A polícia grega aceitou finalmente, na terça-feira, dar acomodação temporária a um grupo de refugiados sírios presos há cerca de um mês numa ilhota perto do rio Evros, completamente infestada de cobras e escorpiões.
O grupo, de cerca de 40 pessoas, viu o seu pedido de asilo ser recusado tanto pela Turquia como pela Grécia. Durante a espera, uma criança, Maria, de apenas cinco anos, acabou por morrer depois de uma picada mortífera de um escorpião - informação confirmada pela Amnistia Internacional e pelo The Guardian. A irmã, de nove anos, encontra-se gravemente doente, acrescenta o jornal britânico.
O ministro das migrações da Grécia, Notis Mitarachi, afirmou na terça que o governo ia tentar recuperar o corpo de Maria.
Através do Twitter, a Amnistia Internacional mostrou alívio pelo facto de o grupo se encontrar em segurança na Grécia, mas lamentou a morte da criança e recordou que "pedir asilo é um direito humano".
Ystdy, Greek police located refugees including a pregnant woman & 7 children in Evros
— amnestypress (@amnestypress) August 16, 2022
The had been stranded for days btw #Greece & #Turkey
One baby reportedly died last week
The @RESCUEorg & other organisations & called for their immediate evacuation https://t.co/qyg7bvnH1F https://t.co/5Nq9QoJCpm pic.twitter.com/DdJETkKyl7
Em comunicado, a diretora de política europeia do Internacional Rescue Comittee (uma das maiores organizações não-governamentais de defesa dos direitos dos refugiados), Niamh Nic Carthaigh, afirmou que o que ocorreu na ilhota no rio Evros é "um jogo político de irresponsabilidade nojenta", e considerou que os refugiados estão a sofrer e a morrer devido à política de rejeição de refugiados da União Europeia (UE).
Já Dimitra Kalogeropoulou, diretora da instituição na Grécia, afirmou que o atraso no acolhimento do grupo de sírios "realça a brutalidade das rejeições, que sabemos que estão a ter lugar por toda a Europa".
Baida Al-Saleh, uma das refugiadas do grupo, foi documentando a viagem com as poucas condições de que dispunha. Ao The Guardian, contou que o grupo chegou à ilhota (localizada mesmo em cima da fronteira terrestre entre a Grécia e a Turquia) no dia 14 de julho, mas foram obrigados a recuar até à Turquia, quando o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos rejeitou a sua permanência.
We got this msg fm the Syrian refugee who was stuck with 38 others on a Greek islet. They’re now on the mainland with a sick child and a pregnant woman who’s bleeding. They called for help but were told the police not an ambulance wld respond. More @Channel4News tonight pic.twitter.com/sTMsVL6FzO
— Lindsey Hilsum (@lindseyhilsum) August 15, 2022
No início de agosto, estavam de volta à ilhota e foram sobrevivendo bebendo água do rio e comendo milho e folhas. "Eles estão a tratar-nos como animais", disse a mulher de 27 anos, numa mensagem de voz gravada na semana passada.
Grupos de ativistas foram pressionados ambos os governos que desde 2015 disputam entre si o número de refugiados a acolher. A Turquia é a principal 'ponte' terrestre entre o Médio Oriente e a Europa, levando a que muitos refugiados a fugir de conflitos armados (especialmente na Síria e o Iémen) usem a fronteira turca para chegar à Europa; por outro lado, a Grécia e a Itália afirmam que não têm mais condições nem fundos para acolher refugiados. Os campos nos dois países continuam a encher-se de migrantes que procuram asilo na Europa, tornando-se em graves focos de crises humanitárias e de condições humanas paupérrimas.
Neste caso em particular, a Grécia foi recusando assistência, argumentando que a pequena ilhota pertencia à Turquia. Já as autoridades turcas alegam que foram procurar o grupo a 10 de agosto, mas não encontraram ninguém.
No entanto, jornalistas e advogados em contacto com os migrantes desmentem as autoridades nacionais, garantindo que o grupo estava no local. Giorgos Christides, do Der Spiegel, acrescenta que os refugiados foram ameaçados à mão armada por militares turcos, e obrigados a entrar de novo no rio.
!! SOS Update #εβρος:
— Giorgos Christides (@g_christides) August 15, 2022
1/ The group of 39 Syrians at the islet is now 100% on Greek territory.
They crossed over to the Greek bank of the river today.
They are now at this location according to metadata from their photos. pic.twitter.com/9WEIwWJnuP
O grupo finalmente chegou a território (oficialmente) grego, utilizando um barco deixado por outros refugiados. A bordo ia também uma mulher grávida, de nove meses.
As organizações não-governamentais, como a Amnistia Internacional e o Internacional Rescue Comittee, acusam a União Europeia de ser hipócrita nas suas mensagens de acolhimento e promessas de fundos para receber migrantes provenientes do Mediterrânea, enquanto as autoridades gregas e italianas rejeitam constantemente embarcações de requerentes de asilo.
Segundo a lei europeia, os migrantes intercetados pela Frontex (a agência europeia de proteção de fronteiras) devem ser levados para o porto mais próximo, e não para o porto europeu mais próximo. Esta mudança de prática tem levado a uma maior proximidade entre as autoridades europeias e governos no Norte de África, nomeadamente com o da Líbia, e várias ONG apontam o dedo à União Europeia por ajudar a financiar centros de detenção onde autoridades líbias praticam tortura contra refugiados que tentam chegar à Europa.
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