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Não saber ver em vida a importância dos pais é uma "tragédia"

O escritor espanhol Manuel Vilas classifica de trágica a incapacidade de ver e reconhecer em vida a importância dos pais, como disse em entrevista à agência Lusa, no âmbito do Correntes d'Escritas, na Póvoa de Varzim.

Não saber ver em vida a importância dos pais é uma "tragédia"
Notícias ao Minuto

11:46 - 24/02/19 por Lusa

Cultura Entrevista

Em Portugal para apresentar o seu primeiro livro que cruza a fronteira, o multipremiado Manuel Vilas traz consigo 'Em tudo havia beleza', título português do livro 'Ordesa', publicado no ano passado em Espanha, onde foi elogiado pela crítica literária e alcançou a classificação de "livro do ano" para o suplemento Babelia do El Pais.

Definido como uma "carta de amor" aos seus pais, 'Em tudo havia beleza' tem um narrador que partilha a vida com a do autor, fazendo com que o livro seja rotulado de autobiográfico, sem que isso seja uma verdade completa.

"Há uma personagem do livro que é o narrador. É uma personagem literária, mas é uma personagem que roubou a minha biografia, tem toda a minha biografia. Utiliza a minha vida, mas é subjetivo. Não sou eu exatamente. Há coisas que ele diz que eu não partilho. É uma personagem, é um ente de ficção, o narrador. O que acontece é que utiliza a minha vida e, depois, uma pessoa diz 'ah, isto é autobiográfico'", disse Vilas, salientando que, tal como o narrador, tem mais de 50 anos, é divorciado, com dois filhos e um passado problemático com o álcool.

Manuel Vilas, de 56 anos, reconhece que um livro como este surge da idade que tem, porque se chega a um ponto em que se sente "uma necessidade de ordenar o passado", de fazer um balanço e concluir quem foi importante, o que aconteceu, quem se amou, porque é que os pais morreram, se foram bem ou mal tratados.

"É uma necessidade quase biológica. Provavelmente, eu, como muitos seres humanos, a importância do meu pai e da minha mãe não a soube ver em vida. E isto é uma tragédia porque quando morrem dás-te conta de quão importantes foram e não o podes dizer porque estão mortos. Não podes dizê-lo e então o recurso que te sobra é a literatura, é escrever um livro. Basicamente, foi o que aconteceu com esta novela: eu pus-me a escrever para ter conversas que não tive em vida e tê-las através da literatura", disse Manuel Vilas, que, aos 42 anos, escreveu um poema intitulado 'O imaturo' sobre só se estar bem onde não se está.

No livro, o narrador (ou o autor, consoante a perspetiva) relata episódios de vários momentos da sua vida, desde a infância à morte dos pais, passando pela forma como, no presente, é tratado pelos filhos após o divórcio.

Questionado sobre qual a reação dos dois filhos ao ler um livro no qual são expostos como pessoas que ignoram o pai, Manuel Vilas responde de imediato que não o leram. Porquê? "Porque não lhes interessa."

Por isso, Vilas acredita que os filhos estão a encarnar uma maldição que a mãe lhe rogou: "Os teus filhos tratar-te-ão como tu me tratas", algo que agora se cumpre e que faz com que os filhos surjam no livro "para que se note a maldição", estão ali como homenagem à avó.

"Eu amei muito a minha mãe e o meu pai, mas não me dei conta. Fui um estúpido. Não me soube dar conta. Vejo que em Espanha a muita gente lhes acontece o mesmo. Perderam o pai e a mãe e não lhes souberam dizer. Também é geracional. Pessoas que não falamos de sentimentos. Creio que agora sim, as famílias falam de sentimentos, mas na minha família, que foi uma família criada nos anos 1960 em Espanha, não se falava de sentimentos. E creio que aqui em Portugal tão pouco", refere o escritor nascido em Barbastro, em Aragão.

Manuel Vilas escreve, a dada altura, que o pai não o ensinou a amá-lo. E nunca lhe disse que o amava, tal como a mãe. No entanto, em vez de ver distância, o escritor vê nisso "formosura".

"Talvez não me amassem e este livro seja a ficção de um homem dorido. Mais que dorido, assustado. Que não te amem não dói, assusta ou aterroriza. Acabas a pensar que se não te amam é porque existe alguma razão poderosa que justifique que não te amem. Se não te amam, o fracasso é teu", escreve Vilas.

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