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"Não vamos ter alternativa se não reduzir o consumo de carne"

Daqui a uma década, vamos comer menos e melhor, mas vamos ser mais felizes à mesa. Esta não é uma mera opinião, é o resultado de um estudo sobre tendências agroalimentares para 2027, do IPAM. Para já, ficam alguns sérios alertas, nomeadamente sobre os gases efeito de estufa que os animais de grande porte libertam. "Isto é dramático! Os países e as economias desenvolvidas vão ter de reduzir o consumo de carne", vaticina Rui Rosa, coordenador do estudo.

"Não vamos ter alternativa se não reduzir o consumo de carne"
Notícias ao Minuto

08:45 - 05/11/18 por Melissa Lopes 

País Alimentação

Quantas e quantas vezes já pensou ‘se soubesse o que sei hoje', lamentando a impossibilidade de voltar atrás no tempo com o conhecimento que tem hoje?

Pois bem, no que toca à forma como nos alimentamos, os próximos dez anos vão ser uma espécie de regresso ao passado mas com muito mais consciência e informação sobre os alimentos. Quem o assume é Rui Rosa, especialista em indústria agroalimentar que liderou o estudo sobre as tendências do consumidor português para 2017.

No futuro próximo, o consumidor português vai ser “muito mais consciencioso” do e no ato da compra, da escolha que faz do ponto de vista alimentar, não só do ponto de vista nutricional e naquilo que diz respeito à sua saúde, mas também do ponto de vista do impacto ambiental e climático que essas opções têm.

A origem do alimento é um atributo que o consumidor passará a ter em conta. E quando se fala em origem, está implícito o local, o produtor e a matéria-prima, explica Rui Rosa.

Na próxima década, os portugueses vão ter mais atenção a estes aspetos do que propriamente nas promoções das grandes marcas. 

"Os próprios fogos são consequência de uma má opção alimentar"

O especialista não tem dúvidas (poucos as têm) de que o ritmo acelerado em que vivemos contribui para as alterações climáticas que já são visíveis, com temperaturas extremas, estações do ano trocadas e fenómenos climatéricos que já acontecem com alguma frequência. “Os próprios fogos são uma consequência, também, de uma má opção alimentar”, atirou, em conversa com o Notícias ao Minuto, elucidando que o exagero para o qual se caminhou, a nível alimentar, contribui para o aumento do efeito de estufa e, consequentemente, para as alterações do clima.

Em 2027, o consumidor vai ser “mais informado” e “menos iletrado”, ao ponto de deixar de comprar alimentos apenas pelo preço e/ou influenciado pela comunicação das grandes indústrias o convencem a ter determinados comportamentos. “O consumidor já se questiona, é mais habilitado a perceber o impacto da compra do produto alimentar em todas as componentes: social, ambiental e económica”, refere Rui Rosa.

Quer isso dizer que não nos vamos importar de pagar mais para comer melhor? “Vamos pagar mais e consumir menos”, responde, para de seguida concretizar que “o consumidor vai ter de reduzir o consumo per capita”. E vai fazê-lo por duas vias: por um lado, pela redução do desperdício alimentar, por outro, “vamos alimentar-nos em menor quantidade, mas em melhor qualidade”.

E é aqui que entram os produtos biológicos. Se hoje em dia o consumo destes alimentos per capita ronda os 4,5 euros (o que representa um volume de negócios, em Portugal, de 45 milhões de euros), em 2027, esse consumo vai mais do que duplicar, situando-se nos 10, 11 euros per capita. Atualmente, lembra o especialista, 90% dos produtos biológicos são importados, pelo que “Portugal tem aqui um caminho enorme do ponto de vista agrícola para fazer crescer este segmento com produtos nacionais”.

Até porque, o consumidor da próxima década vai valorizar a origem do produto. Ou seja, entre “ter à mesa do pequeno almoço uma manga ou uma papaia que circulou milhares de quilómetros, que não é do nosso território, ou ter outras frutas, com muita riqueza também, e que são nacionais, que privilegiam o produtor nacional, fixam pessoas no território e que criam biodiversidade”, o consumidor, mais consciencioso, vai preferir a última.

Verdade acima de tudo 

Do estudo em causa também se conclui que o consumidor português “quer, mais do que tudo, que lhe falem a verdade” e, lembrando que nos últimos 50 anos os governos, em Portugal, desejaram tornar a alimentação mais barata possível, o especialista lamenta que as políticas governamentais tenham ido "atrás das economias de escala, tentando fazer uma réplica daquilo que foi a revolução industrial”, onde faltou verdade.

Neste momento, apesar de o conhecimento sobre o alimento, a sua origem e as matérias-primas ter aumentado, a verdade é que há todo um caminho a percorrer. “Portugal tem um caminho enorme também para consciencializar, do ponto de vista das políticas agroalimentares e florestais, o consumidor e o cidadão para uma cidadania alimentar”, avisa.

Na hora da compra, o português já exige e “já percebeu que não podemos continuar a ter os mesmos consumos”. E isso passa, inevitavelmente, por reduzir o consumo de carne, o que não é nenhuma novidade.

“Não vamos ter alternativa. Os gases efeito de estufa que os animais de grande porte, nomeadamente os bovinos, quer seja para leite, quer seja para produção de carne, é algo dramático”, assinala, destacando o facto de a indústria da pecuária contribuir mais para as alterações climatéricas do que o setor dos transportes".

"Isto é dramático!  Os países e as economias desenvolvidas vão ter de reduzir o consumo de carne", reforça, ressalvando que tal não significa que se deva parar de consumir carne, até porque Portugal tem raças autóctones que devem ser protegidas e valorizadas.

A  chave está no equilíbrio:  "O mundo animal tem que conviver com o mundo digital e é esse o equilíbrio do ecossistema (...) Não podemos é supervalorizar o consumo da carne como a única fonte de proteína animal, temos compensações no campo da proteína vegetal". As alternativas que vão emergir, e que de resto já fazem parte da alimentação em alguns países, passam pelo consumo de insetos. Portanto, não se espante quando, nos menus dos restaurantes, lhe surgirem ingredientes como larvas e grilos, de forma direta ou indireta, em bolachas e snacks. 

"Não vamos deixar de comer animais, evidentemente, mas vamos ter de reduzir o que desperdiçamos, reduzir o que consumimos per capita, e, portanto, reequilibrar a nossa dieta alimentar sem ferir o gosto e a felicidade à mesa", resume Rui Rosa.

'Slow food' e a felicidade à mesa

Pode não parecer, para já, com vidas a mil à hora e com tantas distrações, mas em 2027 vamos valorizar mais o estar à mesa, o alimento, quem o produz, vamos valorizar, no fundo, a gastronomia regional portuguesa como um património a ser registado na UNESCO de uma gastronomia com influências mediterrânicas mas também atlânticas. "Temos de saber tirar partido disso". 

E é aqui que surge o conceito ou movimento 'slow food', que segue num carril distinto e oposto ao do fast food. Slow food significa valorizar as refeições, respeitar o alimento, a origem, os povos que o produzem.

"É, no fundo, recuperar e proteger um património histórico e milenar que as povoações têm e que se foi perdendo tudo no caminho das economias de escala, de uma agroindústria que se tornou numa monocultura devastando a biodiversidade do planeta, quer vegetais quer animais". Um exemplo da devastação da biodiversidade, referido por Rui Rosa, é o caso da banana, o fruto mais antigo do mundo e que há meio século tinha mais de 100 variedades mas que hoje vê 96% do seu comércio reduzido a duas variedades. 

"Está em causa aqui uma soberania alimentar, a felicidade alimentar, as opções de escolha", sublinha, considerando o modelo de uma economia competitiva, limitando espécies e opções, "faliu" e "trouxe-nos infelicidade à mesa". 

O 'slow food', explica, parte do território e das pessoas e assenta em três princípios: o alimento deve ser bom (prazer, felicidade, aspetos sensoriais e saúde), limpo (modos de produção, indústria, distribuição e consumo) e justo (políticas governamentais, economia agroalimentar, culturas e tradições).

Além disso, baseia-se numa filosofia agroalimentar, de espiritualidade e conhecimento do alimento. Em última instância, "é um regresso ao passado com mais consciência, com mais informação e com mais tecnologia que nos permite perceber que o meio faz o homem e o meio faz o alimento". E, admitamos, nos últimos tempos, temos estragado o meio e o homem.

O estudo em números

  • 86,1% dos especialistas consideram que as políticas governamentais deverão conseguir reduzir o desperdício alimentar em 15% e 84,7% acreditam que o consumo per capita de produtos biológicos aumentará para 10 euros;
  • 88,6% destes especialistas preveem ainda a inclusão da gastronomia regional portuguesa na reserva gastronómica mundial;
  • Em termos de produção associada ao conceito limpo, o crescimento da agricultura sintrópica (sistema que respeita o equilíbrio e preservação de energia no ambiente) e dos produtos de excelência é identificado por 87,5% dos especialistas como uma forte tendência. Enquanto, relativamente à indústria e distribuição, 86% afirma que o canal Horeca (setor da restauração e hotelaria) português apostará na certificação 'slow food';
  • No conceito bom, associado ao prazer e felicidade, a Portuguese Confort Food [refeições de conforto] passará a estar incluída na opção de menu de acordo com 86,4%. Já no que diz respeito à saúde, as embalagens privilegiarão informação clara e objetiva sobre o grau de dependência que o produto pode provocar, garantem 81,5% dos especialistas.;   
  • Na filosofia agroalimentar e socialização, a promoção e valorização da figura de 'gastrónomo regional' será uma realidade para 86% assim como a maior valorização do 'estar à mesa' relativamente à tecnologia como eixo educacional geracional, de acordo com 78,2%;

  • Em relação à espiritualidade, 78,9% preveem que será considerado o jejum, ramadão e outras práticas ancestrais vistas mais como opção de purificação do corpo e da alma. A verdade agroalimentar possível com base na cocriação é outra tendência indicada por 80,6% dos especialistas, no âmbito da filosofia agroalimentar e do conhecimento.

Referir por fim que o estudo foi coordenado por Rui Rosa Dias, Mafalda Nogueira e Sandra Gomes, professores e investigadores do IPAM que desafiaram os 24 especialistas do setor académico, público e privado, nomeadamente investigadores, professores, jornalistas, ex-governantes, empresários e chefes de cozinha, entre outros.

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