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Médico português passou meses a combater pandemia na Serra Leoa

Aos 29 anos, o médico Tiago Martins Branco passou sete meses a combater a covid-19 na Serra Leoa, um país marcado pelo Ébola, onde o improviso foi a regra e o desenrascanço português salvou vidas.

Médico português passou meses a combater pandemia na Serra Leoa
Notícias ao Minuto

08:25 - 24/01/21 por Lusa

País Covid-19

"Se não tens o ideal, o que tens torna-se ideal". Este foi o lema de Tiago Martins Branco durante os cerca de sete meses que passou na Serra Leoa e deu também título a um artigo que publicou com outros colegas no Travel Medicine and Infectious Disease Journal e que aborda o tratamento da covid-19 na África subsaariana.

A fazer internato médico no hospital de Faro, para onde regressou em agosto, e uma tese de mestrado em Saúde Tropical no Instituto de Higiene e Medicina Tropical (IHMT), da Universidade Nova de Lisboa, Tiago Martins Branco chegou à Serra Leoa no início de fevereiro, quando o número de casos de covid-19 em África era ainda insignificante.

Especializado em medicina interna e com ligações à organização Médicos do Mundo, Tiago chegou ao hospital de Masanga, no distrito de Tonkolili, no centro da Serra Leoa, proveniente da Tanzânia e do Uganda, onde fez um estágio em higiene e medicina tropical.

Antigo centro especializado em tratamento de doentes com lepra, o Hospital de Masanga serve uma população de 400 mil pessoas e tem reputação como centro cirúrgico.

"Não sendo cirurgião, inicialmente parecia deslocado do sítio", disse, em entrevista à agência Lusa, Tiago Martins Branco, que geria um serviço de urgências, um de internamento de doentes agudos e uma unidade de isolamento, inicialmente para doentes com suspeita de tuberculose ou febre hemorrágica e que posteriormente evolui para doentes com infeção pelo novo coronavírus.

A chegada do vírus SARS-COV-2 àquele país da África Ocidental, que regista atualmente pouco mais de 3 mil casos da doença e perto de uma centena de mortes, não surpreendeu os médicos, num país ainda muito marcado pela epidemia de Ébola de 2015.

"A subida de casos não foi muito rápida e conseguimos ir gerindo as vagas e o tratamento de dois ou três casos por semana naquele distrito", recordou.

"O problema era conseguir tratamentos. Estes doentes, quando agravam, precisam de cuidados intensivos e nós não tínhamos ambiente, não tínhamos capacidade, nem estrutura, não havia ventiladores, não tínhamos oxigénio suplementar", contou.

Neste cenário, Tiago Martins Branco lembra como a morte da primeira doente que testou positivo para o coronavirus no hospital o marcou.

"Lembro-me de estar a tratá-la e pensar que se fosse num país com recursos e se tivesse oxigénio em grande quantidade, teria sobrevivido", disse, acrescentando que teve "perfeita consciência de que morreu porque não tinha oxigénio suficiente".

Num contexto de falta gritante de recursos, foi preciso aproveitar a experiência adquirida no tratamento do Ébola e da febre de Lassa, adaptando as capacidades ao novo vírus.

"Preparamos o hospital com os concentradores de oxigénio que tínhamos. Depois tentamos arranjar de outros hospitais e os Médicos Sem Fronteiras também deram alguns, conseguimos equipamentos de proteção pessoal em bastante quantidade, arranjamos cloroquina, hidroxicloroquina e dexametasona e fizemos treino dos profissionais de saúde", afirmou.

Ao médico também foi muito útil a capacidade "inventiva" que adquiriu no Serviço Nacional de Saúde (SNS) português.

"Mesmo em Portugal, de vez em quando, temos de ser um pouco inventivos e essa vertente de tentar inventar estratégias e contornar défices, que já tinha um pouco de Portugal, evoluiu depois na Tanzânia e no Uganda", disse.

"O engenho português do desenrasca foi levado extremo", acrescentou, dando como exemplo o uso de antibióticos antigos, que já não são usados na Europa, mas que na Serra Leoa são o primeiro recurso.

"Tinha de ser um bocadinho inventivo nesse aspeto. Mesmo no material, há 'kits' próprios para os procedimentos, lá era tudo inventado, estilo Macgyver mesmo!", contou.

Mas o médico português, também guarda histórias felizes como a de uma criança de quatro anos que chegou com uma crise severa de malária.

"Pensamos que iria morrer. Depois fez uma trombose da perna e pensamos que claramente teria de ser amputada. Tínhamos muito poucos recursos, não conseguíamos fazer muita coisa, mas entrei em contacto com colegas em Portugal, pediatras, hematologistas, e toda a gente aqui estava muito pronta a ajudar", disse.

"Com esta equipa Portugal/ Serra Leoa conseguimos salvar a criança. Foi algo que me deixou bastante contente", acrescentou.

Para Tiago Branco, além de "muito desafiante", trabalhar na Serra Leoa foi mais "difícil do que estava à espera".

"Lidar com pessoas que não tem muitos recursos e estão num sofrimento atroz foi bastante difícil. É difícil pôr por palavras esta experiência, mas valeu muito a pena e foi muito compensadora", concluiu.

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