Os dois artistas levam assim ao Núcleo de Arte da Oliva mais de 40 peças que definem como "um conjunto de ventos, eletrodomésticos, seres e coisas recolhidas nos bastidores dos filmes" que vêm dirigindo.
Muitas dessas peças são "inéditas", sendo que a mostra incluirá não apenas filmes e esculturas cinéticas, mas principalmente "objetos e artefactos que ora foram protagonistas, ora serviram como figurantes", nos filmes que a dupla realizou ao longo dos últimos 15 anos, e com os quais consolidou a sua presença em relevantes circuitos expositivos internacionais.
"Mas não se pense que não haverá cinema ou, tão-pouco, a fantasmagoria do celuloide", declaram os artistas num texto enviado à agência Lusa. "Se bem que a mostra ofereça sobretudo objetos mais ou menos sólidos, promete-se que nos subtis movimentos dos espíritos das coisas ver-se-ão fantasmas", referem.
João Maria Gusmão (1979) e Pedro Paiva (1978) desenvolvem desde 2001 uma parceria artística para criação de objetos, instalações, fotografias e curtas-metragens.
Em 2015, o jornal britânico The Guardian apontou-os como autores de uma das dez melhores exposições do ano (pela mostra 'Papagaio', que esteve patente em Milão, Berlim e Londres) e o Art Newspaper destacou-os como criadores em ascensão no panorama artístico internacional.
Selcionados diversas vezes para representar Portugal na bienal de S. Paulo e também na de Veneza, onde foram inclusivamente dos mais jovens participantes nacionais de sempre, os dois artistas procuram explorar nos seus objetos e narrativas a fusão possível entre arte e ciência.
O título da mostra agora a inaugurar na Oliva é uma alusão à obra 'Outras Inquisições', em que o escritor argentino Jorge Luís Borges conta que a enciclopédia chinesa 'Empório Celestial de Conhecimento Benévolo' não se limitava a classificar os animais apenas como vertebrados e invertebrados, antes os distribuindo por categorias como as dos embalsados, amestrados, fabulosos e dos que "ao longe parecem moscas".
No espaço da antiga fábrica da metalúrgica Oliva, o espetador será assim conduzido por um conjunto de quatro palcos em que poderá observar um determinado grupo de peças e testemunhar, "sem mediações ou outros constrangimentos, alguns dos desconcertantes fenómenos" revelados por João Maria Gusmão e Pedro Paiva.
À semelhança dos animais guardados "nos museus de História Natural ou na Monalisa", os artefactos que a dupla recolheu para a Oliva deverão encarar o visitante "como se estivessem vivos". Será "uma exposição de 'zombies'", admitem os artistas.
A mostra 'Os animais que ao longe parecem moscas' é inaugurada este sábado, às 18:30. Estará patente ao público até final de agosto.