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"Maiorias? Portugueses estão vacinados, sabem bem que significam recuos"

O líder parlamentar do PCP, João Oliveira, é o entrevistado de hoje do Vozes ao Minuto.

"Maiorias? Portugueses estão vacinados, sabem bem que significam recuos"

Se é certo que depois da Geringonça nada mais vai ser igual, a futura correlação de forças na Assembleia da República (caso o PS não chegue à desejada maioria absoluta), é a questão para os 10.811.436 eleitores chamados no dia 6 de outubro às urnas. Mas não só. 

Em entrevista ao Notícias ao Minuto, João Oliveira coloca como missão do PCP nestas eleições travar a maioria absoluta do PS - "os portugueses já estão vacinados, já sabem bem que significam recuos e retrocessos", frisa - e, ao mesmo tempo, reforçar a força da CDU no Parlamento.

E garante que se os portugueses derem força" à CDU para integrar um governo, o partido assumirá essa responsabilidade, dependendo, claro, da política a seguir.  E nunca "a troco deste ou daquele lugar".A bandeira do partido é o aumento geral dos salários (incluindo o salário mínimo para os 850 euros), uma "emergência nacional", considera. Quanto às contas certas, máxima apregoada pelo PS: "Pode-se-lhe chamar um pífaro", diz, entre risos. 

João Oliveira tece ainda duras críticas ao PAN, partido que acusa de ter , em algumas circunstâncias, um discurso "racista, xenófobo e populista". E sublinha que isso é "um elemento de preocupação", dado o crescimento do partido de André Silva. 

António Costa tem vindo a elogiar o PCP como partido e parceiro de negociação revelando “grande maturidade institucional”. São elogios genuínos ou, como disse Jerónimo de Sousa, trazem água no bico?

[Risos] Julgo que essa expressão do meu camarada Jerónimo de Sousa explica-se pelo contexto. Uma coisa é a opinião pessoal de alguém relativamente a uma circunstância, uma relação de trabalho e de interação ao longo de quatro anos, outra coisa é o contexto mais geral em que essa afirmação é feita e a apreciação que dela se pode fazer. Em relação à intenção de quem a disse, só o próprio é que pode esclarecer qual era o objetivo que queria atingir. Aquilo por que podemos falar é pela a nossa atitude e pela nossa intervenção ao longo do tempo.

O reconhecimento da seriedade, frontalidade e responsabilidade com que fomos discutindo, ao longo destes quatro anos com o Governo do PS e a forma como fomos encontrando solução nuns casos, noutros não, para alguns problemas, é o reconhecimento mais geral que é feito. Naturalmente, num quadro pré-eleitoral como este, a pouco tempo de uma disputa eleitoral como aquela que vamos ter no dia 6 de outubro, isso pode ter um efeito diverso em quem ouve essa afirmação. A verdadeira intenção só pode ser esclarecida pelo autor da frase.

As preferências do PS tem de ser o PS a dizê-las. A nossa perspetiva não é de nos posicionarmos ou de termos a atitude mais conveniente consoante a preferência deste ou daqueleMas por detrás destes elogios à última da hora não pode estar a intenção de manter por perto o partido com quem, como o próprio primeiro-ministro reconheceu, “trabalha bem”, em caso de necessidade?

Quem pode responder a isso, verdadeiramente, é o primeiro-ministro. A forma como fomos trabalhando com o Governo do PS – nuns casos concordando, noutros discordando -, com a oposição crítica e aberta quando foi caso para isso, e ao mesmo tempo, com o reconhecimento dos avanços que foram alcançados, torna a nossa relação com o PS muito aberta e muito franca, correspondendo a essa caracterização que é feita. Naturalmente, a postura do PCP e a atitude do PCP não se altera em função da apreciação de quem quer que seja. Manteremos a nossa perspetiva, a nossa postura crítica, prepositiva, construtiva, não abdicamos dos nossos compromissos, compromissos que temos com os trabalhadores e com o povo.

Há quem veja nos elogios de Costa ao PCP uma forma de dizer que preferem uma solução de governo com o PCP do que com o Bloco de Esquerda. Sentem-se preferidos?

As preferências do PS tem de ser o PS a dizê-las. A nossa perspetiva não é de nos posicionarmos ou de termos a atitude mais conveniente consoante a preferência deste ou daquele. A nossa atitude é a atitude de defendermos as nossas posições, de mantermos a nossa coerência, de tentar encontrar solução para os trabalhadores, para os serviços públicos das mais variadas áreas, etc. Não, em circunstância alguma, temos uma atitude ou um posicionamento que visem outros objetivos, nomeadamente esse de escolher preferências de quem quer que seja. Não me parece que seja difícil perceber a forma como o PCP trabalha e intervém, nem me parece que seja difícil de perceber, nesse quadro, como se conseguem alcançar os objetivos que colocamos. Desse ponto de vista, a preferência do PS é uma questão que para nós é secundária.

Na relação PS-PCP, é preferível esse clima de elogios e de paz – de clube de cavalheiros como alguém lhe chamou – ou um clima mais crispado como antigamente?

Os nossos verdadeiros objetivos alcançam-se com circunstâncias que permitam a adoção de medidas e a concretização de políticas que resolvam os problemas laborais, sociais e económicos do país. Uma coisa são as relações pessoais que se estabelecem nesse quadro, outra coisa é a discussão das questões políticas. E aquilo que para nós é fundamental é esta segunda dimensão. Naturalmente que o quadro em que essas medidas podem ser alcançadas resulta e depende sempre da correlação de forças que exista, sobretudo na Assembleia da República, entre nós e o PS. Mais do que os elogios ou a apreciação pessoal, são verdadeiramente estas as circunstâncias que condicionam a possibilidade de avanços.

Num eventual novo acordo com o PS, quais são as linhas vermelhas do PCP?

Nunca fizemos nenhuma discussão com base em linhas vermelhas. Diria que nunca fizemos até aqui e não faremos para a frente. A ideia de alguém que aceita alguma coisa a contra-gosto em troca de outra coisa qualquer é uma ideia que connosco não funciona. Lembramo-nos de outros que fizeram isso, outros que aceitaram tudo e mais alguma coisa em troca de lugares no governo e algum protagonismo mediático a partir do governo. Connosco isso não funciona assim. Aquilo com que não estamos de acordo, não aceitamos seja a troco do que for. Aquilo em que estamos de acordo, procuramos que seja conseguido. Nunca na base na discussão das linhas vermelhas que transformam sempre em aceitável o que seria inaceitável noutras circunstâncias. Isso connosco não acontece.

Fazendo um balanço destes últimos quatro anos, o PCP saiu a ganhar? Ou seja, os ganhos compensaram as perdas? Quando digo perdas falo das perdas eleitorais nas últimas eleições autárquicas e europeias.

Julgo que está a fazer uma relação entre coisas onde não há propriamente uma relação direta. Ao longo destes quatro anos conseguiram-se coisas muito importantes que corresponderam a aspirações e anseios que as pessoas tinham – a reposição de direitos que tinham sido retirados, e isso tem uma valia enorme. Não diminuímos em nada as conquistas que foram alcançadas, ainda que em alguns casos tenham ficado aquém daquilo que seria necessário e até possível no quadro em que o país se encontra. Esta é uma parte da perspctiva e tem que ver objetivamente com aquilo para o qual trabalhamos.

Diria que não há português que recuse que o aumento das pensões valeu a pena, a redução das taxas moderadoras, o aumento dos abonos de família, a reposição dos salários, o passe dos transportes mais baratos. Tudo isso valeu a pena porque melhorou as condições de vida e de trabalho dos portugueses. E mesmo nas circunstâncias em que isso ficou aquém dos nossos objetivos, valeu a pena ter-se dado esses passos que se deram e ter-se alcançado aquilo que se alcançou. As perdas que há a registar são aqueles aspetos em que se podia ter avançado e não se avançou ou, em algumas circunstâncias, até se andou para trás.

Como é o caso da legislação laboral?

Estas alterações à legislação laboral são manifestamente uma circunstância em que se andou para trás, em que se devia ter avançado no sentido do combate à precariedade e aquilo que se arranjou foi uma porta por onde a precariedade se vai escancarar. Devia ter-se avançado em relação à regulação dos horários de trabalho; devia ter-se avançado em relação à proteção e compensação de quem trabalha por turnos ou em trabalho noturno.

Os portugueses já estão vacinados com maiorias absolutas, já sabem bem que significam retrocessos, recuos, degradação das condições de trabalho, ataques aos seus direitos e condições de vida Mas relativamente às perdas eleitorais, não há aqui nenhuma ligação que se possa fazer ao facto de o PCP apoiar um governo do PS?

As últimas eleições têm um quadro muito específico, muito distinto destas legislativas e das que vamos ter para a frente. Eleger autarcas e eleger deputados para o Parlamento Europeu são circunstâncias muito diferentes do que eleger deputados para a Assembleia da República.

E, aliás, aquilo que vamos verificando é de facto um reconhecimento das pessoas do papel e da influência que a CDU tiveram nestes quatro anos e do seu caráter decisivo nos avanços alcançados. Esse reconhecimento, no quadro das eleições legislativas, está presente, como noutros quadros não poderia estar porque não era disso que se tratava. Esse reconhecimento do papel da CDU, do papel do PCP, nestes avanços que foram alcançados têm reflexo nas opções que as pessoas farão e sobretudo na resposta a uma das principais questões que está colocada nestas eleições.

Que é travar a maioria absoluta do PS?

Evitar que se ande para trás e garantir condições para que se ande para a frente. Os portugueses já estão vacinados com maiorias absolutas, já sabem bem que significam retrocessos, recuos, degradação das condições de trabalho, ataques aos seus direitos e condições de vida.

É o grande objetivo da CDU nestas eleições?

Não. Não é. O grande objetivo é procurar o reforço da CDU, porque essa é a melhor garantia de que não se anda para trás e o caminho é de avanços.

Mas uma coisa está associada à outra …

Têm de ser as duas associadas, é exatamente isso. Tem de se reforçar a CDU, não apenas para se impedir que ande para trás com uma maioria absoluta, mas também para garantir, com mais influência da CDU, haja condições para avançar. Os dois elementos têm de estar associados.

Repare, nós não vivemos muito com irritações porquê? Porque também não alimentamos expectativas infundadas, exageradas ou ilusórias relativamente às coisasE qual é a estratégia do PCP para passar essa dupla mensagem, que é preciso impedir a maioria absoluta do PS e, paralelamente, um reforço na CDU?

Há hoje uma circunstância que, de alguma forma, torna mais clara a mensagem que temos a passar: o facto de as pessoas perceberem que aquilo que nós propomos é possível concretizar. Por exemplo, se há quatro anos nós falávamos em aumentos das pensões e as pessoas não acreditavam nisso – estavam martirizadas por um governo que lhe estava a cortar as pensões -, hoje percebem que é possível. Que é possível aumentar pensões, que é possível aumentar o salário mínimo para os 850 euros, que é possível progredir em relação às questões do passe social, em relação aos abonos de família, às creches gratuitas. Ou seja, a possibilidade das propostas que apresentamos é hoje um elemento de avanço em relação à discussão que era feita há quatro anos.

Ainda sobre balanços, qual foi o momento que nestes quatro anos mais irritou o PCP?

Nós não vivemos muito de irritações.

Estava a pensar por exemplo na crise causada pela questão do tempo de serviço dos professores …

Repare, nós não vivemos muito com irritações porquê? Porque também não alimentamos expectativas infundadas, exageradas ou ilusórias relativamente às coisas. Quando há quatro anos dissemos que não estavam criadas condições para haver uma política alternativa com esta correlação de forças na Assembleia da República nós estávamos a identificar o quadro exato em que viemos a estar ao longo de quatro anos. Nós tínhamos a noção clara que esta correlação de forças, permitindo algumas coisas, não permitia outras coisas muito mais avançadas e desenvolvidas.

Não tínhamos a ilusão de que o PS tinha abandonado todos os seus compromissos com os grupos económicos, que tinha abandonado as suas opções em matérias centrais, opções da política da Direita. Verificamos agora, a propósito da legislação laboral, precisamente essa circunstância. Ou a propósito das carreiras especiais, não são só os professores: enfermeiros, médicos, forças de segurança, militares.

As carreiras especiais da Função pública acabaram por ser prejudicadas por aquela opção que o Governo fez de colocar as imposições do défice, feitas pela UE, à frente dos direitos dos trabalhadores que durante 9 anos deram o melhor das suas vidas, o melhor que sabiam em prol do serviço público e o Governo apagou esse tempo de serviço. Esse é um elemento que revela essas opções que o PS faz, opções da política da Direita.

Contas certas do PS? Pode-se-lhe chamar um pífaro. Contas certas ou um pífaro

A opção pelas contas certas.

Pode-se-lhe chamar um pífaro. Contas certas ou um pífaro. A verdade é que a opção de colocar como prioridade a resposta a uma imposição da União Europeia, em vez de colocar como prioridade a justiça àqueles trabalhadores e aos seus direitos. E uma política de Esquerda não pode fazer isso, uma política de Esquerda tem que colocar os direitos dos trabalhadores e o respeito por esses trabalhadores à frente, sobretudo de imposições que nos são feitas contra os interesses do nosso país.

Este é um exemplo claro, como também a legislação laboral é, das opções que o Governo faz de uma política de Direita. Seria estranho que a legislação laboral fosse verdadeiramente uma opção de Esquerda. A verdade é que as confederações patronais, apoiaram aquelas propostas precisamente porque elas servem os interesses da precarização dos direitos dos trabalhadores.

Diria que, ao longo destes quatro anos, não tivemos momentos de irritação. Tivemos alguns momentos significativos em que se verificou precisamente aquilo que dizíamos das opções do PS.

É desejo do PCP vir a integrar um Governo? E em que condições?

Sempre temos sido claros em relação a isso. Assumiremos as responsabilidades que os os portugueses nos quiserem atribuir. Se os portugueses nos derem força para integrar um Governo, se nos derem força para participar num Governo, cá estaremos para assumir essa responsabilidade. Agora, não fazemos é da nossa integração num Governo a questão chave. Muito menos fazemos dela um objetivo a atingir a qualquer custo. O PCP estará disponível para integrar um Governo em função de uma política que sirva os interesses dos trabalhadores, do povo e do país. Não estaremos nunca em condições de integrar um Governo face a uma política contrária a isso.

Portanto, a discussão da possível participação do PCP num Governo não se faz em função o número de ministros e secretários de estado que nos possa ser atribuído, independentemente da política que esse Governo faça. A primeira e principal questão – e decisiva – que se coloca em relação a isso é: um Governo para fazer que política? Se for para fazer uma política que corresponda aos objetivos do povo, muito bem, cá estaremos para assumir essa responsabilidade. Não sendo para isso, não integraremos nenhum Governo a troco deste ou daquele lugar.

E já agora, via-se como ministro e de que pasta?

Não. Nunca foi questão sobre a qual tivesse refletido nem julgo que possa ser feito dessa forma.

Se na projeção mediática não são dadas as mesmas condições a todos os partidos, há naturalmente escolhas eleitorais que não podem corresponder exatamente da mesma forma, em função desse condicionamentoNuma entrevista ao Notícias ao Minuto, há cerca de dois anos, disse que era evidente a promoção do Bloco de Esquerda e que a verdadeira discussão não se faz da espuma dos dias. Essa promoção manteve-se? Tem prejudicado o PCP?

Em relação ao PCP, e à CDU, julgo que isso é notório em relação a várias outras forças políticas. Este exemplo mais recente dos debates televisivos deixa isso completamente a nu. Por proposta do BE, chega-se a uma situação em que o PS e o PSD debatem com toda a gente em canal aberto, acessível a todos os portugueses. Os outros partidos são relegados para um plano secundário, em que só quem tem acesso quem tenha subscrição por cabo. É um exemplo de uma diferença de tratamento que é absolutamente discriminatório e inaceitável. Pelo menos para o PCP é inaceitável. Por isso nos recusámos a participar em debates em condições de menorização em relação ao PS e ao PSD.

Se na projeção mediática não são dadas as mesmas condições a todos os partidos, há naturalmente escolhas eleitorais que não podem corresponder exatamente da mesma forma, em função desse condicionamento. Temos a noção das dificuldades que isso significa para o PCP e para a CDU e damos a resposta que podemos dar: uma grande campanha de esclarecimento, informação e mobilização das pessoas para o voto na CDU, tendo que enfrentar esses obstáculos da discriminação e da desvantagem com que partimos do ponto de vista mediático. Mas não isolo isso em relação ao Bloco de Esquerda. Coloco isso de uma forma mais geral.

Relaciona essa discriminação mediática que é feita ao PCP com o crescimento do BE?

Não quero isolar o BE em relação a isso. A questão que há a colocar é efetivamente da discriminação como na forma como mediaticamente somos tratados. Naturalmente, isso tem objetivos muito visíveis, não nos iludimos em relação a isso.

Há quem não nos perdoe o facto de nós, a 4 de outubro de 2015, termos interrompido os planos e os projetos que estavam aí a andar para levar o país para um caminho muito pior. E há quem mobilize todos os seus instrumentos para se vingar do PCPQue objetivos?

Há quem não nos perdoe o facto de nós, a 4 de outubro de 2015, termos interrompido os planos e os projetos que estavam aí a andar para levar o país para um caminho muito pior do que aquele em que estávamos. Há quem não nos perdoe isso e há quem mobilize todos os seus instrumentos para se vingar do PCP, porque o PCP abriu esta janela de esperança aos portugueses. E o alvo principal a a abater é o PCP e a CDU. Temos noção exata de onde é que isso vem. Não nos deixamos amedrontar por isso nem retrair por isso.

Falando de propostas, se tivesse de escolher a prioridade das prioridades da CDU para estas legislativas, qual seria?

Há uma questão à cabeça que colocamos como emergência nacional: o aumento geral dos salários, incluindo o aumento do salário mínimo com o objetivo dos 850 euros. A emergência nacional do aumento geral dos salários é de facto de uma questão decisiva. E esse é um objetivo para o qual teremos de trabalhar com todas as nossas forças. Há matérias que dependem diretamente da decisão da AR e do Governo, nomeadamente a fixação do salário mínimo nacional. Em relação ao aumento geral dos salários, há um conjunto de medidas que podem ser tomadas com vista a alcançar esse objetivo.

Naturalmente, há outras questões que são muito relevantes e que não deixamos de considerar nas nossas prioridades, nomeadamente a questão do investimento nos serviços públicos (a começar pela saúde e pela educação), a questão do apoio às famílias e aos jovens, sobretudo com as perspetivas de vencermos o défice demográfico que temos (por exemplo, com medidas como a gratuitidade das creches para crianças até aos três anos), a questão do aumento das reformas e das pensões e das melhorias das condições de vida dos reformados , o objetivo da gratuitidade dos transportes públicos (um objetivo que fixámos não apenas pela importância que tem do ponto de vista social e económico para as famílias, mas também do ponto de vista ambiental, organização das cidades, do trânsito e dos problemas de estacionamento.

A emergência nacional do aumento geral dos salários é de facto de uma questão decisiva. E esse é um objetivo para o qual teremos de trabalhar com todas as nossas forçasComo é que o PCP olha para a queda a pique dos partidos da Direita nas sondagens?

Há um elemento que é válido em todas as circunstâncias e não devemos desligar-nos dele. As sondagens são o que são e às vezes procuram induzir comportamentos e opções eleitorais do que propriamente refletir aquilo que vai na cabeça das pessoas. Naturalmente, a situação em que o CDS e o PSD têm sido colocados resulta muito das ações que fizera e das políticas que praticaram ao longo dos anos, sobretudo no último governo em que infernizaram verdadeiramente a vida dos portugueses com aumentos de impostos, cortes de salários e de pensões, degradação das condições de vida, com o desemprego e a emigração que provocaram.

A apreciação crítica que os portugueses fazem da política desse governo e da posição que assumiram e crítica à reposição daquilo à reposição daquilo que tinha cortado. Não há uma proposta de reposição de direitos recuperados que tenha contado com o voto favorável do PSD e do CDS. Estavam convictamente empenhados naquela política de empobrecimento dos portugueses e continuaram convictamente desse lado.

PSD e CDS acusam o Governo, com o apoio dos partidos à esquerda do PS, de ter mantido uma austeridade encapotada?

Esse conceito foi uma manipulação muito ardilosa do termo. Se PSD e CDS conseguirem demonstrar como é que aumentar salários, aumentar abonos de família, aumentar pensões, reduzir custos dos passes das famílias nos transportes, aumentar a resposta no ensino pré-escolar, é austeridade… Quando fazem isso, PSD e CDS procuram dizer que às pessoas que está-se agora a fazer o mesmo que se fez quando estavam no governo. O aumento do IRS que impuseram aos portugueses foi a sua grande parte reposto. O assalto que fizeram às pensões e aos salários foi devolvido. O IVA da restauração, com que o PSD e o CDS iam dizimando as pequenas e médias empresas do setor, foi reposto os 13% para alívio das empresas que estavam com a corda na garganta. É fácil perceber que esse discurso do PSD e CDS é pura chicana política.

O PAN é um partido com um discurso próprio que, em algumas circunstâncias, é um discurso perigoso, de uma cultura de ódio à diferença. Julgo que as posições xenófobas e racistas que o PAN tem assumido à boleia de questões ambientais ou animalistas revela muito issoAssunção Cristas tem insistido na ideia de que houve nesta legislatura o maior aumento de impostos de sempre. Tem razão?

Mais uma falsidade. PSD e CDS quando falam na carga fiscal procuram duas coisas. Primeiro, iludir que o problema não é o volume de impostos que são pagos, é quem é que paga esses impostos. E aí há medidas de justiça fiscal que têm de ser tomadas, para lá daquelas que já foram tomadas nos últimos quatro anos. Mas iludem sobretudo uma outra coisa: para a a carga fiscal contribuem os impostos e as contribuições para a Segurança Social. Se separarmos as duas coisas, vemos que há hoje muito mais contribuições para a segurança social. Porquê? Porque há mais empregados e porque os salários aumentaram.

Quando comparamos os impostos, vemos que: o IRS foi reduzido, o IVA registou a maior cobrança na receita, porque a atividade económica se desenvolveu. Cresceu a atividade económica, naturalmente cresceu a receita fiscal. No IRC cresceram receitas porque o PCP conseguiu fazer aprovar a sua proposta de aumento do IRC sobre empresas que têm lucros acima dos 35 milhões. É preciso saber exatamente do que é que estamos a falar.

O CDS e o PSD não queriam que fosse criado emprego? Para não aumentar as contribuições para a Segurança Social? Não queriam que fossem aumentados os salários? Não queriam que a receita do IVA tivesse aumentado pela via do aumento da atividade económica? Ou não queriam que o IRC fosse aumentado para que as grandes empresas pagassem mais impostos? Essas perguntas têm de se fazer ao PSD e ao CDS. Mais importante do que a carga fiscal é percebermos se temos justiça fiscal ou não. E a justiça fiscal trata de quem tem mais, pagar mais, e quem tem menos, pagar menos.

Vê no PAN uma ameaça?

O PAN é um partido com um discurso próprio que, em algumas circunstâncias, é um discurso perigoso, de uma cultura de ódio à diferença. Julgo que as posições xenófobas e racistas que o PAN tem assumido à boleia de questões ambientais ou animalistas revela muito isso. Em algumas circunstâncias com um discurso populista. Este exemplo mais recente, a propósito das questões da alimentação dos animais errantes, em que o PAN procurou criar uma ideia de que era proibido em Portugal alimentar animais de rua, e que se tinha de aprovar uma lei que dizia que era sempre permitido, quando isso está regulamentado na lei e é responsabilidade das autarquias regulamentar.

Há autarquias que têm essas questões regulamentadas de uma forma muito simples. Isto é um traço de populismo. Cria-se na cabeça das pessoas uma ideia de que há uma barbaridade que é cometida e que tem de se fazer diametralmente o oposto. As pessoas são levadas ao engano. A partir dessa ideia falsa, mobiliza-se as pessoas a partir de um sentimento de ódio em relação aos outros. Em algumas circunstâncias, o discurso do PAN é verdadeiramente populista e como todos os discursos populistas, tem o espaço de crescimento que é dado ao populismo. E, naturalmente, esse é um elemento de preocupação.

Quando diz que o PAN tem um discurso racista e xenófobo, está-se a referir ao caso da deputada municipal da Moita?

Esse caso da Moita talvez seja o mais evidente, mas já tinha havido um antecedente.

Qual?

Na AR, o PAN chegou a apresentar um projeto de resolução sobre a circulação na via pública de veículos de tração animal que assentava exatamente na mesma lógica racista e xenófoba e até de desconsideração completa pela circunstância em que vivem ainda muitos milhares de portugueses. Por exemplo, no Algarve, pessoas que vivem na serra e vêm uma vez por mês à cidade ao supermercado e à farmácia. E deslocam-se daquela maneira porque não têm outra. O PAN queria proibir isto, uma situação de completa desconsideração por estas pessoas e uma atitude de segregação social em relação àquelas comunidades. É uma coisa completamente inaceitável e julgo que é um elemento de preocupação.

Que opinião tem da tauromaquia?

Nunca foi coisa que me entusiasmasse, nunca fui a uma tourada. A minha opinião pessoal é essa.

O caminho parece ser o da abolição, no futuro.

Não me parece que seja solução mandar a polícia ou a GNR dar paulada às pessoas porque gostam de ver touradas ou qualquer outro espetáculo dessa área. Ou seja, se alguém entende que isso faz parte da sua identidade e cultura, não me parece que se retire isso das pessoas à força do cassetete ou pela ameaça de prisão.

Como assim?

A nossa história prova isso. As várias tentativas que houve de proibir pela força e pela repressão esse tipo de manifestações, redundaram precisamente no contrário. Temos exemplos disso desde o final do século XIX em Portugal. A última vez que foi discutida a abolição das touradas, por proposta do PAN, ficou por responder uma pergunta que fizemos: aprovada aquela lei, a pespetiva era mandar a PSP e a GNR reprimir as populações e as pessoas que pensam o contrário do que pensa o PAN? A nós não nos parece que isso seja correto.

Sucessor de Jerónimo de Sousa? Longe disso. Acho que o meu partido nunca me vai colocar um desafio desses

Jerónimo de Sousa voltou a dizer que a questão da liderança não se coloca, mas quando for colocada, mais cedo ou mais tarde, o João Oliveira é o natural sucessor, certo?

Longe disso. Acho que o meu partido nunca me vai colocar um desafio desses.

Mas porquê?

Porque acho que não, tenho essa opinião.

É porque não quer?

Não, não. Porque há circunstâncias, há critérios, condições que precisam de ser consideradas nessa reflexão. Para além de a questão não estar colocada, que não está, essa questão a mim nunca me vai ser colocada. 

Esta é uma questão em que os jornalistas insistem muito...

Admito que procurando aplicar ao PCP, critérios que se aplicam a outros partidos, isso possa ser eventualmente uma ideia que vem à mente. Parece-me que alguém que conheça o PCP, a forma como o PCP funciona, decide e trata questões dessas, é fácil compreender que é muito difícil que isso assim seja. Os critérios dos outros não nos são de todo aplicáveis.

Mas quais são os critérios do PCP para ser secretário-geral?

circunstâncias que no momento próprio são consideradas e discutidas. Não é este um dos momentos próprios. Quando o meu camarada Jerónimo de Sousa diz que essa questão não é uma questão que esteja colocada é porque não está mesmo colocada. Não andamos a discutir isso nem nunca discutiremos isso num quadro como este. Estamos concentrados na nossa intervenção, nas batalhas que temos pela frente, não apenas na batalha eleitoral, mas todas as outras batalhas das várias dimensões da vida social em que intervimos, que não se esgota nas eleições. Cada coisa é discutida no seu quadro e tempo próprios. E essa, verdadeiramente, não é uma questão que esteja colocada.

Mas a breve trecho a questão será colocada?

Essas questões são tratadas normalmente nos congressos do PCP. Faremos o nosso congresso no final do próximo ano. Nessa altura, a questão do secretário-geral será discutida, como em qualquer outro congresso, com toda a naturalidade e com a apreciação das decisões que há a tomar. Parece-me que será esse o quadro em que isso será discutido, sem nenhuma resposta pré-determinada.

Qual é o objetivo mínimo da CDU para estas eleições?

Os objetivos com que nós enfrentamos esta batalha eleitoral não são propriamente objetivos quantitativos. Continuaremos a travar a luta que temos travado na construção de uma política de rutura com as políticas de Direita, uma política que sirva verdadeiramente os interesses dos portugueses, uma alternativa patriótica e de esquerda. Se travarmos essa luta com mais força e influência que tiver a CDU, mais capacidade temos de evitar retrocessos e garantir avanços.

É verdade que a resposta a essa pergunta só pode ser dada pelos portugueses no dia 6 de outubro e a partir desse dia com a luta que quiserem fazer em torno desses objetivos. Tal como estes quatro anos demonstraram, quanto mais força tiver a CDU, quanto mais influência tiver nas decisões nacionais, mais o país pode progredir.

Que resposta dá àqueles que antecipam a morte do PCP?

Há 98 anos que ouvimos isso. Até já tivemos períodos da história do nosso partido em que não podíamos fazer isto que estamos aqui a fazer hoje, em que os comunistas viviam escondidos, na clandestinidade, e em que a prisão de dirigentes comunistas era apresentada pelo regime fascista como a morte definitiva do PCP. Há 98 anos que cá andamos. A ideia de que alguém pudesse ter que o PCP, com as raízes que tem no povo e nos trabalhadores portugueses, de hoje para amanhã desaparecia só porque sim é uma ideia completamente errada. Durámos 98 anos e temos muito mais pela frente, porque temos as nossas raízes perfeitamente colocadas no povo português. Enquanto as necessidades dos trabalhadores estiverem por satisfazer, o PCP vai continuar a existir.

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