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"Da próxima, despenalização da eutanásia passa. Caiu um muro"

Helena Roseta lamenta que deputados tenham entrado no jogo tático na votação dos diplomas sobre a despenalização da eutanásia. Apesar disso, em entrevista ao Notícias ao Minuto, diz não ter ficado chocada com o chumbo. Viu-o, aliás, como um muro que foi derrubado e que abrirá caminho à aprovação na próxima legislatura.

"Da próxima, despenalização da eutanásia passa. Caiu um muro"
Notícias ao Minuto

07/06/18 por Melissa Lopes

Política Helena Roseta

A eutanásia, a reunião magna do Partido Socialista, as próximas legislativas e ainda o assunto Sócrates foram temas abordados por Helena Roseta em entrevista ao Notícias ao Minuto. A deputada diz que o PS tem de aprender "a lição" e que não pode deixar um líder, seja ele quem for, "completamente à solta", sem o escrutínio dos militantes. 

Sobre a eutanásia, que opinião tem sobre a forma como decorreu a votação no Parlamento?

Primeiro, sobre como correu a discussão. Tirando uma ou outra provocaçãozinha, acho que foi uma discussão bastante digna, toda a gente reconheceu que tinham sido discursos sérios, que o trabalho foi sério e que o debate foi importante.

Sobre a votação, sou a favor da despenalização da eutanásia mas não fiquei chocada com o resultado. A sensação que eu tive foi que tinha caído uma barreira. Havia uma espécie de tabu para se falar nesta matéria e isso acabou. Hoje toda a gente fala, toda a gente tem opinião.

[A eutanásia] acontece todos os dias nos hospitais

Também acredita que passará na próxima legislatura?

Acredito que para a próxima o assunto se resolve. Estou convencida disso porque até aqui não se falava, o assunto não entrava na agenda, não vinha para os jornais, para as televisões.

[A eutanásia] acontece todos os dias nos hospitais, as pessoas que estão ligadas ao sistema de saúde e quem têm familiares muito doentes, sabem que acontece. Todos os dias se dá um bocadinho mais de sedativo ou se desligam máquinas, inevitavelmente. As pessoas hoje em dia não morrem em casa, morrem nos hospitais, e acaba por acontecer de uma forma escondida e sem ter sido a própria pessoa a dizer o que é que queria que lhe fizessem. Aqui, acho que é uma questão de acabarmos com a hipocrisia, assumirmos a liberdade das pessoas e o direito. Havia um poeta alemão que dizia que todos temos de ter direito à nossa própria morte. E é um bocado disso que se trata. Não é uma coisa que interesse muito aos jovens porque de facto os jovens são eternos com essa idade. Mas é uma coisa que vai acontecer, mais tarde ou mais cedo. Não vale a pena sermos hipócritas. Agora, as pessoas têm o direito de dizer que não querem, evidentemente. Despenalizar não significa que as pessoas sejam obrigadas a fazer esse caminho.

Claro.

Nesse aspeto, a nova geração é mais tolerante porque percebe este problema da liberdade de cada um. As gerações mais velhas têm mais dificuldades em aceitar isso, pensa que é uma fronteira que não se pode ultrapassar.

Veem a vida como um direito inviolável, independentemente das condições em que se ‘vive’.

Sim, sim.

Não há tática nenhuma que se imponha contra a minha consciência

Mas relativamente à votação cruzada. Sendo o cerne dos quatro diplomas o mesmo, por que razão deputados votaram a favor de uns e contra outros?

São coisas táticas. Em política acho que a estratégia é mais importante que a tática. E acima da estratégia estão as convicções, até pode ser completamente fora de todas as táticas e de todas as estratégias, mas a pessoa tem de se governar pelas suas convicções. Não há tática nenhuma que se imponha contra a minha consciência.

Ali houve tática?

Houve deputados que aceitaram esse jogo tático. Mas tenho pena porque acho que a consciência está acima da tática e da estratégia. Se há pessoas que votaram contra a eutanásia por razões de consciência, o maior respeito. Se eu quero que respeitem a minha consciência, tenho de respeitar a dos outros, não posso estar a pressioná-los, a criticá-los nem a apontar o dedo. Ora, se as pessoas subordinaram a consciência à tática, é pena. Acho que não o deviam ter feito, perderam uma ocasião para não o fazerem. Não vou fazer mais considerações, as coisas são como são. A gente não pode rebobinar a vida, já passou, já passou.

Fica para a próxima.

Estou convencida disso. Tive essa sensação quase física. Caiu uma fronteira.

Até porque o sentimento final dos partidos que apresentaram os diplomas não foi de desânimo.

Isto foi muito alargado e da próxima isto passa. Caiu um muro.

 O PS tem de aprender a lição de que não pode deixar um líder, seja ele quem for, completamente à solta

Como assistiu à reunião magna do seu partido?

Acho que foi um Congresso que correu bem. Foi um Congresso intencionalmente virado para a frente.  António Costa começou no primeiro dia a falar de Mário Soares e no segundo a falar do futuro. Foi intencional para que não houvesse uma concentração explícita no problema que o PS tem de ter tido um secretário-geral que teve comportamentos inadmissíveis e que está numa situação muito complicada na justiça. E isso afeta qualquer partido, mas na verdade não é um Congresso que resolve um problema desses.

Teria sido indiferente, na prática, ter-se falado no assunto Sócrates no Congresso?

Indiferente não era, mas ia criar ali uma espécie de catarse coletiva. Acho que as catarses, quanto mais reservadas, melhor. E só se devem fazer com pessoas em que só se confia muito, se não dá sempre disparate, ficam pessoas zangadas e é uma energia negativa. De facto, o PS tem de aprender a lição de que não pode deixar um líder, seja ele quem for, completamente à solta, sem algum escrutínio dos militantes, um escrutínio que não seja na base das fidelidades e das compensações dos lugares, mas sim na base dos comportamentos, tem de haver aqui aquilo que a geração mais velha do PS chamava de ética republicana. Não é indiferente a um partido que os seus líderes tenham um comportamento que não seja compatível com a ética republicana. Isso é a lição principal a tirar desta história toda. Deve ser uma bandeira do PS daqui para a frente.

Quanto ao Congresso, Costa virou o discurso bastante para a frente, para a geração jovem, e isso pode ser importante, se se traduzir em políticas concretas, até para aproximar os jovens da política. Se os jovens perceberem que o assunto é com eles e com os problemas que lhes interessa resolver, eles aproximam-se naturalmente.

Não há solução alternativa se não conversarmos à Esquerda

Nuno Melo falou de um Congresso que lhe fazia lembrar a Disneylândia…

Isso é um sounbite, não tem significado nenhum.

Relativamente às próximas eleições, a Geringonça devia repetir-se?

Acompanho muito a posição de António Costa. Se a gente quer fazer transformações e mudanças importantes na sociedade temos de puxar por aqueles que as querem fazer e não por aqueles que acham que como estava é que era bom. Não há solução alternativa se não conversarmos à Esquerda. Há assuntos que temos de falar com todos, que são assuntos de interesse nacional. Agora, será esta fórmula ou outra? Depende muito dos resultados eleitorais e o PCP nessas coisas tem uma visão muito simples que é preciso fazer a análise da relação de forças. E depende muito da relação de forças. Se o PS tiver uma votação muito grande e os partidos à Esquerda não tiverem uma votação suficiente, pode não os levar a apoiar o PS, depende muito. Mas o principal é que os eleitores escolham, façam o seu juízo, julguem não só cada um dos partidos mas também a solução, o todo, e escolham.

*Pode ler a primeira parte desta entrevista aqui.

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