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"Sporting? A mágoa que tenho é que podia ter feito mais e melhor"

Em entrevista ao Desporto ao Minuto, Héldon recorda o sonho de marcar em Alvalade e já olha para o futuro: "Um dia, quando acabar a carreira, claro que ainda vou lá chegar com a minha idade, bem cota, e ainda vai dar para ajudar os meninos".

"Sporting? A mágoa que tenho é que podia ter feito mais e melhor"

Aos 30 anos, Héldon prepara-se para dar o pontapé de saída na sua segunda temporada na Arábia Saudita, ao serviço do Al Taawon. Para trás fica um passado rico em jogos (foram 279) e golos (foram 47) pelo futebol português.

Em entrevista exclusiva ao Desporto ao Minuto, o internacional cabo-verdiano faz um balanço positivo do legado que deixou por cá, com passagens por Académica, Caniçal, Fátima, Marítimo, Sporting, Rio Ave e Vitória SC.

O avançado natural da Ilha do Sal não poupa, ainda, nos elogios a Pedro Martins e a Rui Vitória, dois dos treinadores que mais o marcaram numa carreira longa que, ainda assim, nem sempre esteve isenta de percalços. 

A Arábia Saudita não é aquilo que a gente pensa

Depois de Pedro Emanuel, trabalha agora com Paulo Sérgio. Que tal está a correr?

É um treinador novo, com ideias novas, que estamos a tentar colocar em prática. Está a correr bem. Já fizemos dois jogos, ganhámos um e empatámos o outro. Está a correr bem e espero que assim seja até final da época.

As diferenças de um para outro são muitas?

Não há assim tanta diferença. A personalidade, talvez, os métodos também…

Acredito que trabalhar com dois treinadores portugueses tenha facilitado a adaptação...

Sim, claro, ajuda sempre. Ajudou-me quando cheguei, há um ano, e agora também. Ajuda sempre na língua, na comunicação, e também nos métodos, aos quais já estava acostumado por causa do meu percurso em Portugal.

Como descreveria a Arábia Saudita enquanto país?

Não é aquilo que as pessoas pensam, que é uma coisa muito diferente, que vai ser difícil... Chegando lá, vemos que, respeitando as regras deles, a cultura deles, vivemos bem. Temos boas condições para viver, a família também. É um pouco mais difícil para as mulheres, por causa da forma de viver do país, mas, respeitando as regras e a cultura, facilita.

A família já está bem adaptada?

Sim, já está adaptada. Não vivem lá o ano todo, como eu. Vão lá, passam dois ou três meses, depois voltam a Portugal, ficam mais um ou dois meses, depois voltam para lá... Isto porque não é muito fácil para eles e para o miúdo estarem sempre fechados, num sítio onde, normalmente, as mulheres não têm muita liberdade e não podem fazer muitas coisas. Às vezes ficam lá, vão para Portugal, voltam quando as saudades apertam…

É mais difícil quando fica sozinho?

Não. Tive a sorte de encontrar um grupo onde somos oito estrangeiros. Temos três brasileiros, um português, um dos Camarões, um do Burundi, um da Síria... Tive a sorte de encontrar pessoal que já conhecia do futebol. Temos uma boa relação, estamos sempre juntos, vamos a muitos sítios e isso facilitou muito a adaptação.

Foi mais complicado adaptar-se ao país em si ou ao futebol?

Muito sinceramente, não senti grande dificuldade em nenhuma das coisas. Eu cheguei já durante a outra época, e, na época seguinte, quando as coisas correm logo bem, é mais fácil. Foi um processo fácil.

Rui Vitória é um ser humano impecável, um homem de verdade

O Héldon esteve 12 anos em Portugal. Do que é que sente mais saudades?

Sinto muitas saudades de treinar logo de manhã e depois ficar com o dia todo livre para fazer as coisas. Aqui, por causa do calor, só treinamos à noite. Praticamente não fazemos nada durante o dia porque temos que descansar para o treino. Depois chegamos a casa às 22h/23h e praticamente já não temos vida. Adormeces tarde, depois acordas tarde... Sinto muitas saudades de ter uma vida de acordar às 11h, ir treinar e, às 12h30, já estar em casa para depois fazer as coisas com a família e ter uma vida normal. Aqui é muito complicado. Por causa do calor, as pessoas não saem à rua.

Lembra-se bem de Portugal. Sente que os portugueses também se lembram bem de si?

Sim, sim. Estive 12 anos a jogar aí. Graças a Deus fiz muitos jogos na I Liga, por todas as equipas por onde passei. Acho que deixei a minha marca, por onde passei fui sempre acarinhado e gostei dos sítios onde vivi. Espero um dia poder voltar.

Chegou muito jovem à Académica. Lembra-se de como foi o primeiro impacto?

Muito sinceramente, essa foi a parte mais difícil de tudo. Sai de casa em janeiro e, como sabe, Cabo Verde é um país tropical, não faz o frio que faz na Europa. Quando saí de lá, já sabia que fazia frio, mas não tinha noção do frio que era. Fui em janeiro, custou muito. Foi a parte mais difícil, ainda para mais longe da família, sozinho. Ainda bem que foi um país onde falava a minha língua, assim não tive ainda mais dificuldades.

Foi fruto dessas dificuldades que acabou por sair para o Caniçal?

Quando cheguei, tive logo uma lesão muscular, depois tive dois meses sem jogar. Joguei pouco, fiz uns cinco ou seis jogos pela Académica. O campeonato de juniores acabou cedo, em abril, porque não passámos à fase seguinte. Acabei por não ficar na Académica. Fui para o Caniçal e, a partir daí, joguei mais. Fui progredindo aos poucos. Comecei numa II B, depois fui para o Fátima, na II Liga, e acabei por chegar à I Liga. É um processo natural e, passo a passo, fui conseguindo os meus objetivos.

No Fátima acabou por trabalhar com Rui Vitória. Como foi?

Foi muito bom. É uma pessoa para a qual não tenho palavras. É um ser humano impecável, um homem de verdade, que sempre me tratou muito bem e acreditou em mim. Nos dois anos em que estive com ele, joguei bem. É um homem impecável, que sabe falar com as pessoas e como tratar do próximo, com bons métodos de trabalho. Já na altura se via que podia ser um treinador para outros patamares, o que se acabou por concretizar. Foi subindo aos poucos e conseguiu fazer uma carreira bonita.

Rui Vitória foi campeão no Benfica e acabou por sair de uma forma um pouco conturbada. Foi-lhe feita justiça?

No futebol, tudo se vive ao momento... Enquanto as coisas foram correndo, foi campeão e estava tudo bem. Quando os resultados começaram a não aparecer, teve que sair e dar lugar a outro. O futebol é assim. Falar de justiça ou injustiça é impossível no futebol. Vivemos o momento e amanhã já ninguém quer saber do que fizemos. Os adeptos são exigentes a esse ponto e só temos que compreender isso.

Entretanto já defrontou o Rui Vitória na Arábia Saudita e até ganhou. Como foi esse reencontro?

Foi bom, deu para conversar um bocado. Ele tinha chegado nessa altura, com a equipa técnica dele, com o Arnaldo, o Serginho... Tivemos a conversar, ainda falámos que era um pouco difícil no início, mas que depois de encaixar tudo era fácil. Ainda por cima ele está numa cidade boa, na capital, e isso é muito mais fácil.

Sempre fui sportinguista, sempre sonhei jogar pelo Sporting, sempre sonhei marcar um golo em Alvalade

Quando sai do Fátima vai para o Marítimo. Como é que surgiu essa oportunidade?

Fiquei dois anos no Fátima. Fui para lá um ano, a época acabou e renovei por mais um. No segundo ano, na II Liga, surgiu a oportunidade de ir para o Marítimo e fui. Foi uma coisa natural. O empresário veio ter comigo e disse 'Tenho esta proposta para este clube, e, como vais ficar livre de contrato, acho que podia ser uma coisa boa para ti'. Na altura, o Marítimo tinha conseguido o apuramento para a Liga Europa, e eu acabei por ir.

Nasceu na Ilha do Sal, depois esteve quase quatro anos na Madeira. É um homem que se dá bem com as ilhas...

É verdade. Nasci num país de dez ilhas, por isso viver na ilha da Madeira foi fácil. Depois dos clubes por onde passei, chegar a um clube como o Marítimo foi fácil para mim. No início, não foi muito fácil, fui para a equipa B, que na altura era treinada pelo Pedro Martins. Ele acabou por subir para a equipa A e levou-me com ele. A partir daí foi a história que toda a gente sabe.

Pedro Martins foi o treinador que conseguiu tirar o melhor de si?

Sem dúvida nenhuma. Para mim, ter trabalhado com ele foi uma bênção. Só tenho a agradecer. A forma como agarrou em mim, acreditou e apostou em mim até dar certo.

Na última época no Marítimo, levava 11 golos em 21 jogos. Foi para o Sporting e acabou por não ter tanta continuidade. Arrepende-se dessa decisão?

Se fosse hoje, acho que não sairia em janeiro. Esperava e saía no final da época. Chegar a um clube grande, a uma equipa como o Sporting, que estava a fazer uma boa época, com um balneário coeso, e não jogar logo, como aconteceu comigo... Acho que não me trouxe um grande benefício. Não conhecia muito bem os jogadores, só de jogar contra eles. Se fosse hoje, iria para o Sporting na mesma, mas só no final da época.

Quando se estreou a marcar pelo Sporting, contra o Gil Vicente, ajoelhou-se e ficou emocionado. O que é que sentiu naquele momento?

Foi o realizar de um sonho. Sempre fui sportinguista, sempre sonhei jogar pelo Sporting, sempre sonhei marcar um golo em Alvalade. Naquele dia consegui, correu bem.

Chegou ao Sporting na primeira época de Bruno de Carvalho. Como foi trabalhar com ele?

Ele sempre quis estar por perto. Sempre me tratou bem e ajudou no que eu precisava. Não tenho nada a falar mal.

Entretanto foi emprestado a Córdoba, Rio Ave e Vitória SC. Guarda alguma mágoa por não ter merecido outra oportunidade no Sporting?

Não, não. Nada de mágoa. Tive as minhas oportunidades. Muita gente diz 'Ah, não tive oportunidades...'. Mentira, eu tive. Quando cheguei lá, em janeiro, joguei quase sempre até final da época. As coisas não correram da melhor forma, talvez pela minha ansiedade, pela minha forma de chegar ao clube... Não tem nada a ver com não ter oportunidades ou tratarem-me mal. É uma coisa minha. A mágoa que tenho é que podia ter feito mais e melhor. Eu. Nada com dirigentes nem nada disso.

Aliciamento? Nunca me passou pela cabeça que isso fosse verdade

O Héldon estava no Rio Ave em 2015/16, quando se fala que terá havido um aliciamento a jogadores para perderem contra o Benfica. Alguma vez viu algum indício nesse sentido?

Não, não. Nunca me passou pela cabeça que isso fosse verdade.

É então só mais uma história para incendiar o futebol português?

É mais um daqueles insetos que andam por aí a espalhar polémica pelo futebol português.

Acabou por deixar o Sporting e ir para a Arábia Saudita. Na altura não houve possibilidade de continuar em Portugal ou quis mesmo sair?

Tive propostas e sondagens para ficar em Portugal, mas já era altura de pensar na minha independência financeira. Apareceu esta proposta e mais algumas. Acabei por aceitar porque sabia que ia trabalhar com um treinador português. Graças a Deus, hoje tenho a certeza de que tomei a melhor decisão para mim.

Que balanço faz da experiência na Arábia Saudita até agora?

Está a correr muito bem. Se calhar até devia era ter vindo para aqui um ou dois anos mais cedo. Mas como digo, era a hora que Deus tinha planeada para mim e, felizmente, as coisas estão a correr bem. As pessoas aqui gostam muito de mim, gostam do meu trabalho. No final da época renovei e está a correr tudo bem.

Já disse que um dia gostava de voltar a Portugal. E a Cabo Verde, pensa voltar?

Para Cabo Verde vou ter que voltar querendo ou não querendo. É a minha terra, onde tenho tudo, a minha vida, amigos, familiares... O futebol em Cabo Verde é amador, mas um dia, quando acabar a minha carreira, claro que ainda vou lá chegar com a minha idade, bem cota, e ainda vai dar para ajudar os meninos.

É uma vontade que tem de continuar no futebol quando terminar a carreira?

Muito sinceramente, costumo dizer que, quando acabar, não acredito que vá ficar ligado. Gosto, é a minha vida, mas ser dirigente ou empresário ou algo assim é uma coisa que não me agrada porque tinha que fazer muitas coisas que não gosto de fazer. Nunca sabemos o dia de amanhã, mas, por agora, não tenho isso planeado para a minha vida.

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