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Subida de Ventura representa "abalo" na direita em Portugal

As presidenciais de domingo, com a ascensão eleitoral de André Ventura, representam um "abalo", uma "reorganização" da direita iniciada em 2019 com a entrada do Chega e Iniciativa Liberal no parlamento, disse hoje o sociólogo António Costa Pinto.

Subida de Ventura representa "abalo" na direita em Portugal

Em declarações à Lusa, num comentário aos resultados de André Ventura, do Chega, e Tiago Mayan Gonçalves, da Iniciativa Liberal (IL), o politólogo e investigador do Instituto de Ciências Sociais (ICS) da Universidade de Lisboa, afirmou que os dois candidatos conseguiram "capitalizar o descontentamento à direita" com Marcelo Rebelo de Sousa, o candidato da direita moderada, que ganhou com mais de 60% dos votos.

"É um prenúncio ou consolidação de uma reorganização da representação partidária à direita", disse, referindo-se à subida de Ventura, que conseguiu 497 mil votos, ficou em terceiro lugar, atrás da socialista Ana Gomes.

Costa Pinto considerou ainda que o resultado do líder e deputado da extrema-direita representa "uma progressão sustentada das intenções de voto à direita no Chega para as eleições legislativas".

Também à direita, m sua opinião, o resultado de Tiago Mayan Gonçalves -- 3,5% -- "é capaz de se consolidar como um pequeno partido no espetro político à direita", a Iniciativa Liberal.

Algo que o investigador do ICS tem uma certeza é que Chega e IL "capitalizaram o descontentamento à direita com Marcelo Rebelo de Sousa".

Após anos e anos em que a extrema-direita teve uma penetração nula ou reduzida em Portugal, disse, estas presidenciais "foram um abalo" e abrem a porta a "consolidar a existência de um partido de direita radical populista" tal, como muitas outras democracias europeias, Espanha, França, Itália, Bélgica ou a Suécia.

A representação partidária à direita "estava congelada com dois partidos" desde a transição, dá agora um "sinal de abalo", concluiu.

Este novo mapa político é um desafio ao PSD, afirmou, e comparável ao que o PS viveu desde a transição democrática após o 25 de Abril de 1974, quando teve um adversário à esquerda, o PCP, e depois o Bloco de Esquerda, desde 1999, com a eleição de dois deputados, Francisco Louçã e Luís Fazenda.

A resposta dos partidos tradicionais à direita -- PSD e CDS -- a este desafio à direita "não é fácil" nem das várias experiências na Europa se pode concluir qual a melhor estratégia.

Houve partidos de centro-direita que, exemplificou, reagiram a "tentar ocupar o espaço político da direita radical populista", e integrando "algumas das suas bandeiras", como a imigração, e outros adotaram a estratégia do "cerco sanitário" ou "isolamento".

"Mas não há um balanço ainda de qual é a melhor estratégia", afirmou.

Se na noite eleitoral os líderes do PSD, Rui Rio, e do CDS, Francisco Rodrigues dos Santos, relativizaram a questão, foram dois antigos presidentes, o social-democrata Marques Mendes e o centrista Paulo Portas a dar voz à preocupação com o crescimento da direita radical em eleições e a apontar dificuldades para os partidos de direita.

Luís Marques Mendes, que é conselheiro de Estado, alertou para uma "alteração profunda do sistema partidário" e admitiu que a construção de uma "alternativa estável e coerente" à direita é cada vez "mais difícil".

A subida de André Ventura nas presidenciais terá um efeito secundário, que será "pressionar" Rui Rio, disse o antigo ministro de Cavaco Silva.

Outro alerta para os riscos do crescimento da direita radical foi deixado por Paulo Portas, que liderou os centristas durante 16 anos e usava a máxima "à direita do CDS, uma parede", para tentar evitar extremismos em Portugal.

Agora, com o crescimento de Ventura, líder do Chega, o ex-vice-primeiro-ministro sublinhou que, pela primeira vez em 40 anos, "há um populista, de direita extrema ou extrema-direita, consoante os dias, que tem dois dígitos" e que é "uma questão séria" para o PSD e "ainda mais" para o CDS.

Apesar desta subida numa eleição, presidencial, Portas sublinhou que a dinâmica é diferente em legislativas, "em que é preciso um partido, mas também há muito voto útil" e explicar as políticas setoriais.

Marcelo Rebelo de Sousa, com o apoio do PSD e CDS, foi reeleito Presidente da República nas eleições de domingo, com 60,70% dos votos, segundo os resultados provisórios apurados em todas as 3.092 freguesias e quando faltava apurar três consulados.

A socialista Ana Gomes foi a segunda candidata mais votada, com 12,97%, seguindo-se André Ventura, do Chega, com 11,90%, João Ferreira (PCP e Verdes) com 4,32%, Marisa Matias (Bloco de Esquerda) com 3,95%, Tiago Mayan Gonçalves (Iniciativa Liberal) com 3,22% e Vitorino Silva (Reagir, Incluir e Reciclar - RIR) com 2,94%.

A abstenção foi de 60,5%, a percentagem mais elevada de sempre em eleições para o Presidente da República.

Leia Também: PSD e CDS-PP de Mourão justificam votos de Ventura com "protesto" e Covid

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