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No Posto do MFA à escuta do "coelho" Marcello na "toca" da GNR

Os militares do Posto de Comando do movimento dos capitães ouviram, na madrugada de 25 de abril de 1974, as comunicações das forças do regime, através de um sistema de escutas.

No Posto do MFA à escuta do "coelho" Marcello na "toca" da GNR
Notícias ao Minuto

10:05 - 24/04/24 por Lusa

País 25 de Abril

O relato resulta do encontro dos militares que, a convite da Lusa, no Posto de Comando da Pontinha, em 2014, em vésperas dos 40 anos do 25 de Abril, recordaram as 48 horas no "barracão" da Pontinha em que derrubaram a ditadura mais velha da Europa.

Esta foi a segunda vez que os militares de Abril se juntaram no mesmo local. A primeira, com os seis oficiais - Sanches Osório, Otelo Saraiva de Carvalho, Fisher Lopes Pires, Vítor Crespo, Hugo dos Santos e Garcia dos Santos - foi em 1994 e ficou registada na revista "25 de Abril -- Memórias", editada pela Lusa.

A segunda foi quando passaram 40 anos sobre o golpe e já só estiveram quatro, após a morte de Fisher Lopes e de Hugo dos Santos.

Marcello: "Para onde é que vou?"

Teria havido revolução sem o sistema de escutas montado por Garcia dos Santos? Dificilmente. Aliás, Vítor Crespo diz mesmo que, sem isso, "nem tínhamos ganho a revolução", e Sanches Osório acrescenta: "Sem essas comunicações nem estaríamos aqui na Pontinha a fazer nada."

Não teriam sabido, por exemplo, que "o coelho está na toca", código para dizer que Marcello Caetano estava localizado e cercado, no Quartel do Carmo, em Lisboa. Muitas das ações militares bem-sucedidas dependeram das escutas.

"A escuta mais importante, cerca das 05:30/06:00 é quando o diretor-geral da PIDE/DGS telefona para casa de Marcello Caetano, presidente do Conselho de Ministros, acorda-o para o informar que se estão a passar questões muito graves e a revolução dos militares está na rua. O Marcello Caetano fica aflitíssimo. 'E agora, para onde é que eu vou? Vou outra vez para Monsanto?' Porque no golpe falhado de 16 de março tinha-se refugiado no comando da força aérea do Monsanto. Simplesmente o diretor da PIDE diz a Marcello: 'Não, não, Monsanto não, já foi da outra vez, o melhor é Vossa Excelência refugiar-se no quartel da GNR no Largo do Carmo, que a GNR está fixe'. E fiquei aqui a saber, a partir das 06:00, que o Marcello Caetano ia para o quartel general da GNR", explicou Otelo.

"O coelho está na toca", no Quartel do Carmo

O capitão Salgueiro Maia, à frente das forças vindas do quartel de Santarém e um dos heróis do 25 de Abril, terminou a sua missão, que "era servir de isco para as forças do Terreiro do Paço". Logo a seguir comunica para a Pontinha. Queria novas ordens.

Otelo Saraiva de Carvalho, o estratega do golpe, foi claro na conversa telefónica para Correia de Campos, que estava com o capitão de Abril: "O Salgueiro Maia que venha por aí fora, pela rua Augusta, chega ao Rossio, vira para a rua do Carmo, e vai cercar o comando-geral da GNR, porque o coelho -- que era o nome de código dado pelo Garcia dos Santos ao Marcello Caetano -- está na toca".

Mas Otelo ainda teve de vencer outro obstáculo. Telefona para o comandante-geral da GNR, Ângelo Ferrari, com um ultimato, pedindo-lhe que entregasse Marcello Caetano. Recebe uma nega: "Não, ó camarada, está enganado, olhe que o senhor professor Marcello Caetano não está aqui. Eu posso mandar ver, mas ele não está aqui."

Otelo não se deixou ficar: "'Escusas de estar aí com delongas. Eu sei que ele está aí. Têm um quarto de hora para fazer a entrega do Marcello Caetano. Se não o entregarem eu mando destruir o quartel'. Foi o ultimato! Felizmente não chegou a ir por diante. Era mais uma bazófia".

Governo 'às escuras', inimigo 'às ordens' 

Uma chamada, intercetada pelos capitães de Abril através do engenhoso sistema de comunicações montado, permitiu perceber que o poder político ignorava o golpe.

"O ministro da Defesa ligou para o ministro de Estado, às 03:00. Um dizia para o outro: 'Olha, amanhã o Américo Thomaz vai a Tomar, pá, e vê lá que ele é um chato e que vai sem segurança, não leva ninguém, vai sozinho'".

Os capitães de Abril ouviram tudo. O inimigo estava tranquilo. Era um bom sinal para se avançar.

Outra informação importante obtida através da rede instalada clandestinamente ocorreu quando foram dadas ordens, a partir da Pontinha, para que o inimigo recuasse, num momento de tensão, simulando ordens superiores.

"Nós tínhamos possibilidade de saber tudo aquilo que os outros estavam a fazer, inclusive, daqui, como tínhamos os tais equipamentos que eram iguais aos dos outros, nós podíamos entrar nas redes deles. E fizemo-lo", explica Garcia dos Santos.

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