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'Cordyceps', um espetáculo sobre um fungo ideológico no fim da democracia

O espetáculo 'Cordyceps', que se estreia a 3 de junho em Guimarães, explora a possibilidade de um fungo infetar as pessoas privando-as de livre arbítrio e tornando-as manipuláveis, "flutuando à volta da mentira, da memória e das conspirações".

'Cordyceps', um espetáculo sobre um fungo ideológico no fim da democracia

Projeto da autoria de Eduardo Molina, João Pedro Leal e Marco Mendonça, coproduzido pela Rede 5 sentidos, parte de uma ideia base, que é o fungo endoparasita cordyceps, que normalmente se aloja em insetos de tamanho pequeno, e os transforma "numa espécie de zombies", explicou à Lusa Marco Mendonça.

Os insetos "perdem as suas capacidades motoras e de coordenação, o seu livre arbítrio, se pudermos chamar assim, e passam a ser comandados ou controlados por este fungo que os faz, antes de mais, procurar um lugar alto e húmido onde possam morrer".

Basicamente, o que acontece é que "uma formiga quando é infetada por este fungo procura uma árvore alta e no alto dessa árvore encontra um ramo onde se possa prender e deixar-se morrer. Depois, da sua cabeça nasce um cogumelo e uma penugem branca no exoesqueleto, e esse cogumelo vai lançar esporos para infetar outros insetos nas redondezas".

Esta é a ideia base do projeto, mas os três criadores quiseram associar "o fungo a uma intervenção mais humana, como se o fungo se pudesse manifestar no ser humano", explorando de que maneira o faria.

"Pusemos logo de parte a possibilidade de ser uma manifestação física, mas tentámos ir mais longe, pegando na questão do bloqueio das vontades e das aspirações, e do controlo motor do ser humano, e associámos o fungo a uma ideia mais psicológica de mudança de pensamento, de manipulação, controlo por uma espécie de entidade desconhecida", explicou o encenador.

A proposta para este espetáculo é que o cordyceps passe a ser uma "espécie de fungo ideológico, em que as pessoas, quando são infetadas por ele, passam a ser mais facilmente manipuláveis, passam a acreditar mais facilmente em mentiras e teorias da conspiração e tornam-se, por consequência, um bocadinho menos sensíveis às questões humanitárias, políticas, humanas no geral".

"O espetáculo pega muito nessa ideia, do que é verdade e mentira, a forma como interpretamos a informação que recebemos e a maneira como lidamos uns com os outros", acrescentou Marco Mendonça.

Segundo Eduardo Molina, a reflexão que o espetáculo pretende propor é "o que é que este fungo quer? Quer-nos manipular para quem? De que maneira é que nos afeta? E nós pegamos num fungo que é real, mas não infeta seres humanos, e decidimos fantasiar um pouco sobre o que poderia acontecer se infetasse seres humanos".

Sem querer revelar muito de como é que o espetáculo se desenrola, João Pedro Leal explica que parte da ideia de que "este seria o ultimo dia da democracia e este seria o último espetáculo".

"Não sabemos o que vai acontecer amanhã, mas sabemos que não vai haver tanta liberdade. Partimos desse ponto, da impossibilidade de fazermos o espetáculo que queríamos dado o contexto em que nos encontramos, ou seja, certamente se as coisas fossem mudar a partir de amanhã, não faria tanto sentido fazer o Hamlet, mas sentarmo-nos numa rodinha a discutir o que é que vai acontecer amanhã. Não é isto que vai acontecer, mas idealmente é neste sentido: o que é que se faz agora?".

Posto em concreto, a peça parte desta base: os atores (que são também os criadores) encontram-se ali, naquela situação, deveriam ter um coro no espetáculo, mas que não é possível dadas as circunstâncias, e por isso não têm outra hipótese de fazer o espetáculo que queriam, mas há uma coisa que sabem, e aqui tornam-se "os conspiradores", que "existe este fungo, que está a infetar as pessoas e a democracia como a conhecemos".

"Então, o espetáculo anda um bocado à volta disto, de conspirações, de universos paralelos, desinformação, mentiras, memória, aquilo que queremos que as pessoas guardem na memoria, se é verdade, se não é verdade, também estamos a manipular o público para acreditar no que estamos a dizer".

Contudo, não é um espetáculo interativo - salientou João Pedro Leal -, é uma peça em que há desafio, comunicação e interpelação direta do público, procurando levá-lo a questionar, mas sem nunca ser chamado a participar.

Esta é a segunda criação conjunta deste coletivo, que se conheceu na Escola Superior de Teatro e Cinema e, desde então, tem vontade de fazer projetos em conjunto.

O primeiro trabalho foi concretizado há dois anos, quando concorreram à Bolsa Amélia Rey Colaço e fizeram um espetáculo chamado "Parlamento Elefante".

"A vontade de criar em conjunto continuou e agora surgiu esta oportunidade", através da Rede 5 sentidos, no âmbito do programa Convite à Criação Artística.

O espetáculo estreia-se no dia 3 de junho, no Centro Cultural Vila Flor, em Guimarães, e parte depois em digressão, para o Teatro Viriato, em Viseu, a 9 de junho, para o Teatro Académico Gil Vicente, Coimbra, a 2 de julho, e para o São Luiz Teatro Municipal, em Lisboa, nos dias 10 e 11 de julho.

No dia 25 de setembro, "Cordyceps" apresenta-se no Teatro Micaelense (São Miguel, Açores), no dia 16 de outubro, no Teatro Municipal da Guarda, no dia 23 de outubro, no Cine-Teatro Louletano (Loulé) e termina no Teatro Carlos Alberto (Porto) a 29 e 30 de outubro.

Leia Também: 'Quem matou o meu pai?' de Édouard Louis por Ivo van Hove em Almada

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