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"Estamos a passar fase vazia. Na moda não vejo nada de extraordinário"

Fundou a ModaLisboa em 1991 e, desde então, dá a conhecer o que de melhor se cria no mundo da moda em Portugal. Na véspera do arranque da 49.ª edição do certame, Eduarda Abbondanza é a entrevistada do Vozes ao Minuto.

"Estamos a passar fase vazia. Na moda não vejo nada de extraordinário"
Notícias ao Minuto

04/10/17 por Daniela Costa Teixeira

Lifestyle Eduarda Abbondanza

"Foi uma vida". Ainda é e será. Há 26 anos, Eduarda Abbondanza criava a ModaLisboa, um projeto que nascia tímido, mas que se viria a transformar na maior montra para os criadores portugueses. 

Em 26 anos, muito mudou. Mudou o país, mudou a cidade, mudaram os seus habitantes, mudou a moda. Mas mudar nem sempre significa que seja para melhor, especialmente nesta indústria. As dificuldades continuam a existir e a criatividade parece já ter visto dias melhores. E a internet nem sempre ajuda.

"Estamos a passar uma fase muito vazia a nível de conteúdos e na moda não vejo nada tão extraordinário assim", conta-nos.

Na véspera do pontapé de saída da 49.ª edição da ModaLisboa, a primeira com um conceito totalmente em português e também a primeira no agora renovado Pavilhão Carlos Lopes, Eduarda Abbondanza esteve à conversa com o Notícias ao Minuto, olhando com "carinho" para o que foi feito, rindo das adversidades passadas e idealizando como deveria ser a moda portuguesa no futuro.

A edição deste ano tem, pela primeira vez, um nome em português. Porquê agora e porquê 'Luz'?

O tema é importante para a ModaLisboa porque cria um território, uma linguagem para todos os criativos que trabalham com a comunicação, a imagem, o design de interiores, a palete de cores, o espaço, os convites, tudo. Não tem nada a ver com a coleção dos criadores, mas sim com todas as áreas em que a ModaLisboa atua. É necessário [ter um tema] para que os muitos criativos possam acrescentar um pouco dentro da sua área de intervenção e isso é possível se compreenderem o território onde estão. É uma palavra que transmite um conceito.

É a primeira vez que é em português porque a cidade mudou muito e Portugal também. A nossa marca resistiu contra tudo e contra todos e foi sempre em língua portuguesa: Moda Lisboa. E inclusivamente, quando criámos a segunda marca, a Lisboa Fashion Week, o princípio natural seria Lisbon Fashion Week, mas não, manteve-se Lisboa Fashion Week. Portanto, a palavra Lisboa foi sempre estrategicamente pensada e definida dessa maneira.

Já o tema era sempre em inglês por causa da internet e porque a nossa marca já estava em português e porque não gostávamos muito das traduções. Esta edição, pela primeira vez, é em português porque o país mudou radicalmente, a cidade mudou radicalmente e, se sempre viveram estrangeiros em Lisboa, neste momento, estatisticamente, eles existem. Antes iam existindo, atualmente, e estatisticamente, são uma parte importante da nossa cidade e de outras cidades do país, como tal, provavelmente será importante começarem a aprender algumas coisas de português, a nossa fonética e por aí fora.

Até há algum tempo era a nossa ida à para fora, agora não, tudo muda, estamos sempre muito atentos a isto que se chama zeitgeist ou 'learn your time', mas moda é isso, é apanhar tudo o que se está a passar em todas as áreas e refletir isso nas suas várias vertentes. Luz, por essa razão e também porque a sua tradução em inglês não é a mesma palavra. Tal como saudade tem nostalgia mas não é a mesma coisa, luz também não. 'Light' não tem a mesma dimensão de entendimento que tem luz, portanto não havia uma palavra melhor.

Esta edição é também marcada pela mudança de espaço. Como foi feita a escolha?

Tem um pouco a ver com este tema, estamos numa das colinas, num dos topos, estamos mais próximos do céu e não temos nenhum impedimento entre nós e o céu.

Então vão dar luz ao velhinho Pavilhão Carlos Lopes...

Velhinho que já não é velhinho. É o velhinho renovado Pavilhão Carlos Lopes. O Pátio da Galé basicamente não cabemos e no Pavilhão Carlos Lopes também não vamos caber. Um dia logo se vê

Mas foi fácil chegar a esta nova morada?

O pavilhão estava há dez anos parado e quando começou em obras achámos que iria ser um equipamento importante para a cidade de Lisboa e nós, com a falta de espaço que nos é caracterizada sempre em cada edição, temos de estar sempre à procura de outros espaços. No Pátio da Galé basicamente não cabemos e no Pavilhão Carlos Lopes também não vamos caber. Um dia logo se vê [risos].

E podemos esperar mais mudanças e novidades para a edição deste ano?

Sim. O Wonder Room vai funcionar, funcionou no modelo mais privado na edição passada por razões de espaço, às vezes temos de fazer alterações, mas o desta edição é novamente devolvido aos lisboetas, à cidade, ao público geral, é aberto ao público e estará cá fora.

As conferências serão no dia 5, que é um feriado, mas nós iremos fazê-las na mesma, porque tivemos o verão até há pouco tempo, por isso achamos que as pessoas não têm nada de fazer feriados grandes ou ir de férias, não precisam [risos] e porque as conferências são também para quem está manifestamente interessado.

No Sangue Novo teremos novos vencedores e um grupo diferente de jovens, teremos ainda o LAB com regressos. É no LAB que as pessoas antes de arrancarem podem fazer pausas, podem reestruturar a empresa, podem repensar as coisas, podem avançar e até podem desistir.  Na última edição tínhamos pessoas que estavam em situações várias, mas que nesta edição se reorganizaram e vão voltar, como é o caso da Nair Xavier e da Olga Noronha. Temos também duas entradas novas. Em termos da passerelle grande, temos os nossos criadores, temos o regresso do Aleksandar [Protic], que é um criador que, por N razões, tem um abrandamento, mas volta e está connosco há muito tempo.

Vamos ter ainda uma série de atividades que estão todas ainda em fecho. O [pavilhão] Carlos Lopes é um sítio muito central, com muita acessibilidade e com um jardim envolvente, portanto, a ideia é criarmos maneiras do público em geral estar na envolvência e usufruir de alguma maneira do que estamos a fazer.

A Eduarda dizia que a cidade mudou, mas a ModaLisboa também mudou desde a primeira edição. Destaca alguma mudança?

Nós não conseguimos não mudar. Aquilo que muitas vezes para alguns é difícil, a mudança, para nós não é e tem um pouco a ver com a perceção, com um tipo de faro que todos nós treinamos e que tem a ver com moda. Somos uma estrutura de moda, claramente, e isso talvez seja um elemento mais distintivo para com outras organizações e isso faz com que estejamos sempre a querer fazer mais, a mudar, a encontrar novos desafios.

Agora já consigo olhar a perceber que a história da minha vida confunde-se muito com a história da ModaLisboa Que balanço faz destas duas décadas e meia de ModaLisboa?

Acho que estou a ficar mais velha, já consigo olhar. Já consigo olhar com mais carinho, não sou muito saudosista e não perco muito tempo, a não ser o necessário, a olhar para trás. Aliás, só olho para trás para poder andar para a frente. Não sou nada daquelas coisas do 'ai que pena, se eu tivesse feito', a história dos remorsos é uma coisa muito pesada e negativa. Estou sempre na frente a tentar corrigir as coisas que tenha feito menos bem, tenho sempre espaço para corrigir.

Agora já consigo olhar a perceber que foi uma vida e a história da minha vida confunde-se muito com a história da ModaLisboa, estive sempre muito dedicada à ModaLisboa, com exceção para os meus amigos, para as minhas viagens, para outra parte mais privada, para a minha filha, que é o meu ato mais bem conseguido e a que mais valeu a pena, todo o resto tem a sua dose de relatividade. Estou confortável, gostava sempre de ser rica, mas ainda posso vir a ser, não mexo uma palha para isso, mas pronto [risos]. Mas isso cria um futuro, ainda há um futuro para me dedicar a isso [risos].

Diz que não é saudosista, mas não há uma edição que lhe tenha ficado na memória?

Há, mas tenho de ter em cada edição uma coisa que sou eu que desenvolvo, como se fosse uma renda para o lençol da filha que vai casar, não interessa para nada, ela não vai usar aquele lençol, mas tem um significado, para si é importante. Em cada edição eu tenho de ter um momento de satisfação qualquer.

Houve, obviamente, edições em que tenho muito boa memória porque foram muito grandiosas, vivíamos numa altura em que os patrocínios eram muito fulgurantes, algo que agora não são, está tudo fatiado, tudo subdividido, e os resultados também são diferentes daqueles que eram no passado. Como tal, tínhamos mais dinheiro, lembro-me da ModaLisboa desafiante no Mercado da Ribeira, que ninguém acreditava que fosse possível. Mas somos tão visionários, fazer um desfile no meio das bancas com os próprios vendedores... fizemos uma ModaLisboa a conviver e trabalhar com o mercado ativo. Tínhamos acordos entre nós e eles, o nosso catering era feito com as couves deles, usámos as flores do mercado, era orgânico. E no dia do desfile, as senhoras das bancas foram todas ao cabeleireiro e nós estávamos impressionados com isso.

A edição Play, outra que ninguém acreditava e que foi feita no Museu de História Natural e foi extraordinária. Todas no Armazém Terlis foram extraordinárias pela simples razão de haver a escala certa para aquele momento, nunca mais houve um espaço industrial com aquela dimensão. Do Pátio da Galé, à Cidadela de Cascais, o Museu da Cidade... Talvez os espaços mais difíceis e menos prazerosos foram a Torre Vasco da Gama, era muito difícil, mesmo, não conseguíamos chegar aos sítios em tempo útil, e talvez também a Cordoaria Nacional, que é, por definição, um espaço difícil.

Um dos aspetos mais atuais e até mais marcantes de agora na ModaLisboa é o Sangue Novo. É preciso trazer alguma jovialidade à moda que se faz por cá?

Não é só por cá. Durante muitos anos trabalhámos a profissionalização de um grupo iniciático, desse grupo, a seleção natural foi retirar uns e, nesse mesmo período, foram surgindo outros. Trabalhámos, basicamente, duas gerações de criadores ao mesmo tempo.

As marcas no mundo inteiro precisam de se rejuvenescer com sub-marcas para as filhas das mães, as marcas não podem envelhecer. E também, a moda, em si própria tem de estar nesse constante processo de captação de novas pessoas para essa mesma indústria. Portanto, estamos muito empenhados em garantir esse legado.

O ensino de moda em Portugal já foi muito, mas muito mais qualificado e melhorComo avalia estes primeiros anos de Sangue Novo? Tem acompanhado o trabalho dos designers vencedores?

Sim, tenho. Vou dizer uma coisa um bocadinho complicada, mas acho que o ensino de moda em Portugal - não vou especificar uma escola porque é um problema nacional - já foi muito, mas muito, mas muito mais qualificado e muito melhor.

E o que é que está a falhar?

Falhou esta reestruturação de Bolonha. As escolas não conseguem muitas vezes dar a volta a um conjunto de exigências que lhes são impostas, mas que impedem que sejam um organismo vivo. As escolas de moda no passado tinham professores que estavam diretamente ligados à atividade ou a esta indústria, ainda por cima a moda é uma atividade que muda quase todos os dias. Neste momento, por razões de lei, não é possível. As faculdades estão mais fechadas a questões ligadas à investigação, como se tudo o que se faz tivesse de ser investigação, que nem sequer é rentabilizada porque não há meios para rentabilizar, e o ensino propriamente dito de formação direta para as empresas está muito distante daquilo que era no passado. As escolas no passado pareciam mais as escolas do futuro, porque tinham uma relação com o tecido, empregador, industrial e por aí fora muito grande e, neste momento, não acontece. Tem a ver com uma normativa, uma alteração no Ensino Superior e provavelmente ainda não houve tempo de assentar a poeira.

Podemos dizer que é difícil ser designer em Portugal?

É, é aqui e em todo o lado. Daí que, para nós, seja importante criar estas plataformas, porque não há outra maneira de descobrir onde é que eles estão. Mas é difícil.

Mas além dessa questão a nível académico, que mais está a falhar?

Eu sou muito otimista e acho que, com esta movimentação toda, estes small business que há por todo o lado, vão aparecer mais empresários e empreendedores nestas áreas também. Para já, Portugal tem uma escala muito pequena, e, efetivamente, a vinda dos turistas também incide na venda do produto português indiscriminadamente. Não havia lojas multimarcas e não havendo lojas multimarcas a distribuição e a comercialização é logo uma dificuldade gigantesca.

Se, por um lado, ter loja própria tornou-se mais difícil porque é tudo mais caro, por outro lado, a existência de lojas multimarcas é muito boa. Já começaram a aparecer e vão aparecer muito mais. Se a moda começar a bombar, o investimento para moda também vem. 

Mas esse investimento também devia vir para a moda bombar e não esperar que bombe sozinha...

Como estamos a passar para outra fase, vamos pensar que não é só o pastel de bacalhau com queijo que vai chegar, porque isso são os primeiros passos, o mais óbvio. Depois vem o mais sofisticado, mais requintado da questão. Acho que neste momento estamos a atrair uma série de pessoas que nem sequer temos consciência, que não tem a ver com organismos, com plataformas, com nada, tem só a ver com a curiosidade de pessoas que vêm, como é o caso de Madonna, mas como a Madonna há 50 mil outros casos, nós é que nos fixamos aí, mas há mais. Mas é qualidade de negócio e isso é bom.

O Príncipe Real sempre foi a zona mais cotada de Lisboa, à exceção do Chiado, mas o Príncipe Real tinha outro posicionamento de rua, de bairro, de casas, mas, há uns anos, de um ponto de vista comercial ainda era muito lento. Agora, quem tiver uma loja no Príncipe Real está a vender, seja o que for, porque há movimentação suficiente para comprar tudo e isso, para as lojas e criadores que estão no Príncipe Real isso é ótimo.

Os criadores portugueses fabricam em Portugal, a produção portuguesa é qualificada, é de qualidade e é certificada. Não é nem de escravatura, nem altamente poluidoraHá algo que diferencie a moda portuguesa das outras?

Naturalmente há. O que diferencia: primeiro, os criadores portugueses, grosso modo, fabricam em Portugal, a produção portuguesa é qualificada, é de qualidade e é certificada, ou seja, não é uma produção nem de escravatura, nem altamente poluidora. Não é nada disso, é cuidada e sustentável e, como tal, isso, quer queira quer não, qualifica a produção dos criadores. É cara, mas os criadores fazem sempre séries limitadas, eles nunca irão ter, nem deverão ter, nem é aconselhável que tenham, porque estão noutro patamar, preços de grandes cadeias que fabricam quem sabe onde e a que, muitas vezes, nós, erroneamente, fechamos os olhos porque dá jeito comprar um t-shirt que custa dois euros, mas se pensarmos é horrível, basta pensar um bocadinho.

A produção dos nossos criadores trata-se sempre de séries limitadas e sendo uma série limitada tem um preço mais elevado, mas os materiais e a confeção têm todas estas caraterísticas. Os sapatos também são de boa qualidade, tudo é de boa qualidade.

E os portugueses dão valor a isso?

Vocês, a imprensa, têm uma responsabilidade nisso, vocês passam a mensagem. Não temos ainda ainda situações como outros países da Europa, que têm grandes vagas migratórias, que têm um submundo de fabricação que nem nos passa na cabeça. Nós não temos isso, temos uma produção que é sustentável e isso é um bem-estar para todos. É caro, mas é um bem-estar para todos.

Comprar criadores não impede também de ir à ZaraHá pouco falava das t-shirts que custam dois euros, t-shirts essas que encontramos em lojas de 'fast shopping' conhecidas por imitar algumas coleções. Estamos a tirar valor às criações originais?

São dimensões diferentes. Não deve haver ninguém que não tenha uma peça da Zara, é muito trendy, é aquilo que se está a usar no momento, tem as cores, tem tudo... e depois é barato, a pessoa não tem de pensar muito, não é um grande arrombo na carteira. A pessoa pode sentir-se à vontade a comprar aquele vestido da Zara, mesmo sem o vestir muitas vezes, pois não é um grande investimento e isso é tentador. Faz parte do guarda-roupa de toda a gente em todo o lado.

Agora, comprar criadores não impede também de ir à Zara. É um pensamento mais sofisticado, de styling, de mistura de peças, de estilo próprio, de criação de estilo próprio.

O preço das criações portuguesas é um entrave para as pessoas?

Para uma massa maior é, claro, porque é um produto mais qualificado, trabalha com outros materiais, não é copiado, é pensado, muitas vezes é feito quase por medida. São séries pequenas. Eu tenho uma carteira que mais ninguém tem ou têm mais dez pessoas. Isso tem um valor, tem um valor de posicionamento.

Por exemplo, divirto-me a ouvir as queixas das pessoas, não é ser coscuvilheira, mas quando me é permitido fico atenta às conversas, como as que dizem para não ir à Zara comprar o vestido para um casamento, porque pode haver, nesse mesmo casamento, uma pessoa igualzinha.

As classes mais jovens são aquelas que têm um menor poder de compra, porque estão a criar a sua vida, são as gerações Ikea, também, se calhar, às vezes não resistem a ir à Primark comprar um top para sair à noite e depois nem o põem para lavar, vai fora. Cumpriu aquela missão e basta.

A nós que trabalhamos a moda de outra maneira, compete-nos falar destas questões, da sustentabilidade, da produção consciente e qualificada que deve ser a Europa e apelar para que as pessoas não comprem dez tops, mas sim três.

Corremos o risco de banalizar o conceito de vida, que é ainda mais grave, mais preocupante do que o conceito de moda

Nos dias de hoje é fácil 'tropeçar' em entendidos de moda, como bloguers, instagrammers. Não corremos o risco de banalizar o conceito de moda?

Corremos o risco de banalizar o conceito de vida, que é ainda mais grave, mais preocupante do que o conceito de moda. Não consigo chegar à moda, porque ainda estou na parte maior que é a vida. Mas é assim, a internet mudou mesmo tudo. Todos os grupos de trabalho, todos os investigadores, toda a investigação está concentrada naquilo que dá dinheiro e aquilo que dá dinheiro é a constituição de novos avanços, de novos gadgets, de novas possibilidades, de novos não sei quê. Há-de reparar que não há muitos grupos no mundo a estudar os efeitos das coisas, porque não têm tempo, não há tempo para isso.

Estamos perigosamente a avançar sem orientações, sem cautelas, sem sequer 'guide lines' porque não há tempo. Aliás, a sociedade deixou de agir para reagir, todos nós somos reativos e não ativos e isso é uma mudança da sociedade que não está estudada e contabilizada porque não há tempo e não rende. O que é que rende a quem está a pensar nos malefícios? Quando chegarem a uma conclusão nós já estamos noutra, não é rentável. É muito acelerado.

Há coisas sobre as quais não consigo falar, só consigo falar enquanto preocupação e aquilo que observo é que a internet está a avançar e não para de avançar. Eu tenho muitas discussões com os meus amigos geeks deslumbrados com tudo e eu só pergunto 'para que é que eu preciso disto?' [pega no telemóvel]. Isto só nos está a fazer ter necessidades que não temos, mas passamos a ter.

Sim, os dispositivos móveis são como um complemento do ser humano...

E são compulsivos e reativos. As blogueres são, neste momento, uma fatia importantíssima da comunicação, as youtubers a mesma coisa e os instagrammers também. Acho que o cartão de visita é uma coisa antiga, mas ele continua a existir, não sei bem para quê, mas existe, mais não seja para copiar números, mas o cartão de visita neste momento é o seu nickname no Instagram. Há pessoas que conheço porque sei o nickname no Instagram, mas não sei o seu nome verdadeiro. Não há nenhum sítio onde eu vá em que não haja um jovem que não venha ter comigo e diga 'eu sou o não sei quê do Instagram' e eu reconheço logo.

Estamos a passar uma fase muito vazia de conteúdos a muitos níveis e na moda não vejo nada de tão extraordinário assimFalar de moda é muito mais do que falar de roupa, é falar em política, igualdade, feminismo. Como avalia o poder que a moda tem nos dias de hoje?

A moda tem um poder enorme, sempre, é um poder que vai modificando e afinando conforme os momentos que passamos e a maneira como incide esse tempo. Muito sinceramente, acho que estamos a passar uma fase muito vazia de conteúdos a muitos níveis e na moda não vejo nada de tão extraordinário assim. 

Atualmente, a moda tem o poder que consegue ter. Na altura do [Alexander] McQueen e de uma série de criadores, nós víamos mesmo grandes revoluções, neste momento, as revoluções têm a ver com uma série de ingredientes que se juntam, a roupa em si não tem poder, é gira, eu não consigo resistir, queremos sempre coisas novas. Mas não há de especial, está tudo nos sistemas de venda, comunicação, criação de expetativa e não no produto.

O que era o Facebook há cinco ou seis anos? Nada. Agora é um bordelMas a internet não veio aproximar as pessoas da moda?

Sim, veio aproximar de todas as maneiras, é incontrolável. A questão da internet é essa é que não é controlável. A internet aproxima tudo, o bom e o mau. E todos nós estamos a lidar com essa questão do bom e do mau, a questão das redes sociais. O que era o Facebook há cinco ou seis anos? Nada. Agora é um bordel. Há momentos em que lá não consigo ir, tenho medo, só lá vou ver pessoas a dizerem mal, a falarem de coisas de maneiras muito impróprias, muito insultuosas muito bullying. O Facebook é a plataforma do bullying neste momento, as pessoas dizem coisas inenarráveis e mais, têm opinião sobre tudo, é só reação, não é opinião. Eu não quero ter uma opinião sobre tudo, porque eu não sou qualificada para ter uma opinião sobre tudo, tenho uma opinião sobre as áreas nas quais tenho um maior know-how do que a maioria das pessoas e, depois, tenho uma opinião intermédia sobre outras áreas e que é muito balizada pelo conjunto de informações às quais acedo e considero válidas. Vou formando a minha opinião, mas isso não quer dizer que à mínima coisa eu vá exprimir aquilo que acho. O Facebook está assim, às vezes vou, outras vezes não vou, faz-me medo. 

Falar de moda é também falar de mudança e uma das mais atuais diz respeito à condição física dos modelos. Grandes nomes como Gucci e Christian Dior proibiram modelos demasiado magros nas passerelles e na Semana da Moda de Nova Iorque aconteceu mesmo um desfile apenas com modelos plus size. O que tem a dizer sobre esta mudança?

Já não tenho nada a dizer sobre isso. 

A questão dos corpos mais magros ou menos magros já faz parte do passado, já estamos noutra dimensão dos corposMas acha que vem tarde? Ou que não devia vir?

É assim, a coisa está tão adulterada que já nem é conversa. A questão dos corpos mais magros ou menos magros já faz parte do passado, já estamos noutra dimensão dos corpos. Neste momento há uma vaga enorme de designers a fazer roupa de mulher para homem. É uma história do século XX e não é um [designer], é uma vaga enorme e, como tal, a questão física ganha outras dimensões do pensamento. 

Em toda a minha vida, em Portugal e internacionalmente, vi um único modelo anorético. Um únicoMas aqui a questão física é mais na ótica de saúde. França, por exemplo, pede um atestado médico aos modelos...

A anorexia é uma doença e é visível. Em toda a minha vida, em Portugal e internacionalmente, vi um único modelo anorético. Um único. Não foi em Portugal, não vou dizer onde foi. Entrei naquele bastidor com uma massa de gente e vi-o na hora. Era doente. Era um criador nacional que ia passar naquela passerelle e nós dissemos, simplesmente, que não queríamos aquele manequim porque era uma pessoa doente. De resto, há pessoas mesmo muito magras. Já viu as bloguers? Vou dizer-lhe uma coisa, ontem estive a fazer uma listagem sobre bloggers e influencers e, de repente, vi para aí umas trinta e disse isso, elas são todas magérrimas e não são modelos. Há uma genética muito magra que não tem a ver com a doença, há manequins que são muito magros, mas que não são doentes, são coisas diferentes. Não confundamos a doença com a genética. 

E em relação aos modelos plus size? Na Semana da Moda de Nova Iorque aconteceu um desfile apenas com modelos de tamanho grande.

É normal, porque os americanos têm essa natureza física e têm de a contemplar. E, comercialmente, as afro-americanas representam uma fatia de dinheiro de que não há memória. Os americanos não brincam em serviço, não fazem as coisas só porque sim ou porque calha bem. 

É então apenas uma questão comercial?

Claro que é, olhe a geração Kardashian. E eu acho bem, libertou todas essas mulheres, que são belíssimas mulheres, que têm outros critérios. É um trabalho com critérios diferentes e os Estados Unidos, fisicamente, são completamente diferentes de todo o resto. As afro-americanas são um poder nos Estados Unidos, na música, nas artes, em tudo. 

A questão da sustentabilidade é consumir menos, consumir melhor, porque a oferta de produtos é infinita e se não nos soubermos orientar, temos um monte de tralha em casaFalou nesta conversa da sustentabilidade das criações e esse é um dos aspetos a que temos assistido até em cadeias de fast shopping. É possível ir por um caminho sustentável tendo em conta a quantidade de produção destas empresas?

Sustentável é diferente de ecológico. Quando digo que a produção portuguesa é sustentável é porque assenta numa base de sustentabilidade na própria produção. Neste momento, tudo para mim vale o que vale. A questão da sustentabilidade é consumir menos, consumir melhor, porque a oferta de produtos é infinita e se nós não nos soubermos orientar, temos um monte de tralha em casa.

Mas acho bem que essas marcas de mass market invistam e façam esforços para criar outros segmentos. Essas marcas criam muito desperdício. No outro dia aconteceu-me uma coisa que só me deu vontade de rir. Aqui na ModaLisboa nunca temos o dinheiro necessário para fazer as coisas. Tínhamos de fazer mais fitas e a quantidade de fitas que queríamos eram 2.500 e tinham um preço X, que era superior ao orçamento. Mas se pedíssemos 3.000 fitas ficava mais barato e eu disse assim 'desculpe?'. Se eu pedisse 2.500 ia pagar mais 350 euros do que se pedisse 3.000. Como é possível ao produzir mais 500 [fitas] baixar 300 [euros]? Não devia ser assim. Imagino que empresas como H&M e Zara façam saldos para escoar [stock], mas  também passo nas lojas e vejo que estão a abarrotar de roupa, portanto, os saldos não vão escoar essa roupa.

A H&M, por exemplo, recicla roupa.

A reciclagem, hoje em dia, tem um problema muito grande porque é muito cara. Não se investiu porque o pensamento não vai nessa direção, vai na direção de produzir, produzir, produzir. Reciclar é um esforço porque é muito caro, mas é necessário. Há ações incríveis, estas ações que têm aparecido destes grupos que limpam as praias. É incrível isso, o plástico que tiram. As pessoas não têm consciência, elas sozinhas, somando a 100 mil com o mesmo pensamento, fazem um desastre enorme.

Uma outra mudança a que temos assistido no mundo da moda, à qual a Armani, por exemplo, aderiu, é a exclusão de peles de animais. Isso é também um caminho? Usar o pinatex, por exemplo?

Eu não sou vegan, sou pela sustentabilidade e pela ecologia também. Tudo aquilo que é criminoso eu sou contra. Há um equilíbrio em tudo. Acho sempre interessante todas essas fibras novas, no entanto, se, de repente, todos descobrem a fibra de ananás, o que vai acontecer é que vão ser produzidos ananases que vão dar cabo das terras, vão dar cabo das plantações. Sou claramente a favor do equilíbrio. Não vejo qualquer problema em que a pele de todos os animais que comemos seja usada, agora, que deem cabo das cobras de uma determinada zona e provoquem uma hecatombe ecológica porque dizimaram as cobras todas para fazer malas ou sapatos, isso é outra coisa.

Os agentes que trabalham em Portugal são muito pouco ambiciosos e ainda continuam na versão de ganhar território uns aos outros dentro do país, que é uma coisa alucinante

Para terminar, consegue fazer um pouco de futurologia sobre a moda?

Quanto à moda portuguesa, gostava que existisse uma estratégia para a indústria têxtil em Portugal, uma estratégia, não uma campanha, não estou a falar em fazer desfiles lá fora ou cá dentro, falo de uma estratégia, de um pensamento. Acho que os agentes que trabalham em Portugal são muito pouco ambiciosos e ainda continuam na versão de ganhar território uns aos outros dentro do país, que é uma coisa alucinante. Portugal quer ter uma posição dentro da moda lá fora ou não? Se quer ter, tem de ter uma estratégia e têm todos de trabalhar nesse mesmo pensamento. Não há ninguém que tenha a coragem para juntar as pessoas certas e pensar conjuntamente uma estratégia para a indústria da moda.

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