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E se o sismo de 1755 fosse hoje? "A destruição seria muito significativa"

No dia em que passam 262 anos sobre o terramoto e tsunami que devastaram a cidade de Lisboa, conversámos com um especialista que nos disse que abalos desta magnitude acontecem com "intervalos longos superiores a mil anos". Por isso, para já, estamos seguros. Porém, esta não deve ser a única preocupação. Outros sismos de menor magnitude podem ser igualmente violentos e com potencial para destruir boa parte da cidade.

E se o sismo de 1755 fosse hoje? "A destruição seria muito significativa"

É dia 1 de novembro de 1755, dia de Todos os Santos. Muitos habitantes de Lisboa encontram-se nas igrejas. Outros tantos espalham-se pelas ruas sujas e apertadas da capital a vender legumes, pão e tudo o que lhes permita ganhar algum dinheiro para o sustento da família. As crianças brincam despreocupadas nas ruas, entre poças de água e lama, com os joelhos esfolados, a roupa suja, mas felizes. É apenas mais um dia na vida agitada da capital portuguesa.

Mas ao início da manhã, pelas 9h30, tudo mudou e para pior. Um violento sismo, que atualmente se crê que tenha tido uma magnitude de 8.7 na escala de Richter, varreu a cidade de Lisboa.

Também foi sentido em Setúbal e no Algarve, mas sem a violência que atingiu em cheio os habitantes da principal cidade do reino.

Foram breves os minutos de duração do sismo, mas os efeitos foram devastadores, até porque a réplica foi tão violenta como o terramoto. Perderam-se 35 igrejas, 55 palácios e mais de dez mil edifícios. Entre as relíquias arquitetónicas que foram destruídas contam-se a Ópera do Tejo, a Casa da Relação, o Paço da Ribeira com a sua valiosa biblioteca. A Torre do Tombo não resistiu e o mesmo aconteceu ao Hospital de Todos-os-Santos, aos conventos de S. Domingos, do Carmo e do Espírito Santo. Inúmeros documentos e obras de arte perderam-se para sempre, tal como as cerca de 100 mil pessoas que pereceram perante a violência da natureza.

Notícias ao MinutoO terramoto de 1755 e a devastação causada em Lisboa© Wikimedia Commons

Um grande número de pessoas morreu dentro de igrejas onde se encontrava a rezar na missa por Todos os Santos. Outras morreram nas ruas que ficaram impedidas por blocos de pedra que não resistiram ao abalo.

A terra finalmente parou de tremer. Respirou-se de alívio. Mas ainda não era o fim. Um tsunami, cujas ondas se crê que tenham atingido os 20 metros de altura, varreu o Terreiro do Paço. Uma tragédia sem precedentes abateu-se sobre Lisboa e sobre os seus habitantes. O pânico instalou-se e, depois de as ondas recuarem, começaram os incêndios.

As velas usadas como iluminação, e que não foram atingidas pelas ondas, espalharam as chamas. Durante seis dias ininterruptos vários focos de incêndio arderam, unindo-se numa única bola de fogo que destruiu a baixa de Lisboa e matou milhares de pessoas. Uma das cidades mais bonitas e importantes da Europa do século XVIII estava em ruínas.

E se o sismo fosse hoje?

Volvidos 262 anos do pior terramoto de que há registo em território nacional, conversamos com um especialista para tentar perceber qual é o risco de Lisboa voltar a passar por uma situação semelhante.

O professor catedrático José Luís Zêzere, do Instituto de Geografia e Ordenamento do Território da Universidade de Lisboa, explicou ao Notícias ao Minuto que sismos como o de 1755 “ocorrem com intervalos longos”, pois trata-se de “ciclos sísmicos superiores a 1.000 anos, pelo que a incerteza acerca do período de recorrência é bastante elevada”.

Além disso, referiu, um sismo de magnitude semelhante ao de 1755 não é a “única ameaça sísmica para Portugal”, pois já outros abalos de menor magnitude (em 1344 e 1531), e com “origem na zona de falhas do vale inferior do Tejo”, resultaram em “destruições extensivas na zona de Lisboa” – o de 1755 teve o seu epicentro no Banco do Gorringe.

Face a este cenário quisemos saber se os edifícios da Lisboa cosmopolita atual estão preparados para abalos de grande magnitude.

“Os edifícios construídos depois de 1983 devem respeitar um conjunto de condições que os tornam resistentes aos sismos e que estão adaptadas às diferentes realidades de perigosidade sísmica no país”, refere José Luís Zêzere, sublinhando, contudo, que “subsistem algumas dúvidas acerca da aplicação sistemática das regras estabelecidas por deficiências na fiscalização”. Além disto, os “edifícios mais antigos não foram construídos com as mesmas preocupações de resistência antissísmica que existem hoje”.

Pese embora seja difícil calcular as consequências de um sismo, pois tudo depende da sua magnitude, da localização do epicentro e, no caso de um tsunami, da energia das ondas, o professor do Instituto de Geografia e Ordenamento do Território não tem dúvidas: um sismo semelhante ao de 1755 teria uma “destruição muito significativa, com maior incidência nos bairros mais antigos” da cidade de Lisboa.

José Luís Zêzere frisa, aliás, o facto de a Autoridade Nacional de Proteção Civil ter criado um simulador sísmico para avaliar as consequências de um terramoto, mas adverte que a “preparação para a emergência devia estar a ser acompanhada pela implementação sistemática de medidas preventivas, nomeadamente a generalização do reforço antissísmico nos processos de regeneração urbana”. Também a fiscalização à construção de edifícios deveria ser uma prioridade das autoridades.

Nesta senda, defende que é necessário um “reforço estrutural antissísmico de edifícios estratégicos, vitais e sensíveis, como é o caso dos hospitais, centros de saúde, quartéis de bombeiros e outras instalações de agentes de proteção civil”.

Quanto à baixa lisboeta, mais concretamente, “não há uma solução milagrosa para o problema”. As ruas estreitas, apinhadas de carros que impedem a passagem de veículos de emergência têm potencial para dificultar um processo de resgate em caso de sismo. Mudar esta situação só com “boas práticas”, tais como “a eliminação sistemática dos lugares de estacionamento nestas vias e a não introdução de elementos de mobiliário urbano que agravem as dificuldades” já existentes.

E quanto a isto, o especialista é perentório: “Há lições a aprender do grande incêndio do Chiado em 1988”.

José Luís Zêzere defende, por isso, a importância da realização de simulacros alargados a toda a população, com especial incidência nas escolas para que as crianças saibam desde cedo como agir em caso de sismo, mas também é realista ao dizer que “nenhuma Proteção Civil do mundo estará completamente preparada para fazer face a um sismo com localização próxima e magnitude de 8.7”.

Portanto, o melhor é apostar num “cultura da prevenção” e no “desenho de uma nova malha urbana que garanta distâncias de segurança adequadas entre os edifícios que proporcionem a circulação de viaturas de socorro” em caso de necessidade.

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