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"Ouvem-se coisas que não têm nexo, apenas rimam porque têm de rimar"

O Notícias ao Minuto esteve à conversa com Miguel Gameiro e viajou um pouco pela carreira do artista que se popularizou como membro da eterna banda Pólo Norte. Começando na música como um verdadeiro sonhador, o artista foi traçando o seu percurso, que se tornou ainda mais rico com a sua carreira a solo.

"Ouvem-se coisas que não têm nexo, apenas rimam porque têm de rimar"
Notícias ao Minuto

07/05/18 por Mariline Direito Rodrigues

Cultura Miguel Gameiro

'Maria', assim se chama o mais recente álbum lançado por Miguel Gameiro no Dia Internacional da Mulher. Este foi um trabalho feito a pensar no mundo feminino, que ocupou um lugar muito importante na vida do artista, através da sua mãe, mulher e avó. No álbum em concreto, Gameiro é inspirado pelas cantoras com quem fez um dueto, como por exemplo, Cuca Roseta, Mariza, Ella Nor, Susana Félix ou Miss LylLer.

Parte das receitas deste novo disco reverte a favor da Evita, uma Associação de Apoio a Portadores de Alterações nos Genes Relacionados com Cancro Hereditário.  Na perspetiva de Miguel, uma das funções do ser humano é olhar pelo outro e, proporcionando as condições necessárias para os que tiveram menos sorte na vida.

Mas comecemos pelo início, isto é, quando a música se tornou uma boa ideia na vida de Miguel Gameiro. 

Em criança já gostava de música?

Em criança queria ser médico veterinário. Se me dissessem que eu viria a ser músico, provavelmente, não acreditaria, porque os meus amigos sempre quiseram ser médicos, astronautas e essas coisas todas e eu sempre quis ser médico veterinário. A vida encarregou-se de me fazer apaixonar pela música.

Quando surgiu essa mudança de ideias?

Foi quase até ao início da banda. Bom, o gosto pela música já vinha de trás, desde que o meu pai me ofereceu uma guitarra, desde que comecei a escrever coisas minhas, mas nunca o vi de uma forma que pudesse ser a minha vida, era mais uma maneira de me entreter. De facto, depois começou a ganhar uma dimensão muito grande e a tomar conta dos meus dias. Depois percebi que realmente era músico que queria ser.

A banda surgiu por causa do Festival da CançãoComo é que surgiu a oportunidade de criar a banda, os Pólo Norte?

A banda surgiu por causa do Festival da Canção. Agora há este fenómeno ‘eurovisivo’, mas na altura lembro-me de estar em casa a ver o pedido para que as pessoas se inscrevessem e enviassem as suas canções. Tinha um tema meu, já composto por mim, depois fui à RTP conhecer o regulamento e a banda começou aí. Mas a música nunca chegou a ser editada foi apenas um sonho. Ficou só como mote para começar.

Porquê Pólo Norte?

Inicialmente nós chamávamo-nos Extradição e achámos que era uma coisa um bocadinho agressiva. Depois passámos a ser Expedição, que foi o nome do primeiro álbum, porque víamos isto como uma aventura, uma expedição. Depois acabámos por mudar, porque o objetivo da nossa viagem era relacionado com a estrela polar.

E como é que os seus pais reagiram a esta escolha pela música?

Hoje em dia é muito mais fácil. Na altura era mais difícil gravar um disco, ir para um estúdio, as coisas eram menos garantidas. Não quer dizer que hoje sejam, mas na altura era mais difícil. Quando perceberam que eu ia seguir esta via e que ia ser músico profissional, inicialmente foi complicado, mas depois perceberam que eu gostava mesmo do que fazia. Sempre tive uns pais que procuravam a minha felicidade.

Ficaram seus fãs?

São os meus maiores fãs.

As coisas nunca foram muito pensadas, nunca houve esse nível de calculismo. Eram feitas de uma maneira muito românticaComo um dos fundadores dos Pólo Norte tinha noção de que o grupo poderia ter sucesso?

As coisas nunca foram muito pensadas desta forma, nunca houve esse nível de calculismo, que hoje há um bocadinho. As coisas eram todas feitas de uma maneira muito romântica, muito sonhadora e sem pensar muito no que havia de acontecer no futuro. Nós juntávamo-nos para fazer música, porque gostávamos muito de música.

Estar na música não é uma corrida de 100 metros, mas uma maratonaNessa fase o que mais o surpreendeu, isto é, o que teve de gerir melhor nessa altura?

Como qualquer um dos elementos da banda tínhamos esta vantagem de sermos extremamente bem formados. O facto de termos milhares de pessoas à nossa frente, nunca nos condicionou… era giro, só isso. E a surpresa de termos milhares de pessoas a cantar as nossas músicas era mais pelo gozo que nos dava. Sentíamos que estávamos a fazer algo no qual as pessoas se reviam.

Depois foi perceber que estar na música não é uma corrida de 100 metros, mas uma maratona. E só nos fomos apercebendo disso com o passar da vida. O mais difícil é sempre manter com nível, com qualidade, porque de facto é difícil e quanto mais tempo passa, mais complicado se torna.

Quais os grandes desafios para chegar ao fim da maratona, se é que tem um fim…

Para um músico a maratona nunca tem fim. Mesmo que não exista ninguém para nos ouvir, pelo menos falo por mim, tenho necessidade de escrever e de compor. É como se fosse um encontro comigo próprio.

Porque é que o concerto na Aula Magna, em 2000, foi tão especial?

A Aula Magna sempre foi uma sala emblemática, especial. Foi uma noite diferente, foi uma sala cheia. Foi sentir que com o pouco tempo de banda que tínhamos já havíamos feito um percurso interessante na música portuguesa.

Os Pólo Norte terminaram, é óbvio que sim, porque depois segue-se a minha carreira a solo Podemos considerar que os Pólo Norte terminaram ou foi uma espécie de ‘pausa’?

Os Pólo Norte terminaram, é óbvio que sim, porque depois segue-se a minha carreira a solo. Quisemos fazer a celebração do tempo da música, porque essas canções nunca abandonaram as pessoas.

Os fãs dizem que têm saudades do grupo ou não falam muito nisso?

Não falam muito… também nos meus espetáculos, como sou o autor das canções, embora com uma roupagem um bocadinho diferente, acabo por tocar grande parte das canções que eram os êxitos e as canções dos álbuns novos.

Como é que se sentiu quando lançou a sua carreira a solo? Teve medo do que ainda estava por vir?

Enquanto músico, o meu apoio principal são as pessoas. Tirando os primeiros anos em que estamos a falar de uma estrutura que existe em termos editoriais, cada vez mais o meu percurso enquanto músico é um percurso em que a minha estrutura sou eu próprio, as pessoas que colaboram comigo e as pessoas que me ouvem. E é bom saber que mesmo com um álbum novo editado há muito pouco tempo entrou diretamente para o oitavo ou sétimo lugar em vendas.

Relativamente a esse novo álbum, ‘Maria’, que foi lançado no Dia Internacional da Mulher, porquê um álbum exclusivamente pensado em mulheres?

Por várias razões. Já tinha tentado estar em palco com várias mulheres, um grande número das minhas canções foi pensado e inspirado nas mulheres, foi o mote que eu quis para este disco.

E quais são as mulheres da sua vida?

A minha mulher, a minha mãe, foi a minha avó – que continua presente. São as que me ensinam a ser melhor todos os dias.

De que forma é que cada uma o marcou pessoalmente?

À sua maneira cada uma teve e tem uma preponderância importante na minha vida. O nosso caminho é sempre um caminho de dúvidas e nesses momentos é bom termos estas mulheres, o contraponto destas pessoas que estão muito próximas de nós e que nos ajudam a ver as coisas de maneira um bocadinho diferente.

Eu gosto de pensar que uma das nossas funções e prioridades é olhar pelos outros, acho que é isso que nos torna humanosE porquê a escolha de uma associação, neste caso a Evita, para receber parte das receitas do disco?

Eu gosto de pensar que uma das nossas funções e prioridades é olhar pelos outros, acho que é isso que nos torna humanos. A nossa condição não pode ser apenas e só fazermos pela nossa vida. Grande parte da nossa condição humana ao vivermos em sociedade passa por ajudarmos os outros e contribuirmos para aqueles que tiveram menos sorte, que são menos afortunados.

Hoje em dia o papel das mulheres na sociedade é cada vez mais relevante e determinanteComo é que vê o papel da mulher na sociedade atual?

Às vezes fico com a sensação de que as coisas evoluíram tremendamente nesse campo, mas depois abre-se o jornal e há sempre um, dois, três casos de extrema violência e não falamos apenas de meios menos informados, mas também nas grandes cidades, em pessoas com formação e que são educadas. No sentido geral, acho que as pessoas estão muito melhores. A mulher deixou apenas de ser a mãe cuidadora e passou a ocupar um lugar no seu local de trabalho, como empreendedora, como gestora da vida em geral. Mas hoje em dia o papel das mulheres na sociedade é cada vez mais relevante e determinante. Com o tempo, acho que o papel das mulheres será cada vez mais importante para o equilíbrio da sociedade em geral.

A nível de assédio sexual, o Miguel tomou conhecimento deste tipo de comportamentos na indústria portuguesa ou não é uma realidade que sinta que se verifica por cá?

Na música nunca senti muito isso, nunca me deparei com isso.

Há coisas bem escritas, outras é rimar por rimar, num português que não conheçoO que pensa desta nova geração de músicos?

Há muito mais quantidade, é tudo muito mais rápido, mas se calhar está relacionado com o tempo que vivemos. O tempo de hoje não é aquele que eu tinha quando era adolescente. Há muita coisa a acontecer, há coisas muito boas, há outras que não têm assim tanta qualidade. Há coisas bem escritas, outras é rimar por rimar, num português que não conheço.

E a nível nacional considera que houve uma evolução positiva?

Em termos do que é dito, das palavras, dos poemas, do conteúdo, acho que as coisas pioraram um bocado. De uma forma geral ouvem-se coisas que não têm nexo, apenas rimam porque têm de rimar. Em termos do português em si tenho algumas saudades dos Sétima Legião, Heróis do Mar…

A música portuguesa é devidamente valorizada atualmente?

Uma pessoa enquanto artista, essencialmente, tem de ser valorizada por aqueles que a seguem. É nós pensarmos que temos um público que nos segue, que nos ouve. É interessante quando alguém paga um bilhete para nos ir ver. Isso é que de facto a valorização do músico.

Com uma carreira de mais de duas décadas o que ainda lhe falta fazer?

Enquanto tiver coisas para dizer, este gosto pela música e a vontade de estar em palco e de compor e escrever, vou continuar. Quando deixar de ter esse prazer e gosto vou parar. Agora é difícil parar quando quem nos acompanha continua a querer ouvir-nos.

A reforma não está nos seus planos portanto...

Só se me obrigarem [risos].

Ainda continua a aprender a ser feliz?

Aprendo a ser feliz todos os dias, por etapas. Passa por fazermos aquilo de que gostamos, de termos muita sorte e de agarrar as oportunidades.

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