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Risco de AVC aumenta em quase oito vezes após uma gripe

A propósito do Dia Nacional do Doente com AVC, que se assinala nesta quinta-feira, 31 de março, falámos com Elsa Azevedo, diretora do serviço de Neurologia do Centro Hospitalar Universitário de São João, no Porto.

Risco de AVC aumenta em quase oito vezes após uma gripe

O impacto da gripe é real. Em todo o globo, as epidemias anuais de gripe provocam entre três a cinco milhões de casos de doença grave e 250 a 650 mil mortes por ano. E ninguém está livre de risco. Mesmo em pessoas saudáveis, a probabilidade de ocorrência de um acidente vascular cerebral (AVC) aumenta em quase oito vezes durante os três dias seguintes à infeção por gripe, afirma Elsa Azevedo, diretora do serviço de Neurologia do Centro Hospitalar Universitário de São João, no Porto.

Atualmente, o AVC é a principal causa de morte e incapacidade permanente em Portugal. Em entrevista ao Lifestyle ao Minuto, a especialista aponta que três portugueses sofrem um AVC a cada hora.

Elsa Azevedo apela, por isso, à imunização contra a gripe como uma estratégia preventiva. "Permite prevenir as consequências e complicações que podem advir da gripe, quer seja a nível respiratório, cardiovascular ou neurológico", diz.

Por hora, três portugueses sofrem um AVC

Resumidamente, do que se trata o AVC?

O AVC é uma doença que afeta o cérebro e, em Portugal, é a principal causa de morte e uma das principais causas de incapacidade no adulto. Por hora, três portugueses sofrem um AVC. As artérias são os canais que levam o sangue ao cérebro, com nutrientes e oxigénio. Se houver doença das pequenas ou das grandes artérias cerebrais, pode acontecer que uma tape (AVC isquémico) ou rebente (AVC hemorrágico), impedindo uma zona do cérebro de funcionar.  Conforme a zona cerebral afetada, a pessoa poderá deixar de falar, ou de mexer um lado do corpo, por exemplo. Também algumas doenças do coração podem levar a que se formem trombos que, pela circulação, tapam uma artéria cerebral, provocando os mesmos efeitos.

Notícias ao Minuto Elsa Azevedo

Quais são os fatores de risco para o AVC? 

O primeiro é a idade. Apesar de poder haver AVC em qualquer idade, o risco aumenta ao longo do tempo. Os fatores que mais vezes aumentam o risco de alguém vir a ter um AVC e que são preveníeis ou tratáveis, são a hipertensão arterial, fumar, ter colesterol alto, diabetes, algumas doenças cardíacas, placas ateroscleróticas nas artérias, levar uma vida sedentária e com alimentação desadequada, nomeadamente levando à obesidade.

E os mais desconhecidos?

São as doenças inflamatórias crónicas, as infeções, alguns cancros, a apneia do sono e alguns traumatismos na região do pescoço. 

O AVC é uma emergência médica e tem tratamento. É fundamental que os 3F sejam reconhecidos e que se ligue de imediato para o 112

Que sintomas podem indiciar um AVC? 

Em quase todos os AVC aparece, pelo menos, um dos três sinais de alerta conhecidos como os 3F: perturbação da fala (fala), desvio da face (face) e falta de força num braço (força).

Que outros sinais de alerta tendem a passar despercebidos, a ser confundidos ou até ignorados?

O AVC manifesta-se, por vezes, com sinais menos evidentes para terceiros, como perturbação visual ou sensitiva. Ou mesmo uma dor de cabeça muito intensa, que surge de um momento para o outro, sem causa evidente. Outras vezes, os sintomas são mal interpretados. Uma pessoa pode ficar subitamente com dificuldade em perceber as palavras, como se tivesse 'aterrado' num país de língua desconhecida (lesão na área da descodificação da linguagem), e por isso, responder de forma desencontrada ao que lhe perguntam, podendo parecer que está desorientado ou com demência. No entanto, a demência não surge de repente sem mais nem menos. Pode ser um AVC! 

Perante uma situação de AVC, que procedimentos devem ser adotados?

O AVC é uma emergência médica e tem tratamento. É fundamental que os 3F sejam reconhecidos e que se ligue de imediato para o 112. Se suspeitar que alguém à sua volta está a ter um AVC, peça para repetir uma frase, para sorrir com força e para levantar os braços, facilitando a identificação dos sinais de um possível AVC. Quanto mais cedo for tratado, nas primeiras horas, menor a probabilidade de ficar com deficiência pelo AVC no futuro. A chegada atempada à unidade hospitalar permitirá a realização de tratamentos que apenas são eficazes nas primeiras horas após o início do AVC, diminuindo em cerca de 30 a 50% a probabilidade de morte ou de incapacidade grave.

A chegada atempada à unidade hospitalar permitirá a realização de tratamentos nas primeiras horas, diminuindo em cerca de 30 a 50% a probabilidade de morte ou de incapacidade grave

Em que consiste o tratamento?

Cerca de 85% dos AVC são isquémicos. Se o doente chegar ao hospital nas primeiras horas após início dos sintomas pode tentar-se desobstruir a artéria e, por vezes, consegue-se uma recuperação completa ou parcial dos sintomas. Estes tratamentos de revascularização fazem-se por injeção de um medicamento trombolítico numa veia do braço, que tenta desfazer o trombo, ou, nos casos em que há uma grande artéria ocluída, tentar aceder-se por dentro da artéria ao local e puxar o trombo ou aspirá-lo para que saia (trombectomia). Isto faz-se por introdução de um cateter numa artéria, geralmente na região da virilha e que vai pela circulação até ao cérebro. De uma forma ou de outra, estes tratamentos procuram conseguir o desentupimento da artéria afetada, facilitando o acesso do sangue de novo ao cérebro.

Para que levem a alguma recuperação, os tratamentos devem ser feitos antes que a zona afetada do cérebro morra definitivamente. Só vão a tempo se forem efetuados nas primeiras horas após início dos sintomas, raramente sendo eficazes após as 4,5 a seis horas.

Por isso se diz que 'tempo é cérebro' e todos os minutos contam para se salvar o doente de uma incapacidade permanente. Para além das medidas agudas, como as referidas para tentar reabrir a artéria, no caso do AVC isquémico os doentes devem tomar um medicamento, como a aspirina, clopidogrel ou um anticoagulante, para tentar evitar a formação de trombos no coração ou nas artérias, geralmente para o resto da vida. De acordo com o caso, pode ter de ficar a tomar medicamento para baixar o colesterol, para tratar a hipertensão, a diabetes ou outras doenças. 

Que medidas preventivas podem ser adotadas?

Para diminuir o risco de ter um AVC, deverá controlar a tensão arterial (<140/90) e, se necessário, fazer medicação, análises regulares e tratar o que for necessário, nomeadamente colesterol alto ou diabetes, fazer exames ao coração e às artérias cerebrais e tratar algum problema encontrado, não fumar, comer pouco sal/gorduras/açúcares e fazer exercício físico, tentando ter um peso corporal normal. Pela sua saúde, mexa-se!

É importante ter avaliação médica regular, para se detetarem doenças que, para além de terem que ser tratadas para se resolverem ou diminuírem os sintomas, possam aumentar o risco de formação de trombos nas artérias, como inflamação crónica e, entre outros, cancro, ou aumentar a hipertensão, como a apneia do sono. Uma vez que muitas infeções se associam a aumento de risco de formação de trombos, devem ser tratadas atempadamente e, nos casos em haja essa possibilidade preventiva, se possível preceder-se à respetiva vacinação nas pessoas de maior risco – idosos ou com fatores de risco vascular. 

A imunização contra a gripe não previne apenas a gripe, mas também especificamente a ocorrência de um AVC como consequência da mesma

Qual a relação da gripe e do AVC? 

Muitas infeções ou estados inflamatórios prolongados aumentam a coagulação do sangue e a formação de trombos que podem obstruir artérias cerebrais e causar um AVC. Isso foi muito falado acerca da doença Covid-19, que, de facto, aumenta o risco de formação de trombos, mas também vale para a gripe. Este é um facto desconhecido por grande parte da população, no entanto, a verdade é que o risco de ocorrência de um AVC aumenta em quase oito vezes durante os três dias seguintes à infeção por gripe, mesmo em pessoas saudáveis.

O risco de AVC é maior em pessoas não vacinadas? 

A vacinação contra a gripe tem o potencial de prevenir casos de gripe, mas sobretudo de prevenir casos mais graves. Permite prevenir as consequências e complicações que podem advir da gripe, quer seja a nível respiratório, cardiovascular ou neurológico, pelo que constitui, por isso, uma prevenção para além da gripe.

É importante passar a mensagem de que a imunização contra a gripe não previne apenas a gripe, mas também especificamente a ocorrência de um AVC como consequência da mesma

O que revelam os dados disponíveis?

Apesar de ser desvalorizado pela população, o impacto da gripe é real. Anualmente, em todo o mundo, as epidemias de gripe provocam entre três a cinco milhões de casos de doença grave e 250 mil a 650 mil mortes. Por isso, é importante passar a mensagem de que a imunização contra a gripe não previne apenas a gripe, mas também especificamente a ocorrência de um AVC como consequência da mesma. Nas pessoas a partir dos 60/65 anos, muitas vezes a gripe não se manifesta com febres altas ou tosse, devido à imunossenescência (o processo de deterioração gradual do sistema imunológico decorrente do envelhecimento natural do organismo), fazendo com que a gripe se manifeste através de sintomas mais ambíguos como cansaço, confusão mental ou até uma queda, e continue a agravar o processo inflamatório no corpo, que, por vezes, culmina no AVC ou enfarte agudo do miocárdio. 

Leia Também: Quase 13 mil doentes internados em unidades de AVC em 2020

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