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"Estou numa fase de grande enamoramento pela língua portuguesa"

O quinto disco de Luísa Sobral é todo em português e em conversa com o Notícias ao Minuto, a cantora desvendou que isso se deve ao facto de ser uma escrita mais intimista. "Há uma língua do coração, que é a que falamos com os nossos filhos", confessou.

"Estou numa fase de grande enamoramento pela língua portuguesa"
Notícias ao Minuto

22/11/18 por Sara Gouveia

Cultura Luísa Sobral

'Rosa' é o nome do novo álbum de Luísa Sobral, mas não só, é também o nome da segunda filha, nascida há poucos meses e que, segundo a cantora, "influenciou completamente todo o processo do disco".

Em conversa com o Notícias ao Minuto, Luísa Sobral falou sobre este novo trabalho e sobre as histórias que o compõem, que apesar de serem suas não gosta que lhe pertençam. Passando ainda pela carreira que tem vindo a ter, a Eurovisão e a sua vertente menos conhecida de compositora.

A apresentação do disco ao vivo está marcada para 9 de fevereiro na Casa da Música, no Porto, e para 22 de fevereiro no teatro Tivoli, em Lisboa. Depois disso segue-se a tournée, "continuar a ouvir os instintos e fazer o que apetece".

O nome do seu novo disco é ‘Rosa’, o mesmo nome da sua filha que nasceu há poucos meses. Porquê esta escolha?

Ela influenciou completamente todo o processo do disco. Comecei a escrever as canções quando estava já grávida dela, depois tive um problema nas cordas vocais e fiquei rouca, por causa da gravidez, por isso acabei por compor naquele espaço da voz em que me sentia confortável. Depois quando estava a gravar também veio muito ao estúdio e acabou por influenciar e mudar tudo no disco. Houve alturas em que achei que estava a boicotar o meu trabalho [risos], noutras percebi estava só a fazer-me ver outras coisas, na verdade. Então decidi dedicar-lhe o disco.

‘Querida Rosa’, ‘Benjamim’, ‘Maria do Mar’ e o ‘Melhor Presente’ estão todas relacionadas com os seus filhos. De que forma?

O ‘Melhor Presente’ é uma canção que escrevi para o meu filho sobre a chegada de um irmão, na altura nem sequer sabia que era uma irmã. No caso da ‘Maria do Mar’ achei bonito o nome - e ainda chegámos a pensar em dar esse nome a uma rapariga, mas a história não tem nada a ver.

A ‘Querida Rosa’ e o ‘Benjamim’, no fundo, não são uma carta minha para eles, mas sim uma carta de alguém que eu gostava que um dia gostasse deles dessa forma. Que alguém um dia os amasse dessa forma e que lhes escrevesse essa carta, assim de amor.

Sente que este disco é mais pessoal por ter sido escrito durante a gravidez da sua filha?

Não. Quer dizer, dizem que as mulheres ficam mais emotivas e mais em contacto com o seu lado emocional, mas não sei. Não consigo saber. Teria de escrever o mesmo disco sem estar grávida. É verdade que se calhar estava mais emotiva quando o escrevi, mas já fiquei assim desde que fui mãe pela primeira vez. Nunca voltou atrás, fiquei sempre assim meio ‘piegas’. Acho que quando estamos a gerar vida dentro de nós há sempre alguma coisa assim mais mágica, então talvez tenha influenciado, sim.

Parecia-me um convite demasiado óbvio para as pessoas entrarem na minha vida e não era isso que queriaPara uma pessoa tão reservada, como é a Luísa, é fácil baixar os escudos para escrever sobre si ou sobre os seus?

Sim, porque as pessoas, normalmente, nem sequer percebem quando é que estou a escrever sobre mim e eu gosto disso. Dessa forma conseguem-se apoderar das minhas canções e torná-las suas. Acho que quando é muito evidente sobre quem é que estamos a escrever, isso faz com que as pessoas depois - apesar de eu nunca expor o meu marido, nem nada - sintam sempre que a canção foi a Luísa que escreveu para o marido ou para o filho, por exemplo, e isso não gosto tanto. Por isso é que tento sempre que as coisas sejam camufladas, para que não se perceba bem e se dê espaço às pessoas para decidirem que a canção é sua.

Esse foi o meu problema com ‘O Melhor Presente’, era demasiado óbvio que era minha para o meu filho sobre a minha filha que vinha aí e tive algum tempo para decidir se a colocava no álbum ou não. Parecia-me um convite demasiado óbvio para as pessoas entrarem na minha vida e não era isso que queria. Mas agora não estou nada arrependida porque já tive respostas do género: “Esta canção é sobre mim e as minhas filhas” e pensei: “Ok, então fiz bem”, porque a canção é sobre outras pessoas, já não é minha.

Este álbum é todo escrito em português, já o tinha feito em 2014 no Lu-Pu-I-Pi-Sa-Pa, mas no seguinte voltou a introduzir o inglês. Porque é que surgiu a necessidade de voltar a fazer um disco todo em português?

A minha identidade continuava a ser aquela de escrever em inglês. Neste momento já não é. Escrevi tanto para outras pessoas em português que deixei de ter vontade de escrever em inglês. Simplesmente não me apetecia. Quando comecei a compor para mim saia sempre em português, era a língua que eu tinha vontade de explorar. Comecei-me a apaixonar cada vez pela língua e a sentir uma vontade cada vez maior de escrever nela. Não quer dizer que no próximo disco não me apeteça escrever em inglês, ou em francês, ou noutra língua qualquer, mas neste momento estou numa fase de grande enamoramento pela língua portuguesa.

Agora que o meu filho está a começar a falar, percebo que há uma língua do coração, que é a que falamos com os nossos filhos

Há uma maior intimidade em escrever em português?

Sim e nota-se muito. Ainda nem sequer levei este disco para a estrada, mas com os pequenos showcases que tenho feito, nota-se muito a ligação direta do público com as canções, é diferente. Até porque o disco é muito despido. Noutro dia dei um concerto que era só em duo onde acabei por mostrar o disco quase todo e noto que as pessoas estão a ouvir cada palavra. Parece que as sentem mais e eu talvez também as sinta mais. Agora que o meu filho está a começar a falar, percebo que há uma língua do coração, que é a que falamos com os nossos filhos. Para mim não faria sentido falar inglês com o meu filho para que ele aprendesse. Não ia dizer, como digo à noite “gosto tanto de ti”, “I love you so much”, não muito faz sentido. Apesar de ser uma língua que eu domino, não é a língua do coração.

Então quando começo a pensar nisso, chego à conclusão que isso também se reflete nas músicas. A minha língua do coração não deixa de o ser quando estou a cantar, pelo contrário. Por isso é normal que também haja uma ligação minha à letra mais forte e estou a sentir mais isso agora que estou a mostrar este álbum pela primeira vez.

Neste álbum acaba por se afastar do seu lado mais jazz. Porquê?

Não é uma coisa pensada. Acho que enquanto artistas vamos sempre inspirar-nos em coisas diferentes e temos momentos diferentes da vida em que vamos ouvindo coisas diferentes e neste momento foi isto que me apeteceu fazer. Obviamente que ainda tenho harmonias que vêm do jazz, porque é normal para mim é a maneira como aprendi a tocar guitarra ou de música brasileira - há canções que podiam ser brasileiras neste disco - porque são inspirações. Mas eu senti que queria um disco de cantautor, que queria canções e então afastei-me do jazz, mas foi muito natural. É uma consequência de ter deixado de ouvir jazz praticamente. Não estou com vontade de ouvir jazz nesta altura da minha vida e por isso depois não escrevo coisas muito jazzísticas.

As pessoas vinham aos meus concertos e perguntavam onde é que ele [Salvador Sobral] estava, iam aos dele e perguntavam por mim, queriam saber se vivíamos juntos, já os dois com 30 e tal anosDepois da Eurovisão e da associação inevitável que foi feita entre si e o seu irmão ficou com receio de o incluir numa das canções, a ‘Só Um Beijo’, ou foi uma decisão fácil?

Não, fiquei com um bocadinho de receio, porque tivemos de fugir tanto dessa dupla que as pessoas queriam ver. As pessoas vinham aos meus concertos e perguntavam onde é que ele estava, iam aos dele e perguntavam por mim, queriam saber se vivíamos juntos, já os dois com 30 e tal anos. Então, de repente, parecia que tínhamos de estar sempre juntos, como se fôssemos gémeos siameses e fugimos tanto disso, não dávamos entrevistas juntos, não fazíamos concertos juntos, nada. Tudo de propósito para criar esse distanciamento e para que as pessoas percebessem. Eu já tinha uma carreira, mas ele não, então fazia sentido que ele estabelecesse a sua longe da minha e que depois nos juntássemos quando quiséssemos e foi o que aconteceu aqui.

Eu até tinha pensado noutro cantor para esta canção só por causa disso.

Quem era?

Não posso dizer! Até porque ele não sabe [risos]. Nunca convidei porque depois era chato desconvidar.

Como é que acaba por surgir o Salvador?

O meu irmão acabou por dizer que tinha pena que não o convidasse. Ainda lhe disse que não queria por causa desta necessidade de afastamento. Mas depois num dos jantares de domingo que fazemos em família lembro-me de a minha mãe me perguntar: “Mas o que é que te interessa aquilo que as pessoas pensam? Se é ele quem tu queres porque é que não haverá de ser ele? Só porque tens medo que as pessoas associem?” e eu fiquei a pensar que realmente nunca tinha feito nada na minha vida baseado naquilo que as pessoas pudessem pensar.

Mas onde começa esse receio?

Depois mais tarde comecei a pensar que esse receio foi produto de uma coisa que disseram na altura, num daqueles programas em que só falam mal de toda a gente, onde de repente diziam que achavam que eu tinha subido ao palco no dia da vitória da Eurovisão porque não aguentei não ter protagonismo. E aquilo mexeu comigo, foi horrível para mim, fiquei quase com vontade de chorar a ouvir aquilo.

Como assim eu não aguentei ter protagonismo? Quem me conhece sabe bem que não sou assim. Aquilo magoou-me tanto que de repente comecei a agir motivado por aquilo. Mas na verdade, se o fizer vou estar a dar importância a estas pessoas e à opinião delas, que no fundo para mim é zero.

Depois de perceber isso decidi que ele ia cantar comigo e vou entrar no disco do meu irmão também. e fiquei muito feliz porque a canção ficou super bonita com a voz dele, não há harmonias mais bonitas que as harmonias dos irmãos, porque são pessoas que já cantam juntas há muitos anos. Além disso dei uma alegria enorme aos meus pais. A minha mãe adora a canção, ouve-a a toda a hora, por isso ainda bem que deixei de ouvir as outras coisas e fiz o que queria.

Lembro-me de ler que a vossa mãe tinha uma história com as vossas músicas e os toques de telemóveis.

[Risos] Sim. Primeiro tinha uma música minha e depois o meu irmão ficou super ofendido, a perguntar porque é que era uma música minha e não uma dele, ainda por cima porque já tinha lançado o disco naquela altura. Então agora tem o ‘Amar pelos Dois’, porque diz que é uma música minha com o meu irmão a cantar e por isso dá, porque tem um bocadinho dos dois. Mas acho que agora deve trocar por esta [‘Só Um Beijo’], porque adora-a.

Crê que foi difícil para o Salvador sair da ‘sombra’ do concurso?

Não acho. Sempre foi muito mais do que um cantor da Eurovisão. As pessoas olhavam para ele e viam um artista, tenho a certeza. Viam um cantor inacreditável, uma pessoa com uma personalidade muito forte, então acho que se apaixonaram por ele e não pela pessoa que ganhou a Eurovisão. Sei que depois foram ver as coisas dele com curiosidade de o conhecer a ele e o ‘Amar pelos Dois’ também tem muito a ver com o que o Salvador faz, não fugiu do tipo de registo que ele tem. Por isso acho que não ficou nada preso àquela imagem.

Eu tenho uma carreira. Nada disto aconteceu por causa do meu irmão ou da Eurovisão. Irrita-me que não me dêem crédito e senti um bocadinho isso durante a promoção deste trabalho e isso chateia-me Apesar de já ter uma carreira anterior, sente que ainda é muito associada à Eurovisão? Como é que se gere isso?

Não sentia muito isso até lançar este disco e nas entrevistas começarem a perguntar-me imenso sobre esse assunto. Nada contra. Mas por exemplo, nesta entrevista é uma coisa super equilibrada, mas chateia-me um bocado quando acontece como aconteceu outro dia na televisão onde, basicamente, só me falaram sobre isso. É feio. Eu tenho uma carreira para além disso e tenho um disco novo. Estamos a falar do meu disco. De repente a pessoa virou aquilo e foi tudo sobre a Eurovisão, o meu irmão, o facto de eu ficar conhecida por causa disso. Não é verdade, eu já tinha quatro discos, dois deles são de platina e outro é de ouro. Nada disto aconteceu por causa do meu irmão ou da Eurovisão. Irrita-me que não me dêem crédito e senti um bocadinho isso durante a promoção deste trabalho e isso chateia-me.

Há uma parte sua de composição que nem toda a gente conhece.

Sempre disse que um compositor que escreva para outros tem de ter essa humildade de ficar na sombra, porque se não, não o deve fazer. Já escrevi músicas para outros artistas e ninguém sabe que fui eu que as escrevi e não me importo nada com isso. Escrevi agora uma para o [António] Zambujo, que vai ser lançada neste disco novo, e se ouvir alguém dizer que adora a “canção do Zambujo” eu vou ficar só feliz. Um compositor tem de ter esse altruísmo, porque estamos a oferecer uma coisa para ganhar vida na voz de outra pessoa, não podemos querer estar também a ser o emplastro. Não faz sentido. A notoriedade que tive como compositora na Eurovisão, ninguém tem e só aconteceu porque entrei como compositora e depois escolhi a voz. Mas isso não é normal e nunca me importei com isso.

O que é que se retirou da vitória da Eurovisão? Dali para a frente como é que foi?

Para o meu irmão foi muito diferente. Para mim não muito. Mudou tudo muito ao de leve, nada de muito drástico. Comecei a ter mais gente a pedir para compor e comecei a selecionar um bocado para quem escrevia, quem me inspirava mais e isso foi muito positivo. Claro que ganhando notoriedade foi mais fácil se calhar tocar em sítios onde não tinha tocado antes. Mas nada de muito diferente. Se calhar há mais pessoas que me reconhecem na rua, mas são sempre muito calmas, nada histéricas. Ou seja, não tive assim grandes diferenças. Acho que foi mais o facto de perceberem que estou aqui, que também sou compositora, que escrevo em português, para algumas pessoas isso foi uma novidade, mesmo para alguns músicos. Se calhar, conquistei um bocadinho mais o meu lugar. Mas não sou nada ressabiada em relação a isso, percebo que as pessoas por vezes simplesmente não vêem e se isso não acontece não assumem que existe. Agora, claro que gosto, sabe-me bem e fico mais relaxada.

É tudo muito forte, nas redes sociais, mas muito rápido. No dia seguinte já tinham outro alvo a abaterNa edição em que foi convidada para ser jurada do Festival da Canção Diogo Piçarra foi acusado de plágio. Como é que viu essa situação?

Acho que obviamente não foi plagiado, tenho a certeza, não posso dizer absoluta, mas quase. A canção tinha muitos lugares comuns, musicalmente era um bocadinho chiché. Deve haver imensas canções assim. Não é assim tão estranho. Sempre achei que foi muito duro, mas também estava a viver uma fase de aversão às redes sociais e aquilo só veio cimentar mais essa minha ideia de que conseguem ser horríveis e destruir uma pessoa. Foi o que aconteceu com ele, de repente passou de ser o maior para ser terrível e andar a roubar canções à IURD, tudo no espaço de 24 horas. As pessoas conseguem ser muito cruéis e eu passo-me com isso. Acho que tomou a decisão certa de se afastar. Aquilo é um programa de originais e a canção, apesar de ele não saber, já existia, ou seja, não podia continuar com aquilo. Tinha mesmo de ser assim, nunca iria ser original. Com que cara é que depois é que ele ia para a final? Além disso ia continuar a fomentar aquele ódio, as pessoas iam continuar a falar disso. Por isso foi na altura certa.

É tudo muito forte, nas redes sociais, mas muito rápido. No dia seguinte já tinham outro alvo a abater. Mas achei super injusto e tive imensa pena dele, cheguei a mandar-lhe uma mensagem de apoio e a dizer que percebia perfeitamente e que estava do lado dele.

Prefiro estar quase um ano a pensar no disco e ir trabalhando, mas é geracional. Os miúdos de agora querem tudo muito rápido e durante pouco tempo

Aquilo que acontece com as redes sociais, essa rapidez, acontece também com o panorama da música que temos hoje em dia? De ser mais imediata.

Hoje em dia é muito fácil chegar às pessoas, não é como antes. Agora, nas redes sociais, posso pôr um vídeo já em cinco minutos já não sei quantas pessoas viram. O que faz com que às vezes ache que as pessoas se esforçam um bocadinho menos no trabalho que mostram, mas esquecem-se também que tudo fica - ainda mais agora - tudo fica para sempre. Tudo o que mostramos deve ser trabalhado e pensado. Mas, por vezes, sim às vezes acho que as pessoas pensam menos. Lançam discos de 6 em 6 meses, porque é tão fácil, é só pôr e está disponível para toda a gente. Um disco deve ser uma coisa pensada e trabalhada e durante algum tempo. Mas é uma questão geracional. A geração logo a seguir à minha já vê as coisas de uma forma completamente diferente, já é do género: “Ah acabei de escrever um tema, está aqui, querem comprar?”, eu não vejo as coisas assim, prefiro ter as coisas bastante pensadas e elaboradas antes. Prefiro estar quase um ano a pensar no disco e ir trabalhando, mas é geracional. Os miúdos de agora querem tudo muito rápido e durante pouco tempo.

Escreve canções desde os 12 anos. De que forma é que os seus pais a influenciaram para isso?

Os pais têm sempre influência. O meu pai sempre ouviu muito Beatles, Rolling Stones, ouvia em português os GNR, o Rui Veloso, ouvia muita música no carro. No caso da minha mãe a artista que mais me lembro que ouvia era a Maria Bethânia. Logo aí fiquei com várias aspirações. Mas o meu pai é ‘maluco’ por música, toca bateria e sempre ligou muito às letras. Falava muito connosco sobre isso, como não percebíamos inglês ainda, contava-nos as histórias por detrás de cada canção, o que me fazia pensar nessas histórias e sempre tornou tudo bastante mágico para mim. Acho que comecei a escrever por causa disso, queria escrever algo meu. Assim que peguei na guitarra e comecei a tentar tocar tive vontade de começar a fazer coisas minhas.

Que tipo de histórias é que uma menina de 12 anos conta?

A minha primeira canção é sobre o meu divórcio [risos]. Mas era porque era inspirada numa canção da Adriana Calcanhoto, a ‘Devolva-me’, a minha chamava-se ‘Leva-me’ e era sobre o meu divórcio, uma coisa que eu nem tinha bem noção do que era, até porque os meus pais são casados há anos. Dizia coisas como “leva os quadros que tu olhaste”, um bocadinho como a Ágata, costumo dizer que acho que fui eu que escrevi a canção da Ágata. Mas até era bonitinha a música e cheguei a gravá-la num estúdio e o meu irmão fazia as segundas vozes.

Como é que se concilia a família com uma carreira e com os compromissos inerentes à profissão que escolheu? (viagens, concertos, digressões) É fácil?

Ainda não sei. Mas vou tentando todos os dias. Todos os dias penso no dia seguinte e tento fazer com que as coisas funcionem. Até porque nem consigo lembrar-me dos compromissos da semana seguinte e então já percebi que tem de ser a curto prazo. Tem sido mais fácil dessa forma. A verdade é que parece mais fácil agora do que quando não tinha filhos, trouxeram-me alguma calma, alguma serenidade.

Por exemplo, esta semana levei a minha filha comigo para os concertos que tinha no Norte, ontem preparava-me para a levar também, mas depois percebi que não fazia sentido porque ia para o Porto às 16h e voltava à meia-noite. Por isso vou fazendo estas escolhas dia a dia, mas dá sempre tudo para acontecer, com ajuda, obviamente, da minha mãe, do meu marido e de vários outros fatores.

Agora tenho a tournée do novo disco, depois a seguir a isso não sei. Tenho de ir vendo o que sinto e o que me apetece fazer, tenho feito sempre assim

Os seus filhos vão acabar a crescer entre palcos e entre música. O que achava se eles depois também seguissem essa carreira?

Ai, gostava tanto! O meu filho anda nas aulas de música desde os seis meses e agora não pára de cantar, uma pessoa tenta falar com ele e é impossível. Já dei por mim a pensar: “O que é que eu fui fazer?”. Sempre com a mesma canção, que não é minha, é o ‘Brilha Brilha lá no céu’, mas adorava. Adorava que ela tocasse violoncelo, penso imenso nisso. Ele ainda não sei, gosta da guitarra, acho que lhe vou oferecer um ukulele de presente de Natal. Mas quero mesmo é que sejam felizes, mas fomentar uma ligação à música é sempre bom, não têm depois de seguir aquilo.

O que se pode esperar da Luísa Sobral a seguir a este novo álbum?

Agora a tournée do novo disco, depois a seguir a isso não sei. Tenho de ir vendo o que sinto e o que me apetece fazer, tenho feito sempre assim. É ótimo porque aqui [na Universal] deixam-me fazer tudo, nunca me chateiam com nada, nunca ninguém vai ao estúdio dizer para fazer uma coisa de certa maneira, confiam imenso em mim e na minha maneira de trabalhar. Tem funcionado, por isso vou continuar a ouvir os instintos e fazer o que apetece.

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