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Catherine L'Ecuyer: "Declaro guerra à indústria dos conselhos embalados"

Onde anda a intuição paternal e maternal dos que buscam nos livros truques para lidar com os seus filhos? Falamos com Catherine L’Ecuyer, autora do livro ‘Educar na Curiosidade’, sobre a sua teoria educativa.

Catherine L'Ecuyer: "Declaro guerra à indústria dos conselhos embalados"

Os pais desconectaram-se da sua sensibilidade e intuição paternal, procuram nos livros truques para lidar com os filhos e na ânsia de ter filhos mais inteligentes e desenvolvidos estão a matar-lhes a curiosidade.

Catherine L’Ecuyer, canadiana radicada em Barcelona, esteve em Portugal para apresentar o seu novo livro, “Educar na Curiosidade” (editora Planeta), e o Lifestyle ao Minuto teve a oportunidade de falar com a autora sobre a sua teoria educativa.

O que é a curiosidade?

Traduzimos para curiosidade, mas em castelhano diz-se ‘asombro’. É muito difícil de traduzir, porque não é surpresa nem curiosidade, nem fascínio. No entanto, curiosidade é o termo que mais se aproxima. O ‘asombro’ é não dar nada por garantido. Quer dizer que nos ‘asombramos’ ou nos surpreendemos porque algo é mas podia não ser. É agradecer a realidade, é abertura perante o real. É um pensamento filosófico. Segundo Tomas de Aquino é ver tudo como um presente. Na sua definição é o desejo para conhecer.

E que importância tem a curiosidade ou o ‘asombro’ no desenvolvimento das crianças?

Muita importância, porque todas as crianças nascem com esse desejo de conhecer. Então isto quer dizer que não é preciso sobrestimular a criança tanto de fora para dentro. O que importa é mesmo respeitar a criança e permitir-lhe estar rodeada de um ambiente que respeite o seu desejo de conhecer e dar-lhe oportunidades de chegar a conhecer.

Por exemplo, não é preciso pôr a criança em frente à televisão a ser bombardeada por luzes, cores, ruídos intermitentes e frenéticos. Se a pusermos num ambiente tranquilo sem estímulo a criança põe-se a gatinhar e descobre. Por exemplo se há um botão, a criança naturalmente vai lá e carrega, não é preciso dizer-lhe que há um botão para carregar. As crianças têm uma atração irresistível perante tudo o que está ao seu redor. O desejo de conhecer é um motor na aprendizagem e é inato.

O que acontece quando os pais tentam estimular as crianças demasiado cedo?

Quando sobrestimulamos uma criança, cortamos-lhe o ‘asombro’, a curiosidade, porque a criança em vez de descobrir por si só, deixa que a estimulem, tornando-se passiva. Depois a criança começa a procurar a sobrestimulação. Dependendo da sobrestimulação, pode até gerar adição, fazendo com as crianças necessitem de mais coisas e de mais rapidez nos conteúdos audiovisuais porque procuram novas sensações. A criança deixa de descobrir e quando as coisas são lentas, aborrece-se. O mundo real é lento, e é por isso que as crianças estão aborrecidas.

Que podemos fazer para reverter esta tendência?

Voltar a baixar os ritmos e ter cuidado para rodear a criança de ritmos que são adequados à sua etapa da infância. Quando são muito pequenas precisam de um ritmo muito lento, precisam de silêncio.

A Academia Americana de Pediatria recomenda que as crianças com menos de dois anos não olhem para nenhum ecrã. De facto os estudos associam o consumo audiovisual nesta primeira etapa à diminuição do vocabulário, desatenção e impulsividade. Porquê? As crianças têm ritmos muito lentos e quando são acostumadas a ritmos mais rápidos, ao voltar ao mundo lento são desatentas. Isto também porque estas crianças tão pequenas (até aos 3 anos) não aprendem através de um ecrã. Aprendem mais através de uma demonstração ao vivo do que através da mesma demonstração mas virtual. As crianças aprendem através das relações interpessoais, precisam disso para aprender.

Há a ideia de que quanto mais se estimula a criança, mais inteligente e desenvolvida será. Isto é um mito?

Isto é um erro, é um neuromito. É uma má interpretação da literatura da neurociência aplicada ao âmbito da educação. Por exemplo, mais é melhor. Não é verdade, mais não é melhor, porque as crianças precisam de uma quantidade mínima de estímulos e de um ambiente normal.

Outro neuromito é o de que dos 0 a 3 anos as crianças precisam de um ambiente enriquecido porque estão a atravessar um período crítico para o seu desenvolvimento. Isto não é verdade, o que diz a neurociência é que não existem períodos críticos, só existem períodos sensitivos – dos que fala Maria Montessori. São períodos em que é mais fácil aprender algo, mas não é crítico.

Se não aprendemos alguma coisa com dois anos podemos aprendê-la com três, quatro, dez ou 70. Há que dar tempo à criança, dar tempo para cada coisa e não tentar adiantar a aprendizagem.

Quando adiantamos a aprendizagem estamos a tirar tempo à criança para fazer coisas que seriam melhores para o seu bom desenvolvimento.

Por exemplo Dimitri Christakis, autor que cito no meu livro, é um especialista no efeito dos ecrãs, e fala do ‘efeito deslocamento’. O efeito deslocamento é pensar não só se é bom ou mau uma criança estar em frente a um ecrã, mas questionar o que é que esta criança está a deixar de fazer enquanto está em frente ao ecrã. Está a deixar de fazer muitas coisas que são muito melhores para o seu bom desenvolvimento. Como por exemplo desenvolver relações interpessoais.

É preciso rodear a criança de um ambiente belo que lhe dê oportunidades para descobrir, dar-lhe tempo e estar com ela. A partir daí a criança aprende sozinha.

No seu livro fala de modelos mecanicistas de educação. Considera que os sistemas de educação pública são modelos mecanicistas?

Seria injusto dizer isto sem conhecer todos os sistemas de educação de todos os países. No meu livro tento destacar os erros do que seria um sistema mecanicista.

O sistema mecanicista é um erro porque pensa que a criança é um cubo vazio no qual vamos deitando coisas. Os pais e os professores dos sistemas condutistas ou mecanicistas têm toda a educação e vão dando-a às crianças como se deitassem coisas num cubo vazio. A realidade é muito diferente porque a criança é um ser livre e aberto que tem esse desejo de conhecer e o papel dos pais na etapa infantil é acompanhar a criança nessa descoberta. Isso não quer dizer que não seja preciso impor limites, mas dar-lhe liberdade e espaço.

Os pais podem explicar às crianças, mas há que perceber que a aprendizagem não é algo mecânico, é muito mais complexo do que isso.

Que impacto tem este tipo de educação nas crianças?

Estes sistemas consideram a criança uma entidade passiva e não ativa, então passamos a mensagem de que o ponto de controlo desde o qual a criança controla as suas ações é externo, que a criança não tem desejos, não pode desejar, aprender, conhecer.

Queremos crianças que achem que são passivas? Não, não queremos isto.

Devemos procurar mais motivações internas e menos externas. Por exemplo, o castigo e a recompensa são alavancas de motivação externas, por isso a criança quando reage a um castigo ou a uma recompensa é uma ente passiva, reage a um estimulo externo. Se pelo contrário ajudamos a criança a encontrar motivos para avançar, ela torna-se numa ente ativa, protagonista da sua educação. Já dizia Platão que educar é ajudar a desejar o belo.

O que pensa das novas correntes educativas?

A educação não é verdadeira porque é inovadora, a educação é inovadora porque é verdadeira. Ou seja, porque responde à realidade do que é uma criança, porque dá resposta ao que necessita. Antes de seguirmos todas as modas educativas é preciso perguntar-nos se estas respondem realmente a como é a criança, como aprende, de que precisa. Em definitivo, à sua natureza.

Reforço a importância de adaptar a educação por etapa. Por exemplo, na etapa infantil as crianças como ainda não desenvolveram o pensamento abstrato aprendem através dos cinco sentidos. Portanto, nesta etapa não faz sentido fazer mapas concetuais, fazer fichas, usar o tablet, aprender através do ecrã. O que faz sentido é que toquem, que cheirem, que sintam, que experimentem e que aprendam através do jogo livre. Em outras etapas ainda já não é assim.

Pode dar alguns conselhos finais para os pais?

Que os pais tentem não seguir nenhum. Declaro guerra à indústria dos conselhos empacotados. Aos autores que têm livros que explicam e dão conselhos sobre o que é preciso fazer para conseguir que a criança obedeça, durma e coma. Na realidade isto está na intuição maternal e paternal de cada mãe e pai, que são os que conhecem os seus filhos. Por isso o que têm de fazer se querem conseguir essas respostas, que são distintas em cada caso, em cada criança, em cada lar, é estar muito tempo com a criança para reconectar com essa sensibilidade paternal que têm.

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