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"Pedro Marques deve achar que as pessoas andam com relatórios na testa"

O cabeça de lista do PSD às Europeias é o entrevistado de hoje do Vozes ao Minuto.

"Pedro Marques deve achar que as pessoas andam com relatórios na testa"

Ainda antes de a campanha do PSD ter sido suspensa - começa a ser retomada esta quarta-feira -, na sequência do falecimento da mãe de Paulo Rangel, o cabeça de lista dos sociais-democratas esteve à conversa com o Notícias ao Minuto, na sede do partido, em Lisboa. 

Em 2014, com a troika a fazer as malas, Rangel liderava uma lista que incluía ainda o CDS. O PS saiu vencedor das eleições europeias mas a escassa margem abriu brechas nos socialistas. António José Seguro acabaria por perder a liderança para António Costa, que chegaria ao poder com o apoio da solução parlamentar que acabou por ganhar o nome de 'Geringonça'.

Estamos em 2019 e muito mudou desde então. Paulo Rangel lidera a lista do PSD naquele que será o primeiro grande teste ao partido agora encabeçado por Rui Rio.

Mas estas eleições, embora possam ter alguma leitura nacional, são sobre a Europa, lembra Paulo Rangel. A mesma Europa que viu uma crise financeira dar lugar a uma crise migratória e que encontra no Brexit um curioso paradoxo, que ainda assim não compensa a perda que se avizinha.

O Governo de António Costa não é poupado a críticas. Mas é sobre Pedro Marques, o cabeça de lista do PS, que recaem as principais críticas, com o social-democrata a acusar o rival socialista de se "queixar de ataques pessoais" e agora "andar ele a fazê-los", e de não compreender como funciona o trabalho de um eurodeputado. “Pedro Marques deve achar que as pessoas andam com relatórios escritos na testa”.

Costuma dizer-se que nas Europeias há uma certa tendência para mostrar um 'cartão amarelo' ao partido no poder. Em 2009 o PS perdeu. O mesmo sucedeu com PSD/CDS em 2014. Este ano será assim?

Em primeiro lugar, tenho dúvidas dessa interpretação em 2014. Quem foi substituído na altura foi o líder do PS. A vitória foi de Pirro.

A tal vitória do “poucochinho”.

A célebre vitória do “poucochinho”, claro. É preciso ter isso em atenção. As coisas não são assim tão lineares. O que está em causa nas Europeias é um juízo misto: é a escolha do melhor projeto – e da melhor equipa, que é uma coisa muito importante – para representar Portugal na Europa, e nós não devemos fazer o que está a fazer o primeiro-ministro, que é nacionalizar por completo, quase que a personalizar nele as eleições Europeias. Isto não é um referendo para saber se queremos Costa ou não. As Europeias não são moções de confiança ao Governo. Agora, estou de acordo que também há uma dimensão nacional, mas não é a única. E, na minha experiência, que é alguma, o que mais se discute nas Europeias não são assuntos estritamente europeus ou nacionais, são aqueles em que há normalmente uma ponte. Na atual campanha, um exemplo evidente são os fundos europeus.

Tem criticado o Governo pelos fundos atribuídos a Portugal.

O Governo nisto falhou clamorosamente. Diz o Banco de Portugal, no relatório de 28 de março, que este é o Governo que teve o pior desempenho nos quadros comunitários.

O PSD, como um partido com vocação maioritária, concorre a todas as eleições para ganhar. Esse é o nosso objetivo: ter o melhor resultado possível, sendo que só consideramos como muito bom um resultado que seja vencerHavia margem para uma negociação melhor?

Claro que havia. Portugal perdeu 7% dos fundos, Isto está atestado pelo Tribunal de Contas europeu. São 1.600 milhões de euros. Ora a Itália, por exemplo, cresceu 6% na proposta da Comissão. A Espanha cresceu 5%, a Finlândia também. Se há países bem mais ricos do que Portugal, que nos fundos de coesão – que não são os de investigação, são os que são para a convergência – conseguem subir o que vão receber relativamente ao quadro anterior, como é que um país que está abaixo destes não consegue? É porque há uma má negociação do Governo, em particular do ministro responsável, que por acaso até é cabeça de lista.

O PSD entrou em 2019 com projeções um pouco modestas em ano de eleições. Este é um ciclo que se pode inverter já nas Europeias, e com fôlego para chegar às legislativas?

Há uma coisa que sempre digo: o PSD, como um partido com vocação maioritária, concorre a todas as eleições para ganhar. Esse é o nosso objetivo: ter o melhor resultado possível, sendo que só consideramos como muito bom um resultado que seja vencer, em número de votos e mandatos. Depois, em função das conjunturas, pode conseguir-se melhor ou pior. Em 2009, ganhámos contra todas as sondagens. Em 2014, foi mais modesto mas originou uma crise não no PSD ou no CDS, com quem estávamos coligados, mas no PS. Isso atendendo a que estávamos ainda dentro do programa de assistência da troika – foi nesse ano que se deu a saída, estávamos numa posição muito complexa e, apesar de tudo, conseguimos um resultado que outros asseguraram que iam conseguir e não conseguiram.

Pedro Marques queixa-se de calúnias e ataques pessoais que nunca foram feitos. O que foi criticado foi a sua política enquanto ministro e não a sua pessoa. Nunca se lhe fizeram ataques pessoais e agora ele está a fazê-los

Em 2014 contou com Nuno Melo na lista. Este ano não só o CDS concorre sozinho como há ainda o Aliança, de Santana Lopes, e o projeto de um outro ex-PSD, André Ventura. Enquanto o PSD aponta a 'mira' ao PS não há o risco de um certo 'sobrepovoamento' à Direita?

Nós esquecemos as coisas muito rapidamente. O CDS foi sempre um concorrente nosso. Não foi nas últimas eleições em que concorremos em coligação, como já tinha acontecido no passado com a Aliança Democrática, ou nas Europeias de 2009. Mas, para nós, é uma coisa salutar e normal. O PSD e o CDS têm o seu espaço e o positivo é que ambos cresçam porque têm capacidade para isso. Quanto ao surgimento de novos movimentos, também não tem nada de novo. Em 2009 também houve um movimento importante, com votos relevantes, o do Movimento Esperança Portugal (MEP), em que era candidata Laurinda Alves.

Houve ainda Marinho e Pinto em 2014.

Sim, mas talvez com um eleitorado mais entre o PS e o PSD, quando o MEP estaria mais na orla entre CDS e PSD. E no caso de Marinho e Pinto até elegeram dois deputados [pelo MPT], que provavelmente afetaram PSD e PS. Sinceramente, às vezes acho que se exagera quando se pensa que há aqui grande novidade. É normal aparecerem movimentos espontâneos. O estranho seria é que não houvesse movimentos a pulular.

Manipular números já sabemos que é a especialidade de Pedro Marques. Um homem que diz que estamos em primeiro quando estamos em sétimo na execução de fundos europeus e que depois explica às pessoas que estamos em primeiro, tirando seis... Em entrevista ao Notícias ao Minuto, Pedro Marques descreveu Paulo Rangel como "um residente habitual, a quem não se conhece trabalho significativo na Europa". Como é que vê esta caracterização?

Sinceramente nem gosto de estar a responder a esse tipo de referências. Pedro Marques queixa-se de calúnias e ataques pessoais que nunca foram feitos. O que foi criticado foi a sua política enquanto ministro e não a sua pessoa. Nunca se lhe fizeram ataques pessoais e agora ele está a fazê-los. Está no seu direito. O que lhe digo é o seguinte: mais uma vez, como faz com os fundos europeus, manipula os números.

Como assim?

No ranking da União Europeia (UE) que Pedro Marques referiu surjo à frente de todos os candidatos socialistas – e estou em sexto entre os deputados portugueses. Mais, sou vice-presidente do grupo parlamentar do Partido Popular Europeu (PPE) e vice-presidente do PPE [a 'família' partidária europeia do PSD]. Tenho de coordenar 216 deputados, são quase tantos como na nossa Assembleia. Sou responsável pelo ‘think tank’ do PPE, que só isso significou a organização de 68 seminários ao longo destes cinco anos. Organizei-os a todos e participei como orador e relator em 46 deles. Como vice-presidente do grupo também tive de fazer todo o documento do PPE sobre o futuro da Europa, o que levou a dezenas de reuniões – todas com atas, não está lá no ranking mas é consultável. Fui ainda a pessoa responsável por fazer o documento da visão estratégica para a Europa para os próximos dez a 15 anos. Fui eu, Paulo Rangel.

Olhe as listas transnacionais, em que o PS e Pedro Silva Pereira foram profundamente derrotados. Toda a gente sabe que fui eu que mudei o voto do Parlamento Europeu em mais de 150 votos quando toda a gente julgava que iamos perder. Só que isto implicou dezenas de reuniões e criar um grupo dos países médios. Ou seja, a dinâmica política num parlamento não se traduz em relatórios e relatoriozinhos. Percebo que um tecnocrata fechado no seu ministério, que não faz outra coisa senão planos que não têm tradução na realidade, não compreenda o que é o trabalho de um deputado. Mas se eu fosse assim uma pessoa tão incompetente e negligenciável, como é que tinha sido eleito vice-presidente do grupo parlamentar do PPE e do PPE?

Isto tudo para explicar que o trabalho de um eurodeputado não é só formal. Nem sou pessoa que ligue muito a isso, se quer que lhe diga. Devemos relativizar. Conheço bons deputados com maus rankings e deputados que não considero tanto mas que até têm bons rankings. Mas no meu caso estou muito confortável: acho que sou um deputado competente, bom, que serve os interesses de Portugal.

Manipular números já sabemos que é a especialidade dele [Pedro Marques]. Um homem que diz que estamos em primeiro quando estamos em sétimo na execução de fundos europeus e que depois explica às pessoas que estamos em primeiro, tirando seis... Claro! [tom irónico] Está toda a gente de acordo: estando em sétimo, tirando seis, ficamos em primeiro.

Até me custa responder a estas questões. Porque isto mostra que quando não há argumentos as pessoas procuram explorar questiúnculas. Sobre a atividade de Pedro Marques nunca me refiro ao aspeto pessoal. Refiro-me ao que fez ou não nos fundos, na ferrovia, no aeroporto... Não digo se é bom ou mau, se trabalha mais ou não. Olho para os resultados e para a avaliação que é feita. Para quem se queixava de calúnias e ataques pessoais, está à vista quem os faz. Mas há uma coisa que é certa: em vez de estarem preocupados com o que deviam, parecem muito preocupados com o Paulo Rangel.

O Governo quer cumprir o défice, e muito bem, mas optou por uma política de esconder os cortes por baixo do tapete e fazê-los em serviços públicos essenciais

Nas Europeias, e não apenas cá, ainda se verificam níveis altos de abstenção. A Europa conta cada vez mais mas como é que se corrige esta ideia de alguns eleitores de que Bruxelas e Estrasburgo estão ‘lá longe’?

Acho que as Europeias têm sido de ciclo para ciclo mais importantes, porque as pessoas se apercebem mais de que a Europa conta. Mas como muitas vezes os resultados não são os melhores as pessoas desiludem-se. Em 2014, tendo em conta a crise financeira, a Europa estava muito mais presente do que em 2009. Hoje em dia, com o Brexit, com a questão das migrações, com ainda algum impasse económico…

A situação económica tem marcado o debate por cá, com o PS a realçar os números positivos e o fim da austeridade.

Em Portugal temos uma austeridade encapotada mas ela continuou. As cativações na saúde devem-se à Europa, na Proteção Civil idem. Porque o Governo quer cumprir o défice, e muito bem, mas optou por uma política de esconder os cortes por baixo do tapete e fazê-los em serviços públicos essenciais. A Europa está presente na vida das pessoas.

Acho que o que temos de fazer como pedagogia é mostrar que a Europa realmente conta. As pessoas hoje têm a noção de que a Europa é mais importante do que era

O que falta fazer?

Acho que o que temos de fazer como pedagogia é mostrar que a Europa realmente conta. As pessoas hoje têm a noção de que a Europa é mais importante do que era. A questão que se põe é que talvez sintam que a capacidade de produzir resultados não as satisfaz. E quando digo isto não estou a dizer que é culpa da Comissão Europeia ou do Parlamento Europeu. É culpa dos governos nacionais, que geralmente o que fazem é: se uma coisa é boa, a responsabilidade é deles, se é má a culpa é de Bruxelas. Isto cria a ideia de que Bruxelas, que tanta coisa positiva faz pelos Estados…

Acaba por ser um bode expiatório?

Claro, para as matérias em que as coisas correm menos bem aos governos. E acho que essa é uma das razões para a abstenção.

O projeto europeu conta com décadas de paz e prosperidade. Mas esta última década - de crise financeira, Brexit, crise migratória - afetou a credibilidade do projeto europeu?

Em primeiro lugar, antes mesmo das populações – e tenho escrito muito sobre isso  –, a confiança entre os Estados, que antes era relativamente grande, esmoreceu. Isso aconteceu muito com a crise financeira de 2008/2009, em que se criou aquela coisa dos Estados do Norte e os do Sul. É uma crise de confiança.

Essa confiança, embora com grande sacrifício para as populações, nomeadamente de Portugal, Irlanda, Espanha, Grécia e Chipre, foi restabelecida à medida que os países foram ganhando um crédito económico. Devemos muito isso a Passos Coelho. Mas entretanto apareceu o problema das migrações, que trouxe uma nova desconfiança, agora não tanto Norte/Sul mas Leste/Oeste. Os estados de Leste têm menos migrantes, mas têm receio no fundo do estrangeiro, do estranho, do diferente. E portanto mostraram muitas resistências a fazerem uma espécie de distribuição dos refugiados, a abrirem as suas portas a alguma migração económica que possa colmatar défices demográficos, e criou-se um problema em que só alguns Estados estão disponíveis para acolher e depois já acolheram muito e acham que os outros deviam acolher mais. E entretanto ocorre o Brexit, que curiosamente tem um efeito paradoxal.

As pessoas perceberam que a saída da UE é extremamente problemática. Há aqui uma espécie de mal que veio por bem, mas que não nos consola nada porque o mal [Brexit] é maior do que o bem

Mas nesta fase de desgaste já fragiliza mais o Reino Unido do que a Europa, ou não?

Claramente. Cria um clima de imprevisibilidade que passa para toda a gente: para os britânicos que vivem na Europa, para os europeus que residam no Reino Unido, para as empresas. Mas tem um efeito paradoxal: em todos os países onde se falava numa eventual saída [da UE], desde que ocorreu o referendo britânico as sondagens mostram que as pessoas não querem a saída. As pessoas perceberam que a saída da UE é extremamente problemática. Há aqui uma espécie de mal que veio por bem, mas que não nos consola nada porque o mal [Brexit] é maior do que o bem. Para mim, a principal razão de insatisfação é esta crise de confiança. Não são tanto as instituições europeias como a Comissão Europeia e o Parlamento, que têm uma política europeia bastante consequente, é o Conselho onde estão representados Estados nacionais, em que entre eles se criaram alguns ressentimentos e desconfianças que faz com que seja muito difícil, a 28 ou a 27, chegar a acordo. Aliás é quase milagroso ter havido no Brexit.

Como é que vê o processo nesta fase, em que ainda não percebemos como é que será de facto a saída?

Com muita apreensão. Acho que a incerteza ainda vai permanecer. Tenho-me reunido, até em pré-campanha, com empresários portugueses por exemplo na área do turismo, e que têm o Reino Unido como grande mercado, e também com a comunidade britânica no Algarve, e o que vejo nas pessoas e nas empresas é uma espécie de cansaço e já uma certa exasperação. As pessoas estão de facto exaustas porque as suas vidas, a economia das suas empresas, está dependente desta decisão. E este arrastamento, sem decisão para um lado ou para o outro…

...Também não permite tomar decisões.

No fundo a dada altura isto é pior do que uma decisão, por má que ela seja. Eu sou muito favorável a uma flexibilidade ao Reino Unido. Não perdi a esperança de que o Reino Unido possa ficar ou que possa sair de uma forma em que tenha relações muito estreitas com a UE. Para Portugal isso era decisivo. Portugal, do ponto de vista económico e das pessoas, sofre o que os outros sofrem, proporcionalmente. Mas a perda geopolítica para Portugal é colossal.

Como assim?

Somos um país Atlântico, extrovertido, uma potência marítima, sem grandes interesses no centro do continente. E a visão que o Reino Unido transportava para a UE, com todo o seu peso – e o Reino Unido, juntamente com França e Alemanha, era um dos três países com mais influência –, era o da visão Atlântica, o que interessa a Portugal. Mesmo que estivéssemos em desacordo, mesmo quando achávamos que não era o nosso interesse direto, o papel que desempenhavam era relevante para nós. Às vezes faziam, digamos, o ‘jogo mais sujo’, que não teríamos de fazer porque eles estavam lá para o fazer.

É uma questão de blocos de poder também, não é?

Exatamente. E o que é que eu vi? Vi o Governo português falhar clamorosamente no Brexit a dois níveis. Um médio-longo prazo: nós devíamos ter tido um clube Atlântico, com a Suécia, a Dinamarca, os Países Baixos, a Irlanda, estas pequenas e médias potências marítimas europeias que são quem vai ter maior perda geopolítica. E o outro no próprio apoio aos portugueses. É o caso do plano de contingência aprovado, que não é nenhum plano de contingência.

Como assim?

O documento que se aprovou na Assembleia da República é um bom documento de direitos e deveres para os próximos 20 ou 30 anos. Diz que se houver um ‘no deal’ [não acordo do Brexit], vão ser reconhecidas as cartas de condução, os diplomas, a questão da segurança social, saúde, como tudo isso se articula. É necessária uma lei portuguesa porque se não houver acordo não há uma regra europeia geral. É um plano B mas não é um plano de contingência. Isso seria ter, no terreno, os consulados a dar informação às pessoas, a procurar soluções para quem quer vir, era trazer para aqui um conjunto de empresas que queriam sair do Reino Unido e se podiam implantar em Portugal. Era perceber se dando direitos a britânicos que estão em Espanha se não poderiam vir para cá como investidores interessantes, já que a relação de Espanha com o Reino Unido é de maior fricção.

Os portugueses estão no Reino Unido expostos ao abandono. E curiosamente os ingleses com quem falei no Algarve também os sinto assimDevido a Gribraltar?

Devido a Gibraltar. Ou seja, um plano de contingência é um plano de administração pública no terreno. Não é uma declaração de direitos. Atenção, uma coisa não exclui a outra. Mas nós, comparando com os franceses, por exemplo, não fizemos nada. Os portugueses estão no Reino Unido expostos ao abandono. E curiosamente os ingleses com quem falei no Algarve também os sinto assim, e até a administração portuguesa tinha interesse – já que a inglesa não o faz – em fazer algum trabalho de casa.

Falámos já um pouco das divisões na Europa. Como é que a Europa pode ter uma voz comum no mundo, concorrendo com potências como EUA, China e Rússia, que terão os seus próprios interesses e agendas na Europa?

Apesar de tudo são diferentes. Uns EUA não podem ser vistos como simples concorrentes, mas sim como um aliado. A administração Trump é mais hostil à UE, mas penso que isso a prazo será corrigido. Não é tão problemático. No caso da China é um verdadeiro concorrente em várias dimensões. A Rússia é um concorrente mais no plano militar, de defesa e ‘intelligence’, não tanto económico. É uma ameaça constante e problemática não tanto pela sua escala mas pela importância geopolítica, militar e até ao nível da ciberinformação.

A UE deve ter uma estratégia comum para estas potências e sinceramente acho que aí não seria muito difícil ter isso, embora com a Rússia haja países com contradições muito diferentes. Entre os países de Leste há algum sentimento antirrusso, a Polónia, os bálticos, mesmo o Reino Unido, que também tinha essa tradição. Mas por exemplo a França e a Itália já são mais complacentes. A Bulgária já será mais próxima do que é a Roménia, por exemplo. Com a China também tem havido problemas. Por exemplo Costa tem sido pró-chinês e se virmos hoje Merkel e Macron têm mais reserva quanto à China.

A questão que me põe leva-me a outra pergunta: devemos acabar com a regra da unanimidade na política externa ou não?

Devemos?

Na atual conjunta, com o Brexit a ocorrer, com estas tensões, nomeadamente Leste-Oeste, acho que um país como Portugal não deve defender o fim da unanimidade na política externa da UE. Ficamos com um direito de veto para usar nas instituições europeias, claro que é um direito de veto para usar só em último recurso, e que nem sequer é facilmente usável. Sei que isto causa alguns problemas. Aconteceu recentemente com a Venezuela.

Na próxima legislatura não devemos abdicar da unanimidade na política externa. Embora devamos fazer um uso raro e cauteloso disso, pode haver circunstâncias específicas em que isso seja importanteNotou-se essa divisão.

A Grécia, por exemplo, não queria de maneira nenhuma reconhecer Juan Guaidó como presidente interino para a realização de eleições. Mas o que eu diria é a posição do PSD oficial, e que penso que é a que favorece o interesse português, é que na próxima legislatura não devemos abdicar da unanimidade na política externa. Embora devamos fazer um uso raro e cauteloso disso – ou seja, não devemos dificultar a criação de uma posição comum – pode haver circunstâncias específicas em que isso seja importante. Dou o exemplo de Timor, que não estaria onde está se Portugal não tivesse na altura este direito. Foi importante.

Falou há pouco da Venezuela. Tivemos um primeiro mês complicado, com Maduro a perder apoio externo, mas depois percebemos que o apoio a Guaidó no terreno também é limitado. O que podemos esperar da Venezuela?

Do ponto de vista estritamente político, esta é uma fase de impasse, com constante medição de forças. Mas não nos enganemos: o que está em causa neste momento na Venezuela é a situação humanitária. Temos sete milhões de pessoas em risco de fome. Temos 3,5 milhões de pessoas refugiadas, nomeadamente na fronteira do Brasil, Colômbia, Peru, etc. Entre esses deve haver portugueses e eu estou farto de fazer esta pergunta e infelizmente a imprensa não pega nela: o Presidente da República disse que, pelo menos no Peru, havia refugiados portugueses. O que é que o Governo está a fazer por eles?

Se entre os 3,5 milhões de refugiados [venezuelanos] existem famílias portuguesas, porque é que não se vão buscar essas famílias? Ao menos essas!Era uma pergunta que tinha: que papel deve Portugal prestar à comunidade luso-venezuelana?

Este é o aspeto que quero deixar claro: se entre os 3,5 milhões de refugiados existem famílias portuguesas, porque é que não se vão buscar essas famílias? Ao menos essas! Quanto à medição de forças, eu diria que a população está com Guaidó e com a mudança do regime. Mas temos uma parte importante do exército que está com o Maduro e, pior do que isso, os chamados ‘coletivos’, as milícias, que são forças informais que têm armas, milícias muito treinadas por cubanos, agora também com agentes russos, mais de cem, que chegaram recentemente lá. A estrutura de poder militar continua largamente nas mãos de Maduro.

Há um risco de guerra civil?

Esse risco existe, neste momento não julgo que esteja em materialização. Aliás este compasso de espera mostra que nenhuma das partes quer dar esse passo, julgo que é isso que explica esta medição de forças constante.

O populismo é tema na ordem do dia. Por cá tenho esta sensação de que há um discurso genérico, de que 'os políticos são todos iguais', que se propaga. Como é que se contraria esta ideia?

É marcando a diferença. Não é por acaso que o principal slogan do PSD nestas eleições é marcar a diferença, em Portugal e na Europa.

Na Europa temos um trabalho que fala por nós. Por exemplo, o fundo de solidariedade sobre incêndios é uma obra do eurodeputado José Manuel Fernandes. Conseguimos apoio ao turismo graças também à Cláudia Monteiro de Aguiar, que é nossa candidata. Em tudo o que é Schenghen, migrações e Frontex, Carlos Coelho marcou a diferença. No meu caso, já lhe disse que uma das coisas de que me orgulho bastante é Portugal não ter perdido nenhum deputado e termos evitados as listas transnacionais. Sei que é uma questão um bocadinho técnica para as pessoas mas em termos de poder para Portugal conta muito para o futuro. Ainda agora fui autor da reforma do provedor de justiça europeu, cujo estatuto se alterou. 

Somos acusados do contrário mas conseguimos lutar muito contra as sanções. O ministro Mário Centeno agradeceu-nos, aliás à frente de todos os deputados, o que fizemos no PPE para que não houvesse sanções em 2016. Tivemos um papel com o nosso peso específico. Nós, por exemplo, fizemos o Parlamento Europeu aprovar uma proposta em que Portugal não perde um cêntimo dos fundos europeus. A proposta do Parlamento para os fundos europeus é diferente da proposta de Comissão que aceitou Pedro Marques. Há o plano Juncker, muito desenhado por nós, e que foi muito aplicado em Portugal pelos privados. As pessoas não sabem mas o Governo português usou zero euros do plano Juncker. Isto é uma vergonha quando os privados aproveitaram o plano, que não é tanto de investimento mas de empréstimos, para alavancar a economia, e Portugal tinha condições de usar em determinadas situações e não usou.

O SNS está num estado caótico, nunca esteve tão mal. Infelizmente ao longo destes anos tenho convivido muito por razões pessoais com o SNS por pessoas que me são próximas e a degradação é evidentePor que razão?

Por causa das cativações. Não é por acaso que estamos com o mínimo de investimento público. Mesmo nos fundos europeus não há dinheiro para a parte nacional, porque este é o governo que dá com uma mão e tira com as duas. Dá com uma mão alguns rendimentos, uma pequena folga aqui ou ali, mas depois sobe o imposto dos combustíveis e ao mesmo tempo faz cativações. São truques sistemáticos. O SNS está num estado caótico, nunca esteve tão mal. Infelizmente ao longo destes anos tenho convivido muito por razões pessoais com o SNS por pessoas que me são próximas e a degradação é evidente. Veja-se a Proteção Civil, a falta de meios e coordenação revelada, veja-se o que se passa com a segurança rodoviária. O número de mortos aumentou em 2017 e 2018. Como é que é possível quando estávamos há 20 anos a descer? É a tal mão que dá e as duas que tiram. E é aí também que acho que temos todas as condições para fazer diferente.

Estes anos de geringonça deixaram o PSD ainda muito preso à tal ideia de "ir além da troika"?

Não. Repare, no PSD a questão nunca foi ir além da troika, era uma questão de fazer reformas. E pergunto o seguinte: que reformas para as PME, para a competitividade, fez este governo? Limitou-se a gerir, não fez nenhuma reforma consequente, nem na justiça, nem na educação, nem saúde, nem na área de economia, que era aí que interessava, O crescimento português é medíocre. Todos os anos fomos ultrapassados por um estado da UE. Estamos constantemente a perder para Estados que eram mais pobres que nós. Mais dia menos dia somos o 27.º e só não somos o 28.º porque entretanto o Reino Unido saiu. Isto é que é a convergência? Sinceramente a questão é esta: quem é que está sempre a gabar-se que foi além das metas que tinha? Não é o PSD, é o PS. O ministro Mário Centeno é que diz: a média era 1,7 e afinal estamos a 1,4; era 1,5 e afinal estamos em um. Portanto quem vai além é Mário Centeno, não somos nós.

Uns são mais conhecidos e o seu trabalho é mais impactante, mas isso é aquela coisa que Pedro Marques não sabe. Deve julgar que as pessoas andam com os relatórios escritos na testa, mas nãoComo é que é o dia a dia na Europa? Um eurodeputado de um país mais pequeno enfrenta mais dificuldades em movimentar-se nos corredores de Estrasburgo?

Penso que não. Em primeiro lugar, no contexto europeu Portugal não é um país pequeno, é médio, na orla de países como a Bélgica, a República Checa, a Grécia, a Hungria, entre outros próximos. E é também um país muito prestigiado na Europa.

Depois, claro, acho que cada um faz o seu curriculum. Uns são mais conhecidos e o seu trabalho é mais impactante, mas isso é aquela coisa que Pedro Marques não sabe. Deve julgar que as pessoas andam com os relatórios escritos na testa, mas não. É pelo seu trabalho, convicção, pelo peso negocial para mudar uma votação, para conseguir mudar a redação de textos que eram mais desfavoráveis para Portugal.

Mas Portugal é um país francamente bem visto. Tivemos aqueles anos de 2011, 2012, com o escândalo de ter tido um primeiro-ministro que está acusado de corrupção, e evidentemente isto teve efeito sobre o país. Mas o facto de termos conseguido dar a volta com o governo PSD/CDS, embora com muitos sacrifícios dos portugueses, acho que isso nos reabilitou completamente e portanto agora somos uns interlocutores muito fortes. Isso explica como um país como Portugal teve um presidente da Comissão Europeia [Durão Barroso], como teve, ou possa ter um secretário-geral das Nações Unidas [António Guterres]. Não há nada que nos diminua ali. Se as pessoas forem competentes e prestigiadas, nada está fora do alcance dos portugueses.

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