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"Fui operado cinco vezes. Já não tinha mais força física e psicológica"

Entrou no Sporting com apenas oito anos e desde cedo se fixou num sonho: vestir a camisola nove dos leões. Depois de ter feito todos os escalões da formação, foi emprestado durante quatro anos e depois, aí sim, conseguiu realizar a sua antiga ambição. No entanto, as consecutivas lesões tornaram o futebol num pesadelo para Saleiro. O antigo avançado português teve de colocar um ponto final na carreira mais cedo do que esperava, mas revela-se orgulhoso por aquilo que fez dentro das quatro linhas.

"Fui operado cinco vezes. Já não tinha mais força física e psicológica"
Notícias ao Minuto

19/02/19 por Francisco Amaral Santos

Desporto Carlos Saleiro

Foi o primeiro bebé proveta a nascer em Portugal, mas foi sempre pelo futebol que quis ser notado. Concretizou o sonho de jogar com a camisola nove do Sporting e de marcar um golo em Alvalade, mas não deixa de admitir que ficou com vontade de fazer mais e melhor.

Aos 30 anos, contra vontade, Carlos Saleiro teve de deixar o futebol devido a sucessivas lesões que o impediam de viver para a modalidade. Quase três anos depois de abandonar os relvados, o antigo avançado português continua ligado ao futebol, mas de outra forma. 

Em entrevista ao Desporto ao Minuto, o ex-avançado revela de que forma a sua carreira foi "caindo", desvenda os episódios que mais o marcaram e sublinha a forma como cresceu enquanto atleta profissional desde dos oito anos, altura em que se mudou para o Sporting. 

O meu final de carreira não foi o desejado

Ao fim de quase 33 anos, ainda lhe chamam bebé proveta?

Para ser sincero, cada vez menos esse tema vem ao de cima. Só mesmo na altura em que faço anos é que surge mais. Na minha vida e no meu dia a dia, não. É mais o Saleiro, que foi profissional de futebol e que jogou no Sporting. É mais por aí. Obviamente que às vezes uma ou outra pessoa entra nessa brincadeira, mas não é habitual.

Sente que com o passar dos anos, as pessoas vão esquecendo?

Sim. Quando era mais pequeno ouvia falar mais porque havia um maior interesse das pessoas em tentar perceber como é que era o bebé proveta. Mas desde que comecei a falar, as coisas foram diminuindo de intensidade de ano para ano. Só na altura do meu aniversário é que as pessoas falam mais, nomeadamente na imprensa.

Falou no Saleiro enquanto profissional de futebol. Sente falta disso? 

Sim… Na pele de jogador, sim. Até porque o meu final de carreira não foi o desejado. Foi um bocado pesado para mim a forma como terminei depois de a minha vida toda ser dentro de campo. Talvez merecesse outro final, porque sempre fui um jogador e um atleta profissional ao mais alto nível. Em tudo o que fazia, mesmo na minha vida fora do futebol, foi sempre tudo feito em prol da minha vida profissional. Só que, lá está, é preciso ter sorte. As lesões afetaram-me bastante. Fui operado cinco vezes. Tendões de Aquiles, joelho… Estas lesões não permitiram prolongar a minha carreira. A partir dos 26/27 anos foi uma queda a pique, até aos 30 decidir que já não tinha mais força física e psicologicamente também já estava afetado. Já não vivia só para o futebol. Vivia para estar recuperado para fazer o esforço físico que o futebol impõe. Já não me sentia preparado. Para termos uma ideia, nas épocas em que já estava na II Liga, a cair, tínhamos cerca de 50 jogos e eu fazia 15. Por aqui consegue perceber-se como é que eu já estava. Fazia um ou dois jogos seguidos e tinha de estar parado três semanas a recuperar, por uma dor no tendão de Aquiles ou porque me defendia do tendão de Aquiles e fazia uma rotura muscular. Foi pesado. A minha saída foi complicada, mas tenho saudades do campo, do balneário, de jogar futebol, daquela ansiedade, daquela adrenalina e do golo que sempre me acompanhou. Tenho saudades,  mas dou-me por satisfeito, porque neste momento estou inserido no mundo futebol. Não como gostaria, obviamente. Talvez pensasse fazer isto aos 36/37 anos, mas foi mais cedo e tenho que me adaptar.

Notícias ao MinutoCarlos Saleiro ao serviço do Oriental, num jogo contra o Vitória SC B. A equipa lisboeta foi a última formação portuguesa que o antigo avançado representou. © Global Imagens

Como é que um jogador lida psicologicamente com tudo isso?

Isto foi gradual. Não foi de um momento para o outro. Fui sentido que o meu corpo já não recuperava da mesma forma. Senti que recuperei mais rápido de umas lesões e de umas cirurgias do que de outras e isso foi desgastando o meu corpo. Tanto a nível físico como a nível psicológico. Mesmo que tu queiras andar ao mais alto nível, o corpo, por vezes, não o permite. Sempre fui um profissional e fazia tudo o que me mandavam em termos de planeamento de recuperação e, mesmo assim, as coisas não resultaram. Obviamente terminei mais cedo, mas isso já lá vai.

Qual foi o momento em que decidiu colocar um ponto final?

Eu ainda fui para Inglaterra tentar, no Port Vale. Fiz um jogo e no final começou a doer-me novamente o tendão de Aquiles. Tinha acabado de ser pai pela primeira vez, há dois/três meses, e pensei: 'Mais uma. Chega'. Senti que era aquele o momento de dizer basta, por várias razões. Pelo facto de a minha filha estar cá [em Portugal] com a minha mulher, de ter uma lesão e ter de passar pelo mesmo… Já era muito. O meu último jogo foi em Inglaterra, mas antes disso para ir a um treino que era às 10 da manhã, eu chegava às 8 horas para me preparar para esse treino. Terminava o treino, eu fazia gelo ou reforço muscular. Saia de lá pelas 13/14 horas. Chegava a casa, almoçava e tinha de fazer mais um bocado de gelo. À noite, mais gelo. Estes eram os meus dias. Isso começou a pesar na minha cabeça e as coisas não funcionaram bem a partir daí. Antigamente treinava normal e se fosse preciso rematava à baliza antes de aquecer e não me acontecia nada. Eu lembro-me que num torneio Vale do Tejo, com a seleção de sub-21 ou sub-23, já não me recordo, fizemos dois jogos seguidos, um contra a Escócia e outro com a Ucrânia, -Eu joguei os dois. Joguei na terça e na quarta e depois, no domingo, ainda fiz o jogo pelo Fátima do Rui Vitória. Quando tu sentes que já não consegues…

Foi tudo gradual. Numa época com 50 jogos, eu fazia 15/20. Aí começas a perceber que a tua prestação dentro do campo não é aquilo que as pessoas esperam de ti. Eu fui para o Oriental vindo da I Liga. Sai da Académica praticamente sem jogar, porque já tinha um problema no tendão de Aquiles. No ano seguinte fui operado e recuperei sem clube. O meu pensamento foi: 'Vou estabilizar, em Lisboa, e vou para um clube que me ajude a recuperar. Estou seis meses nesse clube e depois dou novamente o salto'. Aí comecei a perceber que já não estava igual. Percebi que, de jogo para para jogo, que de mês para mês, estava a cair, cair e cair. Estava a cair em termos físicos e ia caindo por aí fora. Isso foi o que aconteceu. Preferi terminar do que continuar a cair mais na minha carreira. Não por os clubes serem isto ou aquilo, mas por sentir que já não tinhas condições físicas.

Notícias ao MinutoCarlos Saleiro chegou ao Sporting com apenas oito anos de idade.© Getty Images

É engraçado que ainda há muita gente que pensa que está no ativo, mas sem clube…

Sim, eu sei (risos). Eu terminei naquela época do Port Vale em 2016. Vai fazer três anos. Pode ser que ainda surja por aí um convite… (risos).

Ainda é reconhecido na rua?

Quando estou em eventos desportivos, sim. Quando ando na rua, no meu dia a dia, não. É pontual alguém reconhecer-me. Eu estive ao mais alto nível no Sporting, estive lá 17 anos, dois deles na equipa principal. Mas já foi há oito anos atrás. É muito tempo. Vão passando os anos e as pessoas vão-se esquecendo. Talvez nunca tenha sido um jogador marcante para os adeptos do Sporting. Fui um jogador da formação, tenho 70 jogos pelo Sporting e uma dezena de golos. Na altura era pré-convocado para a seleção A, cheguei a ser internacional pelos sub-21 e sub-23, o que me permite ter uma imagem que faz com que as pessoas que me reconheçam, mas não no dia a dia. Há oito anos atrás as pessoas reconheciam-me. Agora isso acontece mais nos estádios e nos recintos desportivos.

O Sporting continua a ser o seu clube do coração?

Sim, claro. Desde que nasci sou sócio. Antes de entrar no Sporting já o era. A minha família sempre foi sportinguista e assim continua. São coisas que não mudam. Mas devido à minha atual profissão, obviamente que tenho relação com todos os clubes. Não posso pôr de lado clube A ou clube B. Como era profissional na altura em que era jogador, agora também tenho de o ser.

O Sporting estava a fazer força para que eu fosse convocado para o Mundial’2010, na África do Sul, mas depois naturalizaram o Liedson

Que memórias guarda de todo o seu percurso?

A minha memória já não é aquilo que era. Mas nos últimos tempos, nomeadamente desde que deixei os relvados, tenho recordado muita coisa dessa altura. Recordo-me dos tempos em que era infantil e que treinávamos ali ao pé do estádio. Lembro-me dos pelados. Lembro-me de irmos de carrinha para outros estádios. O que não era muito bem visto para a realidade do Sporting, que é um clube grande. Mas vendo as coisas agora, talvez tenha sido algo que me fez crescer e ver que nem tudo é fácil. Sentia isso na pele. Sentia as minhas pernas esfoladas por causa dos pelados. Hoje em dia, os miúdos não têm disso. E ainda bem. Lembro-me da mudança para a Academia [de Alcochete]. Condições fora de série, ginásios, campos e relvados. A bota sem sujar, porque o relvado era mesmo impecável. As pessoas também. Obviamente que isso me deixa saudades. Foi sempre aquele sonho que eu tive de vestir a camisola nove do Sporting e fazer um golo. Desde que comecei a ir ao futebol, com o meu pai e com os meus irmãos, alimentei esse sonho e consegui. Estou muito feliz por ter conseguido esse feito.

Olhando para trás, sente orgulho no seu trajeto? Pelo facto de ter subido degrau a degrau?

Sim, há uma conferência de imprensa em que o Paulo Bento diz isso, que o meu percurso era o exemplo. E o exemplo foi: fiz a formação toda, no meu primeiro ano de sénior fui emprestado para a segunda divisão B, depois II Liga, depois I Liga e depois, aí sim, o jogador está pronto para se apostar. Ou então não está. Estou feliz por aquilo que atingi e pela forma como estive no futebol. Acho que é sempre bom as pessoas reconhecerem que foste bom profissional e que trabalhaste bem. Tenho esse reconhecimento por parte dos treinadores, presidentes e diretores desportivos. Isso deixa-me feliz.

Notícias ao MinutoA estreia de Carlos Saleiro pela equipa principal do Sporting aconteceu em Florença, num jogo do playoff de acesso à Liga dos Campeões contra a Fiorentina. © Getty Images

Ainda se lembra da estreia pela equipa principal do Sporting?

Sim, perfeitamente!

Como se fosse hoje?

Sim, como se fosse hoje… Lembro-me que o jogo foi Fiorentina-Sporting e que era do playoff de acesso à Liga dos Campeões. Tínhamos empatado em casa 2-2 e joguei lá [em Itália]. Fui convocado e joguei. Lembro-me de o túnel de acesso ao relvado da Fiorentina ser enorme. Não era muito normal ser tão distante dos balneários. Lá era. Lembro-me de ouvir o hino e da minha entrada. É uma coisa que me fica marcada. Lembro-me também do meu primeiro golo pelo Sporting. Foi na Liga Europa, na fase de grupos, depois de sermos eliminados pela Fiorentina. Foi contra o Ventspils, da Letónia. Lembro-me dos meus golos, lembro-me dos jogos que fiz. Lembro-me do jogo contra o Atlético de Madrid… Estava numa fase muito boa. Nessa altura o próprio Sporting estava a fazer força para que eu fosse convocado para o Mundial’2010, na África do Sul, mas depois naturalizaram o Liedson e acabou por ir ele e o Hugo Almeida, se não estou em erro. Foi uma fase muito boa em que me orgulho de ter estado presente e de ter feito parte da história do clube.

Nesse percurso, antes de se cruzar com o Paulo Bento, também se cruzou com o Fernando Santos, certo? 

Cruzo-me com o Fernando Santos quando estava na equipa B com idade de junior. Sou chamado para um jogo amigável de um torneio no decorrer da época, entre Portimonense e Sporting.

Nessa altura, o Paulo Bento ainda era jogador…

Sim, Paulo Bento, Pedro Barbosa, Rui Jorge, Sá Pinto, Nélson, Beto….

Como é que um miúdo lida com esses craques todos?

Era um sonho. Tinha esse sonho e aquilo ainda não era oficial, mas tinha sido chamado para aquele jogo. Cheguei lá e não sabia onde me sentar, se devia ou não falar. Se devia dizer boa tarde ou bom dia. Lembro-me como se fosse hoje. Entro no autocarro do Sporting, na Academia, e arrancámos para Portimão. Só lá é que vejo o Fernando Santos. Eu saio pela porta traseira e ele estava na porta da frente. Eu não sabia o que devia fazer, se o cumprimentava ou só se dizia bom dia. Ele faz-me só um gesto assim com a cabeça do tipo: ‘Estás bom?’, e eu respondo: ‘bom dia, míster’. Nesse tipo de momento, vês que estás numa realidade completamente diferente com jogadores de topo.

Notícias ao MinutoSaleiro num duelo intenso com Thomas Ujfalusi num jogo entre Atlético de Madrid e Sporting para a Taça UEFA. © Reuters

Foi aí que sentiu o clique de sentir que já tinha chegado onde queria?

Não. Sinceramente, não. Eu sabia o percurso que tinha de fazer. Comecei a dar um pulo significativo no meu jogo a partir dos 15 anos. Aí comecei a perceber que era possível. Fazia muitos golos na formação e comecei a ser chamado à seleção. Aí sentes que vais conseguir. Ali ou noutro lado. Se era naquele ano? Talvez não fosse e estava apenas preparado seis anos depois. Obviamente que 90% dos miúdos que estão na Academia ambicionam ser profissionais, mas para chegar a profissional do Sporting não é fácil e é preciso ser muito certinho. É preciso ter sorte e ter pessoas que apostam em ti.

E que amizades guardou daí?

Tenho amizades com muitos: Liedson, Pedro Silva, os portugueses... Miguel Veloso, Nani, João Moutinho. Esta geração que eu falo… É tudo do ano de 1986. Fomos campeões com o Paulo Bento nos juniores. É o primeiro ano dele enquanto treinador depois de terminar a carreira de jogador. Essa geração chegou toda mais ou menos ao mesmo nível na equipa principal. Em 2009, ano em que eu volto para o Sporting, depois de ter estado emprestado, esse plantel tinha Yannick Djaló, Moutinho, Veloso, André Marques, Rui Patrício, Carriço, Adrien… Ou seja, todos daquela geração. É a minha geração. Mantenho contacto. Não é uma coisa regular, mas vamos falando.

Como é que viveu este episódio recente em maio?

Nunca é fácil falar sobre esta situação, até porque não a vivemos. Eu posso opinar na condição de ex-jogador e tendo estado nos mesmos locais que eles, mas também posso falar na condição de adepto, porque já estou fora. Mas às vezes as coisas misturam-se um bocadinho e prefiro não falar muito sobre isso. Foi algo que nunca deveria ter acontecido. As pessoas entendem-se a falar, mas o que aconteceu não fica bem a ninguém. Não ficou bem ao clube. Ainda hoje tive uma conversa numa reunião e alguém me disse que tudo o que se diz e se escreve, hoje em dia, não se apaga. Dentro de campo pode apagar-se o passado. Se estiveres a lutar pelo título, as pessoas esquecem tudo. Se estiveres mal, as coisas acabam por vir ao de cima. Agora tocar na ferida novamente, acho que não se deve fazer.

 Não estás habituado a ouvir um central a chamar-te nomes. Tu pensas: ‘Mas este gajo é maluco?’

Nesse trajeto do Sporting passou por clubes a título de empréstimo. Olivais e Moscavide, Vitória de Setúbal, Académica…

O primeiro ano de sénior foi no Olivais e Moscavide e eu tinha contraído uma lesão grave. Apareci apenas em fevereiro e eles estavam a lutar pela subida à II Liga e isso ajudou-me a perceber outra realidade. São jogadores que não têm perspetiva de carreira, mas que estão ali de forma profissional e a lutar por um objetivo como se fosse o de campeão nacional ao mais alto nível. Começas a perceber que estão ali homens com carácter. O teu carácter começa também a moldar-se a partir daí. Vais ouvindo um a falar, ouves outro e começas a tirar um pouco de cada. As minhas experiências nesses clubes passaram um pouco por aí. Vais ganhando experiências, vivências e experimentando novas coisas para depois chegares ao Sporting e juntares tudo aquilo que foste apanhando ao longo do caminho.

Perceber que há um lado humano para além da técnica e da habilidade...

Exato. Perceber que às vezes há um lado mais duro. Entrar mais duro, ou chamarem-te nomes. Na formação não estás habituado a isso. Não estás habituado a ouvir um central a chamar-te nomes. Tu pensas: ‘Mas este gajo é maluco?’. E começas a 'levar com aquilo'. No dia seguinte afastas-te do defesa e ele vai atrás de ti. Mas depois, no ano a seguir, apanhas um parecido e aí tu já sabes o que deves fazer. Já vais aplicar outras técnicas que tens de ter para ultrapassar o problema. São essas experiências que vais acumulando nesses clubes. O trajeto tem de ser esse. Há jogadores que passam dos juniores para a equipa principal. Há outros que têm de passar por outras etapas. Acho que não têm mal nenhum estares a tomar banho com uma meia no chuveiro porque o clube não tem condições. É mesmo assim, só te faz crescer e dar valor às coisas mais tarde.

Mas como foi esse ano?

Subo com o Moscavide à II Liga, fico lá e depois vou para o Fátima do Rui Vitória. Eu chego à minha última época de junior e passo por uma situação em que me lesiono quase o ano inteiro. Aí penso: 'Será que vai dar ou não?'. Nessa altura, as coisas voltaram um pouco atrás. Cheguei ao Fátima em final de contrato. Não tinha feito uma época de II Liga ao mais alto nível porque não joguei na minha posição. Joguei a extremo e isso, no final de contas, fez-me bem. Ganhei novas rotinas e quando cheguei à equipa de Rui Vitória as coisas correram muito bem. Fui o melhor marcador da equipa e fizemos boas Taças. Eliminámos o FC Porto, estivemos perto de eliminar o Sporting. 2-1 em Alvalade. Aliás o Sporting naquela altura jogou Restelo. No segundo jogo, em Fátima, marquei, mas não festejei porque era jogador do Sporting. O Liedson faz o empate, fizemos nós o 2-1. 2-2 para o Sporting pelo Purovic. E no último minuto o Liedson faz o 3-2 pelo Sporting e passam eles. Nós passávamos para as meias finais ou final da Taça da Liga, no primeiro ano da Taça da Liga. Fiz uma época muito boa ali, permitiu-me renovar pelo Sporting e ter outros clubes interessados. Standard Liège, clubes espanhóis, portugueses… Mas eu tinha bem definido o que queria. Tinha entrado com oito anos no Sporting. Eu meti aquele objetivo na cabeça que tinha de jogar com a camisola nove do Sporting. Abdiquei de muita coisa para seguir o meu sonho de criança e consegui.

Não têm mal nenhum estares a tomar banho com uma meia no chuveiro porque o clube não tem condições

Não se sente arrependido em nenhum momento?

Não, de maneira nenhuma. Mesmo.

A passagem pela Académica também foi especial?

As vivências, as novas experiências.... Acho que foi uma das maiores experiências que eu vivi. Até em termos de vida social com os colegas. A nível desportivo as coisas também correram bem com o Domingos Paciência. Fizemos a melhor classificação dos últimos 60 anos pela Académica. Foi positivo. Estive lá seis meses emprestado depois de as coisas no Vitória de Setúbal não terem corrido bem.

Notícias ao MinutoCarlos Saleiro festeja um golo abraçado por Cédric Soares. Nesta equipa do Sporting estavam também nomes como o de Abel Ferreira e Nuno André Coelho. © Reuters

O que se passou em Setúbal?

Tive um pequeno problema. Um mal entendido também pela minha inexperiência. Fiz uma afirmação que saiu no jornal e que os adeptos não gostaram. Nunca tive problemas internos com os colegas ou com o treinador. Obviamente que nesse período estive afastado do plantel, até porque há regras internas, e eu não soube guardar para mim aquilo que eu pensava. Mas foi sem dizer mal do clube. Foi apenas um desabafo sem querer beliscar ninguém. Tanto que nem levei processo disciplinar. Mas achei que seria melhor seguir um outro caminho e foi então que eu fui para Académica. As coisas correram bem e na época seguinte o Paulo Bento chamou-me para equipa principal do Sporting.

Foi então que fez duas épocas consecutivas no Sporting…

Faço duas épocas, sim. Na segunda época faço 38 jogos, mas a entrar cinco ou dez minutos em cada jogo com o Paulo Sérgio. Vinha de uma época muito boa, em 2009/10, em que a partir da entrada do Carlos Carvalhal começo a jogar a titular. Eu e o Liedson na frente. Tivemos um período de 10 vitórias consecutivas e chegámos aos quartos de final da Taça UEFA. Fomos eliminados pelo Atlético de Madrid sem perdermos um jogo. Estava a ser associado à seleção. As coisas estavam a correr bem. Comecei a pré-época muito bem e a ser o melhor marcador. Fiz os primeiros jogos com o Liedson ao lado, mas o treinador entendeu meter o Postiga com o Liedson e eu fui entrando cada vez que a equipa estava a perder. Joguei mais jogos, mas em termos de minutos foi muito escasso.

Depois entra uma nova direção e eu tinha mais um ano de contrato. Queriam emprestar-me, mas só que naquela altura já tinha 24 anos. Tinha feito o meu percurso, já tinha sido emprestado quatro/cinco anos, voltei para a equipa principal e achei que não o devia ser emprestado novamente. Não fazia sentido. Naquela altura pensei que seria um passo atrás. Vendo as coisas agora, talvez tivesse renovado. A partir daí as coisas começaram a correr mal. Digo que não quero ser emprestado e acabámos por ser rescindir. Fui para ao Servette. Foi a primeira experiência fora de Portugal e na altura o Costinha tinha estado uns meses antes no Sporting e tinha-se mudado para o Servette. Ele fez-me o convite e eu aceitei.

Que balanço faz dessa experiência?

Começaram os primeiros problemas físicos, joguei pouco e não era aquilo que eu esperava. Enquanto não estás numa realidade que te aproxima do topo vai dando, agora quando sais de uma realidade de topo e vais para um sítio onde o nível e as condições não são as esperadas, sentes a diferença. Tinha 25 anos e foi mesmo porque as coisas no contexto desportivo não correram bem. As expectativas sobre mim eram muito elevadas e fisicamente também já não estava bem. Decidi rescindir contrato e voltei para a Académica, mas os problemas físicos continuaram, até aquele ano em que estou totalmente parado e a recuperar da cirurgia. Depois, dois anos no Oriental e fui para Inglaterra terminar a carreira.

Foi na passagem pela Suíça que sentiu que o corpo estava a falhar?

Eu dou este exemplo. Quando não estás fisicamente preparado para o esforço, tens de ir mais devagar. Eu cheguei lá com a época já a decorrer e na altura o treinador puxou por mim e comecei a ter problemas físicos com uma rotura muscular. O departamento médico diz que não é uma rotura, mas sim uma contratura. Estou uma semana parado, a dor passa, quando volto a treinar faço um remate e a dor volta. Venho para Portugal, estou um mês e tal a recuperar, e depois tento outra vez. As coisas não funcionaram. Pelo contexto, pela pressa e por não corresponder fisicamente.

Fazer um golo contra o Benfica era um sentimento de dever cumprido

Regressa a Portugal, novamente para a Académica, e volta a lesionar-se?

Sim, faço a pré-época e faço um jogo amigável em Rio Maior contra o Sporting B, marco um golo mas tenho uma recaída no tendão de Aquiles. Voltei para a Académica pelo projeto europeu. Tinham acabado de ganhar a Taça de Portugal, contra o Sporting, e estavam na Liga Europa. Íamos disputar a Liga Europa, a Supertaça… Mas as coisas não correram bem em termos físicos. Comecei a cair mesmo muito e no final do ano sou operado. Faço dois ou três golos pela Académica em 13/14 jogos e também faço uma coisa que não tinha feito: um golo no Estádio da Luz.

Notícias ao MinutoSaleiro num duelo da Académica frente ao Olhanense© Global Imagens

Esse golo deu-lhe um gosto especial?

Claro, entre Sporting e Benfica há sempre rivalidade. Quando era na formação, fazer um golo ao Benfica era um sentimento de dever cumprido. Faço esse golo no Estádio da Luz, mas perdemos 3-2 na Taça da Liga. Faço o segundo golo na segunda parte, mas só que nesse mesmo jogo começa a doer-me o tendão novamente. Foram os meus últimos jogos na I Liga. Mais tarde tentei em Inglaterra, mas não havia volta a dar. O nascimento da minha filha nessa altura fez-me pensar: 'Não vale a pena'. Chega a um ponto em que pensas: 'Já chega.'

É aí que surge o convite da Oxysports?

Sim, coincidiu com esse convite para entrar nesta empresa de agenciamento da qual agora sou sócio. Vim para Portugal, mas não terminei logo. Ainda tentei recuperar para encaixar numa II Liga, mas não deu. Decidi aceitar o convite.

Nesse seu percurso, qual o treinador que o mais marcou?

Posso muito bem dizer que há momentos da carreira em que os treinadores marcam. Quando é que isso acontece? Quando te põem a jogar. Quando apostam e confiam em ti. Com o Paulo Bento nem joguei muito nos seniores, mas foi ele quem me chamou e sabia que me estava a preparar para assumir a posição. O Carvalhal... O próprio Domingos na Académica, apesar de ele ter vindo para o Sporting depois depois ter estado no Sp. Braga. Ele vem com a direção do Godinho Lopes e eu saio. Ele poderia ter tido uma pequena conversa comigo. Mas, pronto, eu guardo os aspetos positivos e gostei bastante da época com ele na Académica. O Carvalhal apostou em mim e no Liedson. O Paulo Bento também por ter sido campeão de juniores. São pessoas que ficam e não é injusto dizer três ou quatro nomes. Todos fazem parte do meu percurso e ajudaram-me a escrever a minha história.

Nas camadas jovens cruzou-se com Cristiano Ronaldo?

Eu já lá estava e ele chegou em 97 ou 98. Eu estava lá desde 94. Jogámos juntos. Há torneios em que ele foi o melhor jogador e eu fui o melhor marcador. A partir dos iniciados ele começa a galgar escalões.

O Cristiano fazia coisas com a bola que mais ninguém fazia

Naquela altura já achava que era um colega especial?

Sim, nos torneios em que se atribuíam prémios ele já se destacava. Era sempre o melhor jogador. Às vezes também era o melhor marcador. Fazia coisas com a bola que mais ninguém fazia. Era rápido a pensar e era inteligente. É isso que tem de ser analisado num jovem jogador. Rápido a decidir com e sem bola. Com o decorrer do tempo foi evoluindo bastante. Também no aspeto físico. Mas aquilo não é um segredo dele. Eu também posso estar fisicamente bem e não atingir o que ele atingiu. O exemplo que ele é tem de ser seguido, mas tem de haver talento, mentalidade e  vontade. Aquela qualidade e a irreverência ele já tinha. Adaptou-se ao futebol. É uma máquina de fazer golos. Há um Ronaldo que chega a Manchester e outro que vai para o Real Madrid. Em Inglaterra foi bem trabalhado. Às vezes mais vale chutares à baliza no momento certo do que estares a fintar um adversário e chutar depois. Ele pensou mais rápido do que todos os outros e há uma coisa que é dita e é verdade: A maior parte dos adeptos lembra-se de quem faz os golos. O Ronaldo soube levar isso para o jogo dele. Nisso, ele é o maior.

Sente-se realizado com este novo emprego ligado ao futebol? 

Estou numa empresa de agenciamento há um ano e pouco. Temos 10 ou 11 jogadores. O nosso objetivo é acompanhar esses jogadores. Acho que é importante ter alguém que saiba o outro lado. Eles hoje estão a passar um momento e eu já passei por essa situação duas ou três vezes, por exemplo. O meu trabalho passa por negociar as melhores situações para os jogadores. Acho que as coisas estão a correr bem. As coisas estão a amadurecer. Está a ser uma evolução constante e estou a gostar. Conto fazer por mais anos. Agora meter-me em polémicas de agentes... Não me revejo, até porque o meu perfil enquanto profissional de futebol vai permitir perceber como é que o outro lado pensa. Tenho a capacidade de perceber como é que haverei de agir e falar. Infelizmente, em termos de estudos, fiquei com o secundário,  mas não me vejo como alguém que não consegue expressar-se.

E ser treinador? Não entra nos planos para o futuro? 

Sinceramente, não. Tenho o curso nível 1 da UEFA, até o tirei com o Rúben Amorim. Mas não é uma coisa que me puxe. Nem agora, nem daqui a cinco ou dez anos. Não me puxa ser treinador. Gosto de direcionar o meu pensamento para um jogador e talvez não tenha o perfil para liderar 25 ou 30. Se me falarem em cargo de adjunto? Talvez dissesse que seria uma mais valia, mas não me revejo, porque estou a gostar do que estou a fazer. Hoje em dia fala-se mais do agente do que do jogador e nós não seguimos por esse caminho. A maior parte das pessoas nem sabem que estou nesta área. Temos de valorizar os nossos atletas, são eles que são os nossos ativos.

Notícias ao MinutoLonge dos relvados mas ligado ao futebol, Saleiro continua apaixonado pelo desporto rei. © Notícias ao Minuto

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