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Dez anos depois, vítimas da revolução tunisina ainda esperam justiça

Moslem Kasdallah, 31 anos, perdeu uma perna em confrontos com a polícia da Tunísia pouco depois da partida do ditador Ben Ali, mas 10 anos depois ainda luta para ser oficialmente reconhecido como vítima da revolução de 2011.

Dez anos depois, vítimas da revolução tunisina ainda esperam justiça
Notícias ao Minuto

08:24 - 13/01/21 por Lusa

Mundo Tunísia

Nesse ano, a 14 de janeiro, Zine el Abidine Ben Ali é expulso do poder após 23 anos à frente do país e vários dias de manifestações pacíficas exigindo "liberdade, trabalho, dignidade nacional".

Várias centenas de pessoas foram mortas ou feridas em confrontos entre as forças de segurança e os contestatários que ocorreram nas semanas anteriores à sua fuga e nas que se seguiram.

Em 2012, um balanço provisório das autoridades deu conta de 338 mortos e 2.147 feridos. Em outubro de 2019, o Alto Comité para os Direitos Humanos tunisino publicou no seu 'site' uma lista de 129 pessoas mortas e de 634 feridas.

Mas as vítimas aguardam ainda a publicação de uma lista definitiva no Diário da República e a sua dificuldade em obterem reconhecimento oficial e indemnização ilustra as desilusões da transição, entre a instabilidade política e a falta de reformas.

Kasdallah foi ferido pela polícia quando patrulhava com o comité do seu bairro nos subúrbios de Monastir (centro). Estes comités foram constituídos na Tunísia face às incertezas e rumores de vinganças após a partida de Ben Ali.

Dez anos e 32 operações mais tarde, este trabalhador à jorna diz estar pronto a "sacrificar-se" novamente para que os direitos das vítimas sejam reconhecidos.

Esperando, mas sem grande esperança, que o 10.º aniversário da revolução na quinta-feira seja ocasião para o reconhecimento da sua condição de vítima, algumas dezenas de pessoas ocuparam há duas semanas as instalações do organismo governamental responsável pelo caso.

Os feridos, que não tiveram o tratamento necessário por falta de meios, continuam a sofrer, outros morreram.

"Alguns precisam de operações, de uma prótese", explica Kasdallah, para quem é o reconhecimento da existência de uma revolução contra um regime policial que está em jogo.

"Demos o nosso sangue para escrever a história e a história deve ser escrita hoje aplicando a lei e publicando a lista" das vítimas, sublinha.

As autoridades justificam o atraso com a instabilidade política: a Tunísia teve nove governos em 10 anos.

O dossier é sensível devido a "receios dos serviços de segurança" e a "protestos" dos excluídos da lista, explica à agência France Presse Abderrazak Kilani, presidente da assembleia-geral dos mártires e feridos da revolução.

Lamia Farhani, advogada e presidente da associação "Fiéis", que apoia vítimas e familiares, sublinha a "falta (de) vontade política", nomeadamente dos Ministérios do Interior e da Defesa.

Para alguns o reconhecimento de vítimas implica o reconhecimento "penal" dos carraços.

Farhani, que perdeu o irmão, apela a que seja feita justiça para garantir uma "verdadeira reconciliação".

Até agora foram poucos os responsáveis pela repressão que prestaram contas. Alguns estão na polícia ou no exército.

Criada em 2014 para fazer justiça às vítimas das ditaduras, a comissão Verdade e Dignidade realizou investigações a assassínios, violações, exílios forçados.

Apesar da hostilidade das autoridades, que recusaram o acesso aos arquivos do Ministério do Interior, dezenas de julgamentos foram iniciados desde 2018 em tribunais especiais, vários dos quais por assassínio de manifestantes em 2011.

Mas ainda não foi emitido qualquer veredicto e o processo de justiça de transição está cada vez mais difícil com o regresso de figuras do antigo regime aos círculos do poder.

"A revolução não estará concluída enquanto os que dispararam sobre nós não forem punidos", considera Rached Larbi, 30 anos, paralisado após ter sido atingido a tiro pela polícia perto de Tunes a 13 de janeiro de 2011.

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