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"Políticos exigiram sacrifícios mas não se sacrificaram"

Os partidos políticos portugueses “exigiram à população enormes sacrifícios”, mas, chamados a negociar, “foram incapazes de fazerem, eles próprios, o sacrifício dos seus interesses”, analisa o sociólogo António Barreto.

"Políticos exigiram sacrifícios mas não se sacrificaram"
Notícias ao Minuto

09:48 - 26/07/13 por Lusa

Política António Barreto

“Era necessário que todos os partidos, ou alguns deles, fizessem sacrifício das suas posições partidárias e dos seus interesses, e não o fizeram. Tendo, todavia, exigido que os portugueses ganhassem menos, pagassem mais impostos, ficassem desempregados, tivessem problemas muito sérios do ponto de vista social, económico e financeiros”, criticou o sociólogo e ex-deputado, em entrevista à Lusa.

A convicção de que “o interesse nacional é igual ao do partido” terá um preço, acredita o presidente da Fundação Francisco Manuel dos Santos, que está a ultimar a conferência “Portugal europeu. E agora?”, agendada para 13 e 14 de setembro.

“Isto paga-se, no longo prazo, no médio prazo, paga-se. Quase ninguém hoje respeita os políticos, os partidos políticos, a não ser as tribos, a tribo do PS, a tribo do PSD, a tribo do CDS, a tribo do Bloco ou do PC, [que] respeitam o seu partido, como as claques de futebol”, compara.

“Há um declínio do respeito e da confiança nos políticos muito, muito, muito grande”, resume, assumindo que gostava que a situação se recompusesse. “Porque, para vivermos em democracia e em paz, é necessário que volte a aparecer respeito pelos políticos, mas creio que vai demorar muito tempo”, prevê.

“Desde o início” que António Barreto não partilha da "estratégia” do Presidente da República. “Ele tem o estilo dele. Creio que ele tem cumprido o estilo dele. Não é aquele que eu defenderia para ele”, diz.

Em resumo, toda a classe política sai “muito fragilizada” da crise governamental mais recente, mas a “incapacidade” para “discutir, negociar e chegar a acordo” já é uma característica dos partidos “há quatro, cinco anos”, recorda, confessando: “Não sei quanto tempo demorará a recompor as coisas.”

Apesar de o Governo dizer “muitas vezes que quer uma sociedade civil” ativa, “é conversa”, porque, “na verdade, nos atos, nas leis, nas decisões”, prefere “uma sociedade civil submissa, que não crie problemas, que seja reverencial, que saúde e cumprimente os senhores políticos”, ironiza o sociólogo.

Por outro lado, a sociedade civil portuguesa “adapta-se facilmente” a qualquer cenário, por pior que seja. “Tendencialmente, os portugueses resignam-se mais do que se revoltam”, admite.

Porém, o sociólogo recusa “exagerar” essa tendência, porque “houve momentos, nos últimos 200 anos” de “revoltas muito profundas e conflitos muito graves” – no fim da monarquia, no princípio da República, no assassinato de chefes de Estado. “Também há revolta, não é só resignação, brandos costumes ou suavidade”, alerta.

“Esta sociedade civil necessita, obviamente, de instituições. (…) Uma pessoa levanta-se de manhã, acorda e [diz] ‘vou-me revoltar contra qualquer coisa ou vou fazer isto’? Não. O importante são as instituições, as associações, as organizações. É nesse domínio que Portugal sempre foi frágil”, avalia.

A força e a fraqueza da sociedade civil, “sempre dependente do Estado”, seria um dos temas que acrescentaria à série documental “Portugal – um retrato social”, que dedicou à sociedade portuguesa. Os outros dois episódios seriam sobre as relações entre Portugal e a Europa e a debilidade económica do país.

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