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Myanmar: Militares continuam sem controlar o país 100 dias após o golpe

Os militares birmaneses continuam sem controlar um país imerso em greves, protestos, confrontos com a guerrilha e isolamento internacional, 100 dias após o golpe de 01 de fevereiro que depôs o Governo de Aung San Suu Kyi.

Myanmar: Militares continuam sem controlar o país 100 dias após o golpe
Notícias ao Minuto

17:32 - 11/05/21 por Lusa

Mundo Myanmar

Os militares justificaram o levantamento, que pôs fim a um processo democrático que tinham admitido há uma década, por alegada fraude eleitoral nas eleições de novembro passado, quando foi atribuída uma vitória clara ao partido de Aung San Suu Kyi, como tinha sucedido em 2015, indica a agência noticiosa Efe.

O golpe arrastou o país para uma vaga de violência e uma rejeição generalizada da população contra a junta militar no poder, num contexto económico à beira do colapso.

"A junta não conseguiu assumir o controlo de muitas estruturas civis críticas, e de instituições. Sem isso, não pode controlar o país. O golpe do Tatmadaw [Exército] falhou", consideraram em 21 de abril Laetitia van den Assum e Kobsak Chutikul, dois embaixadores e peritos na situação de Myanmar, num artigo publicado no Bangkok Post e intitulado "Quando admitir que o golpe falhou?".

A reação da população foi imediata. Dias após o levantamento, uma vaga de protestos contra a junta militar iniciada nas principais cidades estendeu-se a todo o país, com a população a recusar um regresso aos dias obscuros dos regimes militares que controlaram Myanmar com punho de ferro durante cinco décadas.

A brutal repressão das forças de segurança não impediu que prosseguissem, nos últimos três meses, protestos quase diários e concentrações por todo o país.

Segundo o último relatório publicado pela Associação para a Assistência de Presos Políticos (AAPP), cerca de 5.000 pessoas foram detidas desde o golpe de Estado e 781 foram mortas pelas forças de segurança, que disparam a matar contra os manifestantes e torturam os detidos.

A rejeição face aos militares impulsionou um movimento de desobediência civil que conseguiu, através de greves, parar hospitais, encerrar bancos e paralisar a administração pública e outros setores.

Os cidadãos deixaram de pagar as faturas da luz, impostos, ou adquirir produtos vinculados a empresas estatais.

"Os militares podem encarcerar os políticos eleitos, matar civis nos protestos, mas sem o povo birmanês o país não pode funcionar", assegurou à Efe a ativista Khin Sandar, que calcula em 90% a adesão às greves.

A violência das forças de segurança e o movimento de contestação colocou a economia do país em estado de coma. As previsões das agências de notificação referem-se a um colapso e a uma queda do produto interno bruto (PIB) até 20%.

Um inquérito efetuado entre dez câmaras de comércio estrangeiras em Myanmar revela que o golpe de Estado motivou nos dois primeiros meses um maior impacto na economia que o da pandemia em todo o ano de 2020, e que 40% das empresas com mais de 200 trabalhadores preveem o despedimento de metade dos seus efetivos em 2021.

Por sua vez, um estudo do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) assinalou em finais de abril que a atual crise económica implicará que mais de metade das crianças birmanesas vivam na pobreza dentro de um ano, e que a pobreza urbana triplique.

As poderosas Forças Armadas birmanesas previam que os cerca de grupos armados que representam as minorias étnicas do país, cerca de 30% da população total (cerca de 54 milhões de habitantes) e que operam ao longo das fronteiras, apoiassem o golpe, mas defrontou-se com uma forte rejeição.

A maioria destas organizações armadas manifestou o seu apoio ao movimento de desobediência civil, e que implicou o recrudescimento dos confrontos com o exército, um dos maiores do mundo.

Por sua vez, o designado Governo de Unidade Nacional, composto por representantes, ativistas e membros das minorias étnicas contrárias à junta, anunciou na semana passada a formação da Força de Defesa do Povo, uma decisão prévia à criação de um futuro Exército federal.

"Julgo ser significativo o que está a suceder e, de facto, pode implicar um desafio para o Tatmadaw, não necessariamente como uma força de combate no terreno, mas como uma ideia na formação de uma nova Birmânia", assegurou David Brenner, especialista em conflitos na Universidade de Sussex, Reino Unido.

O especialista na luta das guerrilhas birmanesas considerou que a formação destas novas forças armadas pode contribuir para a fragmentação das Forças Armadas, "proporcionando um incentivo para a deserção e um lugar para os soldados desertores".

Enquanto os problemas se agravam no interior das suas fronteiras, a junta militar também não conseguiu o apoio dos principais países e instâncias internacionais, que seguiram as imagens das forças de segurança a disparar a matar contra os manifestantes em protestos pacíficos e impuseram sanções contra diversos responsáveis militares e empresas relacionadas com o regime.

Sem qualquer país disposto a reconhecer publicamente a junta militar como Governo legítimo face às violências contra o seu próprio povo, o maior feito para os militares foi a presença do general golpista Min Aung Hlain na reunião com os seus parceiros da Associação das Nações do Sudeste Asiático (ASEAN), que não o receberam como líder do país.

Mesmo os países mais permissivos com as violações de direitos humanos, como a Rússia e a China, tentaram demarcar-se das violências exercidas contra os civis, apesar de terem evitado que o Conselho Geral da ONU -- o organismo com capacidade para impor sanções ou aprovar o uso da força -- atue contra os generais golpistas.

Leia Também: Tailândia quer "solução humanitária" para jornalistas birmaneses detidos

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