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De uma refinaria à beira do fecho, Raimundo abriu porta aos 'unicórnios'

A refinaria de Matosinhos tem encerramento previsto para 2026, mas o secretário-geral do PCP recusa ver a infraestrutura como passado e defende um futuro em que há espaço para a indústria petroquímica, mas também para os novos 'unicórnios' empresariais.

De uma refinaria à beira do fecho, Raimundo abriu porta aos 'unicórnios'
Notícias ao Minuto

21:09 - 04/03/24 por Lusa

Política PCP

Com os tanques da refinaria nas suas costas e o mar pela frente, Paulo Raimundo pegou no exemplo da refinaria que a Galp anunciou em 2020 que ia fechar para elogiar a especialização dos trabalhadores portugueses, advogar a capacidade de aumentar a produção nacional e combater a dependência externa.

"Não somos nem contra as empresas, nem contra o investimento estrangeiro. É preciso é que se salvaguarde os interesses nacionais e a nossa própria soberania. Esta é que é a questão fundamental. Não temos nenhum problema com os unicórnios. O problema é que isso não pode ser em substituição das capacidades e necessidades que temos instaladas hoje", adianta o líder comunista.

A decisão de fechar a refinaria traduziu-se no despedimento de muitos trabalhadores, entre os quais César Martins, que está ligado à comissão de trabalhadores daquela infraestrutura e que não só ouve o líder comunista, como toma também a palavra para lembrar os diversos casos de depressão e divórcio que afetaram aqueles profissionais.

Aos 52 anos, e depois de 22 ao serviço em várias unidades da refinaria, procura ainda nos tribunais a reintegração na empresa. "Meti a ação no tribunal por parte do sindicato e tive de restituir o dinheiro da indemnização, o que não é fácil", conta, assumindo que lutar contra um despedimento coletivo exige "muita consciência e força de vontade".

"Isto é um pouco psicológico, depende da pessoa. A transição justa é um negócio do capital. Temos petróleo bruto na costa e ninguém vai buscar. Estamos a destruir tudo o que é português", refere César Martins, assinalando "a revolta" de muitos colegas desde que foram confrontados com o anúncio do encerramento.

Entre as cerca de 50 pessoas que assistem às intervenções encontra-se Carlos Cunha, também ele visado inicialmente no despedimento, mas que continua ainda a trabalhar ali, por fazer parte da divisão de segurança e ser necessário no processo de desmantelamento.

Entrou com apenas 20 anos para a empresa, quando corria o ano 1999. Hoje, aos 45 anos, mostra-se bem disposto, apesar dos tempos difíceis que tem vivido e de um futuro incerto. "Entrei novo, mas sou novo para a reforma e velho para arranjar trabalho", conta, por entre gargalhadas.

"Não foi fácil, não vou dizer que a nível familiar não afetou, porque afetou. Entrámos aqui jovens. Chegámos ao ponto em que pensámos 'O que é que eu vou fazer daqui para a frente? Só sei fazer isto'. Um trabalhador que entra com 20 anos e está 23 anos numa indústria só sabe fazer aquela indústria. E esta não é uma indústria que se encontre ao virar da esquina", observa.

Carlos pega num pedaço do seu casaco polar azul escuro para ilustrar como um exemplo de produto que dependia de materiais fabricados a partir da refinaria de Matosinhos, que, segundo o próprio, fazia "muito mais do que combustíveis fósseis. Agora, quase tudo vem do estrangeiro.

"O problema foi a forma como isto foi feito. A justificação para o encerramento por razões ambientais não é suficiente. Os navios estão sempre a entrar e sair. Deixámos de produzir e tivemos de mandar vir", alerta, reiterando a fragilidade dos argumentos ambientais: "O ambiente não tem fronteiras".

E foi a partir das fronteiras da refinaria que Paulo Raimundo reclamou a ligação da atividade económica às questões de soberania. Ao sublinhar que não houve mudanças nos padrões de consumo e que o fecho da refinaria só veio agravar a dependência das importações, o líder da CDU (Coligação Democrática Unitária, que junta PCP e PEV) destacou que Portugal não pode "desperdiçar nenhuma oportunidade" para o desenvolvimento económico.

Das carruagens de comboios à Efacec, passando pela TAP e a agricultura, e sem esquecer as pescas ou os medicamentos, Paulo Raimundo retomou o caminho dos 'unicórnios', ou seja, das empresas mais ligadas ao setor digital, de características inovadoras e que atingem rapidamente um grande potencial de valorização.

"Tudo aquilo que se traduza positivo para o país é para agarrar. Sejam ou não sejam unicórnios. Não estou a ridicularizar a expressão, é só para identificar essa nova linha de investimento, com os quais nós estamos de acordo", concluiu.

Leia Também: Paulo Raimundo alerta para situação dos trabalhadores por turnos

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