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"Está a ser feito um caminho para recuperar um Sporting com pés e cabeça"

Em entrevista ao Desporto ao Minuto, Alexandre Santos, ex-treinador da equipa de sub-23 do Sporting, diz acreditar no trabalho levado a cabo por Frederico Varandas. O atual adjunto de Rui Almeida no Caen recorda, ainda, a derrota na final da Taça de Portugal pelo FC Porto como o mais marcante momento da carreira.

"Está a ser feito um caminho para recuperar um Sporting com pés e cabeça"
Notícias ao Minuto

08:04 - 22/08/19 por Carlos Pereira Fernandes 

Desporto Alexandre Santos

Aos 42 anos, Alexandre Santos vive aquela que é a sua quinta experiência no estrangeiro. Depois de passagens pela seleção da Arábia Saudita, pelo Al-Wahda, pelo Al-Ahly e pelo Al-Sharjah, sempre como ‘braço direito’ de José Peseiro, o lisboeta ocupa, agora, o cargo de adjunto do Caen, ao lado do também português Rui Almeida.

Para trás fica uma larga carreira feita nos mais variados escalões do futebol português, que arrancou no Alhandra Sporting Club, em 1994, quando tinha apenas 18 anos, e que culminou no comando da equipa de sub-23 do Sporting, onde sucedeu a Tiago Fernandes.

Numa entrevista exclusiva ao Desporto ao Minuto, o treinador de 42 anos recordou as dificuldades pelas quais passou nas camadas jovens do Alverca, imediatamente após Luís Filipe Vieira deixar o cargo de presidente da SAD, assim como o momento mais marcante da carreira, que ocorreu em 2016, no banco do FC Porto.

Alexandre Santos discute, ainda, as vicissitudes da comunicação social desportiva em Portugal, assim como a constante “dor de cabeça” que são os pais na formação dos clubes, com o exemplo bem concreto… do próprio pai.

Ver um jogo de futebol e desabafar contra o árbitro, o treinador ou os jogadores serve como catarse

Começo por lhe pedir que me satisfaça uma curiosidade pessoal. Afinal, um treinador de futebol é ou não imune àquilo que se diz na comunicação social?

A minha experiência pessoal ao mais alto nível mediático foi quando estive com o José Peseiro no Sporting de Braga e, especialmente, no FC Porto. Mesmo o Sporting de Braga sendo um clube muito grande, o impacto da comunicação social quando se está no FC Porto, no Sporting ou no Benfica é substancialmente maior. Há duas questões. Uma é no trabalho diário e naquilo que é a forma de pensar o jogo e a equipa, e acho que aí a comunicação social não influencia. Na maior parte das vezes, não há tempo nenhum para, por exemplo, ver as horas e horas de programas nas televisões.

Passa-lhe, então, ao lado?

Às vezes sim, o que também é bom, porque, na verdade, essa influência também tem que ser regulada pelo próprio treinador. Se o treinador às tantas se deixa influenciar por tanta coisa que é dita, fica completamente sem a capacidade e a lucidez necessárias para decidir por si próprio. Os treinadores na alta competição acabam por ter muito menos noção de tudo o que se passa à sua volta na comunicação social do que, muitas das vezes, outro tipo de pessoa, como as que consomem os jornais ou os programas de televisão.

Então não faz sentido falar da pressão criada sobre um treinador?

Um treinador não tem, muitas das vezes, a noção concreta disso. Nesta profissão, sabemos perfeitamente que, quando se ganha, a pressão é uma e, quando se perde, é outra, e isso faz parte. Mas eu acho que é importante perceber o que se passa na comunicação social, daí ter assessores de imprensa e pessoas que dão algumas informações do que é passado na comunicação social. Toda a gente sabe que, a qualquer coisa negativa, vai sempre haver muita gente a desconfiar, e o contrário também.

Normalmente, o treinador, quando chega a esse tipo de circunstâncias, está muito bem preparado para não sentir que isso é um problema, até porque em todos os clubes há vários problemas internos que têm que ser resolvidos por um treinador. Se vai ainda adotar os problemas externos que vêm da comunicação, por pessoas que não estão dentro da estrutura... Os treinadores estão cada vez mais preparados, mas o que se vê muitas das vezes é a influência de fora feita pela comunicação social nas pessoas que estão dentro da estrutura.

Os responsáveis dos clubes são mais suscetíveis a isso?

Aí já acredito que seja mais influenciável. Os diretores e os presidentes são, muitas vezes, influenciados pelas pessoas que, na comunicação social, vão falando e supondo. Como o saudoso presidente Pimenta Machado dizia, 'O que hoje é verdade, amanhã é mentira'. Uma lógica muitas vezes repetida na comunicação social torna-se, por vezes, quase numa verdade para muita gente que está dentro dos clubes. Aí acho que influencia mais o treinador. Não é por via direta, é por via indireta.

E os jogadores, não se deixam influenciar também?

Neste momento, já existem boas estruturas de assessoria de imprensa dentro dos clubes. O último clube em que trabalhei, o Sporting, trabalhava a esse nível. E estamos a falar de sub-23, nem é da equipa A. Existem trabalhos que são feitos a esse nível, quanto ao que os jogadores devem expressar, como se expressar, a mensagem do coletivo e individual... Estavam a ser muito bem feitas, por parte da direção do Sporting, algumas entrevistas e trabalhos com os jornalistas para que alguns jogadores e temáticas fossem do interesse da comunicação social. Acho muito importante, e acho que a comunicação social não deve ser vista como o lobo mau ou algo de negativo para o jogador e para a equipa, até porque, neste momento, consegue muitas vezes obter informações sem contactar com as pessoas que estão ligadas à equipa.

Disse que, muitas vezes, um treinador não consegue acompanhar tudo o que se passa. Mas sente que, em Portugal, há bons comentadores desportivos?

O que vejo, geralmente, é que há grandes diferenças, até ideológicas, de análises. Há pessoas que, efetivamente, contribuem para que o espectador perceba melhor o que acontece dentro do jogo. Tenho amigos que trabalham nessa área e que, ainda o jogo não está a decorrer, e já recolheram inúmeras informações à volta da equipa. Podemos dizer que são os bons comentadores. E há alguns outros que não, que comentam sem saber e fazem análises e afirmações sem qualquer tipo de substância nem veracidade. Ainda por cima, se olharmos para a maior parte dos programas de televisão numa lógica clubística, em que o que se pretende é confusão, com uns a chamarem nomes aos outros, a gritarem... Como treinador, ver isso é uma absoluta perda de tempo e uma diminuição da nossa capacidade.

Costuma dizer-se que, em cada adepto, há um treinador de bancada. Custa-lhe mais lidar com o que vem das bancadas ou com o que vem da comunicação social?

Em Portugal temos, felizmente, o futebol como a primeira modalidade, em que, mesmo não tendo tantos como gostaríamos nos estádios, os adeptos têm direito à sua opinião, porque fazem parte do espetáculo. Veem e fazem a sua análise. É verdade que, muitas vezes, fazem-no de forma pouco calma e a descarregar para cima dos jogadores e dos treinadores aquelas frustrações têm de tantos anos de trabalho em coisas que não gostam... Ver um jogo de futebol e desabafar contra o árbitro, o treinador ou os jogadores serve como catarse. É muito mais difícil para um treinador ouvir quem segue o futebol, como são os comentadores ou os jornalistas, que deveriam ser conhecedores do que se está a passar.

Hoje em dia, os pais pagam as atividades dos miúdos, o que promove uma maior reinvidicação

Começou a carreira de treinador bem jovem...

O primeiro clube em que fui treinador oficialmente foi o Alhandra Sporting Club, que foi um clube onde já tinha estado enquanto jogador. Estive lá dois anos, e depois estive dez anos seguidos no Alverca. Em termos efetivos e reais, é no Alhandra que começo, mas efetivamente o clube onde sustento todo o meu crescimento é o Alverca.

E porquê tão cedo?

Joguei futebol nas camadas jovens, e depois, quando cheguei ao último ano de júnior, entrei na Faculdade de Motricidade Humana, em Lisboa, já não era tão fácil jogar. Mas a verdade é que sentia que aquilo que fazia como jogador não era suficientemente bom para vir a ser profissional, a não ser que fosse para aquilo que estava já muito vocacionado, que era vir a ser treinador. Daí ter procurado o curso de Educação Física e Desporto, que era aquele típico curso para ser professor de Educação Física, treinador ou o que fosse relacionado com a área do desporto. Acabei por fazer tudo ao mesmo tempo. Iniciei o curso na faculdade, fiz o curso de primeiro nível logo nesse ano, em 1994, e, simultaneamente, deixei de ser jogador e passei a ser treinador no Alhandra Sporting Club.

Foi fácil abdicar da carreira de jogador para abraçar a de treinador?

Entendi que, em vez de andar a jogar, tinha mais futuro enquanto treinador, e acabei por sê-lo com 18 anos, o que é muito cedo. Depois, acabei por nunca exercer a profissão de professor de Educação Física porque, quando acabei a faculdade, já estava no Alverca. Fui, sim, professor na Escola Superior de Desporto de Rio Maior. Fui professor-assistente do José Peseiro, é aí que começa a minha relação com ele. Acabo o curso em 1999, na altura era treinador dos juvenis do Alverca, e treinei várias camadas, até chegar aos júniores, onde disputei o campeonato nacional, sempre a apurarmo-nos para as últimas fases.

Uma fase única do clube...

Foi no melhor momento da história do Alverca. Felizmente, tive a sorte de passar por lá naquela altura, em que o Alverca estava na I Liga, em que havia o Mantorras, em que o Luís Filipe Vieira era o presidente, em que o José Couceiro era administrador, em que o Jesualdo Ferreira era treinador...

Sentiu a queda como repentina ou gradual?

Foi gradual. Eu não tinha noção concreta, mas pareceu-me que, desde a saída do presidente Luís Filipe Vieira, tornou-se mais difícil. O Alverca desceu de divisão e teve muitas dificuldades. Na altura, a II Liga era muito difícil para que os clubes se sustentassem economicamente, porque não havia qualquer vantagem como hoje, que existe uma capacidade de orçamento para sobreviver. Na altura, não era assim. As equipas, ou subiam, ou era muito difícil. O Alverca tinha estado na I Liga, mas, antes de lá chegar, era clube satélite do Sporting, e depois do Benfica. Pela primeira vez, estava na II Liga por si próprio. Foi muito difícil e começámos a sentir que havia algumas dificuldades. O clube em si, nunca as teve, mas também anda em função da primeira equipa, porque se está na I Liga é uma coisa, e se está na última é completamente diferente. Na altura, saí para ser adjunto do Dauto Faquirá no Estoril, na II Liga, e é a partir daí que o Alverca se começa a complicar. Foi uma década muito difícil, mas agora, felizmente, está melhor.

Costuma dizer-se que, nas camadas jovens, o mais complicado é lidar com os pais dos jogadores. Sendo um treinador tão jovem, como geria isso?

Eu passei por todas as camadas, dos infantis aos júniores. Nos últimos três anos fui treinador dos júniores, peguei na equipa do Lima que tinha sido campeã nacional, porque ele passou para adjunto do Couceiro na equipa A. Nos júniores já não havia essa questão dos pais porque já eram praticamente profissionais. Naquela altura, um júnior do Alverca trabalhava de manhã todos os dias, à imagem do que é, hoje em dia, um Sporting, um Benfica, um FC Porto... Quando passei pelas outras camadas, os pais eram muito presentes, mas talvez com uma grande diferença em relação aos dias de hoje. Os pais foram, progressivamente, estando mais em número, e mais dentro dos clubes. Muitas vezes, são membros dos próprios clubes, transportam os miúdos…

E isso é um problema?

Vejo-os mais dentro, o que me parece que tem acabado por criar mais problemas. Além disso, hoje em dia, os pais pagam as atividades dos miúdos, o que promove uma maior reinvidicação e mais dificuldades para os treinadores. Se paga, será que deve jogar o mesmo, ou não pode jogar o mesmo? Essas questões mudam bastante as camadas mais jovens. A relação com os pais tinha que ser com alguma distância. Se não houvesse, complicava bastante, até porque o Alverca já tinha um peso bastante grande. Os pais, por vezes, faziam algumas questões, mas tínhamos na altura já uma estrutura muito interessante, com dois diretores por equipa, que se encarregavam desta relação, e com um coordenador, que era o mister Carlos Pereira, que fazia um trabalho fantástico. Tive essa sorte, porque sei de vários colegas que trabalham na formação e que têm muitas dores de cabeça com os pais. O meu próprio pai, que também foi jogador e treinador, hoje em dia é coordenador de uma escola de futebol e todos os dias faz queixas dos pais [risos]. É a grande dor de cabeça. Nunca nada está bem.

Notícias ao MinutoAlexandre Santos e José Peseiro após o final da Taça de Portugal© Global Imagens

Sabíamos que aquela derrota seria, provavelmente, o fim da linha no FC Porto

Esteve no Estrela da Amadora e no Vitória de Setúbal, que também tinham as suas dificuldades. Como é gerir um balneário nessas circunstâncias?

É muito difícil ser jogador de futebol profissional em clubes que, muitas vezes, passam três meses sem pagar. Para além de os ordenados não serem nada de outro mundo... Isto de ganhar muito dinheiro no futebol é para uma percentagem muito pequena de jogadores. Estamos a falar de jogadores que ganhavam bons ordenados para aquilo que se paga em Portugal, mas quando não se recebe durante dois, três ou quatro meses e se sabe que a vida profissional é tão curta, fica difícil.

Encontrou semelhanças entre os dois clubes?

São duas realidades bem distintas. No Estrela, sentia que o clube era muito familiar porque era muito pequeno do ponto de vista da estrutura de trabalho. Os grupos que apanhei no Estrela eram muito fortes, juntaram-se na dificuldade. Sabiam que havia dificuldades económicas, mas também que a única forma de poderem receber era atingindo os objetivos da manutenção. Isso fortaleceu o grupo. No Vitória de Setúbal, apanha-se um clube muito maior em termos de tradição, de população e do que representa para a cidade. Aí torna-se mais difícil, especialmente quando houve uma mudança de presidente. O clube vinha de uma grande época, em que tinha ganho a Taça da Liga com o Carlos Carvalhal, e acabou por ser uma época muito difícil, em que nem chegámos a terminar. É um grande clube, mas que tinha que dar passos. É um clube que precisava, pela importância e história que tem, de passar para outros níveis de desenvolvimento. Acho que anda a lutar por isso, mas não está fácil. É o Vitória de Setúbal...

Como qualquer treinador, já teve os seus momentos de paragem. Como é que se gere o facto de não saber quando voltará trabalhar?

Já estive nalguns momentos parado... Felizmente, não por muito tempo. É difícil. Sinceramente, é mais difícil hoje do que há dez anos. Primeiro, porque a competitividade é muito maior, e depois, se antigamente os treinadores se podiam dar ao luxo de esperar calmamente por uma oportunidade melhor para a carreira, hoje em dia é preciso ter muito cuidado. O que se vê agora é que, para quem está parado muito tempo, a probabilidade de reiniciar é menor. É uma realidade que se vê em muitos treinadores. Como a competitividade é enorme e há muitos treinadores a entrar, é mais problemático estar à espera muito tempo. Começa a ver-se aquela máxima de 'Quem não aparece, esquece-se'.

O que se faz nessas alturas?

Tem que se gerir vendo-se futebol e fazendo-se outras coisas que não é possível quando estamos a trabalhar, como pensar no que fazemos, refletir no nosso modelo de jogo ou reformular um processo. É um momento muito importante para falar com colegas, ir a congressos e, principalmente, estar com a família. Por exemplo, neste momento, estou novamente afastado da família. É a maneira que, muitas vezes, encontramos para compensar esses momentos mais complicados.

Esteve quatro anos com Daúto Faquirá e oito com José Peseiro. Que tipo de relação acabam por criar um treinador e um adjunto?

Ao longo do tempo, vamos criando relações de cumplicidade. Cada vez precisamos de perder menos tempo para percebermos o que é que o treinador pretende de nós. Senti que, ao longo do tempo, fomos começando a criar uma ligação que permite perceber a pessoa, o que ela quer, o que mais gosta que aconteça no processo de treino... Também é importante conhecermos a pessoa, porque às vezes é preciso uma palavra. Há momentos muitos difíceis nesta profissão, especialmente quando se é treinador principal. Há derrotas muito complicadas, em que os adjuntos são importante para, como amigo ou íntimo, saber quando o outro está demasiado tenso ou chateado.

Qual foi o momento mais complicado com que teve que lidar?

As situações mais difíceis são sempre nos despedimentos. Mas também nos dão mais força. Já passei por algumas situações... Não tenho tido, nos últimos dois anos, essa sensação, quer no Real, em que simplesmente não terminámos o contrato porque eu não queria trabalhar no Campeonato de Portugal, quer no Sporting e no Estoril, em que solicitei a minha saída para vir para outros projetos. Felizmente, as pessoas perceberam as necessidades que eu tinha. Quando me recordo dos momentos mais difíceis, recordo-me muito mais das questões desportivas do que das não-desportivas, o que acho que é bom sinal. Para nós, treinadores, é a paixão pelo jogo que nos move. O momento mais marcante foi o da derrota na final da Taça de Portugal, quando estávamos no FC Porto, contra o Sporting de Braga.

Porquê?

Envolve muito esforço, sacrifício e dedicação, pessoal e coletiva. Vivíamos um momento muito difícil no FC Porto, mas sentíamos que tínhamos todas as condições para podermos sair dali com um troféu que há muito não era conquistado pelo clube. Fizemos um grande jogo, muito melhor do que o do Sporting de Braga. Conseguimos, no meio de tanta dificuldade, de lesões, de castigos e de situações tão problemáticas no período pós-Lopetegui, recuperar de uma desvantagem de 0-2. Estávamos mais fortes e depois, nos penáltis, perdemos. Sabíamos que aquela derrota seria, provavelmente, o fim da linha no FC Porto. Foram só quatro meses, mas poderia ter sido muito mais. Aí, custa muito, porque cheguei ao nível mais alto em que já estive, num clube fantástico, mesmo nos momentos mais difíceis.

Acabou por ser essa derrota a acabar com a passagem pelo FC Porto?

Tudo se resume a finalizar um capítulo porque não conseguimos marcar mais penáltis ou mais um golo para que vencêssemos a Taça de Portugal. E quem sabe o que poderia acontecer na época seguinte... Mas que iríamos continuar, quase de certeza que iríamos. Estivemos na Liga dos Campeões, estivemos a vencer por 2-0 em Manchester com o Sporting de Braga, e também são momentos marcantes. Mas, para mim, aquele foi o mais marcante, até porque foi carregado de sentimento da família. Todos sabíamos que era o momento do tudo ou nada, não só na Taça, como dentro do FC Porto.

Não é tudo perfeito no Benfica, e não é tudo mau no Sporting

Fala-se muito do estado da formação do Sporting, que terá perdido alguma qualidade nos últimos anos. Sentiu isso?

Era moda dizer que o Sporting estava mal, era como se estivéssemos 'démodé'. Toda a gente fazia questão de dizer que estávamos fracos. Em termos de formação e de valores de jogadores, não corresponde a essa realidade. O que acho que é normal acontecer é que no clube, que tem passado por momentos bastante perturbadores, isso vá de arrastão. Pagam também as equipas jovens, e os próprios jogadores sentem isso. Ser jogador da formação do Sporting é um rótulo inacreditavelmente forte a nível português e internacional. Mas, quando internamente, em Portugal, começam a haver tantas alterações e tantos problemas dentro do clube, os próprios jogadores começam a sentir que pode não ser tão positivo quanto isso, e podem não ver ali um futuro tão grande quanto desejariam.

O facto de o Benfica estar tão forte na formação também não ajudou...

O que acontece atualmente no Benfica é precisamente o contrário. A estabilidade, a estrutura, as condições e a evolução levam a que toda a gente fale do que há positivo, e que os jogadores sintam que ali vão ter um grande futuro. Já aconteceu o contrário. Houve alturas em que todos os jogadores falavam era de ir para o Sporting e não para o Benfica, porque o Sporting é que era o clube onde poderiam ser grandes jogadores de futebol. Se calhar, na altura, quando se dizia que a formação do Benfica não prestava e que a do Sporting é que era boa, também não era tudo mau de um lado nem tudo bom no outro. Não é tudo perfeito no Benfica, e não é tudo mau no Sporting. Claro que o Sporting tem tido os problemas decorrentes das constantes mudanças de estrutura, de política, de quem dirige o clube…

E os empresários também entram em ação cada vez mais cedo...

Apanham as lacunas nestas situações e aproveitam para retirar benefícios próprios. E há situações de jogadores que saíram do Sporting porque aproveitam esses momentos para dizer que querem um contrato megalómano ou vão para o Benfica. Os empresários arranjam isso. Isso complica a gestão de um clube. O que presenciei foi a política de uma direção que sabe o que quer, que quer muito recuperar tudo isto que eventualmente se perdeu. Quem conhece a Academia, sabe o número de pessoas que trabalha lá e que também querem pertencer a uma organização mais forte. Aí é que está a grande questão. O clube tem que ter mais estabilidade. Quando tiver, vai conseguir novamente tirar proveito do que é bom. É um clube muito bom para qualquer jovem, que dá condições muito boas e que tem muitos valores. Agora, se pode ser muito melhor? Pode. Se tem que evoluir? Tem. Mas também tem que ter estabilidade para evoluir.

Nos últimos dez anos, se virmos bem, as mudanças que aconteceram em pessoas, apostas e formas de estar, foram tremendas. E o que é que aconteceu no Benfica? É a mesma pessoa e foi sempre a melhorar. Só assim se conseguem criar melhores condições para a evolução dos jovens. Como é que se podem criar bons processos de treino com treinadores que, por exemplo, não sabem o que vai ser o futuro deles dois meses depois? Mas há outros, como o Benfica, que dão quatro anos de contrato a um treinador. Quem é que trabalha melhor? Para ser melhor treinador, basta que tenha boas competências. Um bom treinador a saber que o clube acredita nele não tem nada a ver com um que está ali e não sabe se, dois meses depois, vai continuar a estar.

Está a referir-se à sua situação?

Não, não, não foi o meu caso. Estou a falar daquilo que encontrei. É uma política que tem que se ter. O que me apercebi é que é isso que as pessoas que estão hoje no Sporting querem fazer. Tanto o é que me deram a possibilidade de fazer parte do futuro a curto prazo do Sporting. Não me foram buscar ao Estoril para ficar lá até final da época. Deram-me condições para saber que iria fazer parte da estrutura e do crescimento do Sporting. É disso que o Sporting precisa. Eu sabia que ia ficar no Sporting, sabia que as pessoas gostavam daquilo que eu estava a fazer. O que já é diferente daquilo que acontecia antes. Mas, no Sporting, encontrei pessoas que vinham de processos anteriores em que era de ano a ano, e, muitas das vezes, acabavam o ano e nem sabiam se iam continuar. Agora já não, as coisas estão a tomar um caminho diferente.

Então por que acabou por não continuar?

Eu é que quis sair do Sporting. Estava sintonizado com o projeto e com o caminho do clube. Saio do Sporting, principalmente, por uma razão: queria regressar a treinador de equipa A. Neste caso, não como principal, mas para estar na equipa principal. Foi um ano muito interessante nos sub-23, mas não era bem o que quero para a minha carreira. Não tem nada a ver com algum tipo de insatisfação com o Sporting. Até acho que o caminho que estava a tomar era aquele em que me revia para continuar no Sporting. Iria continuar por, pelo menos, mais um ano. Até já estávamos com a pré-época toda definida e com aquilo que era o futuro desta época. Eu sentia-me bem no Sporting com a estrutura e aquilo que via à minha volta, ainda que com as dificuldades de um clube que apanhou muita revolução, com muitas pessoas traumatizados por aquilo que foram os últimos tempos. Tudo isto, mas a fazer-se um caminho diferente para se construir novamente um Sporting com pés e cabeça.

O sucesso do Caen depende muito de quem chegar para reforçar, principalmente, a parte ofensiva

Que balanço faz destes primeiros meses em França?

Um dos pontos que me levou a vir foi, efetivamente, estar numa equipa profissional A. Outro foi experimentar o futebol francês e estar num nível de futebol europeu muito interessante. Além disso, também foi importante ter um amigo de longa data, como é o Rui Almeida, a convidar-me e a convencer-me a vir para este projeto. O futebol é universal, as diferenças não existem em muitas coisas, mas há uma cultura muito própria, de um futebol muito físico. 70 ou 75% dos jogadores são de colónias africanas ou franceses de origem africana, e isso dá, naturalmente, uma vertente física muito grande ao jogo. Eu tenho vários jogadores na minha equipa com 1,80m ou 1,90m. São velocíssimos, fortes, altos... É um futebol um pouco diferente do português. Diria que, como estamos numa segunda Liga, ainda que com o objetivo de subir, é um futebol mais francês, porque na Ligue 1 já há mais estrangeiros.

O treinador português pode contribuir para uma mudança nesse estilo de jogo?

Nós, portugueses, tentamo-nos adaptar dando uma lógica bastante mais tática do que aquilo que, por vezes, acontece noutras equipas. O Rui, que já está cá há muitos anos, sabe bem o que é preciso para vencer nesta Liga. A experiência tem sido muito positiva. Do ponto de vista desportivo, tivemos algumas baixas cruciais, porque a equipa tinha muitos jogadores com mercado de Ligue 1, e que acabaram por sair. É um clube que esteve durante vários anos na Ligue 1, e que desceu, com os problemas que daí advêm. Estamos a construir a equipa. O sucesso desta equipa depende muito de quem chegar para reforçar, principalmente, a parte ofensiva, porque aí não entraram jogadores ao nível que se exige para atacar esta Liga para subir. Esta Liga tem sete, oito ou nove equipas que podem perfeitamente subir de divisão, assim como várias que se podem descair e ficar perto de descer. Todos podem ganhar a todos.

Que objetivos foram traçados para esta época?

O objetivo é, sem dúvida, construir uma equipa para subir. Neste momento, é essa a perspetiva. Esperamos que o seja até 31 de agosto, porque ainda não o está. Estamos a trabalhar para isso, mas é preciso mais para podermos pensar verdadeiramente em subir. É um campeonato muito longo. É preciso ter armas e ainda não estamos com a equipa totalmente composta.

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