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Eles espalham alegria! Mas como é vestir a pele de um doutor palhaço?

O Notícias ao Minuto foi conhecer a história de duas doutoras palhaço da Operação Nariz Vermelho. Falam do amor à profissão, do trabalho em dupla e de episódios que as marcaram.

Eles espalham alegria! Mas como é vestir a pele de um doutor palhaço?
Notícias ao Minuto

09:00 - 26/10/23 por Ana Rita Rebelo

País Entrevista

A equipa de doutores palhaços da Operação Nariz Vermelho (ONV), fundada em junho de 2002, por Beatriz Quintella, 'receita' sorrisos há duas décadas a pessoas com poucos motivos para sorrir, como é o caso de muitas crianças hospitalizadas, das suas famílias e cuidadores. São palhaços profissionais cuja missão é nunca deixar a alegria faltar onde ela é mais precisa, num contexto pesado, de doença e angústia.

Atualmente, a equipa é constituída por 33 doutores, responsáveis por garantir, todos os anos, visitas semanais a mais de 53 mil crianças em 17 hospitais. Margarida Fernandes é a extravagante Dra. Francesinha, licenciada em Medicina espetacular e doutorada na especialidade de dores-com-nomes-parvos. Tem 48 anos, é do Porto, licenciou-se em ciências da comunicação e, mais tarde, tirou formação em teatro/interpretação. É doutora palhaça há cerca de uma década.

A outra metade desta dupla é Marta de Carvalho, de 37 anos. Estudou no Chapitô e não tardou muito até apaixonar-se pela arte do palhaço. Na ala pediátrica de alguns hospitais dá pelo nome de Super Dra. Ginjação, uma especialista em ukuleloterapiafinada.

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Porque é que decidiram juntar-se à equipa de doutores palhaços da ONV?

Margarida Fernandes (MF): No meu caso, era um objetivo pessoal aliar a arte do palhaço com um propósito social e humanitário. Conhecia organizações que faziam este trabalho a nível internacional, em diversos contextos, e quando abriram audições para a ONV, em 2011, concorri e passei a integrar a equipa.

Notícias ao Minuto Margarida Fernandes é a Dra. Francesinha.© Operação Nariz Vermelho.

Marta de Carvalho (MdC): E eu apaixonei-me pela técnica do palhaço quando fui visitar uma prima que estava internada num serviço pediátrico e vi um desenho na parede com a famosa frase do Michael Christensen, o fundador da profissão doutor palhaço, que diz: "Hospital não é lugar para palhaços, mas também não é para crianças". Esta visita ao hospital e esta frase mexeram muito comigo e, nesse momento, soube que, mais cedo ou mais tarde, queria fazer este trabalho. Diria mesmo que foi um golpe de sorte entrar para a ONV.

Ao contrário do que algumas pessoas possam pensar, um doutor palhaço tem formação especializada no meio hospitalar e trabalha em estreita colaboração com os profissionais de saúde. Como funciona?

MF: Para integrar a equipa da ONV é preciso ter formação prévia e experiência de artes de palco. Depois, como em todas as profissões especializadas, é necessária uma manutenção constante das ferramentas de trabalho e um aprofundar de conhecimentos. É por isso que fazemos treinos bimensais com toda equipa. A que visita os hospitais a Norte reúne-se no Porto e a que cobre a área da Grande Lisboa reúne-se na sede da ONV, em Lisboa. Dada a especificidade do trabalho, do contexto hospitalar e do perfil que exigem, o trabalho é profissional e remunerado, de forma a assegurar a excelência e continuidade que as crianças merecem.

Trabalham sempre em dupla?

MdC: Sim, sempre! A dupla permite que o jogo seja autónomo e que a criança possa escolher qual a posição que quer ter: pode ser só espetadora ou ser a protagonista, mas a decisão é sempre sua. 

Por uns meros minutos que sejam, aquelas crianças e os seus cuidadores conseguem 'sair' do hospital

É difícil arrancar um sorriso a uma criança doente?

MF: Depende muito. Na verdade, nós não estamos no hospital para 'arrancar sorrisos'. O sorriso é uma consequência da alegria desse encontro e ligação que se estabelece com a criança, mas a nossa prioridade é criar uma relação e um jogo saudável, deixando a porta aberta para o sorriso acontecer ou não.

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São sempre bem recebidos pelas crianças, pais e profissionais de saúde?

MdC: Tendencialmente, sim. Existe muita abertura, curiosidade e expetativa com a nossa presença e trabalho. Acima de tudo, respeitamos sempre a criança e se nos quer ou não receber. Pode acontecer que um 'não' se transforme mais tarde em 'sim', mas sempre a partir da relação de respeito e de empoderamento da criança.

Há alguma história que vos tenha marcado?

MdC: Existem muitas histórias que nos marcam, quer com as crianças, quer com as famílias. Uma criança que encontramos várias vezes no hospital é a Alice, de 10 anos, que nos dá sempre lições de palhaço. Houve um dia em que fingiu que não estava a conseguir falar e fazia um ar tristíssimo. Fez com que nós ficássemos verdadeiramente preocupados com ela, até que se desmanchou a rir e a falar. Estava só a meter-se connosco!

Notícias ao Minuto Marta de Carvalho veste a pele da Super Dra. Ginjação.© Operação Nariz Vermelho.

MF: O João, um menino de três anos, internado no Hospital Pediátrico de Coimbra, espera os doutores palhaço sempre com um ukulele de plástico. Ele imita a nossa atuação e segue-nos pelo corredor. Com ele não somos uma dupla, mas um trio.

Como foi durante a pandemia, quando deixaram de poder visitar os hospitais?

MdC: Durante os primeiros tempos de pandemia criámos a TV ONV, no nosso canal de YouTube, em que disponibilizámos vídeos sobre os doutores palhaços no seu ambiente doméstico, já que também eles estavam confinados. O canal permitiu-nos chegar às crianças que continuavam nos hospitais, mas também a muitas outras que estavam a experienciar um tipo de 'internamento' diferente. Os episódios ainda estão disponíveis. Mais tarde, tivemos o projeto Palhaços na Linha, em que uma dupla de doutores palhaços atendia virtualmente as crianças hospitalizadas em consultas por Zoom, com a ajuda de um profissional do hospital que transportava um tablet preso a um carrinho de soro.

Enquanto num teatro as pessoas vão voluntariamente, ninguém está num hospital dessa forma. É preciso estar muito sensível a este contexto e ao estado anímico da nossa audiência

O que é que consideram mais gratificante no vosso trabalho?

MF: Sentir que transformamos o ambiente e que, por uns meros minutos que sejam, aquelas crianças e os seus cuidadores conseguem 'sair' do hospital.

Quais os desafios com que são confrontados?

MdC: São tantos... O ambiente hospitalar é propício a desafios e a própria premissa do nosso trabalho de improvisação a cada encontro também. Mas também é esta abertura, em que cada encontro é único e irrepetível, que torna a nossa interação tão especial e também muito exigente e desafiante. Há muita coisa a ter em conta a cada momento, muitas regras que não podem ser quebradas e outras que têm mesmo de ser quebradas. Enquanto num teatro as pessoas vão voluntariamente, ninguém está num hospital dessa forma. É preciso estar muito sensível a este contexto e ao estado anímico da nossa audiência.

Como é que se pode apoiar a ONV?

MdC: Existem muitas formas. Temos, por exemplo, a consignação do IRS, que representa uma importante fatia do nosso orçamento, pois há cada vez mais pessoas a aderir a esta forma de ser solidário que não tem quaisquer custos. Quem nos quiser apoiar também pode tornar-se dador regular. Já as empresas podem apoiar-nos com donativos ou através da compra de produtos artísticos (workshops, ações de teambuilding, etcétera) ou dos produtos da nossa loja online. Podem também fazer donativos pontuais por MBWay ou ainda tornar-se associados da nossa causa. É importante divulgar o nosso trabalho e consciencializar o público em geral de que o que nós fazemos é levar a arte dos doutores palhaços ao hospital, ou seja, é humanização através da arte.

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