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Reprodução a mais pode levar espécies à extinção (e sim, o tamanho conta)

As espécies que investem muito na reprodução poderão extinguir-se mais rapidamente, sugere um estudo que analisou minúsculos crustáceos do período cretáceo e concluiu que os que tinham pénis maiores sobreviveram menos.

Reprodução a mais pode levar espécies à extinção (e sim, o tamanho conta)
Notícias ao Minuto

09:15 - 17/04/18 por Lusa

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O estudo, publicado na revista Nature, da responsabilidade de cientistas e colaboradores do Museu Nacional de História Natural (do Instituto Smithsonian, em Washington), concluiu que dedicar muita energia à competição por parceiros pode comprometer a resistência da espécie às mudanças e aumentar o risco de extinção.

Pelo menos tal aconteceu com os ostracodes, crustáceos de poucos milímetros que ainda hoje existem e que já existiam há 500 milhões de anos. São semelhantes a camarões e vivem em conchas e os antepassados foram preservados em registo fóssil, o que permitiu o estudo dos investigadores.

Os ostracodes machos são mais longos do que as fêmeas e têm grandes órgãos sexuais, devendo produzir mais espermatozoides, sendo que quanto maiores mais sucesso na reprodução deveriam ter.

A equipa liderada por Gene Hunt, paleontólogo do Museu Nacional de História Natural, estudou milhares de fósseis e concluiu que esse sucesso sexual implicaria gastar muita energia na competição, o que a longo prazo poderia pôr em causa a espécie. As espécies com maior dismorfismo sexual (características físicas muito diferentes entre machos e fêmeas) podem correr maior risco de extinção? Os responsáveis pelo estudo são cautelosos, dizem que sim para os crustáceos em causa mas recusam uma generalização.

O dismorfismo é visível por exemplo nos pavões (o macho com cauda vistosa) ou nos faisões, nos leões ou nos veados e em muitas espécies de aves. Mas estudos com essas espécies dão resultados ambíguos e este foi o primeiro estudo com fósseis, como explicou hoje à Lusa a investigadora Maria João Fernandes Martins, uma portuguesa envolvida no estudo.

"Trabalhámos com um grupo muito particular, extrapolar para outros não é correto. Mas o estudo alerta que vale a pena investigar mais a fundo", explicou à lusa a partir de Washington, precisando: "não podemos extrapolar, mas se calhar é mais comum do que se julga".

E aplicado ao ser humano? A investigadora nega. O ser humano, explica, é muito mais complexo e há muitas variáveis na escolha do parceiro, pode prevalecer por exemplo o ter dinheiro, a estabilidade económica e não o interesse genético.

Certo e comprovado é que nos ostracodes, de que foram estudadas 93 espécies, há uma relação entre a extinção e o tamanho do pénis. Os investigadores examinaram mais de 6.000 indivíduos, que terão vivido há entre 85 a 65 milhões de anos. Com base nas camadas geológicas onde foram encontrados concluiu-se que umas espécies viveram praticamente os 20 milhões de anos, outras apenas algumas centenas de milhar. As dos machos maiores e com maiores pénis.

Mas segundo a investigadora, e embora os dados sejam ainda preliminares, essa relação não aconteceu apenas no período cretáceo.

"Com o fim do cretáceo o mundo alterou-se, os dinossauros extinguiram-se, quisemos comparar uma época normal com uma de convulsões e o papel do investimento reprodutivo", disse.

Por isso o foco da investigadora é agora o período do paleoceno, de há 50 milhões de anos. E garante: "parece haver uma concordância entre os dois períodos, os machos que mais investem na reprodução podem estar a prejudicar a espécie".

Em períodos muito distintos, os machos com maiores pénis eram de espécies que mais rapidamente se extinguiram. "Pela primeira vez provámos que a seleção sexual pode estar ligada à preservação das espécies", salientou Maria João Martins.

Essa é a grande importância do estudo. E embora não se possa generalizar a investigadora dá o exemplo do pavão. Assim: "O pavão atrai mais predadores mas vai ter mais filhos. Mas a longo prazo este investimento na cauda, se o mundo muda, pode ter um custo para a população. Porque é um grande investimento para atrair a fêmea".

O estudo, uma experiência "extraordinária" nas palavras de Maria João Martins, começou há mais de cinco anos e envolve paleontólogos, biólogos e geólogos. E permitiu a Gene Hunt divulgar a ideia partilhada por cientistas de que a energia que machos gastam para atrair as fêmeas pode limitar a sobrevivência, especialmente em situações de grandes mudanças, como a alterações climáticas.

E admitir que espécies com forte dismorfismo sexual poderão correr maior risco de extinção. Aconteceu com os ostracodes, não se sabe se com outras espécies porque na maioria dos casos os cientistas não podem dizer a partir de um fóssil se o animal era macho ou fêmea. E muito menos o tamanho do pénis.

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