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São os espetadores que fazem 'O Ato da Primavera' no palco do D. Maria II

O público transforma-se em intérprete, sem ensaios nem conhecimento dos textos, em 'O Ato da Primavera', que Lígia Soares dirige no Teatro D. Maria, em Lisboa, com o objetivo de obter "mais ganhos do que perdas", em termos dramatúrgicos.

São os espetadores que fazem 'O Ato da Primavera' no palco do D. Maria II
Notícias ao Minuto

23:32 - 17/10/17 por Lusa

Cultura Teatro

'O Ato da Primavera', título que Lígia Soares tomou do cinema de Manoel de Oliveira, como ponto de partida, reúne sete peças e textos atuais, de diferentes autores, nas quais a encenadora "subjuga" os espetadores ativos à pressão das tecnologias e fomenta a imprevisibilidade.

O projeto, que partiu da "necessidade de deslocar o público do seu habitat natural", dando às pessoas a possibilidade de interagirem com telepontos e monitores - ao mesmo tempo que dão voz e interpretam o texto que figura nos dispositivos - fornece, no cômputo geral, mais ganhos do que perdas, como afirmou a encenadora, hoje, na apresentação da obra.

"Ganha-se o risco [de o espetáculo] não correr bem", o que "é sempre uma coisa interessante num dispositivo teatral", numa altura em que o campo da representação está "dependente de uma eficiência absoluta", diz Lígia Soares, que procura evitar esse "obstáculo a uma vivência direta" da obra.

Assim, 'O Ato da Primavera' prevê uma série de situações "que foram preparadas para serem representativas, (...) brincadas [e] interpretadas", disse Lígia Soares, aquando do ensaio de imprensa, de três das sete peças que compõem o espetáculo, realizado hoje à tarde, em Lisboa.

No fundo, quando lidas pelos espetadores - sem quaisquer ensaios prévios - as peças pretendem levá-los a abdicar do controlo subjacente a algo que "já tem uma história [ou] um conhecimento (...) profundo".

Como tal, a ênfase é colocada na "escrita como uma coisa que ainda é vista", recorrendo ao auxílio de telepontos - dispostos a olho nu dentro de um cenário minimalista - que desvendam o diálogo "a ser descoberto enquanto é lido".

Desta forma, a coreógrafa e encenadora dá prevalência à "qualidade elevada dos textos" e abdica de "questões profissionais", como "o trabalho de atores", optando por transformar o palco do Salão Nobre numa atmosfera íntima, sem desresponsabilizar o seu público-ator - neste caso na forma de jornalistas que emprestaram a sua voz às peças 'Sou eu', do escritor Nuno Moura, 'Forty Love', do ator Ricardo Vaz Trindade, e 'não costumo falar contigo', do autor Miguel Castro Caldas.

Além da imprevisibilidade e das palavras, a música é também um ingrediente estruturante: "(...) foi a criação em termos de dramaturgia ou de encenação (...) mais profunda", fornecendo a solução para as limitações de espaço onde a ação se desenrola que, por sua vez, fez a "banda sonora [ganhar uma] relação muito próxima com as vozes que imaginamos que vão existir".

Esta permitiu criar "uma obra [musical] para cada peça", aliando-se aos diálogos de textos originais para singularizar as representações - "consegue (...) ir ao cerne [,] ao ambiente e trazer todo um mundo (...) exterior às falas [e] interpretá-lo", graças ao trabalho do diretor musical, João Lucas.

O enquadramento das sete peças provém da obra do cineasta Manoel de Oliveira, que lhes dá o título geral e as premissas iniciais, retiradas do seu documentário 'O Ato da Primavera' (1962), focado numa "atividade que inclui toda a comunidade (...), 'A Paixão de Cristo'".

Para Lígia Soares, este episódio de natureza religiosa "inspira esse lado de como levar o teatro a uma experiência comum (...) não de homogeneizar a cultura, mas sim de mostrar como ela é diversa", por via de textos atuais e desconhecidos do grande público, que fomentam um "lado ativo nestas experiências", com as pessoas a "darem corpo" à mensagem que Manuel de Oliveira quer passar.

O conjunto de sete peças apresentadas no TNDM assume-se, ainda, como uma extensão de uma experiência baseada num conceito original, com a apresentação de um texto da própria coordenadora artística, na Culturgest, em 2012 - "dentro de uma galeria [onde] não havia público" -, contando com os visitantes para desempenharem o papel de intervenientes.

A iniciativa será apresentada no âmbito do 'Voz alta - Festival de Leituras', esta semana, entre quinta-feira e sábado, com representações em especial para os estudantes do ensino secundário, que marcarem presença.

De acordo com a programação do Teatro D. Maria II, na sua página na internet, 'O Ato da Primavera' tem previstas sessões no Salão Nobre para o público em geral nos dias 21 e 28 de outubro, e 04 e 11 de novembro, às 16h30; para as escolas secundárias, as sessões decorrerão até 10 de novembro, às 11h00 e às 15h00.

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