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Português cria kit que "poderia ter salvo vidas em Pedrógão"

O engenheiro português Ricardo Roque criou aquele que é o primeiro kit de sobrevivência a incêndios direcionado para particulares e não profissionais da área. Em entrevista ao Notícias ao Minuto, o especialista pede que o IVA para este tipo de produtos se fixe na taxa mais reduzida para que exista uma "democratização" no seu acesso, desde "o senhor Meireles em Freixo de Espada à Cinta ou à senhora Joaquina em Rabo de Peixe".

Luvas Aramido

Ricardo Roque é português e bacharel e mestre em engenharia química. Os acontecimentos de Pedrógão Grande, em junho de 2017, e em especial a morte de 47 pessoas na fatídica EN236-1, levaram Ricardo a querer desenvolver um equipamento capaz de proteger os civis em situações de incêndio.

Assim, 18 meses depois nasceu o Kit Faraday. Este kit inclui um respirador que oferece proteção contra os gases tóxicos produzidos pelo fogo, uma manta (Manta Faraday) “patenteada e testada que reflete 95% do calor radiante” das chamas e ainda umas luvas (Luvas de Aramido) que “protegem o seu utilizador de temperaturas até 200º”.

A versão Pro inclui ainda um mini-extintor de 500 mililitros.

Em entrevista ao Notícias ao Minuto, Ricardo Roque explicou que o objetivo deste kit é o de “democratizar a proteção individual contra incêndios para todo e qualquer cidadão” e, nesta senda, fez um “apelo à Assembleia da República” no sentido de o “material de proteção contra incêndios ter a taxa mais reduzida de IVA”.

O preço de lançamento do Kit Faraday foi de 29,95 euros, um valor que “vai subir já em junho”, avisou o engenheiro.

Como nasceu a ideia de desenvolver este kit?

A ideia do Faraday Kit nasce inicialmente da minha perceção desinformada de que, em caso de incêndio, quando existem vítimas a causa era somente queimaduras por calor radiante. Portanto, o sprint começou com foco em encontrar uma proteção que fosse eficaz de bloquear esse mesmo calor. Depois os relatórios sobre Pedrogão Grande anunciaram temperaturas na ordem dos 500-550°C na estrada N236, e, portanto, qualquer proteção só seria eficaz se e só se: resistisse a estas temperaturas e, pelo menos, durante aquele que é o período médio de permanência de um incêndio florestal normal, isto é, mais ou menos 2-3 minutos. Também ficou claro que fosse para abrir o trinco de uma porta de casa, de um carro ou retirar um objeto quente do caminho, umas luvas seriam essenciais. Tal como uma proteção à respiração.

Ou seja, a proteção tem que incluir vários fatores.

Sim, a conclusão a que cheguei após deparar-me com uma imensa literatura científica sobre incêndios, foi a de que uma proteção contra incêndios eficiente teria que proteger contra queimaduras, contra fumos durante alguns minutos, fornecer educação sobre como utilizar e estar muito perto do utilizador, seja no carro ou em casa. Com esta fórmula, qualquer pessoa estará muito mais protegida contra qualquer incêndio.

Uma proteção contra incêndios eficiente teria que proteger contra queimaduras, contra fumos durante alguns minutos, fornecer educação sobre como utilizar e estar muito perto do utilizador, seja no carro ou em casaQuanto tempo de investigação foi necessário?

Oito meses.

E quanto tempo levou todo o processo: desde a ideia até à produção do kit?

Mais de 14 meses, incluindo investigação, design, procurement, testes e iterações.

Qual será o preço de cada kit?

Depende, e aqui aproveitaria a oportunidade de fazer um apelo à Assembleia da República. O material de proteção contra incêndios teve uma taxa de IVA reduzida aplicada até 2011. Neste momento está em 23%, mas deve ser rapidamente reposta na taxa reduzida de 6%.

Porquê?

Para que as pessoas individuais tenham um incentivo natural de comprar numa fase inicial em que não é obrigatório ter. Muitas pessoas sugerem que à semelhança de como já foi obrigatório ter um extintor no carro, o Kit Faraday deveria ser obrigatório em meses quentes. Eu discordo completamente e sempre estarei contra essa medida. O Kit Faraday não deve ser tornado obrigatório, deve sim ser altamente incentivado por preços muito acessíveis em que tanto o Estado, como o produtor (Faraday GO) assumem a pressão financeira. Neste momento o Estado tem mais margem do que nós. O consumidor individual não é como uma agência para combate a incêndios. O consumidor individual só paga o que pode pagar e não o que tem de ser. Os kits estiveram com um preço de lançamento de 29,95 euros já com IVA, no entanto o preço vai subir já este mês.

O Kit Faraday não deve ser tornado obrigatório, deve sim ser altamente incentivado por preços muito acessíveis em que tanto o Estado, como o produtor assumem a pressão financeiraO objetivo é que seja acessível a todas as pessoas?

O objetivo da empresa é democratizar a proteção individual contra incêndios para todo e qualquer cidadão. Levá-la à porta do senhor Meireles em Freixo de Espada à Cinta ou à porta da senhora Joaquina em Rabo de Peixe.

E aos profissionais que atuam no combate aos incêndios?

Não desenvolvemos produtos focados nos profissionais (ainda que estes também sejam nossos clientes), pois estes não precisam de nós, já têm uma indústria muito madura, muito desenvolvida a quem recorrer.

Este kit teria sido capaz de salvar as pessoas que morreram na EN236-1?

Defendo que poderia ter salvo vidas, nunca de todas as vítimas, nunca mesmo, mas de algumas. No entanto é impossível dizer ao certo números. Pedrogão foi uma aberração. Pedrogão é um caso de estudo internacional. O Kit Faraday apesar de um excelente produto, não é mão divina, é algo terreno e por isso com limitações, tal como um cinto de segurança, capacete ou airbag.

Este kit poderia ter salvo vidas em Pedrógão, nunca de todas as vítimas, nunca mesmo, mas de algumas

Que entidades estão envolvidas na produção do kit?

Na produção do kit temos uma carteira de fornecedores internacionais que são alguns dos maiores players e aceitaram trabalhar connosco desde o início sem saberem muito bem o que esperar da iniciativa. Em Portugal agradecemos ao CITEVE por um trabalho excelente e uma interação muito simplificada.

E apoios financeiros?

Apoios financeiros apenas com o meu cartão de crédito, sendo que estamos para anunciar em breve uma ronda de financiamento com uma multinacional para fazer um stock considerável e poder fornecer em máximo de 48 horas, tanto ao cliente individual como ao coletivo.

A ideia é também exportar?

Já nos caíram encomendas de Espanha. O 'mindset' é sobretudo exportador claro, até para mitigar alguma sazonalidade inerente ao negócio em Portugal. Temos um plano de penetração geográfico para quatro anos, bem definido e consubstanciado com parceiros locais.

Quantos kits já foram vendidos ou pré-reservados?

Reservados na ordem de grandeza de três dígitos, em negociação na ordem dos cinco dígitos.

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