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"O Benfica não tem ninguém com essa mística do clube"

Depois da eliminação das competições europeias, o Desporto ao Minuto procurou saber junto de uma antiga glória encarnada o que poderá fazer o clube da Luz até final da temporada.

"O Benfica não tem ninguém com essa mística do clube"

A eliminação da Liga Europa frente ao Arsenal deixou o Benfica a lutar apenas por duas frentes, numa temporada que está a correr muito abaixo das expectativas no clube da Luz.

Depois de um investimento de muitos milhões de euros em reforços no verão passado, e que se refletiu no aumento brutal do passivo conhecido esta semana, esperava-se um Benfica a lutar por todas as frentes em que estava incluído, mas a verdade é que o clube encarnado, tal como Jorge Jesus prometeu, não está a arrasar nem a jogar a triplicar.

A liderança do campeonato está a uns longínquos 16 pontos de distância, e para chegar à final da Taça de Portugal é preciso ultrapassar na próxima semana o Estoril-Praia, sem contar com a derrota na Supertaça e nas meias-finais da Taça da Liga e a já distante eliminação na terceira pré-eliminatória da Liga dos Campeões em Salónica, na Grécia, frente ao PAOK, na altura orientado por Abel Ferreira, hoje treinador dos brasileiros do Palmeiras.

Perante uma época abaixo das altas expectativas criadas por muitos adeptos e sócios do Benfica no início da temporada, o Desporto ao Minuto partiu para a conversa com António Simões, que fez um balanço da época do clube da Luz.

O antigo jogador e dirigente dos encarnados diz ser tempo de reflexão no Benfica e não de procurar culpados pela situação em que o clube está, considerando ainda que as palavras de Jorge Jesus na sua cerimónia de apresentação, em julho passado, foram exageradas.

É preciso assumir erros que se cometeram

"Falou-se desnecessariamente em promessas que o futebol às vezes não deixa cumprir. Essas declarações [que a equipa iria jogar a triplicar] eram desnecessárias e agora têm um preço de ouvir a crítica. Todos cometemos erros, mas temos de ter o encaixe de perceber que há gente que tem a legitimidade de criticar. Uma crítica pode não ser maldosa. Neste caso concreto, há uma mistura de descontentamento com tristeza porque as coisas não correram bem. Agora, é preciso assumir erros que se cometeram", começou por dizer o também antigo internacional português, prosseguindo:

"A humildade pertence aos inteligentes. Um clube como o Benfica, que tem uma paixão e emoção muito grandes, ouve e cria expectativas que saem completamente goradas, as pessoas ficam desapontadas. O que é grave é não perceber que os outros têm razão."

António Simões disse ainda em conversa com o Desporto ao Minuto que o clube tem de, neste momento, criar condições para que se possa terminar a época de uma forma positiva, pedindo também a quem erro no planeamento da temporada que assuma as suas responsabilidades.

"Pelas expectativas e pelo investimento que se fez, há muito benfiquista que criou muitas expectativas superiores àquilo que está acontecer, e essa fatia está descontente. Não vale a pena dizer que 'eu não sou o culpado e o outro é que é'. São todos culpados, todos têm a sua quota de responsabilidade. O que têm de fazer é juntar toda essa responsabilidade e assumirem. Ao mesmo tempo, é preciso criar condições para fazer melhor até ao fim. Não é safar a época. Ficar em segundo lugar não safa nada, apenas contraria o caminho que percorreu até agora e inverte-o", vincou.

"É preciso transmitir confiança e não procurar culpados porque todos são culpados, e sobretudo reconhecer que se cometeu erros. Todos cometem erros, é preciso é assumi-los. Têm de percorrer o caminho que falta melhorando o que foi feito até agora. Não custa nada dar a cara e confrontar as contrariedades. Se o futebol fosse só ganhar eu ainda estava lá. Os sócios têm o direito de saber o que se passa", atirou a antiga glória dos encarnados, relembrando ainda que o Benfica tem uma "história que tem de ser respeitada".

Têm de se sentar e refletir para se perceber o que não correu bem

"Tem de haver memória. O Benfica não pode perder a sua identidade apenas porque tem uma época péssima. Ainda estão a tempo de que ela não seja considerada péssima e é para aí que todos têm de se virar. É preciso respeitar a história. Em vez de encontrar culpados, é preciso olhar para a história e respeitá-la", salientou.

Depois de uma campanha europeia que considera que poderia ter sido melhor, António Simões fala em algumas "incoerências e até contradições", e pede que se una a paixão dos sócios e adeptos do clube ao facto de o futebol, nos dias que correm, se estar a tornar num negócio, ressalvando que não se podem esquecer as raízes do clube.

"Houve aí um período bom com sete vitórias e depois o Benfica acabou por cair num buraco. Existiram algumas incoerências e até contradições, as expectativas que se criaram e não correram bem, como é o caso da eliminação na Liga dos Campeões. Há que fazer história e lembrar do que aconteceu. Têm de se sentar e refletir para se perceber o que não correu bem e que não se deve repetir. O Benfica tem características e raízes muito ligadas à paixão e emoção e é preciso ter cuidado com isso. Não se pode esquecer a paixão dos sócios pelo clube. É preciso fazer uma combinação entre o facto do futebol se estar a tornar um negócio e não se esquecer a paixão dos sócios pelo clube. É esta a questão que deve ser discutida", sublinhou.

Benfica jogou com 11 estrangeiros de início [com o Farense]. Ficamos com a sensação de que o Seixal acabou.

António Simões considera ainda estranho o desinvestimento que foi feito na formação encarnada, e aponta o exemplo de sucesso do Sporting, que lidera o campeonato nacional com uma equipa recheada de jovens provenientes de Alcochete.

"O Benfica não tem ninguém com essa mística do clube. No jogo antes da segunda mão com o Arsenal [com o Farense] jogou com 11 estrangeiros [no onze inicial]. Até ficamos com a sensação de que o Seixal acabou. Mas não acabou, terá de continuar a ser o grande alimento. Isso é algo que tem de ser ajustado porque de um momento para o outro desapareceu tudo. Essa é outra reflexão que deve ser feita porque a filosofia do clube não pode desaparecer dessa maneira", afirmou Simões.

O clube não pode perder esse ADN [da formação]

Sobre a formação, o antigo futebolista pede que não se esqueça aquele que é o ADN do clube da Luz e que muitos jogadores já lançou na equipa principal.

"No Benfica desinvestiu-se na formação, ao contrário do que aconteceu este ano no Sporting. Tudo começou no desinvestimento na época em que se poderia ter conquistado o pentacampeonato e agora parece que o Seixal desapareceu. É preciso perceber o que aconteceu daí para cá. O Benfica é discutir, é ser livre. Fomos sempre um clube de autocrítica em que os sócios nas assembleias se discutia seriamente quem mandava. O clube não pode perder esse ADN. Acho que está no momento de as pessoas discutirem livremente o que é preciso ser feito e mudado. Ninguém morre por isso. Quem lá está tem de ser explicativo. É preciso iniciativa dos principais responsáveis, que é quem lá está, e sem medo. Se estão todos de consciência tranquila não têm de ter medo de nada", sustentou.

Luís Filipe Vieira tem de ser o primeiro a falar

António Simões criticou ainda a ausência de uma posição pública de Luís Filipe Vieira sobre este mau momento do Benfica, situação que vai ser quebrada este domingo com uma entrevista do presidente encarnado a propósito do 117.º aniversário do clube da Luz.

"Claro que sim. Perderam-se oportunidades para falar e a sensação que fica é que há medo de falar. Falaram o Rui Costa e o Jorge Jesus a substituí-lo. O presidente não pode ser substituído, tem de ser o primeiro a falar. Luís Filipe Vieira que aproveite o aniversário e fale mais de qualquer coisa. Os benfiquistas estão ansiosos, não estão a perceber o que se está a passar. Isso acontece em qualquer lado. Não há que criar fantasmas. As pessoas têm de ser intelectualmente honestas e falar a verdade a quem faz muito sacrifício para ser sócio do clube. Eles têm o direito de fazer isso, e do outro lado têm o dever de o fazer. Esse é o meu Benfica, embora esta visão possa desagradar. Eu não vivo para ter razão, mas para ser feliz, e eu só posso ser feliz se o Benfica ganhar", vincou António Simões.

Questionado sobre a dupla eliminação da Liga dos Campeões e Liga Europa na corrente temporada põe em causa o projeto europeu de Luís Filipe Vieira, António Simões diz que Jorge Jesus é um treinador competente, mas volta a insistir na necessidade de uma reflexão profunda no clube da Luz.

"Pode conseguir ser campeão europeu no segundo ano. Ele falou no início do ano que ia jogar a triplicar e isso não sucedeu. Mas isto pode acontecer. Na outra vez disse que ia jogar a dobrar e conseguiu-o. Ninguém põe em causa a competência dele. A questão é o critério da escolha do dinheiro que se gastou e aí parece-me que há incoerência. Houve alguma falta de critério e é preciso discutir sobre isso. E tem de ser discutido entre o treinador, o presidente e a estrutura. É preciso sentarem-se, falar e emendar o que foi feito até agora porque não deu resultado", sentenciou.

Leia Também: Jesus foi à Grécia jogar continuidade na Europa e deixou milhões no banco

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