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"As pessoas cansaram-se da política do passa-culpas" em Loures

O socialista Ricardo Leão, que venceu as eleições para a Câmara Municipal de Loures, é o entrevistado de hoje do Vozes ao Minuto.

"As pessoas cansaram-se da política do passa-culpas" em Loures
Notícias ao Minuto

07/10/21 por Anabela Sousa Dantas

Política Ricardo Leão

Numas eleições autárquicas menos favoráveis à CDU, foi a candidatura do socialista Ricardo Leão, à Câmara Municipal de Loures, uma das que se apresentou como vitória surpresa, impedindo a reeleição do comunista Bernardino Soares. O socialista venceu as eleições de 26 de setembro no concelho de Loures com 31,52% dos votos, elegendo quatro mandatos.

Bernardino Soares, que presidia o município de Loures desde 2013, conseguiu 29,05% dos votos e o mesmo número de mandatos do PS.

Em entrevista ao Notícias ao Minuto, Ricardo Leão garante a inversão na liderança do concelho foi surpresa apenas "para alguns" e lembra que, há quatro anos, mesmo com a CDU a vencer a Câmara, foi ele eleito presidente da Assembleia Municipal. "Esse foi o grande sinal que a população de Loures quis dar", afirmou.

Por outro lado, voltou a criticar a "visão política e partidária" de Bernardino Soares para o concelho, sublinhando que deixou "a população estagnada." "Nos últimos oito anos construíram-se zero centros de saúde naquela lógica de que a culpa é sempre do Governo", disse.

Para o futuro, promete dar continuidade aos projetos que contribuam para "o bem-estar e qualidade de vida" das pessoas de Loures, sem olhar a quem os propõe. "Para mim, pouco importa de onde é que vêm as propostas, importa-me é a finalidade que elas têm junto da população."

Bem sabemos que os centros de saúde são da responsabilidade do Governo, mas em Vila Franca, Oeiras, Sintra, Odivelas, em todos esses concelhos a competência também é do Governo, mas esses municípios - e bem - quiseram fazer parte da solução e comparticiparam parte ou metade da construção de centros de saúde

Quais acredita terem sido as razões que levaram a esta inversão surpresa da liderança autárquica em Loures?

Para alguns foi uma surpresa, para outros nem tanto. Foi, acima de tudo, um reconhecimento pela população deste meu concelho, onde sempre vivi toda a minha vida. Eu acho que o principal sinal foi, acima de tudo, pelo aspeto pessoal. As eleições autárquicas, por muito que se queiram agora transformar em eleições nacionais ou eleições legislativas, têm um fator local e dinâmicas locais muito próprias. Fui eleito vereador desta Câmara em 2001, fui vereador até 2013. Esta campanha andava na rua e sentia isso. Estive na área da Educação nesses 12 anos, o que me deu a conhecer muito este concelho e me deu oportunidade de conhecer muitas das pessoas que ainda hoje vivem neste concelho. Posso dizer que cheguei à Câmara em 2002 e de todo o parque escolar só duas escolas é que tinham refeições. Isto hoje parece uma coisa muito estranha, mas é verdade.

Sentiu descontentamento?

O grande sinal foi há quatro anos, quando me candidatei à Assembleia Municipal. Normalmente quem vota para a Câmara, vota para a Assembleia Municipal. Votaram para a Câmara CDU, portanto, o Bernardino Soares, e votaram PS, e a mim, para a Assembleia Municipal, o que faz de mim, ainda hoje, o presidente da Assembleia Municipal. Esse foi o grande sinal que a população de Loures quis dar. E depois foi a grande estagnação que este concelho teve ao longo dos últimos oito anos. A visão que a CDU e que o Bernardino Soares quiseram colocar no concelho foi uma visão muito redutora, muito ideológica. Por exemplo, nós tivemos outros concelhos da Área Metropolitana de Lisboa em que todos eles construíram um conjunto de centros de saúde e estão hoje ao serviço da população de forma condigna. E aqui em Loures foram zero. Nos últimos oito anos construíram-se zero centros de saúde naquela lógica de que a culpa é sempre do Governo. Bem sabemos que os centros de saúde são da responsabilidade do Governo, mas em Vila Franca, Oeiras, Sintra, Odivelas, em todos esses concelhos a competência também é do Governo, mas esses municípios - e bem - quiseram fazer parte da solução e comparticiparam parte ou metade da construção desses centros de saúde.

O grande sinal que o concelho de Loures quis dar foi o dizer basta, o dizer não a esta política ideológica, redutora, de colocar sempre os interesses políticos, partidários, à frente daquilo que devem ser os interesses das pessoas. E podia-lhe dizer na área da Saúde, na área da Educação, na área do Desporto, em que nos atrasamos imenso relativamente a outros concelhos, que foram construindo, que foram progredindo, com essa visão que eu quero trazer para Loures: uma Câmara Municipal que quer fazer parte da solução de todos os problemas que afetam a vida das pessoas, independentemente de quem seja a competência. As pessoas cansaram-se da política do passa-culpas.

Não deixa de se notar que a abstenção em Loures é muito elevada. Este ano, a maior parte dos votantes do concelho, 51%, não foi às urnas. Poderá ter sido um fator?

A abstenção é sempre muito elevada, não é de agora. De facto, foi mais do que nós esperaríamos. A análise que posso fazer sobre a abstenção ter sido elevada, que superaram os 51%, como disse, é que nós estamos ainda num cenário pandémico e isso não pode ser esquecido. Houve, ainda, muita gente com receio de exercer o seu direito de voto. Para além disso, temos todo um histórico de abstenção que se verificava mesmo sem estar em quadro pandémico. Esta elevação de 3% ou 4% acima do nível de abstenção que tivemos, eu quero crer que foi devido a esse quadro pandémico. Mas, acima de tudo, acho que foi também um sinal de que as pessoas estão muito desligadas.

As eleições autárquicas são aquelas em que devia haver maior ligação das pessoas e por isso é que eu acho que esta abstenção também revela um pouco um distanciamento que esta Câmara da CDU foi criando nas pessoas. Esta política que levou a um grande descontentamento por parte das pessoas, também as afastou do seu direito de voto. Esta Câmara e a CDU não estiveram muito próximas das pessoas nesta crise pandémica e isso ainda deu mais chama a esse afastamento. Isso só eleva a responsabilidade (e muita) que eu vou ter agora nestes próximos quatro anos.

Estava convencido que o resultado do Chega seria muito melhor, por isso eu acho que a população de Loures deu aqui um sinal de muita maturidade e de muita responsabilidade

Um outro fator de nota é o alcance do partido Chega, entrando no quarto lugar [com 8,42% dos votos, elegendo um vereador]. A que atribui este resultado no seu concelho, historicamente de esquerda e centro-esquerda? Poderá esse alheamento da Câmara, de que falou, estar relacionado?

Loures não teve durante a campanha eleitoral a cobertura televisiva e o espaço mediático que devia ter tido, na minha opinião. Embora respeite a linha editorial que toda a imprensa teve nas capitais de distrito, houve exceções que não compreendo.. Compreendo que estivessem definidas capitais de distrito, não compreendo quando se excecionou a Amadora ou a Figueira só porque havia polémica. Cheguei a dizer que se calhar teria que me despir e andar na rua sem roupa para que a comunicação social estivesse comigo na rua. [risos] Percebo a linha que foi criada para as capitais de distrito, outra coisa é fazer exceção e para isso tem que haver critério. E foi só o critério da polémica.

De qualquer forma, essa pergunta é feita porque não houve esse acompanhamento. Há quatro anos, o fenómeno Chega começou aqui, no concelho de Loures. O André Ventura foi aqui candidato a presidente da Câmara há quatro anos e o PSD - ainda não era Chega, era PSD - teve um dos melhores resultados de sempre, com o fenómeno Ventura, que depois se veio a consolidar como Chega. Por isso aqui, em Loures, deixou-se, de facto, uma marca do Ventura e, por isso, pessoalmente, até esperava mais, confesso. Estava à espera que o Chega tivesse muito melhor resultado aqui no concelho e só não teve porque as pessoas quiseram tirar esta gestão comunista da Câmara e quiseram fazer o chamado voto útil - voto no PS porque era o único partido que poderia tirar esta gestão comunista do concelho. Mas eu estava convencido que o resultado do Chega seria muito melhor, por isso eu acho que a população de Loures - e tenho-o dito muitas vezes -, deu aqui um sinal de muita maturidade e de muita responsabilidade.

Bernardino Soares disse que deixa a presidência do município “com obra feita e com muitos projetos” a que pediu que fosse dada continuidade. Como responde?

Eu respondo com coisas práticas. A CDU teve oito anos para dar essas mesmas respostas. Em oito anos não foi criado único centro de saúde novo, um único pavilhão desportivo novo, uma piscina municipal nova. Há um conjunto de obras que foram adiadas, do ponto de vista das acessibilidades importantes, como a requalificação na Nacional 10, o passeio ribeirinho que ligava a Póvoa de Santa Iria à Expo, passando por Santa Iria da Azóia, Bobadela e São João da Talha. Obras prontas não há… Projetos? Também não conheço nenhum. Só lhe posso dar essa resposta em concreto, depois de tomar posse no dia 14. 

Para mim, pouco importa de onde é que vêm as propostas, importa-me é a finalidade que elas têm junto da população. Se criam bem-estar, se criam qualidade de vida às pessoas, a mim pouca importa se a proposta é do A, do B ou do C. E essa é uma diferença grande porque tivemos, ao longo destes últimos oito anos, grande parte das juntas de freguesia do PS a fazerem propostas que, como eram das juntas de freguesia do PS, nunca tiveram continuidade por parte da Câmara. A população esteve estagnada porque a visão que o Bernardino Soares tinha para o concelho era uma visão política e partidária. Se ele tivesse dado continuidade a essas propostas, se calhar ele tinha ganho as eleições.

Acha que as propostas foram mantidas reféns do pensamento político?

Não tenho dúvidas, tenho a certeza. Eu faço parte da Junta de Freguesia de Sacavém e Prior Velho. Todas as propostas que nós fazíamos para qualidade de vida e bem-estar da população de Sacavém e Prior Velho, como eram propostas de uma junta de freguesia que era PS, a Câmara Municipal nunca lhes deu andamento. Esta visão político-partidária da gestão pública levou a que nós nos atrasássemos e muito.

A resposta que dou é esta: eu vou dar continuidade a um conjunto de projetos, não vejo quem é o proponente. Pouco me importa. Importa-me é que possa dar qualidade de vida à população. Esta é uma questão muito importante e eu sinto-a com conhecimento de causa, porque durante oito anos o Bernardino Soares fez ouvidos moucos a todas as propostas das juntas de freguesia do PS.

Os projetos que elencou são as prioridades a curto prazo para o concelho?

Logo no dia 15 de manhã, depois de tomar posse no dia 14, irei marcar presença num ato público que é sinónimo da grande importância que quero dar a uma área que foi esquecida ao longo destes últimos oito anos, que são as áreas urbanas de génese ilegal. Temos 211 mil pessoas que vivem neste concelho, 30% destas pessoas vivem ainda em áreas de génese ilegal, ou seja, vivem em casas que não estão legalizadas, em bairros que não estão legalizados. Casas em que fizeram o investimento de uma vida e que, hoje, não sabem o que vão deixar aos filhos. Esta área vai ter da minha parte uma atenção muito grande. Por isso é que a minha primeira ação pública vai ser um sinal de grande importância às áreas de génese ilegal.

Por outro lado temos a área da Saúde. Tenho já uma reunião agendada com a ministra da Saúde e tenho em mente que, durante este mandato, irei fazer quatro novos centros de saúde. 

Há toda uma questão de acessibilidades que temos que garantir. A saída da A1, da Bobadela, que vai ter que ser feita. Uma religação à Segunda Circular, em Sacavém, que vai ter que ser começada. Temos uma proposta que fiz de isenção de portagens, quer da A8, quer da CREL, a todos os moradores que vivem em toda a zona Norte do concelho de Loures, com duas passagens diárias, através de um cartão de residente.

A Educação é outro ponto. Vamos ter que intervir quer nas Escolas Básicas 2+3, quer nas Escolas Secundárias do nosso concelho da mesma forma como intervimos nas escolas do pré-ensino e do primeiro ciclo. Repito: todas as crianças merecem ter dignidade e não devem ser penalizadas se a escola que frequentam é da responsabilidade do A, do B ou do C.

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