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"Temos de olhar para o que significa manter Portugal amarrado a prisão"

João Ferreira, cabeça de lista da CDU às europeias, é o entrevistado de hoje do 'Vozes ao Minuto'.

"Temos de olhar para o que significa manter Portugal amarrado a prisão"
Notícias ao Minuto

03/04/19 por Filipa Matias Pereira

Política João Ferreira

A cumprir o segundo mandato consecutivo em Estrasburgo e Bruxelas, João Ferreira é o cabeça de lista da CDU às eleições europeias. Com um terceiro mandato à vista, o comunista pretende, nesta 'corrida' à Europa, evidenciar o trabalho que tem vindo a ser desenvolvido pela coligação do Partido Comunista Português (PCP) e do Partido Ecologista 'Os Verdes' que, no seu entendimento, é "distintivo face às demais forças políticas". 

O eurodeputado defende também, em entrevista ao Notícias ao Minuto, que o país não precisa "de quem venha para Portugal defender a União Europeia (UE), precisamos é de quem defenda Portugal e os portugueses perante as arbitrariedades de quem manda na UE". 

Considera João Ferreira que Portugal vive "amarrado a uma prisão". O comunista refere-se, concretamente, ao euro. Torna-se imperioso, como defende, que o país "recupere a sua soberania monetária". Aliás, o biólogo é profundamente crítico da integração na UE, já que Portugal foi conduzido a uma "situação de submissão, de dependência e de endividamento". 

Quer na Europa quer no plano interno, João Ferreira 'encosta' o Partido Socialista à Direita, frisando que o partido do Governo tem estado em permanente convergência com PSD e CDS. E é ao tecer uma análise à performance da solução governativa que o PCP integra que o eurodeputado desconstrói o conceito da Geringonça que, a seu ver, nunca existiu. 

Jerónimo de Sousa já tornou público que provavelmente não se recandidatará ao cargo de secretário-geral do PCP no próximo congresso, em 2020. Está disponível para ser o seu sucessor? 

Essa é uma questão que não está colocada neste momento. O facto de o assunto ter vindo para a ordem do dia resultou de uma interpretação jornalística que não tem muito sentido. Às vezes os jornalistas tendem a ver o PCP com as mesmas lentes de análise com que olham para outros partidos. O PCP não é um partido como outros. E não há propriamente candidaturas a chefe, fações que se digladiem; há uma liderança que é acima de tudo coletiva. Por isso é um tipo de discussão que não tem muito sentido, tendo nós um secretário-geral na plenitude das suas funções. Ao contrário da interpretação que foi feita, não disse que estaria de saída; pelo contrário, o que tem demonstrado é que está muitíssimo empenhado nas batalhas políticas que estão pela frente.

Na eventualidade de Jerónimo de Sousa não se recandidatar, 'sangue novo' na liderança poderia traduzir-se na atração de camadas mais jovens para o PCP?

Nada disso se coloca de forma nenhuma.

As eleições europeias vão marcar divergências entre socialistas e os parceiros da solução governativa?

As posições dos vários partidos no Parlamento Europeu não se alteraram ao longo dos anos, em particular nestes últimos. E o que estes têm demonstrado é que há uma permanente convergência de posições do PS, com o PSD e com o CDS. Sempre assim foi e isso não se alterou nos últimos anos, de tal forma que é difícil encontrar meia dúzia de temas relevantes com impacto na vida nacional onde estes três partidos não tenham votado exatamente da mesma maneira. E por assuntos importantes refiro-me, por exemplo, a políticas comuns, orçamentos e acordos comerciais.

O PCP e a CDU têm estado de um outro lado quando PS, PSD e CDS apoiam políticas comuns, nomeadamente uma política agrícola comum, uma política comum das pescas, ou ainda uma política comercial comum, que são fundamentalmente feitas à medida dos interesses dos principais países mas que se têm revelado prejudiciais a Portugal.

O PCP, por outro lado, tem sinalizado isso e tem apresentado caminhos e conteúdos concretos alternativos, que permitiriam um resultado diferente. Em vez do esmagamento da produção nacional, teríamos a sua valorização. Não assistiríamos ao inundar do mercado nacional por produção estrangeira, com uma crescente dependência do país no exterior, mas a valorização do potencial interno. Essas propostas não têm vingado também porque esses outros partidos não apenas estão juntos para aprovar o que de negativo lá tem sido decidido, mas também na hora de registar as alternativas que temos apresentado.

Portanto, aqui não há nada de novo. Sim, vamos estar nesta campanha. De um lado, PS, PSD e CDS e do outro o PCP. Foi assim nos últimos cinco anos, tinha sido assim nos cinco anteriores, e assim sucessivamente.

O país corre sérios riscos neste momento e esses partidos [PS, PSD e CDS] estiveram juntos em tudo issoÉ como defendia Jerónimo de Sousa recentemente quando disse que o PS se encosta à direita do lado da receita?

Em tudo o que de relevante foi discutido, como as questões do euro, da união económica e da união bancária. Com o euro, Portugal perdeu a capacidade de emitir moeda para o estrangeiro. Neste momento, com a união bancária, o país está a perder a capacidade de criação monetária pela banca também para o estrangeiro. Portugal alienou simultaneamente para o estrangeiro a supervisão do setor financeiro, bancário. Uma alavanca fundamental para o desenvolvimento económico do país arrisca ficar totalmente dependente do capital estrangeiro. O país corre sérios riscos neste momento e esses partidos estiveram juntos em tudo isso.

E quais as alternativas propostas pelo PCP para estes cenários?

No caso do setor bancário, as alternativas passam por assegurar um controlo público e democrático, corrigir enviesamentos do setor especulativo para o investimento produtivo, para concessão de crédito às empresas e às famílias, para o investimento produtivo, desviando a banca do que têm sido as aventuras em que tem estado nos últimos anos.

E aqui chegados temos de olhar para duas coisas, para a história e o que significaram estes 20 anos e sobretudo para o que pode significar manter Portugal amarrado a esta prisão [o euro]Em relação precisamente ao euro, em 20 anos Portugal é dos países que menos tem crescido. É partidário do abandono desta moeda?

Temos 20 anos para fazer uma avaliação do que significou este passo. E se fizermos essa avaliação de forma rigorosa, somos forçados a constatar que as promessas que nos fizeram há 20 anos, de coisas que o euro traria, a realidade não as veio a confirmar. Teríamos crescimentos na ordem dos 3% ao ano, veríamos os salários dos portugueses convergirem com os salários alemães por exemplo, aumentaria o emprego e o investimento. A vida não só não confirmou estas promessas, como as desmentiu.

Já os alertas que o PCP fez na altura, a esses sim a realidade veio a dar razão. Portugal é um dos 193 países das Nações Unidas que menos cresce. Neste grupo há apenas 12 países que cresceram menos, como Portugal, e aqui encontramos alguns devastados por guerra ou conflitos civis, como a Líbia, a Síria, o Sudão e ainda microestados. E depois encontramos mais dois países da zona euro, a Itália e a Grécia.

Isto confirma que o euro teve consequências devastadoras. A dívida explodiu, o desemprego aumentou significativamente, os salários não apenas não aumentaram como estagnaram há cerca de uma década. Estas são realidades inseparáveis do euro. E aqui chegados temos de olhar para duas coisas, para a história e o que significaram estes 20 anos e sobretudo para o que pode significar manter Portugal amarrado a esta prisão.

Só há uma solução, que é o país recuperar a sua soberania monetária

E como sai Portugal “desta prisão”?

Na nossa opinião, problemas estruturais como o euro mostrou ser têm de ter soluções estruturais. E o país precisa de se libertar de uma moeda que está desfasada das suas necessidades, das particularidades da sua economia, da sua estrutura produtiva e dos seus salários. Precisa de uma moeda que concorra para melhorar os salários e a estrutura produtiva do país e não para os esmagar como aconteceu nestes anos. Só há uma solução, que é o país recuperar a sua soberania monetária.

Isto deve passar, no nosso entendimento, preferencialmente por um processo negociado no quadro da União Europeia que permita a reconstituição de moedas nacionais, que minimize perturbações do processo e que aproveite tão plenamente quanto possível as potencialidades que imediatamente se abrem por o país recuperar a sua soberania monetária. Mas este processo não deve ficar apenas dependente dessa negociação europeia.

O referendo será uma forma de o fazer, não a única

Falamos de um referendo?

Este processo, para nós, deve ter várias condições. Uma, não deve ser visto como um ato súbito, deve ser entendido como um processo cuidadosamente preparado. Depois, deve fazer-se para recuperar rendimentos, para melhorar condições de vida e não para as piorar. É essencial que, nesse processo, os rendimentos, os salários e as poupanças dos portugueses sejam defendidos. A terceira condição é que um processo desta natureza tem de contar com um largo consenso na sociedade portuguesa. É necessário, na nossa opinião, construir esse consenso. Nalgum momento será necessário aferir esse consenso. O referendo será uma forma de o fazer, não a única.

Este abandono do euro significa um retrocesso ao passado – escudo – ou um olhar para o futuro?

Não é de todo um regresso ao passado; é para nos libertarmos de um passado de duas décadas que se mostrou ser desastroso, nomeadamente no comprometer das potencialidades do país. Não nos devemos prender a uma conjuntura. A conjuntura pode temporariamente iludir algumas das dificuldades. Devemos ter um olhar estrutural e não conjuntural.

Neste momento, se alguns dos efeitos parecem conjunturalmente aliviados, temos de ter presente que se trata mesmo disso, de uma conjuntura. E o que é necessário é olhar para um período mais largo e não para as tendências conjunturais, mas para as de fundo e perceber que o país precisa de respostas agora e não só quando nos confrontarmos novamente – porque isso vai inevitavelmente acontecer – com uma crise como a que tivemos há não muito tempo.

Há uma situação a que o país foi reduzido, de dependência, de endividamento, perante os países da UE que os fundos comunitários estão muito longe de compensar

Voltando à corrida às europeias, defende então a CDU uma verdadeira política alternativa? É com esta ‘bandeira’ que vai às eleições?

Temos sido muito críticos do curso do processo de integração, temos considerado que o país, o povo, tem sido prejudicado ao longo dos anos. Um prejuízo que nem os fundos comunitários compensaram inteiramente. É bom ter presente que iremos receber destes fundos, entre 2014 e 2020, qualquer coisa como 25 mil milhões de euros, mas no mesmo período pagaremos, só em juros a países da União Europeia, 60 mil milhões de euros. Ou seja, há uma situação a que o país foi reduzido de dependência, de endividamento perante os países da UE, que os fundos comunitários estão muito longe de compensar. Temos de quebrar com esta situação de submissão, de dependência e de endividamento.

E como o podemos fazer?

Na nossa opinião, não é através de soluções de isolacionismo, ou de cada um por si. Precisamos de defender o interesse nacional sobre as imposições que a União Europeia nos queira fazer e que nos tem feito. Ou seja, afirmar e pôr em prática, independentemente do que sejam as pressões da UE, as políticas de que o país precisa. E nesse processo de afirmação devemos também usar o interesse nacional para procurar outro quadro de cooperação na Europa, completamente diferente do que é a União Europeia.

Um quadro de cooperação entre países iguais em direitos, independentemente da sua dimensão, do seu poderio económico; um quadro de cooperação assente no benefício mútuo e não no benefício para uns e prejuízo para outros. Um quadro em que todos estão em pé de igualdade na decisão; que se oriente para o progresso e para a melhoria das condições de vida das pessoas. E não como a UE está a fazer, encaminhar-nos para nivelar por baixo condições de vida e de trabalho na Europa.

Quando a União Europeia propõe o aumento da jornada de trabalho, a desregulação de horários e a flexibilidade da precariedade laboral não está a defender ideias de progresso; está a defender ideias de retrocesso. Entendemos, neste cenário, que é preciso contrapor um quadro de cooperação na Europa, que se situe nos antípodas do que a UE tem feito.

Pela leitura das suas palavras podemos dizer que a União Europeia tem sido um óbice ao progresso de Portugal?

A União Europeia tem, por um lado, comprometido possibilidades de desenvolvimento económico do país ao afetar profundamente os setores produtivos. Por outro, pelas políticas que tem posto em prática, tem levado a um nivelar por baixo as condições de vida e de trabalho na Europa, em lugar de como seria desejável promover uma cooperação, uma convergência no progresso dos níveis de vida.

Estamos hoje num ponto de desenvolvimento da humanidade, pelas aquisições da ciência e da técnica, que com menos trabalho consegue-se produzir muito mais. E se o resultado dessa produção fosse distribuído de uma forma robusta, poderíamos estar a discutir neste momento não o que a UE nos está a impor, mas pelo contrário a redução da jornada de trabalho. E isso foi possível e muito bem fazer em Portugal, mas foi contra as recomendações da União Europeia. Veja-se o que aconteceu quando tomámos a decisão de retomar as 35 horas semanais na administração pública, que podiam ser alargadas ao setor privado também.

Portugal tem níveis de investimento público que colocam o país perante riscos reais de obsolescência do seu aparelho produtivo

O primeiro-ministro, por sua vez, defende que é possível responder às necessidades estruturais do país e, ao mesmo tempo, submergir às imposições da UE.

A situação do país é o desmentido dessa tese. E temos evidências disso na vida quotidiana. Portugal tem níveis de investimento público que colocam o país perante riscos reais de obsolescência do seu aparelho produtivo. Há sete anos que o investimento público não compensa sequer o desgaste de capital fixo. Não estamos a modernizar o aparelho produtivo e aí está uma demonstração de que como essas regras comprometem a possibilidade de o país se desenvolver e responder aos seus problemas na saúde, na educação e nos transportes.

E porque estão nessa situação? Porque é que o país se tem submergido a posições que são contrárias aos seus interesses, nomeadamente no que toca a ritmos de consolidação do défice e da dívida? Porque é que os funcionários públicos estão há quase uma década, na sua esmagadora maioria, com os salários estagnados? Porque é que se está a roubar a muitas carreiras da Função Pública tempo de serviço que os trabalhadores efetivamente prestaram? Porque é que se está a faltar ao reconhecimento de serviço? Tudo isto encontra resposta na opção do PS de cumprir imposições que têm vindo a ser feitas na União Europeia, mesmo quando alguns países até vão pondo em causa essas imposições. Portugal, em lugar de aproveitar este momento para desafiar essas imposições e para de facto levar por diante essas políticas, aplica-as de forma disciplinada e convicta. A França chega e diz que não vai cumprir o défice.

As primeiras sondagens às europeias davam à CDU três eurodeputados. Já a última reduz esse número para um ou dois eleitos. Como encara estes dados?

Há cinco anos, fizeram-se várias sondagens até às eleições, mais ou menos a partir desta altura, com mais ou menos resultados diversos. Nem uma das sondagens nos deu mais do que aquilo que obtivemos nas eleições, todas nos deram menos e algumas bem menos. Isto já diz alguma coisa sobre a importância que lhe devemos atribuir. Mesmo as que foram conhecidas por estes dias apresentam valores de tal forma díspares, em que nós, no prazo de poucas semanas, temos numa 13% e noutra cerca de 7%. Ou seja, são as próprias sondagens que se descredibilizam.

Não as descredibilizo por princípio, atenção. É um elemento que pode ter alguma utilidade, mas deve ser muitíssimo relativizado, mais ainda tendo em conta o histórico de há cinco anos.

E não precisamos, como dizia o primeiro-ministro há dias, de quem venha para Portugal defender a União Europeia, precisamos é de quem defenda Portugal e os portugueses perante as arbitrariedades de quem manda na UE

Para estas europeias, qual é concretamente o objetivo da CDU?

Antes de mais, nesta campanha queremos afirmar duas coisas muito importantes. Uma é o trabalho que fizemos, que consideramos que foi distintivo face às demais forças políticas. E entendemos que ele pode ser reconhecido com mais votos na CDU.

A segunda é mostrar que não temos de ficar amarrados àquilo que estivemos estes anos todos. Nem os portugueses podem esperar que insistindo sempre nas mesmas políticas algum dia isso venha a produzir resultados diferentes. E como já referi, nos últimos cinco anos, PS, PSD e CDS não votaram diferente em mais do que meia dúzia de temas. E não precisamos, como dizia o primeiro-ministro há dias, de quem venha para Portugal defender a União Europeia, precisamos é de quem defenda Portugal e os portugueses perante as arbitrariedades de quem manda na UE. Creio que se esta mensagem passar, a CDU tem condições para ver confirmada a votação expressiva que teve e até crescer.

O Brexit é a expressão da crise profunda que corrói a União Europeia

Concorda que a União Europeia está em crise e que o Brexit é uma expressão dessa situação?

O Brexit é a expressão da crise profunda que corrói a União Europeia. E não é uma expressão isolada; tem muito que ver com o sentimento que cresceu sobretudo nos últimos anos de que os povos deixaram de controlar os seus destinos e que o poder foi usurpado para instâncias supranacionais que eles não controlam. E que essas instâncias têm vindo a pôr em prática políticas que não têm contribuído para a melhoria das condições de vida, mas pelo contrário para uma degradação. Isto leva a um sentimento compreensível de afastamento e de rejeição. Em alguns casos esse sentimento é aproveitado de forma manipuladora e oportunista por forças de extrema-direita como está a acontecer em alguns países.

 [O Brexit] não foi um processo negocial conduzido propriamente de modo a minimizar as perturbações, a concretizar a decisão de saída e a estabelecer um quadro para o futuro de relacionamento comum, bilateral, vantajoso

E quanto à forma como este processo tem sido conduzido, o que tem a dizer?

A questão essencial em relação ao Brexit é percebermos que houve uma decisão que foi tomada de forma soberana pelo povo britânico e que essa deve prevalecer. Seria mau que juntássemos mais um exemplo à longa lista de situações em que os povos tomaram uma determinada posição em referendo que não foi respeitada pela União Europeia.

Existem muitas contradições dentro do Reino Unido e entre o Reino Unido e a União Europeia. Existem setores que nunca se conformaram com a decisão e que estão desde o início a fazer o possível para a reverter e isso atribulou todo o processo negocial. Não foi um processo negocial conduzido propriamente de modo a minimizar as perturbações, a concretizar a decisão de saída e a estabelecer um quadro para o futuro de relacionamento comum, bilateral, vantajoso. Não foi esse o espírito que esteve presente ao longo das negociações em dois anos. Pelo contrário, foi mais um espírito de castigar, de dificultar a vida o mais possível a quem tomou a decisão, livre e soberana, de sair. Um bocadinho dar a entender que isso leva necessariamente a uma situação de caos e de desordem. O que não é verdade.

Aliás, o Parlamento Europeu e o Conselho Europeu estão a aprovar um conjunto de legislações de contingência para acautelar os efeitos de uma saída e que mostra que as coisas podem ser lidadas dentro de alguma estabilidade e de ordem. Agora, as contradições que existem também dentro do Reino Unido têm vindo à tona. E talvez isso ajude a explicar as posições que temos visto desse lado. Há setores que nunca se conformaram com a saída, há setores que querem uma saída mais brusca para depois aproveitar isso internamente e justificar um ataque a salários, a condições de vida. Temos setores que estão mais apostados no que poderíamos considerar uma saída pela Esquerda. Há muitas contradições e elas têm estado presentes nas negociações.

Portugal neste momento está entre uma minoria de países que tomou uma posição infeliz e contrária ao Direito Internacional e à Carta das Nações Unidas

Em relação à Venezuela, o que dizer sobre os países que apoiam Maduro contra a União Europeia?

Alguns países na União Europeia e na América Latina, países esses com governos de extrema-direita, como é o caso do Brasil e da Colômbia, desde a primeira hora tomaram posições alinhadas com os EUA, de reconhecimento de um autoproclamado presidente. A esmagadora maioria dos países da comunidade internacional não o fez. Portugal neste momento está entre uma minoria de países que tomou uma posição infeliz e contrária ao Direito Internacional e à Carta das Nações Unidas.

O PS e este que é um Governo do PS, nem sequer é um Governo de Esquerda, nem um Governo das esquerdas, não se libertou de aspetos estruturantes da política de Direita

Olhando agora para o plano nacional, qual o balanço que faz da Geringonça? Funcionou?

Creio que a solução política que foi construída em 2015, e para a qual o PCP deu o contributo decisivo, teve um primeiro mérito indiscutível que foi travar os planos do governo anterior para levar por diante todo um conjunto de medidas que tinham sido concretizadas de ataque aos direitos sociais, laborais, às condições de vida da generalidade da população e de assalto ao que restava do património público. Por exemplo, a questão dos cortes salariais, apresentados como temporários mas na prática tomados como definitivos, as questões do corte nas pensões em pagamento de 600 milhões de euros.

O segundo mérito foi iniciar um caminho de recuperação de direitos e de rendimentos. Foi um caminho muito limitado, mas desse ponto de vista nunca tivemos ilusões. O PS e este que é um Governo do PS, nem sequer é um Governo de Esquerda, nem um Governo das esquerdas, não se libertou de aspetos estruturantes da política de Direita. E como tal, o alcance desta solução foi limitado pelas opções do próprio PS. Valorizamos que tenham sido possíveis avanços nos domínios dos direitos e dos rendimentos, como o aumento do salário mínimo nacional, a redução dos impostos sobre o trabalho ou ainda a chamada de grandes grupos económicos a um contributo maior na hora de pagar impostos. Ou seja, alguma justiça fiscal, pese embora muito aquém do necessário.

Aqui chegados somos obrigados a constatar também que muito está por fazer. Foram muitas aquelas áreas onde não se respondeu como era necessário aos problemas do país e às necessidades da população. Pior ainda, há exemplos de áreas onde se fez exatamente o contrário daquilo que se devia fazer. E isso também mostra que isto não é um Governo das esquerdas. E também desmente a tese da Geringonça. Essa tese fica desmontada quando o PS se junta ao PSD e ao CDS para decidir meter mais alguns milhões de recursos públicos na banca privada. Essa tese fica desmentida quando o PS se junta ao PSD e ao CDS para não permitir rever aspetos negativos da legislação laboral. Pior. Fica ainda desmentida quando o PS se junta ao PSD e ao CDS para forçar alterações na legislação laboral que aumentam a precariedade em lugar de a combaterem, ou ainda para impedirem a recuperação de empresas como os CTT, que estão a ser levadas a uma situação ruinosa, com prejuízos para o país.

Continuamos a ter uma situação em que o PS não mudou a sua natureza, continua preso a aspetos estruturantes da política de Direita. Mas está em minoria na Assembleia da República, assim como o PSD e CDS juntos. Por isso foi possível, fruto da intervenção do PCP e da luta social, levar adiante um conjunto de medidas positivas. Mas isso não apaga a leitura que temos de fazer de que houve aspetos negativos e sobretudo que há problemas do país que continuam sem resposta. E problemas estruturais, quando não têm resposta, tendem a agravar-se.

Não pode haver reedição de uma coisa que não houve [Geringonça]

Não é viável, portanto, uma reedição da Geringonça?

Não pode haver reedição de uma coisa que não houve. O que vai resultar das eleições temos de ver depois. Toda a gente perceberá que é completamente diferente sairmos destas eleições com uma CDU reforçada ou não. E já dissemos que estamos preparados para exercer todas as responsabilidades, incluindo as mais altas no país. Isso exige uma mudança na relação de força que hoje temos, de favorecer uma maior presença no Parlamento da CDU, no fundo reconhecendo também o papel decisivo que teve nos últimos anos.

Hoje, mais do que nas anteriores legislativas, há uma compreensão mais ampla do que tem sido o papel da CDU?

Creio que essa perceção, não sendo generalizada, é mais alargada hoje do que há dois ou três anos.

Se não se respondeu a esses problemas [das classes sociais], foi porque o PS não quis

As últimas sondagens a nível nacional dão ao PS a vitória, pese embora sem maioria absoluta. Teme que o PCP seja ‘castigado’ nas próximas legislativas, uma vez que esta solução de Governo tem sido muito criticada por classes profissionais?

O PCP e a CDU garantiram soluções para os problemas, designadamente no quadro dos Orçamentos do Estado. PCP garantiu soluções para responder aos problemas dos professores e das outras carreiras especiais da administração pública, como na saúde, nas forças de segurança e no que aos funcionários judiciais diz respeito. Se não se respondeu a esses problemas, foi porque o PS não quis. É importante que as pessoas percebam isto. Muitas pessoas dizem: “Querem ficar associados ao bom e não ao mau”. Mas às vezes a explicação mais simples é mesmo a melhor. O que houve de bom nestes anos não teria acontecido sem o PCP, sem os Verdes, sem a CDU. O PCP garantiu, em sede de Orçamento do Estado, as condições para se ir mais longe. Se não se foi, foi porque o PS não quis.

Em alguns votos que houve na Assembleia da República, o PS, porque sozinho não chegava para impedir a aprovação destas medidas, contou com o apoio do PSD e do CDS, como por exemplo na resposta a problemas dos professores e de outras carreiras especiais da Função Pública.

É natural que, perante a falta de resposta a determinados problemas para os quais os profissionais esperam resposta, a luta se intensifique. Isso é essencial

Preocupa-o o cenário de aumento de greve de classes profissionais?

Às vezes há uma visão distorcida para a opinião pública de lutas sociais. Há claramente uma ideia distorcida de que as greves são todas no setor público; 70% da greves são no setor privado. Depois há outra ideia, errada, de que isto só começou nos últimos dois anos. A luta social nunca parou. É natural que, perante a falta de resposta a determinados problemas para os quais os profissionais esperam resposta, a luta se intensifique. Isso é essencial. De forma nenhuma posso lamentar isso. O que faz falta é responder politicamente a essas reivindicações.

É importante perceber que se essa resposta não aconteceu ainda, não foi por falta de propostas de soluções. O PCP apresentou-as. Foi por falta de apoios para as concretizar. O PS não as quis concretizar e juntou-se ao PSD e ao CDS muitas vezes para que elas não fossem concretizadas. Garantimos, na discussão dos vários Orçamentos do Estado, as condições para se ir mais longe. Também recusamos o aproveitamento oportunista que o PSD e o CDS fazem de muitas dessas lutas. Também eles não responderiam a muitas dessas reivindicações. Pelo contrário, até encaminhariam o tema em sentido contrário.

Se queremos somar a essa indignação uma posição útil para que isso não volte a acontecer, que se dê força a quem tem proposto um caminho alternativo, nomeadamente ao PCPFalámos dos milhões investidos na banca. A sociedade tem motivos para estar descontente com a injeção de capital no Novo Banco? Tem motivos para se sentir indignada com o Governo?

Com o anterior governo e com o atual. Há uma partilha de responsabilidades na solução que foi encontrada. É evidente que qualquer trabalhador que se confronta com responsabilidades no seu dia a dia, com o subfinanciamento dos serviços públicos, com os baixos salários, com a precariedade, e que lhe dizem que para responder a muitos desses problemas o dinheiro não chega, sente alguma indignação e alguma revolta quando vê 8 mil milhões de euros serem despejados em cima de um banco que é hoje controlado por um fundo norte-americano.

Agora, é necessário que não se fique apenas pela indignação e pela revolta. Isto resulta de opções políticas concretas tomadas pelo PS, PSD e CDS, mas não são as únicas, existem outras. Defendemos que o Estado devia tomar conta do banco. Já que o paga devia tomar conta dele e ficar também com os lucros que pudessem daí resultar.

A sociedade tem de pensar que cada voto que foi dado ao PS, ao CDS e ao PSD contou para isso e vai contar no futuro também. Se queremos somar a essa indignação uma posição útil para que isso não volte a acontecer, então que se dê força a quem tem proposto um caminho alternativo, nomeadamente ao PCP.

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