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"Gostava que lá fora conhecessem o 'pai' de Futre, Quaresma, Ronaldo..."

'Ver Para Crer' é o nome do livro que conta a história de Aurélio Pereira, o caça-talentos de futebol mais conhecido do país, descobriu alguns dos maiores nomes do desporto-rei nacional, como Paulo Futre, Luís Figo ou Cristiano Ronaldo.

"Gostava que lá fora conhecessem o 'pai' de Futre, Quaresma, Ronaldo..."

Quem é adepto de futebol em Portugal, dificilmente não ouviu falar de Aurélio Pereira. A história de um dos mais famosos olheiros do país está ligada ao Sporting, mas Aurélio Pereira é uma figura que ultrapassa a dimensão de um clube.

Uma história que, agora, estará para sempre imortalizada numa obra escrita pelo jornalista Rui Miguel Tovar que, em entrevista ao Desporto ao Minuto, falou sobre uma das pessoas mais emblemáticas do futebol em Portugal. 'Ver Para Crer' conta a história do 'senhor formação', desde a sua infância até aos dias de hoje, com muitas histórias até agora nunca reveladas.

Aurélio Pereira é único. Não só pelos nomes que descobriu, como Paulo Futre, Cristiano Ronaldo, Luís Figo, Rui Patrício, William, Litos, Luís Boa Morte, Dani ou Ricardo Quaresma, mas também pelos laços que criava com os jovens jogadores que 'apadrinhou'. Uma lista de nomes quase infindável, alguns deles parte de uma geração de ouro, que pela primeira vez ganhou um Europeu por Portugal. Como diz Rui Miguel Tovar, Aurélio Pereira, "sozinho, podia ser uma escola: uma espécie de Aurélio FC".

Nos moldes em que o mundo está, não vislumbro que possa existir outro Aurélio Pereira“Jantámos carne à jardineira e depois melão”, recordou Ronaldo, no dia em que jantou em casa do Sr. Aurélio quando soube que iria ficar no plantel principal do Sporting. Esta memória diz muito da importância de Aurélio Pereira na vida dos jovens jogadores, não é?

É determinante. Há jogadores com mais memória do que outros, e momentos mais importantes do que outros, mas esse é um momento que determina tudo o que se vai passar daí em diante e que marca uma carreira. O Aurélio foi um homem que acompanhou o Ronaldo em tudo, e esse acaba por ser um grande momento. O facto de haver essa combinação automática, esse jantar, é espetacular. ‘Vens para a equipa, vamos jantar e vamos festejar essa vitória’.

Mais do que um observador, o Aurélio Pereira era quase um segundo pai para os jovens jogadores?

Claro, sem dúvida. O facto de ajudar os miúdos com dinheiro também diz tudo. Não era só uma cara respeitada, não era só um treinador que percebia de futebol. Era, essencialmente, uma referência para eles todos, o Ronaldo, o Quaresma, o Futre… Era com o Aurélio que eles iam falar se estivessem com algum problema, fosse financeiro, fosse familiar. Em jeito de brincadeira, digo que sempre conheci muitas escolas de formação, o Ajax, o Auxerre… e, agora, pude conhecer a escola do Aurélio. Sozinho, ele podia ser uma escola, uma espécie de Aurélio FC. É um íman humano, sempre teve os jogadores de volta dele, e, sem puxar por eles, a verdade é que os jogadores o respeitavam e admiravam. Essa conjugação era brilhante e faz dele uma pessoa adorada e estimada pela maior parte dos jogadores.

  Notícias ao Minuto O campo principal de Alcochete dá pelo nome de Estádio Aurélio Pereira© Global Imagens  

Era precisamente isso que o Aurélio Pereira tinha de diferente? No final de contas, pouco se ouviu falar de outro caça-talentos no futebol desta forma.

Naquele tempo, no tempo das cartas, o Aurélio era um homem que tinha a maior parte dos jogadores ao seu lado. Porque entendia de futebol, era uma pessoa que falava ao coração dos jogadores e porque tinha uma capacidade humana para os fazer sentir em casa. E muitos eram de fora, como o Futre, o Litos, o Secretário… Todos eles se apoiavam no Aurélio, era como uma âncora. Esse lado humano é ainda mais bonito do que o lado técnico-tático do futebol. O Aurélio conseguiu agarrá-los através do seu saber e da sua bonomia.

Pode dizer-se que as academias em Portugal, como as conhecemos hoje, nasceram muito por ‘culpa’ de Aurélio Pereira?

Concordo, porque, a certa altura, o Aurélio tornou-se olheiro do Sporting. Ele foi olheiro do Carlos Queiroz para alguns jogadores como o Assis, o Ouattara, o Naybet ou o Afonso Martins. É contado no livro que ele foi ver o Afonso Martins ao Nancy e isso ‘abriu-lhe a cabeça’, porque o Nancy tinha um centro de estágio que era algo maravilhoso e impensável para Portugal nos anos 90. Por que não reproduzir isso cá? Na altura, os juvenis e os juniores do Sporting treinavam no mesmo campo e nem era relvado, era pelado. Eram tempos muito difíceis, não é como agora, que as condições para se ser futebolista são muito melhores. Por isso, ganhar dava muito mais prazer, até porque o Sporting não tinha as mesmas condições do que, por exemplo, o Benfica. Na altura do Roquette, com a venda do Hugo Viana ao Newcastle, é que se passou da teoria à pratica e nasceu a academia de Alcochete. Foi com o dinheiro da transferência do Hugo Viana… Mais um jogador que o Aurélio descobriu, na altura estava no Gil Vicente.

O Aurélio falou com o pai do Dani e, juntos, acertaram a transferência dele para o Sporting. Eu não tive essa sorte e acabei por ficar de férias em TróiaLogo na introdução, o Rui conta-nos como a sua história se cruza com o Aurélio Pereira. Quer desvendar-nos um pouco para quem ainda não sabe e ainda não comprou o livro?

Não tenho muita memória, mas o meu pai contava-me sempre várias vezes, até estava na dúvida se era verdade ou não… O primeiro contacto com o Aurélio foi em 1984, tinha sete anos e costumava ir de férias para Tróia com os meus pais, tal como o Dani [antigo jogador] ia com os pais dele. Então, naquele relvado que era ao pé do café e do mini-golfe, o Aurélio viu-nos jogar a todos e viu o Dani. Viu o potencial todo dele e percebeu que havia ali um grande talento. De facto, havia. Gostou do domínio de bola, do controlo, a bola parecia um íman nos pés do Dani. Então, falou com o pai do Dani e, juntos, acertaram a transferência dele para o Sporting. Eu não tive essa sorte e acabei por ficar só em Tróia, de férias. Na altura não me lembro, mas sempre preferi ser jornalista do que outra coisa, portanto o Dani seguiu a sua carreira com todo o seu brilhantismo e eu segui a minha carreira de jornalista, com muita tranquilidade. Mais tarde, o Aurélio confirmou-me que eu estava naquele mesmo treino, foi delicioso.

Foi fácil chegar ao nome deste livro [‘Ver para Crer’] ou ainda foi difícil esse processo?

O Aurélio tinha isso na cabeça há já muito tempo. Eu tinha sugerido ‘Olho Vivo’, mas a filha mais velha do Aurélio, a Mafalda, disse: "Olha, falei com o meu pai e ele disse-me 'Ver para Crer'". E assim ficou. "Ver para Crer" como São Tomé, que é uma das expressões do Aurélio, e que bate certo porque muitas vezes as pessoas diziam-lhe. ‘Aurélio tem de vir cá a Chaves ver este jogador’ ou ‘tem de vir a Marrazes ver este guarda-redes que é o Rui Patrício’. E ele ia ver para crer.

Notícias ao Minuto 'Ver Para Crer' está em qualquer livraria perto de si© Contraponto  
O Aurélio Pereira está, obviamente, ligado à história do Sporting. No entanto, este é um livro que o Rui aconselha a qualquer adepto de futebol?

Claro! Tenho até pena que seja um livro só em português. Gostava que fosse um livro internacional, porque acredito que, lá fora, gostassem de conhecer o ‘pai’ de todos estes jogadores como o Futre, o Figo, o Quaresma, o Ronaldo… É daquelas situações ingratas de ser português. Se fosse espanhol ou inglês, teria mais leitores e, se calhar, era muito mais global. Adoraria que passasse fronteiras, porque o Aurélio merece todo o reconhecimento, apesar de já ter recebido uma medalha de condecoração da UEFA, em 2016, depois da vitória de Portugal no Euro’2016. Isso fica na história, mas gostaria que o adepto, e não só a UEFA, conhecesse o Aurélio, que, como eu disse há bocado, é quase um clube de formação - era estimulante, não só para ele, mas também para o futebol português.

O Cristiano Ronaldo já se referiu a Aurélio Pereira como o Cristiano Ronaldo dos observadores. Concorda?

Não há ninguém como o Aurélio Pereira, nem em Portugal, nem talvez no mundo. Gostava que alguém lá fora, se calhar, me dissesse assim: ‘Olha há aí um tipo que da seleção holandesa de 74 descobriu uns seis jogadores’, era interessante porque não sei se isso aconteceu ou não. O Aurélio atravessou gerações e sempre se manteve desperto, atento e professor. Contou sempre também com o apoio das famílias, porque, como ele conta no livro, o que contou sempre no final era a resposta da mãe, ele estava sempre a olhar para a mãe nas conversas, porque ele sabia que as mães dos jogadores eram quem tinha a última palavra. Era uma pessoa única.

O futebol modernizou-se por força do tempo. Acredita que figuras como o Aurélio Pereira deixarão de existir, também pela globalização?

Para mim, é impossível existir outra pessoa assim. Não estou a ver… Era preciso que o mundo voltasse para trás. Nos moldes em que o mundo está, não vislumbro que possa existir outro Aurélio Pereira. O próprio futebol mudou e é muito mais difícil, mas também é preciso enaltecer a figura do Aurélio Pereira. É impossível haver alguém assim nos dias de hoje.

O princípio de uma taquicardia de Ronaldo aos 14 anos ou os 30 escudos dados todos os dias a Paulo Futre são algumas das histórias mais marcantes deste livro. Quer partilhar connosco qual a sua favorita?

Aquilo que mais me cativou foi aquilo que eu desconhecia. Sabia quem era o Aurélio, ou julgava que sabia, e passei depois a saber que não sabia nada ou muito pouco. Fiquei muito espantado com aquilo que ele conseguiu antes de chegar ao Sporting. A carreira de jogador, não sabia que ele tinha sido capitão do Sporting, não sabia que ele tinha jogado nos juniores e que tinha treinado no INATEL. Essas histórias foram muito engraçadas de ouvir porque dava um gozo enorme. Eram outros tempos… e era giro ouvi-lo descrever esses tempos do Fofó, do INATEL. Até mesmo quando era miúdo e ouvia o relato do hóquei em patins na janela dos vizinhos, quando ia aos jogos de futebol e pedia ajuda às pessoas para entrar no estádio. Também foi giro de saber que o pai não aceitava de ânimo leve que ele e o irmão, o Carlos Pereira, fossem jogadores de futebol. As dos jogadores, eu já conhecia mais ou menos, agora, as histórias de vida, foram as que mais me fascinaram, sem dúvida.

Leia Também: Paulo Futre, Varandas e Mourinho elogiam legado de Aurélio Pereira

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