico em maio, quando os outros países estavam com valores bastante baixos. Mas se recuarmos aos meses de março e abril, podemos verificar que certos países tiveram subidas tremendas. Aqui temos, por exemplo, o caso da Dinamarca e da Áustria, que depois também acabariam por ver os números descer. E depois, quando estes países estavam com menos casos, começámos nós [Portugal] a subir ao nível deste indicador. Portanto os países europeus andam a fazer ondas, que estão relacionadas com o fim das medidas de distanciamento, nomeadamente com o fim da obrigatoriedade das máscaras, e com a chegada das novas variantes. 

Acontece que a BA.5 chegou primeiro a Portugal do que aos outros países. Cá registaram-se dois acontecimentos em simultâneo, que foi o fim da obrigatoriedade das máscaras no dia 21 de abril (passado uma semana começámos logo a ver uma subida nos casos), e o facto de nessa altura já andar a circular a BA.5 no país, que correspondia já nessa altura a cerca de 5% a 10% dos casos. Foi esta combinação que deu origem à nossa sexta vaga. Só agora é que os outros países vão ter ondas epidémicas relacionadas com a BA.4 e a BA.5.

Não vejo razões para alterar as medidas que estão atualmente em vigor, a não ser que surja uma subvariante realmente mais patogénica

As medidas atualmente em vigor para combater a pandemia em Portugal são as mais adequadas? Ou considera que, no contexto que agora discutimos, faria mais sentido reconsiderar estas restrições?

Eu estou de acordo com a generalidade das medidas que neste momento estão em vigor. Atualmente temos muito poucas medidas em vigor e a principal é o isolamento das pessoas que estão infetadas ou que são contactos e têm suspeita de infeção. Portanto eu não vejo razões para alterar as medidas que estão atualmente em vigor, a não ser que surja uma subvariante realmente mais patogénica. Não é muito provável que isso aconteça, mas não temos a certeza. 

E no que diz respeito à obrigatoriedade de máscaras em certos contextos específicos, que ainda permanece?

A utilização das máscaras está restringida a espaços muito específicos e eu acho que é perfeitamente sensata essa recomendação. Primeiro, porque o impacto económico, financeiro e social da recomendação em vigor sobre máscaras não é significativo. Segundo, porque a recomendação é feita para locais onde se encontram pessoas muito frágeis, que se forem infetadas têm um risco maior de contrair doença grave. Estou de acordo com isso.

Ainda está também em vigor o seu uso nos transportes públicos e acho que isso também é importante, porque nós sabemos como é que este vírus se transmite. O vírus tem uma arma terrível que é a transmissão por aerossol, o que significa que se eu inalar partículas de ar que foram expiradas por outra pessoa, mesmo que essa pessoa esteja a dois ou três metros de distância, eu posso ser infetada. Ora, os locais onde isso acontece são locais mal arejados, onde as pessoas estão bastante tempo a respirar. E os transportes públicos são um exemplo disso, pois a maioria deles são muito mal ventilados. Como isso não tem qualquer impacto em termos económicos e sociais, estou de acordo com isso. 

Agora, eu acho também que a máscara deve ser utilizada de uma forma inteligente e voluntária. Isto é, andarmos com uma máscara no bolso. Se formos para um espaço onde há muita gente, a probabilidade de inalarmos ar que outra pessoa expirou é grande. A partir do momento em que o ambiente é de maior distanciamento ou em que há arejamento, que é um fator fundamental, aí sim, tiramos a máscara. Isto sabendo que há já muito trabalho feito em laboratório que mostra que as partículas virais diluem-se imenso se o ar estiver em movimento e aí, portanto, o risco de inalarmos uma quantidade de vírus capaz de provocar infeção é muito baixa. 

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