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Europeias: "Quem nos representa não faz o trabalho de casa"

O académico Viriato Soromenho-Marques, autor do livro 'Depois da Queda', sobre a União Europeia, disse à Lusa que a campanha para as eleições de 26 de maio está alheada das questões fundamentais sobre o futuro do continente.

Europeias: "Quem nos representa não faz o trabalho de casa"
Notícias ao Minuto

11:36 - 14/04/19 por Lusa

Política Soromenho-Marques

"A moeda única deveria ser a questão fundamental. Se na Alemanha e na Holanda não se fala disso eu compreendo porque há países que são os vencedores do euro e outros que são os perdedores, mas que não se fale em Portugal? Que não se fale em Espanha? Que não se fale em Itália? Isto só mostra que quem nos representa não faz o trabalho de casa", criticou em declarações à agência Lusa Soromenho-Marques, sublinhando o alheamento sobre as questões europeias.

"A política é uma atividade de grande nobreza, mas é preciso estar à altura dessa nobreza e infelizmente não parece que seja a regra", notou.

"Em Portugal, a campanha para as próximas eleições [26 de maio] vai centrar-se na questão nacional sobre os familiares dos políticos e já está a afastar-se dos assuntos europeus que deveriam preocupar os políticos e os partidos portugueses, como os problemas da Zona Euro, as alterações climáticas ou os movimentos migratórios", defendeu o professor de Filosofia da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

No livro "Depois da Queda -- A União Europeia entre o Reerguer e a Fragmentação" o autor argumenta que, mesmo sem o processo de saída do Reino Unido ('Brexit'), a divergência económica cada vez maior entre países e a desigualdade crescente no interior de cada país deveriam constituir "poderosos sinais de alerta" e propõe, por isso, uma reflexão profunda sobre a moeda única.

"É o euro que explica também porque defendemos neste ensaio que a queda da União Europeia (entendida como estrutura legal e institucional que a sustenta) já ocorreu, mesmo que a sua existência formal ainda se mantenha (página 99)", escreve Soromenho-Marques.

O autor faz o levantamento histórico do processo da moeda única e destaca que muito antes do 'Brexit', foi a crise do euro e o "enxame" de novas leis e medidas avulsas tomadas para manter a moeda a "flutuar" que afastaram "cada vez mais" os 19 países do euro dos nove países que, embora fazendo parte da União Europeia, mantiveram as moedas nacionais.

Soromenho-Marques afirma também que é uma fantasia dizer-se que se pode voltar às moedas nacionais pacificamente e propõe como solução o "aprofundamento" do euro no sentido de se completar o federalismo monetário com o federalismo económico e político por oposição à "agonia".

"Outra opção é continuarmos como estamos e continuarmos com esta agonia lenta, com paliativos e com uniões bancárias que não resolvem nenhum problema até que exista uma crise sistémica e até que se verifique uma implosão do euro. Eu penso que se o euro terminar catastroficamente - esperemos que não - será através de uma implosão sistémica e não através da saída de um só país", alertou.

Por outro lado, referiu como "cenário de pesadelo" o crescente nacionalismo em vários pontos do continente e, por exemplo, a criação de condições que reforcem a extrema-direita em países como a França e a Itália.

"Imaginemos que dentro de alguns anos termos um governo de extrema-direita em Roma e em Paris, depois de Macron, uma solução Le Pen. Qual é a possibilidade de políticas coordenadas de reforma da Zona Euro no sentido da partilha da soberania mais progressiva quando temos à frente de dois países estratégicos governos nacionalistas de extrema-direita e que manifestamente não percebem os terrenos que estão a pisar? Com projetos de uma segunda moeda para as transações internas que são aventureirismo e experimentalismo perigoso", alerta sublinhando que os vários governos de ideologia "convencional" já deveriam ter iniciado processos de reforma.

"Isto acontece porque os governos dos partidos ligados à democracia cristã ou à Internacional Socialista que não têm a coragem de dar os passos que são conhecidos. Trata-se apenas de dar os passos necessários de partilha e de aproximação. Infelizmente esta União Europeia parece ser liderada por líderes políticos que querem comandar os destinos da Europa a partir da segurança, do aconchego e também do provincianismo das suas capitais nacionais, assim não teremos uma Europa com um futuro muito saudável", disse Soromenho-Marques.

O livro "Depois da Queda -- A União Europeia entre o Reerguer e a Fragmentação" (Temas e Deabates/Círculo de Leitores, 134 páginas), foi lançado este mês e constitui mais um estudo sobre assuntos europeus de Viriato Soromenho-Marques.

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